sexta-feira, 7 de setembro de 2018

CHEGA ! - James Pizarro

Estou com 76 anos. Fui sacudir bandeirinha do Brasil na rua do Acampamento, em Santa Maria, RS, quando o Dr. Getúlio Vargas esteve fazendo campanha eleitoral na década de 50, fui depois disso a dezenas e dezenas de imensos comícios na praça Saldanha Marinho, fui a passeatas de ferroviários em greve que lotavam a avenida Rio Branco em toda sua extensão (algumas delas dispersadas pelos policiais a cavalo), vi ao vivo e a cores o Carlos Lacerda, o Jango Goulart, o Juscelino, o Ulisses, o Tancredo, fui amigo do Leonel Brizola (conversei com ele mais de uma dezena de vezes como aluno, como agrônomo, como vereador) , etc...
Minha formação política se deu assim, sem que ninguém me fizesse a cabeça , eu mesmo tirando minhas próprias conclusões, analisando, ouvindo os mais velhos de minha confiança. Nunca recebi influência de TV e marqueteiros. E posso dizer : a maioria dos políticos de hoje não servem para limpar a sola dos sapatos dos políticos de antigamente que - poderiam ser tudo - menos corruptos. Envelheci assistindo a decadência melancólica da classe política.
Fiquei cansado e puto da cara de acreditar nas promessas mentirosas de segurança, trabalho, saúde e educação. Cansei de ouvir essas promessas por mais de meio século. Mentiras e mentiras. 
Chega ! Não me permito mais ser enganado. Por ninguém. 
Vão todos para a puta que os pariu !!!!

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

MEU COMOVIDO CARINHO AOS IDOSOS DO MUNDO - James Pizarro (página 4 do DIÁRIO, Santa Maria, edição de 28.8.2018)


MEU COMOVIDO CARINHO
AOS IDOSOS DO MUNDO

JAMES PIZARRO - professor universitário aposentado

DESTAQUE : A velhice não é uma perda. A velhice não é algo digno de pena. A velhice é um lucro

No meu tempo de infância - nos barrancos da rua Silva Jardim - eu lembro bem que gostava de ficar no meio dos mais velhos. Ouvindo as histórias das amigas da minha querida avó Olina. Ou servindo chimarrão para meu avô Fredolino e seus amigos ferroviários. Homens encarquilhados. Experientes.  Contando histórias mirabolantes de viagens de trem. Acidentes. Greves.  Eu absorvia aquelas histórias mágicas em silêncio.

Anos mais tarde, ainda adolescente tive dois empregos, no mundo dos mais velhos.

O saudoso amigo Edmundo Cardoso, teatrólogo e memorialista, cliente de meu pai (que era enfermeiro), era diretor do jornal A RAZÃO. E sabedor que eu era um bom aluno de Português e Latim do MANECO, me ofereceu o cargo de revisor do jornal por algumas horas durante o dia. Na redação do jornal convivi com todas as figuras importantes da época, muitas das quais colaboravam com artigos para o jornal. Dr. Amaury Lenz, Dr. Romeu Beltrão, Zózymo Lopes dos Santos, Prado Veppo, Chico Ribeiro, Gregório Coelho e uma centena de outras pessoas.

O outro emprego que tive na adolescência, exercido apenas aos domingos pela tarde, quando todos meus colegas de colégio descansavam, foi de vendedor de “poules” no Jockey Clube de Santa Maria. Eu era o responsável pelo guichê número 2, onde eram vendidos os bilhetes do cavalo número 2 de cada páreo que iria correr. Lembro que no guichê número 1, onde eram vendidos os bilhetes do cavalo favorito (de número 1), o vendedor responsável era o João Nascimento da Silva que, anos depois, foi vereador junto comigo em Santa Maria. No Jockey Clube convivi com centenas de pessoas mais velhas do que eu : tratadores e proprietários de cavalos, jóqueis, veterinários, apostadores, turfistas, jornalistas especializados. De todos eles, gravo a grata lembrança de meus saudoso amigo Dr. Armando Vallandro, médico veterinário, que anos depois seria reitor da UFSM. Com todos eles aprendi algo.

Assim foi nos cursinhos Master, Riachuelo, Decisão. No Colégio Coração de Maria. Na UFSM. Na Fundação Zoobotânica do RS. Na AGAPAN. Nos clubes, entidades, ONGs, igreja, TV, rádios, jornais. Em todos os locais que convivi – e ainda convivo – sempre procurei ouvir os mais velhos. Jamais me arrependi por isso.

Dia 26 de outubro de 2018 eu farei 76 anos. Eu tenho a CERTEZA ABSOLUTA de que já vivi mais de  sete décadas. Que já aproveitei mais de meio século de vida. Logo, a velhice não é uma perda. A velhice não é algo digno de pena. A velhice é um LUCRO.

Quando eu vejo um jovem desrespeitar um idoso, eu fico com pena. Ele lucrou apenas 15, 18, 20 anos. Para atingir os meus 76 anos terá de viver mais meio século. Enfrentar mais de 50 anos de trânsito, doenças novas, acidentes de trabalho, percalços, problemas, estresse, etc... Conseguirá ?

