segunda-feira, 16 de julho de 2018

JOVENS : “ON THE ROAD” ! NÃO TENHAM MEDO DE OUSAR ! - JAMES PIZARRO (crônica publicada em 17.7.2018, pág.4, Diário de Santa Maria)


Este livro é praticamente um registro "tupiniquim" da minha geração, só que escrito sob o ponto-de-vista da juventude norte-americana. Eu, pessoalmente, me identifico demais com o narrador do livro (Sal Paradise) pelo seu amor ao jazz, à literatura e pela vontade de escapar de Santa Maria, RS quando jovem para correr o mundo.

Se tivesse saído do interior gaúcho, adolescente e sozinho, não sei se estaria ainda vivo. Depois de formado, fui chantageado a ficar, embora tivesse tido oportunidades para uma bolsa de estudos de dois anos na Holanda. Depois, um convite para dar aula na Universidade da Paraíba e morar em João Pessoa. Depois, ficar em Curitiba dando aula no Cursinho Bardal. E depois...depois...depois... Fui coagido pela família a ficar.

Enfim, fui domesticado pelo sistema vigente à época. E não culpo ninguém. Pois eu me submeti. Não tinha a devida dose de revolta e loucura. Fiquei a vida inteira numa cidade onde muitos ainda praticam o esporte de cuidar da vida de todo mundo. Convivendo com suscetibilidades (para ser bem educado).

E - principalmente - onde a visão curta de muitas pessoas não lhes permite a pacífica convivência com os diferentes. Isso deve ocorrer em todas as cidades interioranas, eu sei. Isso foi muito bem retratado numa série de filmes americanos sob o título “A Caldeira do Diabo”. Tanto é verdade que me tornei – para alguns chatos - um excêntrico, um maldito. Embora fosse considerado um destemido, um desbravador, um polêmico (na visão dos meus alunos).

Sempre terei essa dúvida : se fiz bem ou se fiz mal em ficar tanto tempo. Mas consertei em parte na velhice o meu equívoco, abandonando tudo e todos (exceto minha mulher) e indo morar na praia, com gaivotas livres  e cachorros errantes. Na maravilhosa praia de Canasvieiras, na mágica ilha de Florianópolis, onde fiz uma experiência temporária de uma década. E depois voltando. Com saudade dos amigos, dos morros, dos parentes. E para morrer.

Mas voltando ao "ON THE ROAD", livro que me foi presenteado há muitos anos pelo saudoso amigo e colega da UFRGS, geneticista Flávio Lewgoy, à época presidente da AGAPAN, Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. Sal Paradise é o narrador de On the road - "pé na estrada". Ele vive com sua tia em New Jersey, Estados Unidos, enquanto tenta escrever um livro. Ele é inteligente, carismático e tem muitos amigos. Até que em Nova York ele conhece um charmoso e alucinante andarilho de Denver de personalidade magnética chamado Dean Moriarty.

Dean é cinco anos mais novo que Sal, mas compartilha o seu amor por literatura e jazz, e a ânsia de correr o mundo. Tornam-se amigos e, juntos, atravessam os Estados Unidos, deparando-se com os mais variados tipos de pessoas, numa jornada que é tanto uma viagem pelo interior de um país quanto uma viagem de auto-conhecimento - de uma geração assim como dos personagens.

Sugiro a todos os jovens que leiam este livro. E se tiverem vontade de ousar, OUSEM !!! VOEM !!! PARTAM !!!

As estrelas esperam por vocês ...


terça-feira, 3 de julho de 2018

NO TEMPO EM QUE SE USAVA “COM LICENÇA” E “MUITO OBRIGADO” - JAMES PIZARRO - Diário de Santa Maria, edição de 3.7.2018,pág.4


