segunda-feira, 5 de novembro de 2018

PERDOAI A BURRICE, MÃE MEDIANEIRA E ROGAI POR NÓS ! - JAMES PIZARRO (página 4 do DIÁRIO DE SM, edição de 6.11.2018)


Em 2007, a Secretaria Municipal de Turismo de Santa Maria – leia-se Paulinho Ceccin – pensou em construir um monumento em homenagem à N. S. Medianeira, padroeira do Rio Grande do Sul (muita gente pensa que é São Pedro). O monumento seria construído no Morro do Cechella e teria todos os equipamentos modernos em seu entorno, como vias de acesso, capela, lancherias, mirantes, museu para contar a história da santa, restaurantes, vendas de lembranças e postais, policiamento.

Seria uma obra gigantesca que atrairia milhares de turistas brasileiros e estrangeiros, pois seria o maior monumento brasileiro do gênero, planejada por artistas e técnicos santa-marienses, sob a direção do J. Amoretti. A prefeitura municipal não gastaria nada, pois todo dinheiro viria de doações, captação de recursos particulares e verbas do Ministério do Turismo.

Na edição de 28/29 de julho de 2007 (sábado/domingo) de A Razão, publiquei e assinei matéria de página inteira sob o título “Até a Medianeira é repudiada aqui !? “. Fi-lo porque tão logo foi lançada a ideia pela construção do monumento setores obscurantistas iniciaram feroz campanha contra a iniciativa do então secretário Paulinho Ceccin. Essas pessoas nem se deram conta da vocação que Santa Maria tem para o turismo religioso. E ficaram contra a ideia mas não fizeram proposta alternativa em seu lugar.

Nunca falei sobre isso com o Paulinho Ceccin. Nem com dom Hélio. Nem com ninguém. E ninguém me pediu para escrever a favor à época porque nunca aceitei escrever coisas por encomenda. Nem tão pouco apoiei a iniciativa por ser católico apostólico romano, praticante e convicto. Quisessem os umbandistas construir monumento semelhante em homenagem à Iemanjá, estaria eu a favor. Quisessem os meus amigos espíritas homenagear Allan Kardec com um monumento de igual tamanho, contariam com meu apoio. Sou de profunda formação ecumênica. E sempre fui A FAVOR DO DESENVOLVIMENTO E DO TURISMO DA MINHA CIDADE NATAL !!!

Tivesse o projeto sido aprovado e construído teríamos hoje no morro do Cechella o maior monumento religioso do Brasil iluminando a noite santa-mariense: a santinha em sua posição original, de braços abertos, feericamente iluminada, maternal e generosamente acolhendo em seu seio todos os santa-marienses e gaúchos. Além do turismo rendendo divisas para nosso município.

Que Nossa Senhora Medianeira ilumine a cabeça burra dos muitos que teimam em lutar contra o progresso de nossa querida cidade natal.

Oremos, pois, nessa nova edição da romaria que as luzes divinas iluminem os neurônios cerebrais das nossas autoridades e de todos aqueles que – independentes de partido político ou credo religioso – possuam poder e amem nossa Santa Maria.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

COM OLHOS DE AMOR DO TEMPO ANTIGO - James Pizarro (página 4 do DIÁRIO de SM, edição de 23.10.2018)


Família da classe média do interior gaúcho.
Pai comerciário. Caçador de perdizes. Dono de um carro antigo. Um velho Ford "de bigode".
Mãe professora de piano e dona de casa. Três filhos pequenos. Duas gurias e um piá.
Durante as férias viajavam para a pequena cidade de Cacequi.
Estrada de chão batido. Mar de lama quando chovia. O valente Ford atolava. O pai descia. Botava correntes ao redor dos pneus.
A mãe puxava a cortina de couro das janelas. As três crianças encolhidas no banco traseiro. Frio de renguear cusco. Chuva inclemente.
Chegavam ao destino horas depois. Passar alguns dias na "casa" do irmão do pai. Na realidade, uma hospedaria. No recinto da estação ferroviária. Abrigava passageiros do trem. Dava comida. Servia lanches.
Os irmãos maiores toleravam essas "férias". A menor das gurias detestava. Ficava olhando aquela gente estranha. Velhos gaúchos pilchados. Fumando palheiro. Tomando seu gole de cachaça. Chimarreando. Comendo o prato feito que a tia servia aos hóspedes. Enquanto a mãe ajudava na cozinha. E o pai conversava fiado.
A menina odiava sobretudo o corvo. Sim, um corvo de estimação ! Que ficava pousado na janela da cozinha.
O corvo ficava esperando tripas de galinha. Restos de carne dos pratos. Vísceras. O corvo saia caminhando entre as mesas. Festejado pelos hóspedes. Orgulho do tio. Que acariciava o pescoço pelado do corvo. Que crocitava, agradecido.
Introspectiva nos seus oito anos, a menina ficava olhando aquilo. Com seus olhos de espanto.
Além do asco pelo corvo, ficava comparando o tratamento que recebia. Os tios davam mais atenção ao corvo do que a ela.
Esta cena jamais sairia da sua memória.
Para o resto da vida. Vida que ela continua a olhar com seus grandes e lindos olhos.
Agora, não mais de espanto. Mas de encantamento.
Do alto da Galeria do Comércio, onde mora com o marido, só contempla passarinhos coloridos do pátio da casa do Dr. Mariano. Os morros da cidade. As torres da catedral.
As nuvens que passam formando desenhos lindos.
E o bonito morro da Caturrita. Com as antenas da TV.
Seus olhos lindos aguardam os netos que chegam para visitas.
O corvo ficou sepultado no passado.
O marido septuagenário ainda a olha com olhos de adolescente.
Olhos de amor do tempo antigo.
De amor para sempre.

