terça-feira, 28 de junho de 2022

AS FESTAS DESÃO JOÃO DE ANTIGAMENTE - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - edição de 28.6.2022)

Nasci e me criei na rua Silva Jardim, entre as ruas Dutra Vila e a Benjamim Constant. Lembro quando as máquinas escavaram toda a rua e movimentaram toneladas de terra, deixando as residências dos moradores – antes situadas no nível da rua – numa nova situação : à beira de enormes barrancos. Moradores tiveram de improvisar escadas de madeira para poder ter acesso às suas csas. Tenho fotos dessa época clicadas com um velha máquina Kodak, modelo “caixão”. Os moradores tiveram de enfrentar enormes dificuldades econômicas para construir muros imensos para conter a erosão da terra dos barrancos e evitar a queda de suas casas. Foi uma época difícil para todas aquelas famílias. Eram ferroviários, funcionários públicos, professores, comerciantes, militares. Sei até hoje o nome de todos e fui amigo de todos. Meu pai era enfermeiro do Centro de Saúde (e anos depois, também do SAMDU) e nossa casa era a única nos anos 50 que possuía telefone naquela região. De sorte que, para injeções, curativos, primeiros socorros e telefonemas para parentes, nossa casa era ponto de referência. Eu me criei naquele meio, respirando um excelente e revigorante convívio de amizade e solidariedade entre vizinhos. Todos os aniversários eram comemorados e todos compareciam trazendo seus pratos de frios e doces, carregando suas bebidas. Tudo para não sobrecarregar o orçamento do dono-da-casa e do aniversariante. Porque o que importava era o convívio, as conversas, a alegria, a felicidade, o bem-querer. Lembro que nas doenças as pessoas abrigavam os filhos dos outros para almoçar. Quando alguém morria, os móveis eram tirados da sala e o defunto era velado na própria residência. E os parentes do falecido recebiam o calor humano de todos os amigos e vizinhos. Havia solidariedade total verdadeira. Lembro da casa do meu amigo Marino, apelido “Tomate”, onde ensaiava e era sede do bloco de carnaval “Bota que eu Bebo”, que anos depois serviria de embrião para a fundação da Escola de Samba Unidos do Itaimbé. Ao lado da casa do Marino existia um campinho gramado, bem na esquina da Silva Jardim com a Dutra Vila, onde a gurizada toda da vizinhança jogava futebol. As gurias brincavam de roda. E a gente se reunia de noite para intermináveis conversas. Um capítulo especial eram as festas de São João... No mês de junho este campinho da esquina era local da nossa monumental Festa de São João ! Durante semanas fazíamos rifas, juntávamos dinheiro, pedíamos doações. Comprávamos barbante e papel colorido para confecção das bandeiras do “arraial”. Vinho para o quentão. Pipoca. Amendoim. Foguetes. Balões. Tinha música com caixa de som. Com toca-discos. Discos de vinil. Toda a gurizada passava as semanas anteriores catando e trazendo galhos de árvores, tocos, lenha, pneus velhos. Para a armação da tradicional fogueira. Que alegria ! Que deslumbramento ! A festa começava as 19 horas e terminava quando a fogueira apagava. As famílias todas compareciam. Todos dançavam. Todos comiam e bebiam. Puxando pela minha memória não consigo me lembrar de uma só bebedeira ou briga ! Tudo na mais absoluta paz e clima de solidariedade ! Como a gente era feliz, meu Deus ! De repente, tudo aquilo acabou ! Por quê ?

terça-feira, 14 de junho de 2022

"JOGO DE CINTURA" - James Pizarro (DIÁRIO - edição de 14.6.2022)

