terça-feira, 20 de outubro de 2020

AO SERGINHO SEGALA, COM AFETO - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, página 4, edição de 20.10.2020)

Dia 26 deste mês de outubro, contrariando os prognósticos sombrios e pessimistas de uma conhecida vidente que vaticinou que eu não chegaria aos cinquenta anos, completarei 78 anos. Gostaria de mandar uma fatia de bolo para a tal vidente que fez chegar até mim sua mensagem através de uma aluna, mas a referida me antecedeu na viagem espacial e partiu precocemente. Mas eu queria dizer é que, como idoso, sou leitor assíduo do “Diário Bem-Viver”, caderno especial que nosso jornal publica nas edições de fim-de-semana contendo reportagens e informações sobre saúde. E que são muito úteis e informativos. No último dia 18 comemorou-se o Dia do Médico porque é o Dia de São Lucas, o santo padroeiro da Medicina. E eu não queria deixar de fazer algumas considerações a respeito. Por uma série de razões. Tive muitas centenas de alunos nos cursinhos pré-vestibulares ao longo de mais de quarenta anos de docência que se transformaram médicos, muitos deles atuantes em Santa Maria e alguns meus médicos há anos. Cito, entre muitos deles : Dra. Jane Costa, Dra. Alba Tereza do Prado Veppo Prolla, Dr. Chariff Ddine, Dr. Glauco Alvarez, Dr. José Pedro Lauda, Dr. Reinaldo Ritzel, Dr. Mauro Merten, Dr. Laranjeira, etc Fiz o Ginásio e Científico no MANECO. Minha turma do Científico é de 1962 com vestibular feito em janeiro de 1963. Puxando pela memória, lembro que de nossa turma saíram 11 médicos : Telma Cordeiro D’Ornellas, Oldemar Weber, Luiz Osvaldo Coelho, Dari Pretto, Nelson Segala, Izidoro Lima Garcia, José Amilton Acosta, Luiz Régis Agne Stein, Carlos Horácio Hertz Genro, Flori Machado Sobrinho e Sérgio Segala. Infelizmente, já nos deixaram os amigos Oldemar Weber, Nelson Segala, Izidoro Lima Garcia, José Amilton Acosta e Sérgio Segala. Ao longo dos último meio século mantive contato mais próximo com uns. Mais esporádico com outros. O Luiz Osvaldo é casado com a irmã da minha mulher, foi diretor do Curso de Medicina da UFSM, mas há anos mora em Porto Alegre. O Nelson Segala e o José Amilton davam aula no mesmo prédio do campus que eu (prédio de número 19), o que proporcionava encontros e bate-papos quase diários. O Floria Machado Sobrinho é médico em Brasília, já tentei localiza-lo, deixei recados, mas nunca retornou com notícias. O Carlos Horácio encontro de quando em vez. Com quem eu mais falava era o Serginho Segala. Mas o Serginho morreu a semana passada... Uma das minhas netas há mais de seis anos foi diagnosticada pelo meu querido amigo Dr. Valdir Pereira e sua equipe com Mal de Hodgking, um tipo de câncer linfático. Ela teve de fazer implantação de catéter para a sequência da quimioterapia, perdeu peso, ficou carequinha, etc E continuou seu curso universitário aquele semestre com as dificuldades compreensíveis. Está formada. Não precisou fazer todas as sessões de quimioterapia previstas. O Serginho sempre disse para ela : “Em todas as tuas sessões eu vou ficar contigo porque tu és neta do Pizarro e eu sei o quanto ele te adora....ele foi meu colega e é meu grande amigo...tu vais sair daqui curada”. Anos depois ele a chamou e disse : “Hoje vamos retirar o cateter. Tu estás curada.” Serginho, meu querido : obrigado por ter sido carinhoso e competente com minha neta. Ela chorou muito quando eu disse a ela que morreste. Nossa família vai rezar muito por ti ! Até qualquer dia !

terça-feira, 6 de outubro de 2020

PAULINHO, ATOR E BILHETEIRO - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, pág.4, edição de 6.10.2020)

