quarta-feira, 20 de março de 2013

A MENINA E O SORVETE - James Pizarro

Esquina da Madre Maria Villac com a Hypólito Gregório Pereira, Canasvieiras.
Sorveteria Napoli com seus inigualáveis sorvetes de fabricação caseira.
Final de tarde. Calor insuportável. Sorveteria ao ar livre cheia.
Amigos de sempre reunidos. Jogando conversa fora.
Balancete do dia. Comentários sobre os passantes.
Foi quando ela chegou. Passos mansos. Voz imperceptível.
Magrinha. Dez anos no máximo. Mulatinha bem vestida. Roupas modestas.
Trazia umas balas de goma nas mãos. Que vende para ajudar a mãe.
Ninguém da mesa lhe ouviu. Nem ao menos respondeu.
Foi quando seus olhos bateram no fundo dos meus.
E ela sussurrou : "Me paga um sorvete, tio ?"
Um dos amigos, argentino de permanente mau humor, me disse que não pagasse nada.
O outro, cínico e insensível, falou que eu era do "tipo Papai Noel" e que pagaria.
O terceiro amigo ficou quieto.
Chamei o Vorlei, gerente da Sorveteria Napoli àquela época. E autorizei a despesa.
A menina magra de olhos tristes serviu-se de duas fartas bolas de sorvete.
E sorriu para mim. Sorriso de agradecimento. E de felicidade.
Lembrei de Mateus, capítulo 25 : "Tudo que fizeres ao mais humilde dos pequeninos, é a Mim que o fazeis".
Engraçado...a gente pode cumprir preceitos bíblicos até na hora do sorvete.
É fácil ser generoso. Repartir. Cultivar a sensibilidade.
Para não ficar com o coração frio. Feito sorvete.
Mas aqueles meus amigos não sabiam disso...

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