Você vive ao ritmo da alegria ou da tristeza? Conforme Rubem Alves conviver com ambos é ser sábio. Você concorda ? Envelhecer com intervenções estéticas ou deixar o tempo agir livremente em nosso corpo? O que você prefere (ou pode)? Cartas e bilhetinhos enviados e/ou recebidos. Você já escreveu alguma carta ou bilhetinho à mão para alguém? Você lembra qual foi a sensação por escrever ou receber? Ou você cultiva este hábito? Dos cenários pandêmicos e pós-pandêmicos: Você vive um novo normal? Atitudes minimalistas: o que você já simplificou na sua vida, em todos os âmbitos? E quais foram os resultados ? Liberdade da mulher: entre a conquista de novos espaços e a reafirmação de sua objetificação. O que dói mais? O tapa na cara ou a traição? Tempos difíceis produzem homens/mulheres/pessoas fortes e corajosas. Tempos menos desafiadores e exigentes geram pessoas mais frágeis e menos resilientes. Que geração/filhos estamos entregando ao mundo? Os dois primeiros parágrafos da crônica de hoje são exemplos que serviram de pauta dos temas ou assuntos tratados no programa “JOGO DE CINTURA” – do qual sou telespectador cativo diariamente ! Convido o leitor para assistir : acompanhe o programa a partir das 13h30, pela 93.5 FM, canais 26 e 526 da NET e aplicativo Grupo Diário, disponível para smartphones Android e IOS. O programa é uma produção e apresentação de Carla Torres e tem como participantes Fabiana Sparremberger, Daniela Minello, Daniele Bressan e Deborá Evangelista. Na técnica : Fernando Barcelos e Thomas Pippi. Exemplos de outros temas já abordados pelo programa : Temos um radar para afinidades e antipatias instantâneas? O que pode explicar isto em nossas relações cotidianas? Racismo na UFSM: Precisamos falar sobre isto e também esperamos ações efetivas. A sociedade contemporânea empurra mulheres para longe da maternidade? Páscoa: Como você vive essa e outras datas? Disciplina: Você tem? Como é na sua vida? O que acontece quando o programado dá errado? Comidas/pratos que passo adiante e histórias engraçadas relacionadas a eles Como ficam os vínculos familiares quando a comunicação é difícil? De quem você depende na vida? Ou o peso de precisar dar conta de tudo sozinhas(os) ? Medo de falar em público: Você tem? Como lida com ele ? A quantidade e o tipo de tarefas domésticas já colocou você e sua família em perigo dentro de casa? Autoconfiança é sexy: Você tem? Somos seres humanos, mas… O que é, mesmo, humanidade?! Como se percebe, os temas tratado são instigantes. Fogem da superficialidade e frivolidade da maioria dos programas que se vê nas telinhas das grandes redes nacionais televisivas, que alimentam a ignorância e a violência do nosso povo. É um programa sério, que faz o telespectador refletir e se questionar. Induz à reflexão de novos olhares e caminhos. Em certos momentos realiza uma terapia virtual com o telespectador. É um programa sério. Que deve orgulhar a grade de programação do complexo de comunicação do DIÁRIO. Pois programas desse nível e desse conteúdo é que fazem Santa Maria ter o título de “Cidade Cultura”. Parabéns, gurias ! Vida longa ao “Jogo de Cintura” !

terça-feira, 31 de maio de 2022

É impossível calar diante do que vi! - James Pizarro (DIÁRIO - 31.5.2022)