Convivi no centro da cidade de Santa Maria, por mais de cinquenta anos, com o Paulinho, o meu querido amigo anão bilheteiro, batizado Paulo Neron Rodrigues. Especializado em vender unicamente bilhetes de loteria da Caixa Econômica Federal. Ele me reservava bilhetes sob encomenda, com a centena final do número da casa do meu pai na rua Silva Jardim : 2431. Anos a fio, comprei bilhetes de final 431. Como eu dava aulas no recém-criado Instituto Master que funcionava no Edifício Segala, onde anos depois funcionou a Rádio Guarathan, encontrava o Paulinho diariamente no Café Cristal, para um bate-papo e para o cafezinho e fofocas do dia. Seu Bráulio Araujo Souza, funcionário da Livraria do Globo e que seria meu futuro sogro, participava da conversa. Ele era tesoureiro da Escola de Teatro Leopoldo Froes e muito amigo também do Paulinho, que – afinal – era amigo de toda a cidade. Paulinho era ator amador da Escola de Teatro Leopoldo Froes, criada e dirigida durante toda sua existência pelo teatrólogo e memorialista Edmundo Cardoso, pai do Claudinho Cardoso, figura conhecida e querida de todos nós. Paulinho atuou em várias peças infantis da escola de teatro, ao lado de dezenas de outros conhecidos, como os amigos Horst Oscar Lippold (“Tio Óca”, do SOCEPE) e o Raphael Theodorico da Silva (“Pinha”, falecido em 2015). Assisti a todas as montagens da Leopoldo Froes, especialmente aquelas onde o Paulinho trabalhava (“Pluft, o Fantasminha”, “Maria Minhoca”, etc....), mas lembro em especial e com muito carinho do sucesso da “Dona Patinha Vai Ser Miss”. Tenho bem vivo o carinho que o Paulinho teve para com o Claudinho logo depois do falecimento da saudosa Edna May Cardoso, sua mãe e a demonstração de viva amizade para com seu velho amigo e diretor Edmundo Cardoso. Paulinho morava bem perto do calçadão, à Rua Dr. Pantaleão. E nos finais de tarde, depois de esgotada a venda dos bilhetes e vencida honestamente mais uma jornada de trabalho, Paulinho costumava escutar o noticiário, comer um lanche e tomar uma cerveja num pequeno restaurante que então existia ao lado na Mercado Itaimbé, na Venâncio Aires, a caminho de sua casa. Quando o querido amigo Paulinho faleceu lembrei de uma crônica do festejado teatrólogo e escritor Nelson Rodrigues onde ele afirmava nunca ter visto ou ouvido falar no enterro de um anão. Nelson Rodrigues, vivo fosse, teria ficado surpreso com a quantidade de pessoas, amigos e autoridades no velório do nosso querido Paulinho, tal seu prestigio e sua popularidade. Nesse meu isolamento social que já dura mais de seis meses recomendado pela minha médica por causa da pandemia, uma vez que pertenço ao grupo de risco por causa da idade e sobrepeso, tenho escrito muito sobre a memorialística da cidade. E minha cabeça, durante as madrugadas em que perco o sono, tem sido povoada pelas lembranças de centenas de pessoas queridas com as quais tive a felicidade de conviver. Na última madrugada pensei muito no Paulinho e no bilhete que sempre guardava para mim. Hoje vou pedir para alguém comprar o bilhete da Federal de final 431...

sábado, 3 de outubro de 2020

ARMANDO VALLANDRO E A COOPERATIVA DOS SERVIDORES DA UFSM - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - Caderno MIX - Seção MEMÓRIA - edição 3.10.2020)

