segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A MADRUGADA NO CENTRO DA CIDADE - James Pizarro (DIÁRIO - 21.02.2022)

Nos anos dourados da década de 1960 imperava a tranquilidade nas ruas e praças da cidade. Mas não a solidão. Muito menos o abandono. Ou a escuridão. Os jovens universitários e os estudantes do ensino médio - depois dos bailes, aniversários, reuniões-dançantes, encontros em bares nos fins de semana – costumavam ficar sentados ao longo da Avenida Rio Branco e praça Saldanha Marinho para conversas sobre política, namoro, literatura, fofocas em geral. E para degustar no final da madrugada os famosos cachorros-quentes de linguiça de porco com mostarda que eram vendidos por carrocinhas, pois ainda não existiam os trailers para venda de lanches. Jamais algum vizinho precisou chamar a polícia por balbúrdia, algazarra, briga, bebedeira, consumo de droga por causa daqueles inocentes encontros de jovens estudantes que orgulhavam a cidade. E os estudantes jamais se sentiram ameaçados por estarem na rua durante a madrugada. Nunca se soube de algum assalto, roubo e muito menos um estupro ou assassinato. Passaram-se os anos. Chegamos ao esperado terceiro milênio. Em matéria de segurança o que ocorreu no Brasil em geral? E Santa Maria, em particular? Crescemos que nem rabo de cavalo: para baixo !!! As famílias vivem gradeadas dentro de casa, com câmeras de vigilância, cães de guarda, cercas elétricas, vigilantes, portões eletrônicos, uma série de dispositivos eletroeletrônicos para defesa. Estamos no início do ano e já ocorreram vários assassinatos em nossa cidade. Quantos morrerão até 31 de dezembro? Tira-se a vida das pessoas pelos motivos mais torpes e fúteis. Discussões banais. Bebedeiras. Tráfico de drogas. Feminicidios. Os policiais e militares responsáveis pela segurança continuam em desvantagem diante dos bandidos e fazem o que podem, pois são mal remunerados há anos, armamentos ultrapassados, carros e combustível insuficientes, efetivo muito aquém do que aquele necessário, sem perspectivas de melhora imediata. Morador da Galeria do Comércio com apartamento com janelas abertas para a rua Venâncio Aires, presencio cenas homéricas de intolerância e transgressão aos costumes diuturnamente. Durante o dia são pedestres atravessando a rua fora da faixa de segurança quase provocando acidentes e pondo em risco sua própria vida. Motoristas estacionando erroneamente seu carro no ponto de taxi e provocando discussões ácidas com taxistas, chamada de guincho, etc...Mas durante a noite, principalmente nas madrugadas, esta quadra central da cidade é palco de cenas que dariam para escrever um livro. Ou fazer um filme pornô de sucesso. Pois ocorrem encontros amorosos homoafetivos entre os contêiners do lixo, alguns deles nada silenciosos. Ocorrem conjunções carnais entre casais de namorados menores de idade, em pé, no portão da mansão da família do falecido e saudoso Dr. Mariano da Rocha. As vitrines da Casa Ey já foram quebradas e sapatos e bolsas roubados. Um jovem foi assassinado a facadas no corredor que corta a galeria. Sem falar nos carros que passam com o som ligado em decibéis que acordam todos os moradores que pretendiam muito justamente descansar durante a noite. Todos estes comportamentos contam com a impunidade e a tranquilidade que faz a alegria dos infratores. Pois não se vê uma viatura policial ou da guarda municipal. Até quando ?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

QUE SAUDADE PUNGENTE DA "JOVEM GUARDA" - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - edição de 8.2.2022)