Trem Minuano. Zebrinha da Loteria Esportiva no "Fantástico". Hugo da Flauta. Calça Topeka. Tio Santo. Negativo de foto. Tivico. Língua do "P". Sargento "Farol" da Banda do Sétimo. Emulsão de Scott. Abelin assoviador. Coppertone. Restaurante Moby Dick. Naftalina. Cabaré Balalaika.
Blusa de banlon.  Gruta Azul. Pílulas de vida do Dr. Ross. Restaurante Gruta da Imprensa. Vemaguet.  "Senadinho" do Clube Comercial. Rural Willys. Garçon"Chico" do Clube Caixeiral.
Bobs para o cabelo. Trem Húngaro. Piadas de caserna das "Seleções". Revista "Realidade". Papel carbono. Trem "noturno" para Porto Alegre. Xampu de ovo. Revistaria da gare da estação ferroviária.
Elefantinho da Shell. Stand do Wilson na Segunda Quadra da Bozano. Pó compacto Cashmere Bouquet. Matinê dominical das l3h15 do Cine Imperial. Leque feminino. Álbum de figurinhas "Marcelino, pão e vinho". Piteira para cigarros. Cabaré da Valda. Atirei o Pau no Gato. Retreta na praça Saldanha Marinho. Óleo Singer. Central de Máquinas. Disco de 78 rotações. Relojoaria Péreyron. Cobertor Sonoleve. Casa Feira das Sedas. General Osvino Ferreira Alves. Sabonete Madeira do Oriente. Sibrama. Modess Pétala Macia. Calçados Morisso. Vidal Castilhos Dânia. Elevador Ótis. Brim Coringa Sanforizado. Bel Som. Pyrex. Livraria Dânia. Roy Rogers. Casa Escosteguy. Buck Jones. Casa "A Facilitadora".  Gabriel Abbott.  Tarzã. Guarany Atlântico.
Corante Guarany. Bibelô. Bidê. Revista Intervalo. Revista Sétimo Céu. Revista Grande Hotel. Revista "O Cruzeiro". Heitor Silveira Campos. Revista do Globo. Relógio Cuco. Deocleciano Dornelles. Bomba de Flit. Mimeógrafo. Toca discos. Caminhão FNM. Dom Antônio Reis. Flâmula. Monark. Pneu Balão. Jardim Tropical ao lado da catedral.
Camisa Volta ao Mundo. Café Visita. Amigo da Onça. Café Cometa. Repórter Esso. Goma Arábica. Montanha Russa. Casa Cristal.
Sapato Vulcabrás. Neocid. Enciclopédia Barsa. Tesouro da Juventude. Clube Juvenil Toddy. Escola de datilografia. Corte meia cabeleira. Corte Principe Danilo. Cabaré da Valda e da Geni. Casa das Malas. Joalheria Troian.
Binaca. Envelope verde-amarelo para correspondência aérea. Alpargatas Roda.
Monóculo com foto. Bombril na antena. Enceradeira. Fotonovela. Decalque.
Araldite. Simca Chambord. Galocha. Chaveiro com pé de coelho. Meia-sola.
Máquina de moer carne. Sabonete Eucalol. Maiôs Catalina. Varig na Noite. Casa Aronis.
Sabão Rinso. Dedal. Uniforme de Gala.  Glostora. Leite de Rosas. Leiteiro. Fábrica de Mosaicos  Ângelo Bolsson.
Jogo de futebol de botão puxador. Mingau de aveia Quaker. Jeca-tatu. Saci-pererê. Reizinho.
Drops Dulcora. Penico. Cartão de Natal. Mercurocromo. Espiral contra mosquito. Aluno levantava quando professor entrava na sala.
Talha. Filtro de Barro. Calça faroeste. Toca-fitas. Aqua Velva. Soldadinho de chumbo. Topo Gigio. Os Sobrinhos do Capitão. Kichute. Conga. Tênis Bamba. Manilhas Kozoroski. Casa Herrmann. Usavam-se as expressões “com licença” e “muito obrigado”.
Ovo de madeira para cerzir meia.  Crush. Cyrillinha. Bambolê. Sabonete Lever.
Instituto Universal Brasileiro. Tigre da Esso. Calçadeira. Slide. Quinta Seibel.
Três em Um. Roupa engomada. Revista do Rádio. Cadernos do MEC. Cadernos Avante.  Clube do Bolinha. Casinha na árvore. Cadeiras na calçada. Velar o defunto em casa. Seringa de vidro para dar injeção. Suadouro contra gripe. Escaldapé. Biliquê contra gonorréia.
Rodelas de batata inglesa na testa contra dor-de-cabeça. Gemada com canela.
Manta de lã contra caxumba. Entregador de vianda.
*Se você tiver conhecido 90% disso tudo, certamente terá mais de 70 anos...

segunda-feira, 18 de junho de 2018

NO TEMPO DA SENSIBILIDADE ECOPOLÍTICA - James Pizarro (crônica no Diário de S. Maria, pág.4, 19.6.2018)