Quando casei em 1966 aluguei uma casa à rua Duque de Caxias, a poucos metros da praça da CORSAN e da casa onde residia o meu ex-professor Adelmo Simas Genro. Era um corredor com várias casas. E todas as casas eram de propriedade da dona Guilhermina Arens e seu esposo. Na primeira casa, de alvenaria, morava o filho único da dona Guilhermina, de nome Ernesto Arens, casado com Ruth Lippold, filha do casal Fritz e Elza Lippold, tios da minha esposa. Fiquei muito amigo do Ernesto, que era formado em Administração e professor na UFSM. E que tem relação com a história que passo a contar hoje. Eu trabalhava em três empregos quando casei. E seis meses depois de casado fui contratado como professor da UFSM, já em 1967. Numa conversas casual, o Ernesto Arens me disse : “Funcionários da UFSM ligados aos setor administrativo e da contabilidade outros fundaram uma Cooperativa e tu podes te associar como professor e comprar gêneros, fazer rancho, descontar no salário no final do mês”. Foi assim que fiquei sabendo da existência essa entidade que desempenhou um papel tão importante na vida de tantas pessoas. E quero resgatar parte dessa história para os mais moços da cidade. A CRIAÇÃO A Cooperativa dos Servidores da Universidade Federal foi criada na década de 60 e instalada atrás do “Garajão” em 1967/68. Naquela época aquela zona era quase deserta, com raras construções ligadas à UFSM, pois existiam terrenos baldios na rua 24 horas e nos fundos da Antiga Reitoria, assim como na esquina com a Floriano Peixoto. Para fazer justiça à verdade, devo dizer que a ideia da Cooperativa nasceu na DCO - Divisão de Contabilidade e Orçamento da UFSM, hoje modernamente denominada DCF - Departamento de Contabilidade e Finanças. O grande idealizador foi Hélio Rodrigues da Silva, então Diretor da DCO, e que também revolucionou as iniciativas locais com a ADMINISTRAÇÃO/70, movimento que consolidou o Curso de Administração na UFSM. Outros dirigentes da UFSM que foram importantes devem ser registrados por uma questão de justiça nessa nossa terra tão sem memória : Walter Calil, Vinicius McGinity, Carlos Augusto Cunha, Ney Ramos Penna, Antônio Carlos Arbo, Antônio Carlos Machado, Ayrton Vallandro Marçal, Ernesto Guilherme Arens, Waldyr Pires da Rosa, dentre outros. Conheci todos, muitos dos quais infelizmente já falecidos. Mas desejo fazer uma especial e afetiva referência à enfermeira Ione Rocha Lobato que, enquanto pacientemente aguardava o término das obras do Hospital Universitário, dedicou sua capacidade e parte de seu tempo na consolidação da cooperativa. OS ASSOCIADOS Nos anos 60 a UFSM tinha no seu corpo técnico-administrativo 217 funcionários e 250 docentes. Mas tinha 900 operários de obras que trabalhavam como celetistas da UFSM na execução direta das obras, pois não haviam empresas empreiteiras contratadas. E tinham também os empregados da ASPES - serralheria, pedreira, marcenaria - contingentes de operários que faziam seus suprimentos ou pagando com “bônus”. Esses eram vales os famosos vales” com descontos em folha controlados severamente pelo Moacyr Rocha. A área do armazém da Cooperativa que fornecia secos e molhados, bazar, confecções, açougue e mercearia, estava sempre repleto de consumidores. AUGE DA COOPERATIVA Além do reitor Dr. Mariano, mais quatro outros membros da Administração Superior da UFSM foram essenciais: Hélios Homero Bernardi, Derblay Galvão e Armando Vallandro. Aliás, o Prof. Armando Vallandro foi um operário desta causa e o grande sucesso da cooperativa se deve a ele. Na área financeira deve ser feito um registro especial ao talento de Adelino Ribeiro de Moraes e seus auxiliares mais diretos, dirigentes institucionais tinham autonomia de gestão. Em relação à contabilidade da cooperativa deve ser feito um registro : o meu amigo Rubem Höher desempenhou durante muitos anos, voluntariamente, as funções de Contador da instituição. Até o momento em que os serviços e o movimento da cooperativa se avolumaram tanto que foi necessário profissionalizar a contabilidade, ocasião em que foi contratado o escritório de Luiz Carlos Lang. Também registre-se a participação inestimável de José Pereira Ritzel. Gerenciava a cooperativa o seu Homero, chefiava os caixas a Amábili, supervisionava o açougue e mercearia o Didi e no Escritório trabalhavam o Renato Höher, o Antônio Carlos Flores, o Capitão e o Décio Flores. As cobranças e a conciliação dos bônus e dos descontos em folha era supervisionado pelo controlador da folha de obras, o Bica. O FINAL A cooperativa não teve condições de sobrevivência quando suas relações comerciais foram equiparadas às redes de supermercados, quando o Trevisan abriu mercado na Uglione - Chevrolet ao lado da Reitoria - e as grandes redes nacionais começaram agredir o mercado. Coube, ao professor Vallandro as iniciativas de encerramento. Sem traumas, sem passivo, sem alarde emocional. Apenas uma história encerrada após cumprida com honradez seu propósito. Já era final da década de 1970.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