"O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada". Os ligados à política e à História devem conhecer a frase. Que é de autoria de Lenin. Mas não é desta jovem guarda quequero falar hoje. Baseada na expressão "Jovem Guarda" é que a TV RECORD, no ano de 1965, lançou um programa de auditório que iria revolucionar e influenciar uma geração inteira. A geração da qual eu fiz parte. A minha geração. A geração dos que têm 70 ou 80 anos hoje. Nas célebres reuniões dançantes do Clube Comercial e Caixeiral, em Santa Maria, a gente dançava de rosto colado ao som das baladas românticas do "rei" Roberto Carlos. Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa comandaram o programa “Jovem Guardas” nas saudosas “Tardes de Domigo” da Record. E se encarregavam de, além de cantar, apresentar todos os artistas que comungavam com eles o mesmo ideal. O programa teve a duração de três anos (terminou em 1968) e lançou dezenas e dezenas de cantores. Devem ser lembrados (além de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa) os seguintes cantores : Celly Campelo, Vanusa, Eduardo Araújo, Silvinha, Martinha, Arthurzinho, Ronnie Cord, Ronnie Von, Paulo Sérgio, Wanderley Cardoso,Bobby di Carlo, Jerry Adriani, Rosemary, Leno e Lilian, Demétrius, Os Vips, Waldirene, Diana, Sérgio Reis, Sérgio Murilo, Trio Esperança, Ed Wilson e Evaldo Braga. Faziam parte do movimento as bandas : Os Incríveis, Renato e Seus Blue Caps, Golden Boys e The Fevers. Não existia violência. Drogas. Rachas. Gangs. E o máximo que ocorria era se tomar uma ou duas doses de vodka com Cirillynha, o refrigerante famoso feito na cidade mesmo há pouco ressucitado. Rostos colados. Corações disparando. Dançar abraçadinho. Tudo às escondidas. Porque mães vigilantes estavam sentadas às mesas cuidando todos os movimentos. Dezenas de namoros começaram ali. Ao som da "Jovem Guarda". Muitos dos cantores já morreram. Outros caíram no ostracismo. Outros sumiram sem dar notícia. Roberto Carlos - num extraordinário exemplo de vitalidade e talento - continua sendo o "rei". Não mais agora da minha geração. Mas de todos os românticos do país. Assim também, muitos casamentos acabaram. Sonhos. Carreiras. Vidas. Amores. Muitos amigos morreram. Muita coisa acabou. Teimosamente sigo lembrando duma época em que o amor nascia ao som de uma canção. O romantismo existia. E o amor perseverava. Através de poemas. Cartas. Telefonemas. Doce espera nas portas dos colégios. Hoje tudo mudou. As pessoas fazem amor pelo computador. Chats. E-mails. Messenger. Web cam. Vídeos. Nudes. Quando se ama através de uma máquina é sinal que algo está errado. Ou então eu - que já fui da "jovem guarda" - estou ultrapassado. E não me dei conta que há anos já faço parte da "velha guarda". É bem possível. E melancólico. Por derradeiro : naquela época a gente saia dos bailes do Esportivo, no sopé do morro, de mãos com a namorada e pela rua 7 de setembro e avenida Rio Branco atravessava toda a cidade a pé até a presidente Vargas sem medo de nada e sem ser molestado na madrugada. Não haviam assaltos, estupros, violência. Quem tentar fazer algo semelhante hoje – andar algumas poucas quadras a pé em pleno centro da cidade – pode ser considerado um abençoado se não for assaltado. Que saudade das pacíficas madrugadas santamarienses de outrora...

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

TIOS ENCANTADORES NÃO DEVERIAM MORRER - James Pizarro (DIÁRIO- 25.01.2022)

Já professor da UFSM, fui designado pela reitoria para representar a universidade e fazer palestra sobre Ecologia na cidade de Getúlio Vargas, a “sede”, onde eu passava férias nos meus tempos de piá. Falei para cerca de 200 pessoas no cinema da cidade, numa promoção da Delegacia de Educação da região. E pedi ao meu anfitrião um favor : eu queria visitar o recém-criado município chamado “Antiga Estação”, situado a uns 20 quilômetros dali. A outrora estrada barrenta está hoje asfaltada. E, em poucos minutos, lá estava eu a visitar as velhas instalações da ferrovia (ainda são as mesmas). A velha casa onde morava meu tio, pintada de marrom, onde eu passava as minhas férias na infância. Apenas dois funcionários na gare da estação que, na ausência de trens de passageiros, estão ali apenas para a fiscalização dos trens carregados de soja que dali partem em direção à cidade de Rio Grande. De onde a nossa soja é levada para países asiáticos, para se transformar em ração para porcos. Ou para países europeus, onde as pessoas já são superalimentadas e melhor saúde teriam se comessem menos. Enquanto parte do nosso povo passa fome e morre com o nariz achatado nas portas dos hospitais. Falei com um dos funcionários, o mais antigo, e ele bondosamente me proporcionou acesso aos livros antigos, já depositados no “arquivo morto” da estação. Ao folhear os mesmos, deparei-me centenas de vezes com a espalhafatosa e esparramada assinatura de meu saudoso Tio Cassal, autorizando isso ou aquilo. No pátio da antiga e abandonada casa, pude ver o poço - de onde tirávamos cristalina e pura água gelada - atulhado e transformado numa espécie de floreira. Um velho pé de plátano, com o tronco cheio de buracos e condenado à morte, completava o desolador quadro de abandono daquele pátio que foi tão importante nas minhas férias de guri. Ao lado daquele pé de plátano ficava uma gaiola, com o bicho de estimação de meu tio: um gracioso e canoro cardeal. A gaiola ficava com a porta permanentemente aberta. O cardeal comia nas mãos de meu tio, ao amanhecer. E, depois, voava para longe, passando o dia fora. Lá pelas 18h, servindo chimarrão para meu tio, ouvia ele dizer : “Vamos para o pátio que tá na hora do cardeal voltar”. Inacreditável ! O bichinho aparecia. E como por encanto, pousava no dedo indicador do meu tio, que o colocava na gaiola. Onde já estavam um pedacinho de banana mole, uma gema de ovo e alpiste com semente de girassol. Décadas depois, contei isso numa aula de Ecologia. Enquanto me virei para apagar o quadro-negro, tive o dissabor de ouvir este comentário de um aluno da primeira fila: “Que baita atochada! “Quer dizer: passei por mentiroso simplesmente porque estava contando... a verdade! Não se fazem mais alunos como antigamente. Que ainda tinham a perspectiva encantadora do mistério. Como também não se fazem mais tios inveteradamente encantadores. Nem tão pouco se fazem cardeais encantados com a liberdade, embora apaixonados por seu dono. Por que esses tios têm de morrer? Por que esses cardeais são condenados à extinção?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