O mais antigo inimigo de incautos pássaros em nossa cidade, como de resto em todo território gaúcho, era o estilingue ou funda, o popular " bodoque ". No final dos anos 80, início dos anos 90, uma indústria de brinquedos de SP lançou na praça uma forma moderna de estilingue, com uma peça de metal em forma de letra Y e com duas tiras de borracha de uso cirúrgico, substituindo as velhas tiras feitas de câmara de pneus de automóvel. Ainda havia um “melhoramento” : uma empunhadura que se encaixava no antebraço do atirador. Este tipo de artefato passou a ser vendido em Santa Maria, tendo eu recebido denúncia contra os Supermercados Trevisan (denúncia feita pela Associação Protetora dos Animais, através da ativa militante, professora Vera Resende). A rede Trevisan de supermercados era a mais importante da cidade e seu Presidente, meu amigo João Trevisan, era inclusive o presidente da Associação de Supermercados do RS. Fui falar com ele pessoalmente e fiz ver que, um daqueles bodoques modernos era capaz de atirar uma bola de gude (nossa tradicional "bolita") a 80 km/hora, cerca de 25 metros por segundo, com um alcance efetivo de 30 metros. Disse que, a essa velocidade, abriria um buraco na cabeça de uma criança. Falei sobre o instinto de violência desenvolvido nas crianças, a mortandade de pássaros em nossa região e outros argumentos. Na minha frente, João Trevisan chamou o gerente-geral da principal loja dos supermercados que dirigia e ordenou que fosse retirada das prateleiras e gôndolas todos os bodoques e que fossem devolvidos à fábrica paulista e cancelados os novos pedidos. Depois disso, fiz uma série infindável de palestras nas escolas de ensino fundamental de nossa cidade, falando sobre a necessidade da gente ter mais pássaros, mais ninhos, mais vida. Foi um golpe de morte no uso de bodoques em nossa cidade, do qual me orgulho ter participado. Faço este registro para a posteridade sobre a sensibilidade do empresário João Trevisan. Que muito me ajudou na luta contra os bodoques nesta Santa Maria.

A convite da Prefeitura (Intendência) e da Câmara de Vereadores da cidade uruguaia de Punta del Este, em companhia de Dom Arturo Vetuschi, à época cônsul do Uruguai em Santa Maria, estive fazendo a palestra inaugural do "Primeiro Encontro de Ecoturismo e Meio Ambiente de Punta del Este". No dia  10 de outubro de 1985, às 15:00 horas, no Ginásio Municipal de Punta del Este completamente lotado por 4000 crianças da faixa etária entre 9 e 12 anos, fiz palestra sobre a fauna e flora do Cone Sul. No final da palestra, cantei diversas músicas ecológicas em espanhol, com um coral de 4000 vozes, o que me emocionou intensamente. O fato foi presenciado pelos vereadores de Santa Maria (Ady Forgiarini, Arnildo Martinez Muller e Mosar da Costa) e pelos estudantes do Curso de Turismo da faculdade das Irmãs Franciscanas, sendo transmitido ao vivo pela TV e pelas rádios da cidade uruguaia. Este fato motivou convite para fazer palestras em outras cidades uruguaias. Tenho em meus arquivos os recortes de um jornal uruguaio, com a manchete : "Maestro Pizarro, un fenomeno de comunicacion". O cônsul Dom Arturo Vetuschi trouxe a filmagem do fato que foi reproduzida pela TV Câmara de Santa Maria.
Bons tempos de sensibilidade empresarial e política para o meio ambiente...


sexta-feira, 8 de junho de 2018

608 HORAS PARA PENSAR - James PIzarro (8.6.2015)

Fiquei 17 dias internado...17 dias x 24 horas = 608 horas. Medidas de sinais vitais a cada 4 horas. Taxas. Soros. Antibióticos potentes. Coleta de material para exames. Várias refeições e lanches. Óleo da canola na perna com erisipela. Curativo no cateter da subclávia. Insônia. Programas de rádio. TV. Piedosas visitas do padre. Consoladoras e simpáticas conversas com os paramédicos. Tempo que não passa. Pensamentos fervendo a mil. Visitas inesperadas de pessoas surpreendentes. Visitas prometidas de pessoas queridas e que não se concretizaram. Visitas de pessoas desconhecidas e que emocionaram um velho coração. Dramas humanos pungentes de doentes de quartos vizinhos. A solidariedade pela dor. Passeios de mãos dadas pelos corredores com jovens fisioterapeutas e seus exercícios aeróbicos nas janelas. Macas que cruzam com cadáveres cobertos com lençóis. Cadeiras de rodas com doentes baixando e outros dando alta. Pessoas abraçadas chorando um óbito. Outras sorrindo comemorando o nascimento de um neto. Eis a rotina de um grande hospital. Não é um local só de tristezas. E de Morte. É um local de coisas alegres. Renascimentos. De brindes à Vida. Nunca fiquei tão convicto na minha vida de que a coisa mais importante é a SAÚDE !!! Vou mover céus e terras, de hoje em diante, para investir na melhor qualidade de minha saúde (que já é muito boa). Mas que - por idiotice - não vinha lhe dando o devido valor.