Enquanto eu sou uma CERTEZA. Esse jovem mal educado é uma mera FICÇÃO, uma promessa. Por isso, velhos do mundo : não se irritem com os meninos mal educados. Exerçam a misericórdia. Aliás, esta é outra característica da nossa turma da Terceira Idade : não somos mais movidos somente à paixão.

Nós já passamos a exercer também a COMPAIXÃO !

terça-feira, 14 de agosto de 2018

PROTESTE OU FIQUE RUMINANDO BOVINAMENTE ! - James Pizarro (página 4, DIÁRIO DE S. MARIA, edição de 14.8.2018)


Na campanha eleitoral são simpáticos, sorridentes, apertam a mão de todo mundo, pegam criancinhas no colo, passam a mão no rosto dos idosos, andam de porta em porta mendigando votos.

Na propaganda eleitoral gratuita aparecem visitando o grupo escolar onde dizem ter estudado (nenhum deles estudou em escola particular), abraçam velhas professoras que ficam emocionadas, dão entrevista nas suas próprias residências junto com a esposa e filhos, alguns apelam e usam declarações lacrimejantes dos avós que se dizem orgulhosos do neto.

Os cabos eleitorais - que se transformam em assessores depois - soltam foguetes, preparam churrascos, pregam cartazes, mobilizam os amigos, arrumam populares para dar entrevistas, distribuem "santinhos".

Esse é o clima ANTES das eleições.

Porque DEPOIS das eleições, os perdedores viajam.
Ou se recolhem ao ostracismo.
Ou fazem alianças ideologicamente incompatíveis.
Ou aceitam cargos modestos para não perder o hábito de mamar.

E os assessores se revestem de uma importância duvidosa como se tivessem sido bafejados por uma aura celeste e recebido a bênção dos deuses gregos do Olimpo. E não recebem as queixas do trouxa do eleitor que - ingenuamente - caiu em mais um estelionato eleitoral.

Os detentores de cargo público e seus assessores são apenas empregados temporários da população. Nada mais do que isso.

Pessoalmente (já fiz isso várias vezes no passado) quando me sinto prejudicado ou vejo algo errado na cidade. Bato fotos. Junto documentos. Faço uma juntada de leis. Organizo um dossiê. Anexo meu currículo e meu título de eleitor. Solicito uma audiência pessoal com a autoridade necessária. E sempre fui recebido e tratado respeitosamente.

Aprendi que, em política, "é melhor falar com Deus do que com os santos". Aprendi também que os governos NÃO AGEM, eles apenas REAGEM. E para que a comunidade seja atendida ela precisa exercer a sua cidadania e protestar, berrar, reclamar nos meios de comunicação.

Caso não faça isso, terá comportamento de vaquinha de presépio. Ficará passivamente ruminando pasto, assistindo a vida acontecer.

Enquanto os poderosos riem da nossa cara.
Ah...enfie a carapuça quem quiser !

segunda-feira, 30 de julho de 2018

RUMO ÀS TREVAS PELA AVENIDA DO CAOS - James Pizarro (pág.4 do DIÁRIO DE SANTA MARIA, 31.07.2018)


" Segurança, trabalho, saúde, educação ".
Preparem os ouvidos para os tempos que se avizinham. Rádio, TV, carros de som. Um exército midiático poderoso – movido por bilhões de reais – movimentará ruas e avenidas. Invadirá nossa privacidade. Contará histórias mirabolantes. Sempre achei estranha uma coincidência no currículo dos candidatos.  Todos vieram de famílias pobres. Tiveram infância melancólica. Trabalharam duro para ajudar os pais. Não mentem que passaram fome  porque são rosados e rechonchudos. Abraçam velhos professores para depois  não lhes pagar o piso salarial previsto em lei. Pegam criancinhas no colo para as quais meses depois sonegam creches. Morrem de amor pela Natureza para conquistar votos dos ambientalistas e depois permitem que se desmate o país. Beijam idosos e se deixam fotografar com o pessoal da terceira idade e meses depois deixam faltar abrigos de ônibus, remédios de uso continuado e leitos para a terceira Idade.
Só de imaginar essa nojenta cantilena novamente nas propagandas eleitorais me dá urticária e náusea.
Os amigos e ex-alunos sabem que sempre fui contra a reeleição para cargos executivos. Dou de barato que se aumente de quatro para cinco ou seis anos o tempo do mandato de governador e presidente da república, desde que se proíba a reeleição.
O poder vicia. Traz erros. Corrupção. Protege os aliados. A lei passa a valer apenas para os inimigos.
Bilhões de reais gastos para fazer estádios para realizar três ou quatro jogos da Copa do Mundo. Enquanto diariamente assistimos na TV as noticias de escolas em péssimas condições, grande número delas em ruínas.
Milhões de reais são gastos em viagens desnecessárias, em escândalos denunciados pelas redes nacionais de TV.
Há no ar - só os surdos não ouvem e os cegos não enxergam - um oceânico desejo de mudança. Mudança radical. Em tudo. Só quem parece não sentir são os políticos em geral e os poderosos de plantão, em particular.
Ocorra o que ocorrer, nada acontecerá para a casta social monopolizadora do dinheiro e do poder, pois nada lhes faltará.
Ocorra o que ocorrer, a classe pobre seguirá iludida e feliz com a avalanche de esmolas travestidas de bolsas que cumprem a dolorosa, antiética e sublimar "missão" de amortecer consciências e ganhar votos.
Mas e a classe média, onde rebenta quase tudo, pois nem sonegar pode pois o implacável imposto de renda (salário é renda ?) já lhe desconta no contracheque os 27,5 % que equivalem a mais de quatro meses do seu salário anual ?
E a classe média, onde estão os profissionais liberais, os intelectuais, os que têm visão crítica das coisas e que - nas revoluções - são os primeiros a ser presos ou mortos porque incorrem no terrível pecado de ter inteligência e discernimento com os quais podem influenciar pessoas ?
Sim, este ano vai ter eleições.
Basta olhar as badernas nas ruas e estádios, assistir o número de assassinatos que aumenta diariamente e as reclamações de toda ordem para sentir que estamos num clima de desordem e desobediência civil, tudo temperado pela impunidade.
Sim, este ano vai ter eleições.
Estamos caminhando pela avenida do Caos.
Rumo às Trevas.