NASCEU UM FEIJOEIRO DENTRO DOO DO MEU OPALA - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - edição de 11.1.2022)-

Meu primeiro carro foi um fusca 1300, branco, DA 1358, que comprei do médico e poeta Prado Veppo, meu saudoso e querido amigo, também padrinho de casamento. Com este carro fiz diversas viagens a Curitiba durante três anos no início dos anos 70, quando fiz meu curso de especialização em Ecologia do Departamento de Biologia na Universidade Federal do Paraná, a primeira universidade federal brasileira, criada em 1912. Mas também tive outros carros como Variant e Brasilia, até me apaixonar pelos Chevrolet Opala. Com três filhos pequenos, porta-malas enorme, banco traseiro espaçoso, era a meu juízo o modelo ideal para quem tinha prole numerosa e tinha que carregar todo tipo de tralha nas férias. Tive vários Opalas. Mas o que ficou mais famoso entre meus amigos – em especial entre meus alunos da UFSM e do cursinho - foi um Opala branco, duas portas. Por algumas razões que passo a alinhavar. Nunca entendi patavina de máquinas, motores, peças e marcas de automóveis. Nunca assisti corridas de fórmula-1. Quando pifava alguma coisa no motor numa viagem para praia, por exemplo, quem consertava era a minha mulher, que entende tudo de mecânica, tem caixas com ferramentas e sabe nome de chaves e especificações técnicas que aprendeu com seu pai. Entende de eletricidade, platinados, baterias, bobinas, marcas de baterias e assuntos afins que para mim soam como temas esotéricos. De sorte que, sem motivação alguma para carros, os únicos cuidados que tive com os mesmos sempre se resumiram a duas coisas : freios e pneus. O resto nunca dei a mínima importância. Óleo sempre mandei completar, jamais troquei. Jamais gastei dinheiro em lavagem de carro, ainda mais sendo professor de Ecologia. Como não gastava dinheiro com garagem, o carro posava na rua, em frente de casa e era lavado pela água da chuva. Quando caía um temporal e a chuva era demorada eu botava um calção e munido de esfregão ou esponja e sabão, descia para a rua com a gurizada da vizinhança e todo mundo me ajudava a lavar o carro. Era uma algazarra alegre da qual tenho muita saudade. Apesar da cara de espanto e do olhar sizudo de desaprovação de alguns vizinhos nas janelas. Nunca fechei as portas do carro durante a noite . Como eu deixava o carro na rua, com essa medida eu evitava que o mesmo fosse arrombado ou tivesse os vidros quebrados. Uma madrugada eu vi que tinha um cara sentado dentro do carro fumando. Desci e fui lá embaixo falar com ele que ficou muito assustado, pensando que eu estivesse armado. Tratava-se de um morador de rua, conhecido das redondezas, que estava sentado dentro do carro fumando e ouvindo música. Calmamente eu fiz a ele a seguinte proposta : - Eu te autorizo a dormir todas as noites dentro do meu carro desde que tu deixe o cinzeiro limpinho, porque eu não fumo e detesto cheiro de cigarro. Eu saio para a trabalhar antes das 7 e te trago um troço para comer de manhã. Topas ? Ele topou na hora. E dessa forma eu passei a ser em toda a cidade o único sujeito a ter um vigia noturno para cuidar do carro. E ele tinha teto para dormir, música ambiental e café da manhã. Também ficou famosa a história do porta-malas do meu carro. Porque a borracha do porta-malas apodreceu e caiu fora. Chovia dentro e entrava sol pelas frestas. Um dia por aquele espaço onde existia a borracha apareceu um belíssimo pé de feijoeiro. Que fizeram a alegria dos alunos. Que fizeram algazarra e batiam fotografias. Foram me avisar. Abri o porta-malas e lá estava a explicação : dos restos de sacos abertos de carvão para churrasco sobravam pó que serviram de substrato para germinarem algumas sementes de feijão que escaparam de sacos rasgados de feijão comprados do supermercado que, por fototropismo, foram atraídas pelo sol que entrava pelo do porta-malas. Um dia proibiram de circular os carros de placas laranja, lembram ? Deixei o carro estacionado em frente de casa sem usa-lo para não infringir a lei. Certo dia, ao chegar em casa, os vizinhos me avisaram que o meu Opala tinha sido guinchado. Fiquei surpreso. Achei que daria muito trabalho procura-lo, pois detesto burocracia. Fui a uma revendedora e comprei outro carro. Até hoje não sei o que fizeram com meu Opala. Nunca me comunicaram nada. Faz uns 20 anos isso. De vez em quando me bate uma saudade do coitado...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