TRIBUTO DE RESPEITO E GRATIDÃO (Parte III) - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - página 4, edição de 22.9.2020)

Durante todos os anos em que frequentei o Maneco, sempre foi Diretor o Pe. Rômulo Zanchi, Padre Palotino (SAC-Sacerdote do Apostolado Católico). A Secretária da escola era Iolanda Zanini, que depois formou-se em Direito, depois Juíza aposentada no Paraná. Inês Zanini, sua irmã, era Auxiliar de Disciplina, depois funcionária da UFSM. Também eram Auxiliares de Disciplina João Batista Copetti, que formou-se em Educação Física e Antônio Schmitt, que graduou-se em Comunicação Social. Eram funcionários administrativos : Germano Kurle e Osmar Pohl, ambos formados em Direito anos depois. Também devo citar a folclórica figura de João Antonello, Zelador do Maneco e residente na parte térrea do prédio. Juntamente com sua esposa Rosa e filhos, mantinha uma concorrida cantina situada no patamar da escada do térreo para o primeiro andar. Também devo lembrar da banda do Maneco, cuja história está indelevelmente ligada ao nome saudoso ex-aluno Roberto Binato, depois formado médico e professor universitário do Curso de Medicina, no Departamento de Biofísica, onde ministrava aulas juntamente com o Dr. Irion. Mesmo cursando Medicina, continuava sendo o responsável pela banda do Maneco, nas funções de "mestre", uma espécie de maestro que cuidava tanto da coreografia e da disciplina como também dos arranjos musicais e repertório. Era carinhosamente chamado de "Binatão", devido à sua alentada obesidade, pois era um glutão inveterado. Presenciei, mais de uma vez, aquele homem devorar em poucos minutos dois quilos do recém-lançado Sorvete Kibom, uma das suas preferências. Ele casou com uma farmacêutica e, durante anos, trabalharam na zona italiana da Quarta Colônia, transferindo-se para Santa Maria, quando seus filhos vieram fazer o Ensino Médio e frequentar cursinhos pré-vestibulares. Um de seus três filhos, de nome Sílvio (apelido "Dandão"), foi meu aluno e companheiro de jogo de tênis nas quadras do ATC-Avenida Tênis Clube. A banda do Maneco era constituída por uma quantidade incrível de integrantes. Certa época, a banda chegou a desfilar com quase 200 figurantes, fazendo as chamadas "evoluções" durante o desfile. A evolução que mais agradava e que arrancava delirante aplauso do público era copiada da Banda de Fuzileiros Navais, do Rio de Janeiro : a banda desfilava formando uma gigantesca âncora, que ocupava uma quadra inteira de rua. A banda viajava muito por todo o RS, a convite de escolas e prefeituras. Em Santa Maria, era convidada a abrilhantar todo tipo de solenidade. Certa feita, no campo de futebol do Riograndense Futebol Clube, completamente lotado, a banda formou - pela primeira vez - a palavra MANECO, numa evolução que comoveu a pais, alunos, professores, funcionários e público em geral. Em 1958, ano do centenário do município, o então vereador pelo PTB, Alfeu Cassal Pizarro - meu pai e a meu pedido - destinou a quantia de 5000 cruzeiros (moeda da época) para a aquisição de instrumentos para a banda do Maneco (a xerocópia do documento está nos arquivos do Maneco). A banda tinha toda sorte de instrumentos : bumbos, surdos, caixas, taróis, pratos, escaletas, pífaros, trombones, pistons, cornetas, flautas doces, etc Os ensaios eram realizados somente à tarde, depois do término das aulas, no pátio da escola ou pelas ruas da cidade. O Padre Rômulo Zanchi, férreo disciplinador na direção do colégio, exigia que os integrantes da banda apresentassem seus boletins todo mês em seu gabinete. Quem estivesse mal de notas era suspenso da banda. O padre Rômulo dizia : "É uma honra tocar na banda e aluno vadio não veste aquele uniforme para representar o Maneco pelas ruas da cidade ! " Assim é que, nos desfiles da Semana da Pátria ou nos deslumbrantes Jogos da Primavera, quando a banda chegava ao centro da cidade, capitaneando os quase dois mil alunos do Maneco, toda o público sabia que ali naquela corporação musical marchava a elite cultural do colégio, representada por seus melhores alunos. Durante duas ou três noites que antecediam à data do desfile, alunos e alunas voluntariamente faziam bolhas nos dedos cortando papel laminado para fazer "picadinhos" que eram acondicionados em dezenas e dezenas de sacos de estopa. No dia do desfile, estes alunos e seus familiares postavam-se estrategicamente nas sacadas dos edifícios mais altos da avenida Rio Branco e da rua do Acampamento (o Taperinha era um dos preferidos) e, quando o Maneco começava sua esperada apresentação, os céus do centro da cidade eram tomados por aqueles milhares de "picadinhos" laminados que produziam um efeito espetacular refletindo a luz do sol. Torcidas organizadas berravam sem parar :"Maneco ! Maneco !" Aquelas músicas, marchas e dobrados em furiosa harmonia marcial. O Tadeu com seu garbo de mor da banda. As duas graciosas balisas (a Carmem Helon Mariosi era uma delas). Aquela multidão. Aqueles papéis picados. Os foguetes. Os gritos. Os aplausos. A cadência. Aquilo tudo era emocionante ! E eu ali no meio da banda, tocando pifaro, ao lado do Paulo Ari (agrônomo, professor da UFSM, já falecido). E o Alceste Almeida (médico, hoje deputado federal por Roraima). Eu ali...durante vários anos tocando naquela banda. Passando por aquelas emoções que enchiam meu coração adolescente de felicidade e orgulho. Era impossível não chorar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A COOPERATIVA DOS FERROVIÁRIOS NOS MEUS TEMPOS DE GURI- JAMES PIZARRO (DIÁRIO -CadernoMIX,19.9.2020)