Corria a década de 50. Eu estudava no curso primário (hoje, ensino fundamental) do Grupo Escolar João Belém. A diretora era a professora Edy Maia Bertóia. Depois substituída pela professora Diquel Siqueira. Os tempos eram difíceis. Meu pai trabalhava em dois empregos. Minha mãe fazia doces para fora. Meu avô, ferroviário, sempre ajudava. A Viação Férrea do RGS naquela época estava no auge e seus funcionários ganhavam os mais altos salários da cidade. Meu pai estava construindo uma casa com todas as dificuldades inerentes a um funcionário público que se metesse numa empreitada dessas. No nosso pátio tinha horta, canteiro de flores, duas cabritas (passei minha infância tomando leite de cabra), dois cachorros, um gato, uma caturrita, laranjeiras, bergamoteiras, figueira, limoeiros, bananeiras. E tinha um grande galinheiro, com mais de 100 galinhas, cujos ovos eram recolhidos diariamente. No pátio, criada livremente a meu pedido, andava feliz uma pata simpaticíssima chamada por mim de “Cocó”. Foi um dos meus primeiros animais de estimação. A pata andava atrás de mim por onde eu andasse, emitindo o som característico da sua espécie. Quando as finanças apertaram na parte final da conclusão da construção da nossa nova casa, meu pai anunciou que - para fins de economia na compra da carne - passaríamos a comer as galinhas todas, o que realmente ocorreu. Era galinha frita, galinha na panela, risoto, pastelão de galinha desfiada. Isso me fez enjoar tanto de carne de galinha que até não gosto de comer dessa carne. Num domingo, chegando da missa na catedral diocesana de Santa Maria, onde sempre ía em companhia de minha avó, achei estranho a “Cocó” não ter me esperado no portão como sempre fazia. Na hora do almoço falei sobre o desaparecimento da pata e veio a verdade nua e crua, anunciada por minha mãe : “Teu pai mandou matar e assar a cocó”. Saí vomitando pelo pátio, chorando e, aos gritos, maldizendo a família inteira. Não comi naquele maldito domingo. Até hoje, mais de meio século depois, lamento não ter uma foto com a minha patinha “Cocó”. Desde menino, eu repudiava o sofrimento e a morte de animais. Tanto que jamais usei bodoques. Nem aprisionei pássaros em gaiolas. Nem atormentei ou bati em cães e gatos. Sempre fui um pacifista. E um protetor da fauna e da flora. Quando vi na TV na semana passada o motociclista ser brutalmente assassinado por asfixia por dois ou três maus soldados da PRF de Sergipe fiquei estupefato. E senti a mesma náusea sentida há décadas, quando perdi a Cocó. Fiquei em pânico ao ver o pobre homem esperneando, aos berros, agonizando em plena via pública, sob o olhar omisso de centenas de pessoas que nada fizeram para tentar evitar aquela brutalidade. No capítulo 11 de João, encontramos o versículo 35, um dos mais curtos de toda a Bíblia : “E Jesus chorou”. Mão vou pontuar aqui o momento histórico que suscitou este versículo. Mas quando este pobre irmão brasileiro agonizou e morreu asfixiado naquela câmara de gás tupiniquim por ter cometido a contravenção de estar sem capacete, certamente Jesus chorou diante da barbárie. Jesus chorou por ele. E pelo Brasil. Não é do meu temperamento tratar assuntos deste tipo. Mas é impossível calar diante do que vi.

terça-feira, 17 de maio de 2022

LEMBRANDO 2011 : 153 ANOS DA CIDADE - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - 17.5.2022)

Como gosto de relembrar coisas, destaco hoje – como anotação histórica – o que escrevi sobre os 153 anos da cidade, há onze anos e de que maneira a cidade, naquela época comemorou a data. Vamos lá... Desde o início do mês de maio de 2011, a cidade sedia uma série de eventos culturais, artísticos e esportivos alusivos ao aniversário de Santa Maria. Entre as ações de maior destaque estão a Feira do Livro, o concerto da Banda Sinfônica do Corpo de Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro, O Congresso Internacional de Política e de Direito e a mateada festiva no Parque Itaimbé. Na terça-feira, 17 de maio, data em que o município comemora 153 anos de emancipação político-administrativa, a comunidade será brindada com um grande concerto da Orquestra Sinfônica de Santa Maria. A apresentação será às 19h, na Praça Saldanha Marinho.O repertório (confira abaixo) será executado pelos dos 52 músicos da orquestra, regidos pelo maestro Ênio Guerra. Neste mesmo dia, feriado em Santa Maria, o público também poderá participar da XVI Mateada Beneficente da Sentinela Alada do Pampa. A atividade será na Base Aérea de Santa Maria, das 14h às 18h. Mas, para os apreciadores da música, no dia 24 terá outra grande atração. Às 20h, a Igreja Nossa Senhora de Fátima será palco do Concerto de Aniversário com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Mais atrações aguardam o público nas festividades de aniversário do município. As comemorações continuam até o dia 5 de junho, sendo que o destaque será a terceira edição do Festival de Balonismo, que acontecerá de 25 a 29 de maio, no Jockey Club de Santa Maria. Além disso, o público poderá participar dos eventos distritais. De 25 a 29 de maio, acontece a Festa do Arroz do Rei, em Palma e nos dias 4 e 5 de junho ocorre a Festa da Soja- O Grão de Ouro, em Santa Flora. O meio ambiente não foi esquecido na programação. De 30 de maio a 5 de junho, várias atividades marcarão a Semana do Meio Ambiente. Recorde: Feira do Livro comercializa 49 mil exemplares. Confira a relação dos títulos mais vendidos. Santa Maria respirou cultura e conhecimento neste mês de maio. Maior evento literário da região centro do Estado, a Feira do Livro 2011 movimentou a cidade com uma programação recheada de atrações culturais, artísticas e musicais, além de lançamento de livros, sessões de autógrafos e muito bate-papo com renomados escritores e personalidades. E o resultado desta mobilização apareceu nos números: 97 lançamentos e 49.070 livros vendidos, o que registrou um novo recorde e superou as 83 obras lançadas e os 48 mil exemplares comercializados em 2010. Nem o mau tempo de alguns dias espantou o público que circulou pela Praça Saldanha Marinho durante os 15 dias do evento. Para o presidente da Câmara do Livro e organizador da Feira, Télcio Bressolin, a presença dos jovens deu ainda mais brilho às atividades. “A Feira teve um público espetacular esse ano, com muita juventude. Em alguns anos não se via tanto público juvenil como esse. Isso é parte de um processo que a Feira, como um todo, já vem trabalhando há vários anos”, comemora. Télcio destaca que o crescimento da Feira, ano a ano, traz ainda mais notoriedade ao município. “É importante para cidade esse movimento que se cria em torno do livro. Podemos ver até o mercado que se abriu com 100 lançamentos. Isso demonstra o acerto que é, cada ano, ir segmentando esse movimento cultural onde se passa 15 ou 20 dias falando em livro, em cultura, em conhecimento. Isso, de uma forma ou de outra, faz com que Santa Maria ganhe mais reconhecimento no cenário regional e também estadual”, comenta. O presidente da Câmara ainda ressalta que a multiplicidade de atrações no palco principal contribuiu para o grande movimento. “Além da programação, essa integração com as escolas faz com que o crescimento da Feira venha ano a ano. Essa integração auxilia também no desenvolvimento da cidade”, acrescenta. Telcio lembra que Santa Maria é um pólo educacional. “A Feira também faz parte desse contexto”, finaliza.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