CONFIANDO EM DEUS, UMO AOS 80 ANOS - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, 28.12.2021)

Meu pai sempre deixou bem claro que gostava mais do ano novo do que do Natal. Questão de temperamento ou motivos cristalizados na infância, não gostava do Natal. Também não era de frequentar igreja. Minha mãe acompanhava a opinião. Mas a gente tinha a entrega de presentes e os protocolares cumprimentos. Vez por outra, minha irmã puxava uma reza. Muitas vezes, devido ao orçamento apertado, ganhei sapatos, roupas e material escolar ao invés dos presentes que gostaria de receber. Era uma época dura. Meu pai levou anos a fio para construir a casa. E eu não reclamava. Pois entendia o sacrifício. Mas ficava chateado. Minha avó Olina sempre dava presentes do meu agrado. Anos depois, quando comecei a namorar quem viria ser minha mulher, passei a ter uma ideia diferente do Natal. Morava junto na casa dela, a vó Elvira Grau, com mais de 80 anos. Luterana, como Edith, minha sogra, que tocava órgão aos domingos no culto da igreja luterana de Santa Maria, RS, a primeira igreja alemã do Brasil a ter sinos em sua torre. Na noite de Natal, o coral da Igreja Luterana visitava a casa dos idosos da comunidade alemã. E entoava lindas canções em alemão. E faziam orações. Minha sogra partilhava cucas, doces feitos com esmero, habilidosa doceira que era. Eles comiam rapidamente, pois tinham de cantar em muitas casas e a noite era curta. Vera Maria, inspirada na educação dada pela mãe, sempre cuidou muito da festa de Natal em nossa casa. Muitos dias antes da data, ela fazia bolos, doces, cucas. Ficaram famosas as bolachas em forma de estrela com recheio de goiabada, que até hoje ela faz e que tanto sucesso tem no meio de todos. Nossos filhos sempre tiveram pinheirinho, presentes, guirlanda na porta da casa e, quando bem pequenos, até Papai Noel visitava nossa casa. Foram anos felizes. Não fui um pai perfeito. Fui o que eu sabia e podia ser. Mas sempre fui trabalhador. Dava aulas na UFSM. Nos cursinhos. Fazia palestras. Às vezes, falava mais do que 10 horas por dia. As crianças puderam ter sempre alimentação farta. Frequentaram os melhores clubes. Pude lhes dar cursinho pré-vestibular de excelente qualidade. Passaram no vestibular no primeiro exame feito. Entregamos ao mundo uma fonoaudióloga, uma fisioterapeuta e um assistente social. Claro, a virtude da formatura é devida ao talento deles. Certamente, não tivemos ingerência alguma. Se tivessem nascido em outra casa e com outros pais teriam alcançado o mesmo êxito. Tive meus equívocos comportamentais. Quando pai moço. E mesmo como pai já velho. Errei muito. Mas acertei também. Vera Maria terminou o curso de Educação Física depois do nascimento dos três filhos. Foi dureza. Foi diretora de uma das maiores escolas públicas da cidade. Mãe dedicada, usava todo seu salário para comprar roupas e presentes para os filhos. Com meus proventos, eu sustentava a casa. Minha mãe e minha sogra ajudaram na retaguarda da criação dos nossos filhos quando pequenos, porque trabalhávamos. Isso só foi possível porque sempre moramos na mesma cidade. Se não, teríamos mais dificuldades. Fruto de luta, acertos e erros, encontros e desencontros, fizemos a nossa parte. Lembro das palavras da reitora da UFN, ao me cumprimentar na formatura do nosso filho : "Sua família pertence ao fechado clube brasileiro onde o pai, mãe e todos os filhos têm curso superior". Os anos passaram. As dificuldades financeiras maiores passaram. Lutamos duro para isso. Por generosidade de Deus estamos com saúde. Estamos com seis netos. Uma neta formada em Engenharia de Produção, outro se forma em Medicina na próxima semana. Uma neta fazendo Pedagogia e outro fazendo Física. Outro neto entrando no Ensino Médio. E uma netinha de 5 anos na escolinha. Todos encaminhados. E na santa ceia que fizemos recordamos muito dos natais antigos. E nosso tempo de crianças. Quando, tementes a Deus, honrávamos pai e mãe. Sem jamais erguer a voz para eles. Quanto mais criticá-los. Lembramos dos cânticos alemães da vó Elvira. E dos cabelos loiros e olhos azuis da minha sempre amada vó Olina. Época em que a gente era muito feliz. E não sabia. Agradeço a Deus pelo ano que tive e rogo a Ele a caridade que me proporcione um feliz 2022, importante para mim. Quero ter a singela alegria de comemorar meus 80 anos, em outubro, com minha mulher e com todos meus descendentes e agregados.