Nas cercanias do Colégio Estadual Manoel Ribas funcionava a monumental Cooperativa dos Ferroviários da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, com dezenas de prédios dedicados a múltiplos fins. Um grande prédio servia de sede burocrática e também de armazém de "secos e molhados", expressão em voga à época. Ali existia qualquer tipo de alimento imaginável para comprar. Anexo a este grande armazém havia loja de roupas e tecidos, alfaiataria, relojoaria, carvoaria, fábrica de sabão, padaria, lenheira, farmácia, etc Em frente ao prédio do Maneco funcionava um gigantesco açougue, prédio ainda hoje existente e restaurado. Em frente a este prédio, no passado, formava-se longa fila desde a madrugada, principalmente de meninos que, munidos com seus "ganchos" (estruturas de ferro em forma de letra jota) esperavam para levar a carne para casa. Não se usava dinheiro, pois a Cooperativa fornecia, no início de cada mês, uma série de "vales", fichas de papelão azul que correspondiam a uma certa quantia em dinheiro, de acordo com o ordenado do ferroviário. Os meninos entregavam aqueles "vales" para o açougueiro (eram mais de 10 açougueiros atendendo simultaneamente), em troca dos "pesos" solicitados. Chamava-se de "peso" ao tipo de carne solicitada, isto é, filé, costela minga, coxão de fora, coxão de dentro, etc Tinha de haver cuidados no transporte daquele gancho com carne até à casa. Os cachorros corriam atrás, pulando, para roubar a carne. Muito guri tomou surras homéricas por ter deixado o gancho com carne no chão enquanto jogava "bolita" (bola de gude). E a cachorrada levava a carne do penitente. Ou a carne era roubada por outros guris ! Às vezes, mentiam que não tinha chegado a carne. E trocavam os "vales" por outro tipo de compra nos bares e lojas da cidade. Os "vales" tinham inteira credibilidade na comunidade santa-mariense e circulavam livremente no comércio, como se dinheiro fosse. Aliás, os próprios adultos - quando ficavam com pouco dinheiro no fim do mês e tinham "vales" sobrando - trocavam-nos por dinheiro, numa transação chamada popularmente de "touro". Era comum o ferroviário dizer : "Me apertei de dinheiro, vou ter de fazer um touro." Não consegui descobrir até hoje o porquê do uso da expressão "touro". MANECO E FERROVIA É indispensável falar na Ferrovia e na Cooperativa nos dados iniciais sobre a história do Maneco, pois os destinos dessas instituições se entrelaçam. A maioria absoluta dos filhos e netos de ferroviários estudavam no Maneco, assim como filhos de funcionários públicos, classe média e proletariado em geral. Os filhos de famílias mais abastadas e da classe média alta estudavam no Colégio Sant'Anna e Colégio Centenário (as moças) e Colégio Santa Maria (rapazes). Os sapatos todos que usei, até à idade de 14 anos ou 15 anos, foram presentes dos meus avós maternos, vó Olina e vô Fredolino. Sapatos comprados na sapataria da Cooperativa dos Ferroviários. O primeiro relógio que ganhei na vida, de enorme mostrador e pulseira de couro brilhante, foi comprado na relojoaria da Cooperativa : era um típico "cebolão" ! Na época, chamava-se "cebolão" ao relógio que possuia mostrador muito grande. A GARE DA VIAÇÃO FÉRREA A minha