DIA DAS MÃES - James Pizarro (DIÁRIO - 3.5.2022)

Minha mãe se chamava Maria, conhecida por todo mundo pelo nome de Iria. Dona Iria. Minha avó materna, vó Olina, contava que o nome dela era para ser Maria Iria e que meu avô, na hora do registro, esqueceu e registrou apenas como Maria. Minha mãe estudou todo o Curso Elementar (depois chamado Ginásio e hoje chamado Ensino Fundamental) no Colégio Santa Terezinha (hoje prédio do Maneco), internato e semi-internato mantido pela Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul em sua época áurea. No turno da manhã, minha mãe tinha as disciplinas pertinentes a esse tipo de curso (matemática, português, ciências, geografia, história, música, etc...). Pela tarde, aprendia bordado, tricô, tocar violino, educação física, etc...Minha mãe sempre dizia que as freiras do Santa Terezinha usavam a frase: “De manhã se educa a mente e a alma, pela tarde se educa o corpo”. Aos 16 anos conheceu Alfeu, meu pai, e pouco tempo depois casaram. Foram morar na rua Silva Jardim, 2.431. Minha mãe ajudou na árdua luta de sustentar uma família com dois filhos, construir uma casa própria com o ordenado de funcionário público de meu pai, que trabalhava em dois empregos. Exímia na arte de fazer doces, durante anos fez e vendeu doces sob encomenda para casamentos e aniversários. Nunca teve empregada doméstica. A família sempre recebeu ajuda providencial, quando necessário, de meu avô materno, Seu Fredolino. Como ferroviário, ganhava muito bem à época e podia prestar este auxílio e o fazia de bom grado. As únicas diversões das quais me lembro eram frequentar todos os circos que chegavam a Santa Maria. Ir aos bailes mensais do Clubes de Atiradores Santamariense. E não perder as esporádicas festas do Grupo de Bolão 7 de Setembro, de cuja equipe meu pai era o “capitão”, pois era exímio bolonista. Depois de idosa, minha mãe frequentou aulas na UFSM como aluna especial. Engajou-se na luta política da terceira idade na cidade, sendo uma das fundadoras do grupo “Mexe Coração”, com sede no Centro de Atividades Múltiplas, no Parque Itaimbé. Participou de aulas da caratê. Foi atriz de vários espetáculos do grupo teatral da terceira idade, onde se revelou notável comediante. Viajou pelo interior gaúcho para apresentações teatrais. Fez parte do coral dos idosos. Frequentava as aulas recreativas de natação na piscina térmica da UFSM. Enfim, teve uma vida socialmente participativa Esteve casada com meu pai durante 63 anos de feliz união, pois ambos se completavam. Ficou viúva em 9 de maio de 2004, quando meu pai morreu vitimado por complicações pós-operatórias advindas de uma cirurgia cardíaca. Viveu na mesma casa sempre, com minha irmã Jane e com uma atendente de idoso. Ela sempre teve grande afinidade com minha mulher, sua nora. Insisti até a exaustão para trazê-la para a praia de Canasvieiras para gozar do sossego de uma praia maravilhosa no final de sua vida. Nunca aceitou. Consegui levá-la duas ou três vezes para temporadas de 30 dias. Contentei-me, então, com conversas telefônicas semanais. Infelizmente, a minha opção de morar na praia, desejo acalentado há anos, não coincidiu com a opção de minha mãe. Lamentei pela opção que ela fez. Mas que fui obrigado a respeitar. Dia 4 de fevereiro de 2012, estive em Santa Maria para festejar os 90 anos de minha mãe, junto com dezenas de parentes, vizinhos e amigos, em animado jantar no Restaurante Vera Cruz. De 19 a 25 de abril de 2013 estive também em Santa Maria. E em janeiro de 2014 também estive em Santa Maria para visitar amigos, parentes e visitar minha mãe por 29 dias. Enfim, voltei todos os anos para visitas. Até que – maio de 2016 – depois de quase 10 anos na praia, já com 74 anos, decidi retornar aos pagos, ficar perto dos filhos, netos, amigos, ex-alunos, meus médicos, minha cidade natal. Em 28 de julho de 2016 minha mãe morreu. Morreu dormindo. Em sua cama. Em sua casa. Como um passarinho. Este é o sexto “Dia das Mães” que passo sem ter mãe. Sei – como professor de Biologia – que o óbito faz parte natural dos acontecimentos. Da rotina planetária. Da finitude. Da reciclagem da matéria que é finita. Mas é melancólico não ter mais mãe. Machuca. Fere. E dói. Portanto, aos que ainda têm a ventura de ter mãe, agradeçam a Deus. E beijem ela por mim. Meu coração ficará mais aliviado.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

