quinta-feira, 25 de agosto de 2016

MUDAR O MUNDO - James Pizarro (Jornal A RAZÃO, 25/8/2016)


COLUNISTAS

Mudar o mundo


James Pizarro

por James Pizarro em 25/08/2016
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A HIPOCRISIA - Todo dia que tem sorteio da Mega-Sena eu jogo três cartões, sempre com os mesmos números. Estou tentando ganhar para provar uma verdade a respeito da nossa porca sociedade de consumo de mundo capitalista. Se eu fosse vencedor e ganhasse toda bolada sozinho, o pessoal que me critica e me chama de “gordo louco” imediatamente passaria a me chamar de “fofinho excêntrico”. Ou “obeso bizarro”. Por aí...Logo ressurgiriam das cinzas, parentes distantes que nunca falaram comigo e nem responderam minhas mensagens de Facebook. Conhecidos escrevendo cartas melosas pedindo ajuda financeira. E como tudo é possível, alguma cinquentona com um filho maior de idade, a tiracolo, exigindo um DNA. Seria a consagração da hipocrisia!
SINA - Depois de terminada a Olimpíada-2016 deveria começar a vida REAL no Brasil. Mas começa a propaganda eleitoral gratuita. Que pecados temos de pagar? Que sina tem o povo brasileiro...
MUDAR O MUNDO - Ao sabor da imaginação e sem o menor critério científico, creio que três grupos de pessoas podem mudar o mundo. Ou, pelo menos, mudar o seu próprio mundo. Os ingênuos. Os de mais de 40. Os que estão no fundo do poço.
Os INGÊNUOS: por desconhecerem o paradigma, os modelos estabelecidos pela sociedade, pelas instituições, etc...eles ousam tentar coisas novas. E muitas vezes conseguem fazer coisas impossíveis

Os DE MAIS DE 40: as pessoas que se aproximam do meio século de existência às vezes ficam nauseados com sua atividade e abandonam tudo. Conheço estudantes de cursos superiores que, prestes a se formar, abandonaram o curso. E foram meditar nas montanhas do Tibet. Ou vender pastéis na praia e praticar surf. Isto é, eles ousaram tentar a felicidade. Eles têm de revolucionar para poder sobreviver.
Os do FUNDO DO POÇO: são aqueles que chegaram ao fim. Não conseguem enxergar a luz no final do túnel. Chegaram a cogitar a possibilidade do suicídio. Eles precisam espernear. Ser criativos. Tentar o impossível.
Em qual destes grupos você se enquadra?

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

ELKE, A MARAVILHOSA - James Pizarro (jornal A RAZÃO, 18/8/2016)


COLUNISTAS

Elke, a Maravilhosa


James Pizarro

por James Pizarro em 18/08/2016
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Formou-se em Letras. Foi professora. Tradutora. Intérprete. Era poliglota. Falava português , russo, alemão, italiano, espanhol, francês, inglês, grego e latim. Casou oito vezes. Seu grande amor foi um saxofonista brasileiro afrodescendente. Participou de três dezenas de filmes, entre os quais “Xica da Silva” e “Pixote, a lei do mais fraco”. Fez dez peças de teatro.
A partir de 1960 passou a atuar como modelo. Atendia pelo nome de Georgvnievia . Nascida russa. Filha de pai russo e mãe alemã. Mas se tornou uma figura realmente popular em todo o Brasil pela sua participação como jurada de programas de calouros, especialmente nos programas do Chacrinha e Silvio Santos. Surge, então, no cenário artístico nacional, a figura única da alegre, excêntrica, personalíssima de ELKE MARAVILHA !
Usando roupas especiais, coloridas, extravagantes, bizarras para a sua época - criadas por ela mesma – com adereços chamativos, Elke era a imagem da própria alegria e deslumbramento pela vida. O que mais me fascinava nela era a sinceridade e a honestidade com que expunha suas ideias e opiniões nas entrevistas para a mídia. Não raro, suas opiniões produziam polêmica com o falso moralismo vigente nos sempre eternos puritanos de plantão.
Lembro especificamente de duas entrevistas que causaram furor à época, cerca de trinta anos atrás. Em uma delas, Elke falava que já tinha experimentado diversos tipos de drogas, mas não tinha gostado de nenhuma. Em outra, Elke falava que não tinha vocação para ser mãe e que s por isso tinha feito três abortos. ´
Estas opiniões desassombradas para a época lhe custaram muitos incômodos, artigos raivosos pela imprensa, ameaças de processos e ameaças de demissão nas TVs onde trabalhava. Chacrinha sempre a defendeu com unhas e dentes, pois eram amigos verdadeiros.
Nunca teve papas na língua. E por isso também teve problemas com a Lei de Segurança Nacional, pois em 1971 foi presa e teve sua cidadania brasileira cassada. Anos depois obteve cidadania alemã.
Na madrugada do dia 16 de agosto, Elke Maravilha nos deixou. Aos 71 anos, partiu para sua definitiva viagem espacial. Rumo às estrelas. Onde vai emprestar seu brilho e sua purpurina à Via Láctea. Onde certamente – à frente da comitiva de tantos outros artistas que já partiram - estará Chacrinha, de braços abertos, para um abraço eterno. Adeus, Elke ! Você foi nossa última e talentosa transgressora!