ligação com a ferrovia vem do fato do meu avô Fredolino ter sido ferroviário. Era exímio carpinteiro, verdadeiro artista, cujo trabalho, dedicação, assiduidade e pontualidade lhe faziam gozar de enorme prestígio junto aos superiores. Trabalhou mais de 45 anos na ativa, sem nunca ter tirado licença, atestado médico, faltado ao serviço. Vô Fredolino trabalhava no chamado "recinto", que nada mais era do que o imenso espaço existente em frente à gare da Estação da Viação Férrea de Santa Maria. Ali existiam vários departamentos da ferrovia e meu avô exercia suas atividades no chamado "Posto de Visitas", onde se situava a carpintaria geral da "Rede". A Viação Férrea era conhecida em todo o território gaúcho simplesmente por "Rede". Quando os ferroviários entravam em greve, reuniam-se no campo gramado que existia atrás do Maneco, ao lado de um enorme depósito de combustível (chamado de "tonel"), construído para armazenamento de óleo para as primeiras locomotivas a óleo diesel adquiridas e que causavam grande admiração aos habitantes da cidade. Este campo, outrora gramado, passou a ser estacionamento de ônibus de empresas de transporte coletivo. De cima daqueles barrancos os ferroviários faziam comícios, proferiam palavras de ordem e jogavam pedra nos ferroviários que não aderiam ao movimento paredista, então chamados de "furadores" de greve ou "carneiros". Anos depois, nas aulas de Zoologia do próprio Maneco, aprendi que os carneiros e as ovelhas eram animais tão passivos, tão dóceis. que não dão nenhum gemido quando são levados para o abate, ou mesmo quando estão sendo abatidos. Daí a razão óbvia do apelido de "carneiros" que tinham os "fura-greves".Tanto isso é verdade que, nas fazendas e abatedouros do Rio Grande do Sul, quando um carneiro "berra" (o verbo certo seria "balir", mas o povo fala "berrar") na hora do abate, é imediatamente poupado, solto, e jamais molestado ou morto por alguém. Diz a crendice popular que aquele que ousar matar um carneiro que berrou na hora do abate sofrerá toda sorte de desgraças para o resto da vida. AS GREVES Eu sempre fugia de casa e me misturava àquela multidão de ferroviários grevistas. Aquilo me fascinava. Lembro que, certa vez, aquela manifestação foi dispersada por uma tropa de cavalarianos da Brigada Militar. Cerca de 40 homens montados e empunhando espadas reluzentes que serviam para dar estrondosos "planchaços" nas costas dos grevistas, o que os fazia urrar de dor. "Planchaço" é um golpe dado com a parte lateral da espada e que produz enorme mancha arroxeada na pele do golpeado, provocando dor insuportável, edema e faz a coragem desaparecer na mesma hora ! Minha avó usava o termo "planchar" para nomear a ação de passar calças de homem com o ferro de passar roupas municiado de ardentes brasas. Aliás, o ferro de passar roupas usado pela vó Olina está cuidadosamente enfeitando a sala de visitas de minha casa, preciosa relíquia para mim. A Rede desapareceu. Os trens ficaram na memória. Ninguém mais usa ferro com brasa para passar. Os prédios da Cooperativa estão povoados de fantasmas. A gare abandonada. Ouço, às vezes, de madrugada apitos de trem carregando soja. E sinto uma saudade lancinante da vó Olina...