OS "BIXOS" DA UFSM - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - 19.04.2022).

Mesmo antes de fazer vestibular (e ser aprovado na UFSM em janeiro de 1963), eu já ministrava aulas de Biologia. Comecei no Colégio Sant*Anna, com apenas 17 anos, a minha carreira docente. Ao mesmo tempo, dava aulas no Curso Binatão (nas dependências da própria UFSM). E comecei no Instituto Master, que funcionava no edifício Segala, no calçadão, onde funcionou anos depois a Rádio Guarathan, junto com uma equipe notável, entre os quais destaco meu saudoso ex-professor/colega/amigo, Paulo Lauda. Dei aulas também no Riachuelo, Coração de Maria, Curso Positivo, Arca de Noé, Preparatório da ESA, etc...Somados aos quase 40 anos de aulas na UFSM, dediquei mais de meio século de vida a falar durante horas e horas diariamente para turmas de jovens sobre Biologia e a vida em geral. Por que fiz essa introdução ? Para dizer ao leitor que acompanhei na vida real e na prática diária a evolução dos costumes estudantis. Das festas universitárias. Participando dos fatos – como aluno e depois como docente – durante cerca de seis décadas. Não me atreverei – qual velho ranheta – a fazer juízo de valor e emitir opiniões moralistas sobre isso ou aquilo. Apenas quero narrar – como memorialista - como era na década de 60, a recepção ao calouros da UFSM, os chamados “bixos” da UFSM. Cada curso da UFSM recebia seus calouros de maneira amistosa, com brincadeiras, pinturas no rosto, trotes. Não havia ainda o hábito de se cortar o cabelo dos calouros. Cada curso da UFSM fornecia aos seus calouros uma “característica” (um avental, pala, boina, chapéu, cartola, espada,etc...com o nome do curso e suas cores) que deveria ser usada obrigatoriamente durante todo o mês de março. E essa “característica” era entregue ao calouro durante um baile solene realizado no Caixeiral ou Comercial, animado por orquestras e conjuntos famosos na época. Assim é que, durante todo o mês de março tínhamos o Baile dos “Bixos” da Medicina, da Farmácia, da Agronomia, etc...nos quais cada calouro recebia de sua madrinha(namorada, mãe, noiva, “ficante”) a “característica” que o identificava como universitário dali por diante perante a comunidade. Reitor, professores e autoridades prestigiavam esses bailes que estavam sempre superlotados. No entanto, o ápice da festa universitária de recepção aos calouros da UFSM na década de 60 sempre foi a famosa e até hoje lembrada com saudade, “PASSEATA DOS BIXOS” ! Todos os calouros da UFSM, separados por curso, desfilavam vestidos com fantasias e portando cartazes com críticas de toda ordem contra qualquer fato, pessoa, autoridade, políticos. Etc....da vida nacional e internacional. Peças rápidas de teatro eram encenadas rapidamente, para delírio da população que superlotava a rua do Acampamento, av. Rio Branco e rua dr. Bozano. Também carros alegóricos desfilavam com cenas humorísticas encenadas. No caso da minha turma, Agronomia/1963, além participarmos da passeata e do baile dos “bixos”, nós fizemos um trote solidário em prol da população carente. Durante um dia inteiro percorremos as ruas da cidade com um caminhão e aparelhagem de som e pedimos alimentos para os asilos da cidade. Lotamos um caminhão arroz, feijão, massa, sal, enlatados, etc....fato que teve enorme repercussão na cidade. De vez em quando, para reparar as energias, corria um copo de vodka com Cirillynha. Ou uma garrafa de “samba” (Coca Cola gelada com cachaça). Era o máximo de devassidão permitida...