domingo, 19 de dezembro de 2021

1958 - NO ANO DO CENTENÁRIO, CIDADE TEVE EXPOSIÇÃO DE BALEIA DE 60 TONELADAS - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - Seção MEMÓRIA - ediçãode 18.12.22021)

Toda vez que, longe de nossa cidade, conto o episódio do gaúcho que laçou o avião – fato amplamente noticiado por revistas nacionais e estrangeiras na época – com detalhes, endereços, fotos e nomes dos envolvidos, fui motivo de piada e tive o dissabor de ouvir frases do tipo “esses gaúchos têm cada história”. Até que reuni tudo o que se tinha publicado sobre o tema e publiquei extensa matéria sobre o ocorrido e publiquei em crônica, em blog e nas redes sociais. Uma segunda história que conto e me causa dissabor é quando digo que no ano de 1958, ano do Centenário de Santa Maria, um gigantesca baleia esteve por vários dias exposta à visitação pública na rua Niederauer na quadra existente entre o edifício Taperinha e o Clube Caixeiral. As pessoas duvidam da veracidade da história... Publiquei esta história na Linha do Tempo do meu facebook e recebi quase 300 comentários com as mais diferentes opiniões. Grande número de pessoas da mesma faixa etária minha me apoiando, avalizando o que eu tinha afirmado e confirmando que tinha visitado a tal baleia. Outros diziam que nunca tinham ouvido falar nessa baleia. E outros me gozando, me chamando de mentiroso. Cheguei a printar os comentários para publicar os mesmos junto com os nomes de seus autores nessa página memorialística de hoje. Depois, achei mais elegante não faze-lo. Essa baleia é d espécie JUBARTE e foi capturada nas costas da Espanha. Depois de percorrer vários países da Europa, África e América do Sul, chegou ao porto de Santos, SP. Dali partiu para várias regiões do Brasil para exposições de “entretenimento de caráter científico”, como dizia seu proprietário, um certo sr. J. Maturana. A baleia, chamada de MOBY DICK, tinha 20 metros de comprimento e 60.000 quilos. Era transportada por um caminhão de 18 rodas. Chegou em Santa Maria procedente do município de Alegrete e ficou estacionada no centro de Santa Maria, entre o Caixeiral e o Taperinha. Ao redor do caminhão foi estendida uma lona preta formando uma espécie de muralha e corredor . O espectador pagava entrada e adentrava por um lado, circundava todo o caminhão observando aquele imenso animal e saia pelo outro lado. Havia um forte cheiro de formol, pois o mesmo estava conservado em 7000 litros de formol que lhe haviam sido injetados para prevenção contra a putrefação. O proprietário explicava – lembro bem – que a baleia já estava sendo exposta no caminhão há três anos e que depois de Santa Maria, eles rumariam para expo-la nas cidades de Cachoera do Sul, Pelotas e Rio Grande. Quero fazer um agradecimento público à arquivista Danièle Xavier Calil, diligente e dedicada chefe do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria que que de maneira rápida e educada me proporcionou acesso às páginas de A RAZÃO de1958, podendo dessa forma provar aos incrédulos que a baleia realmente esteve no centro de Santa Maria. Infelizmente, à época, não haviam as facilidades das máquinas fotográficas portáteis e nem os celulares, de sorte que não consegui registro fotográfico da MOBY DICK.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A SOLIDÃO E A AMARGURA DUMA PERNA QUEBRADA... - James Pizarro (DIÁRIO - crônica, 14.12.2021)