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

OS PÁSSAROS, A CATEDRAL E A PANDEMIA - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, pág.4 edição de 8.9.2020)

Para surpresa dos amigos antigos, tenho revelado uma obediência cega às recomendações médicas quanto à pandemia. E me submetido ao isolamento social preconizado para quem pode faze-lo. Sobretudo, se for do chamado “grupo de risco”. Onde me enquadro, pela idade e pelo sobrepeso. Assim é que, há mais de cinco meses não saio do apartamento. Salvo para fazer a barba de quinze em quinze dias, ainda antes do sol nascer, no Salão Venito. Pagamentos todos com débito em conta. Rancho e compras eventuais minha mulher faz com meu filho. De onde tirei a resiliência necessária para esse exílio ? Longe dos netos, filhos, amigos queridos, conversas no calçadão, cafezinho na lancheria do meu amigo Ildo, mega sena na lotérica da Galeria Roth ? Minha mulher me dá todo suporte possível em casa. Mas me socorro de boa música contínua durante todo dia. Geralmente sintonizo pela ALEXA a rádio NOVA BRASIL FM ou a rádio ANTENA 1, excelentes em música ambiental. Ou quando escrevo, escuto música celta para meditação. Leio muito. Organizo arquivos de fotos, recortes, documentos. Escuto no mínimo dois filmes por dia pela NETFLIX. No final da noite, é sagrada meia hora de meditação e orações antes de dormir. Uso muito a internet. Tenho dois blogs pessoais para alimentar. Participo como moderador, a convite do meu amigo Dr. Norton Soares Gomes, de dois grupos de fotos e vídeos de Santa Maria e Porto Alegre. Converso com muita gente. Faço muitas postagens. Mas para conservar minha saúde mental dentro de limites aceitáveis não entro em controvérsias de modo algum. Assim é que, mesmo provocado, não comento, respondo ou posto nada sobre política, religião e futebol. E quando o vivente invade deseducamente a privacidade da minha “linha do tempo”, no caso do facebook por exemplo, para destilar grosserias ou insistir em pregações que possam agredir a mim ou a terceiros, eu não respondo. Apenas deleto e bloqueio o mesmo. E me sinto sem remorso algum. Porque jamais cometi essa grosseria com os outros. Duas vezes por semana o Wiliam Bernardi, meu competente fisioterapeuta, vem aqui em casa para duas puxadas sessões de uma hora cada para evitar perda de massa muscular, já que não tenho saído para caminhar. Mais exercícios preventivos respiratórios, agachamentos, reflexos etc A fisioterapia, desde que feita por um excelente profissional - como é o caso - opera milagres. Tenho me sentido outra pessoa. Recomendo a amigos da minha faixa etária. Também fico parte do tempo nas janelas do apartamento, pois sou um privilegiado. Moro em frente à casa da família Mariano da Rocha, à rua Venâncio Aires. Vejo o lindo paredão dos morros e sua vegetação. Às vezes com sol brilhando. Outras vezes, coberta de densa cerração. Vejo a cada amanhecer centenas e centenas de garças, aos bandos, que voam na direção oeste-leste (desconfio que vão em direção à barragem do DNOS ou a açudes na zona para lá de Camobi). Acordo com uma sinfonia de passarinhos a cantar. Com o frio eles andavam meio calados. Começaram de novo esta semana, aos poucos, a ensaiar seus lindos e envolventes trinados. Que são hinos de amor à vida em meus ouvidos. E que me enchem de esperança de uma futura primavera cheia de novas notícias. Talvez – quem sabe – até com a chegada da esperada vacina definitiva e comprovada que acabe a pandemia. E que me permita um retorno seguro ao abraço dos netos. Ah...daqui também vejo as torres lindas da nossa Catedral. Onde fui batizado, crismado e me casei. E muito provavelmente onde mandarão rezar a missa pelo meu sétimo dia...

sábado, 5 de setembro de 2020

MINICONTO -James Pizarro (5.9.2020)

Ontem o obsceno orgasmo na orgia originou o óbito do ovário. Orou e, obnubilada, ocultou-se no ostracismo onírico.