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

UNIVERSO DE GURI - James Pizarro (Jornal A RAZÃO, 11/8/2016)


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Universo de guri


James Pizarro

por James Pizarro em 11/08/2016
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Passei minha infância numa casa situada no alto dos barrancos da Rua Silva Jardim, em Santa Maria. Distante uns cinquenta metros do arroio Cadena. Que naquela época corria a céu aberto. Hoje está canalizado. E corre anônimo sob o Parque Itaimbé. O Cadena tinha lambaris. Tartarugas. Sapos. Rãs. Cobras. E era cercado por uma mata de galeria.
Minha casa ficava ao lado da casa da minha avó materna, dona Olina. Os dois pátios eram unidos. Formavam uma espécie de chácara na zona central da cidade. Onde existia de tudo. Pitangueiras. Laranjeiras. Limoeiros. Bananeiras. Araçás. Jaboticabas.
Na casca dessas árvores quantidades de orquídeas. E toda uma variedade imensa de chás. Que compunham a medicina caseira da minha avó. Uma bem cuidada horta com canteiros que eram adubados com esterco de galinha, proveniente de um enorme galinheiro. Onde estavam desde inocentes garnizés até galinhas de raça, de elevada postura.
Minha avó criava cabritas. Até meus onze ou doze anos sempre tomei leite de cabra. Quentinho. Espumoso. Direto do recipiente onde minha avó apojava todo dia aquelas cabritas. Todas elas pretas.
Também tinha gatos. Que não eram da minha simpatia. E cachorros, estes sim os meus prediletos. Os gatos eram os referidos do meu avô Fredolino. Os cães eram os favoritos de minha avó e de minha mãe.
Meu pai tinha caturritas que azucrinavam os ouvidos da gente chamando-lhe pelo nome: “Alfeu, Alfeu, Alfeu...”
Existiam coelhos angorás que cavavam túneis e tocas por todo o pátio. Na frente da casa um belo e cuidado jardim.
Enfim, meu pátio era uma coisa inimaginável para a geração de crianças de hoje. Criadas em apartamentos. E que só conhecem galinhas congeladas. E demais animais apenas pela televisão.

Meus quatro avós morreram. Meus sogros também. Meus pais também se foram.
Minhas cadelas Helga, Madonna e Hanna já partiram.
Do meu apartamento vejo as torres da catedral. Os morros. A casa do Mariano.
E no silêncio da madrugada – com espanto – pareço ouvir uma caturrita gritando “Alfeu”.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

AS OLIMPÍADAS - James Pizarro, jornal A RAZÃO, 4/8/2016.