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Passos lentos. olhar perdido, ardência no peito - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - 5.4.2022)

Não deboche / agrida / brigue / ofenda seus colegas / amigos/ parentes / conhecidos /vizinhos por causa das eleições presidenciais. Com estas atitudes você não vai conseguir nada, a não ser inimizades / má vontade / distanciamento / desamor / solidão. Seja qual for o ganhador, eles jamais saberão da sua existência e de seus problemas. Tenha sua opinião / candidato / partido. Mas aceite que os outros também possam ter. Ninguém tem o monopólio da ética / moral / verdade. Portanto, é hora de pensar várias vezes antes de falar / escrever / vociferar ! Quase octogenário, não escrevo mais há décadas sobre política, futebol e religião. Mesmo porque existe gente muito mais preparada do que eu para tratar destes temas. Resolvi investir na saúde das minhas coronárias. Para conviver mais tempo com meus netos. E escrever sobre amenidades, O cotidiano. Contar coisas perdidas na memória. Reviver coisas. Falar até sobre filmes. Noite dessas – num dos canais da TV a cabo (acho que no Paramount) – assisti a um filme muito antigo O título era “Clamor de Sexo” (de Elia Kazan) e “Eva” (de Joseph Losey). Filme feito há mais de 60 anos, é sobre a família e seus conflitos. Sobre o amor e sexo entre os jovens. Pais que são contra namorados dos filhos. Professores e pais que jamais aprenderam a ajudar seus filhos e alunos. Famílias que eram ricas e a depressão econômica tornou pobres. Mas o que mais me chamou a atenção no filme é uma cena melancólica. Os dois namorados, cujo amor não deu certo por causa de múltiplos fatores, se encontram muitos anos depois. E é uma decepção total. O grande objeto de desejo de outrora não significa absolutamente mais nada. Tudo terminou. Eles estão secos por dentro. São estranhos. É um encontro pungente. Que remete à solidão. À melancolia. Os mais jovens que fazem leitura dos meus textos experimentarão esta mesma sensação futuramente. Pode ser com uma colega de infância. Uma namoradinha que ocupou seu cérebro e sua alma com sofreguidão. Uma colega de faculdade. Pessoas que foram importantes no seu mundo afetivo. Passarão os anos. E ao rever aquela pessoa que deixava seu coração em chamas, ela se transforma num borrão na paisagem. Não lhe diz mais nada. Tudo virou uma oceânica decepção. E você vira as costas. E saí caminhando. Passos lentos. Olhar perdido. Uma ardência no peito. E uma certa estupefação diante do mundo.