 


segunda-feira, 16 de julho de 2018

JOVENS : “ON THE ROAD” ! NÃO TENHAM MEDO DE OUSAR ! - JAMES PIZARRO (crônica publicada em 17.7.2018, pág.4, Diário de Santa Maria)


Este livro é praticamente um registro "tupiniquim" da minha geração, só que escrito sob o ponto-de-vista da juventude norte-americana. Eu, pessoalmente, me identifico demais com o narrador do livro (Sal Paradise) pelo seu amor ao jazz, à literatura e pela vontade de escapar de Santa Maria, RS quando jovem para correr o mundo.

Se tivesse saído do interior gaúcho, adolescente e sozinho, não sei se estaria ainda vivo. Depois de formado, fui chantageado a ficar, embora tivesse tido oportunidades para uma bolsa de estudos de dois anos na Holanda. Depois, um convite para dar aula na Universidade da Paraíba e morar em João Pessoa. Depois, ficar em Curitiba dando aula no Cursinho Bardal. E depois...depois...depois... Fui coagido pela família a ficar.

Enfim, fui domesticado pelo sistema vigente à época. E não culpo ninguém. Pois eu me submeti. Não tinha a devida dose de revolta e loucura. Fiquei a vida inteira numa cidade onde muitos ainda praticam o esporte de cuidar da vida de todo mundo. Convivendo com suscetibilidades (para ser bem educado).

E - principalmente - onde a visão curta de muitas pessoas não lhes permite a pacífica convivência com os diferentes. Isso deve ocorrer em todas as cidades interioranas, eu sei. Isso foi muito bem retratado numa série de filmes americanos sob o título “A Caldeira do Diabo”. Tanto é verdade que me tornei – para alguns chatos - um excêntrico, um maldito. Embora fosse considerado um destemido, um desbravador, um polêmico (na visão dos meus alunos).

Sempre terei essa dúvida : se fiz bem ou se fiz mal em ficar tanto tempo. Mas consertei em parte na velhice o meu equívoco, abandonando tudo e todos (exceto minha mulher) e indo morar na praia, com gaivotas livres  e cachorros errantes. Na maravilhosa praia de Canasvieiras, na mágica ilha de Florianópolis, onde fiz uma experiência temporária de uma década. E depois voltando. Com saudade dos amigos, dos morros, dos parentes. E para morrer.

Mas voltando ao "ON THE ROAD", livro que me foi presenteado há muitos anos pelo saudoso amigo e colega da UFRGS, geneticista Flávio Lewgoy, à época presidente da AGAPAN, Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. Sal Paradise é o narrador de On the road - "pé na estrada". Ele vive com sua tia em New Jersey, Estados Unidos, enquanto tenta escrever um livro. Ele é inteligente, carismático e tem muitos amigos. Até que em Nova York ele conhece um charmoso e alucinante andarilho de Denver de personalidade magnética chamado Dean Moriarty.

Dean é cinco anos mais novo que Sal, mas compartilha o seu amor por literatura e jazz, e a ânsia de correr o mundo. Tornam-se amigos e, juntos, atravessam os Estados Unidos, deparando-se com os mais variados tipos de pessoas, numa jornada que é tanto uma viagem pelo interior de um país quanto uma viagem de auto-conhecimento - de uma geração assim como dos personagens.

Sugiro a todos os jovens que leiam este livro. E se tiverem vontade de ousar, OUSEM !!! VOEM !!! PARTAM !!!

As estrelas esperam por vocês ...