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As Olimpíadas


James Pizarro

por James Pizarro em 04/08/2016
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O cronista tenta alinhavar retalhos do cotidiano e oferecer algo palatável ao leitor. Nem sempre consegue. Escorrega às vezes para o intimismo e – movido pela montanha russa de sua sensibilidade – faz confissões pessoais que, segundo os mais exigentes, não trazem sabor à crônica.
Outras vezes, o cronista tem sorte. Há um tema pairando no ar que interessa. Um defunto ilustre que abriu um vácuo na comunidade. Um assassinato que chocou a todos. Um acidente. Uma obra há muito esperada e que foi inaugurada. Um artista ilustre que nos visita. Enfim...
Nesta quinta-feira, o assunto não poderia ser outro a não ser as...Olimpíadas! Poderia ter consultado o Dr. Google e para demonstrar um certo ar de erudito e de conhecimento geral, começar falando sobre a Grécia, a chama olímpica, o barão Pierre, traçar um retrospecto de todas as Olimpíadas, falar sobre os países vencedores, os atletas mais famosos de todos os tempos.
Poderia falar – como fiz sobre a Copa do Mundo – sobre os problemas diversos ocorridos com as obras da Vila Olímpica, principalmente o atraso no cronograma de entrega das mesmas. Sobre a poluição da lagoa Rodrigo de Freitas. Sobre o momento de crise econômica pelo qual passa o país, incompatível em sediar jogos e gastos de tal magnitude, quando existem áreas sensíveis necessitando dessas verbas vultuosas (saúde, educação,segurança).
Poderia falar, mas de que adiantaria? Os compromissos foram assumidos por governantes brasileiros e as Olimpíadas são um fato. Estão aí. Seria patriótico de minha parte ficar torcendo contra o Brasil? Evidente que jamais eu faria isso!
Mas quero deixar bem claro que não vou torcer para cartolas, politiqueiros, autoridades, aproveitadores, empreiteiros,dirigentes, figurões de toda ordem, mamadores do erário público.
Vou torcer pelos atletas brasileiros, estes verdadeiros campeões da superação, que a tudo venceram na maior parte dos casos sem apoio de ninguém, treinando sem as mínimas condições que os modernos aparelhos de ginástica oferecem. Contaram apenas com o heróico e dedicado trabalho de professores de Educação Física das escolas públicas, geralmente mal pagos e sem condições de trabalho: graças ao olho clínico desses professores esses atletas foram descobertos e apareceram para o mundo.
Vou rezar com todo fervor para que nosso bom Deus proteja nosso povo, os atletas de todos as nações que nos visitam, os turistas, para que todos estejam a salvo da insanidade de ataques terroristas que possam manchar de sangue nossas Olimpíadas. Seria pedir demais que o leitor hoje, em suas orações – seja qual for sua crença – pedisse o mesmo a Deus?

sábado, 30 de julho de 2016

O BOLOR DOS ANOS - 28/7/2016, jornal A RAZÃO, Santa Maria, RS


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O bolor dos anos


James Pizarro

por James Pizarro em 28/07/2016
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A turma entrou na UFSM em 1963. Quase todos pobres. Ou de classe média baixa. Dois ou três de famílias bem postas financeiramente.
Todos amigos. Alegres. Parceiros de caminhada.
Cheios de vontade de mudar o mundo. Nunca alguém sentiu qualquer diferença de classe social.
Veio a formatura. Ano de 1966. Cine Glória cheio. Reitor Mariano e seu discurso costumeiro. Enaltecendo a UFSM. Fazendo profissão de fé nos formandos. Tocando no sentimento dos familiares.
Passaram-se os anos. A turma tomou por hábito fazer encontros periódicos.
De cinco em cinco anos era certo o almoço e janta no Restaurante Augusto.
Todos vinham de todos os rincões do país.
Alguns casados. Com filhos. Felizes.
Assim foi nos dez anos de formatura.
Vinte anos. Trinta anos. Quarenta anos.
Na reunião dos quarenta anos de formados quinze já haviam morrido.
Uns estavam aposentados.
Outros haviam abandonado a profissão.
Outros estavam doentes.
Uns viraram alcoólatras.
Outros estavam no segundo ou terceiro casamento.
Um tinha assumido sua homossexualidade.
Outro não tinha dinheiro para pagar o galeto e a bebida. Pediu emprestado para os colegas.
O mais pobre da turma tinha se transformado em prefeito e defendia o Maluf. Logo ele que, quando estudante, era ardoroso defensor do Brizola. Ficou calado durante o encontro. Engravatado. Empertigado. Solene. Logo ele, que assistia as aulas de chinelos de dedo.
Chegada a época dos cinquenta anos de formatura, ninguém mais entrou em contato. O mentor das festas, organizador dos encontros, morreu.
A juventude morreu. A amizade morreu. O quadro de formatura, no corredor escuro, está torto e com algumas teias de aranha. As fotos com aqueles rostos incrivelmente jovens, estão atacadas implacavelmente por fungos.
E no corredor do prédio, apenas o silêncio.