Raramente escrevo sobre futebol. Mas lembrei hoje da época em que o Figueroa, ídolo colorado, deixou de jogar. O clube trouxe para o lugar do chileno um jogador de nome Salomon. Não me lembro se argentino ou uruguaio. Para tentar apagar a imagem de Figueroa. O chileno Figueroa sabia falar bonito. Juntava direitinho as palavras. Tinha a excelente impostação de voz. Jeito de declamador até. Cabelos ondeados. E cotovelos de ouro. Fazia uma bela figura na televisão. A torcida feminina adorava Figueroa. A alma colorada se encantou com o ele. Além de jogar excepcionalmente bem, era um emotivo. O torcedor colorado tinha um capitão bonito, inteligente, craque. Ele fez história. Fez nome. Foi legenda. E se foi... Para o seu lugar – argentino ou uruguaio ? – a diretoria do Inter trouxe Salomon. Um homem enorme. Braços pendentes, lembro bem. Algo desengonçado. Uma certa fisionomia de cavalo. E – pasme o amigo que me lê - tinha um resplandecente dente de ouro bem na frente. Um belo trabalho odontológico, me disse um amigo gremista com certo sarcasmo disfarçado. Eu diria que ele lembrava a figura do Stallone. Mas a torcida colorada, passional como sempre foi, não simpatiza com Salomon. Ao invés do bonitão Figueroa de cabelos ondeados e sorriso sedutor, a diretoria traz um sujeito de face equina com um dente de ouro ? A torcida não perdoa. A torcida não ama Salomon. A própria imprensa que ajudara no endeusamento de Figueroa tem má vontade com Salomon. E exibem fotos com sua chuteira e seu pé, Um pé de número 50 !!! O coitado do Salomon não consegue se sair bem. Não acerta. Não joga. Pelo menos não joga aquilo que a torcida esperava de alguém que tinha o peito de substituir Figueroa.. E assim Salomon foi ficando. Jogando mal. Até que o Penharol decidiu compra-lo. Chegou a ser inscrito pelo time do país vizinho para disputar o campeonato nacional deles. Afinal, era uma solução boa para todos. Salomon se livrava do Inter. O Inter se livrava de Salomon. Aí veio o jogo de despedida de Salomon, um GRENAL. Jogado numa quinta-feira, segundo minhas anotações. Uma partida que não deveria ter sido jogada por ele. Uma partida mal gerada. Uma partida com poucos torcedores, inclusive. Nem muitos jogadores titulares tinha. Mas Salomon jogou porque queria se despedir da torcida. O Inter venceu. Mas Salomon, diante de poucos torcedores que nem queriam se despedir dele, foi agredido barbaramente por um “colega” de profissão. E fraturou a tíbia e a fíbula. Que naquela época ainda chamavam de perônio. O Salomon-do-Dente-de-Ouro tinha virado agora Salomon-de-Perna-Quebrada. Todos os jornais abriram manchetes para Salomon. Disseram até que ele passaria seis meses engessado. Falaram que iriam amparar financeiramente Salomon, um atleta de 28 anos. Mas depois daquela noite, em duas ou três semanas, ninguém mais falou ou escreveu algo sobre Salomon. Nem se sabe se o Penharol o contratou com a perna quebrada. Ou mesmo se ele voltou a jogar futebol. Porque na desgraça as pessoas têm memória curta. O que certamente ficou de tudo foi a um atleta com sua perna mais fina. Aposentado do seu trabalho pela deslealdade de um colega. Com sua amargura. E com sua solidão.