sábado, 13 de outubro de 2018

COCÓ, A PATA DE ESTIMAÇÃO - James Pizarro (página 4, edição do DIÁRIO de S. Maria,RS - 13.10.2018)


Corria a década de 50. Eu estudava no curso primário (hoje, ensino fundamental) do Grupo Escolar João Belém. A diretora era a professora Edy Maia Bertóia. Depois substituída pela professora Diquel Siqueira.

Os tempos eram difíceis. Meu pai trabalhava em dois empregos. Minha mãe fazia doces para fora. Meu avô, ferroviário, sempre ajudava. A Viação Férrea do RGS naquela época estava no auge e seus funcionários ganhavam os mais altos salários da cidade.

Meu pai estava construindo uma casa com todas as dificuldades inerentes a um funcionário público que se metesse numa empreitada dessas. No nosso pátio tinha horta, canteiro de flores, duas cabritas (passei minha infância tomando leite de cabra), dois cachorros, um gato, uma caturrita, laranjeiras, bergamoteiras, figueira, limoeiros, bananeiras. E tinha um grande galinheiro, com mais de 100 galinhas, cujos ovos eram recolhidos diariamente.
 
No pátio, criada livremente a meu pedido, andava feliz uma pata simpaticíssima chamada por mim de "Cocó". Foi um dos meus primeiros animais de estimação. A pata andava atrás de mim por onde eu andasse, emitindo o som característico da sua espécie. 

Quando as finanças apertaram na parte final da conclusão da construção da nossa nova casa, meu pai anunciou que - para fins de economia na compra da carne - passaríamos a comer as galinhas todas, o que realmente ocorreu. Era galinha frita, galinha na panela, risoto, pastelão de galinha desfiada. Isso me fez enjoar tanto de carne de galinha que até não gosto de comer dessa carne.

Num domingo, chegando da missa na catedral diocesana de Santa Maria, onde sempre ía em companhia de minha avó, achei estranho a "Cocó" não ter me esperado no portão como sempre fazia.

Na hora do almoço falei sobre o desaparecimento da pata e veio a verdade nua e crua, anunciada por minha mãe : "Teu pai mandou matar e assar a Cocó".

Saí vomitando pelo pátio, chorando e, aos gritos, maldizendo a família inteira. Não comi naquele maldito domingo.

Até hoje, mais de meio século depois, lamento não ter uma foto com a minha patinha "Cocó".

Devo ter sido o único menino do mundo que chorou pela morte de uma pata.

Desde aquela época eu já era uma pessoa esquisita.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

DESTINO EDIFICANTE PARA TAMPAS E LACRES DE AUMÍNIO ! - JAMES PIZARRO (crônica no DIÁRIO de Santa Maria, pág.4, edição de 9.10.2018)

“ Em 1948, Ludwig Guttman organizou uma competição esportiva que envolvia veteranos da Segunda Guerra Mundial com lesão na medula espinhal. O evento foi realizado em Stoke Mandeville, na Inglaterra. Quatro anos mais tarde, competidores da Holanda uniram-se aos jogos e, assim, nasceu um movimento internacional. Este fez com que jogos no estilo olímpico, para atletas deficientes, fossem organizados pela primeira vez em Roma, em 1960. Em Toronto, 16 anos depois, foram adicionados na competição outros grupos de pessoas com deficiência. A partir daí, surgiu a ideia de fundir estes diferentes atletas em um grande torneio esportivo internacional. Naquele mesmo ano, 1976, a Suécia organizou os primeiros Jogos Paralímpicos de Inverno. ” Esse é o resumo da pesquisa que fiz nos arquivos do PC-Comitê Paralímpico Internacional e CPB-Comitê Paralímpico Brasileiro.
Moro na Galeria do Comércio. No saguão de entrada do condomínio existe um grande recipiente de plástico onde os moradores são convidados a depositar os lacres de alumínio e as tampas plásticas de garrafas. Fiquei sabendo tratar-se da uma campanha da ASSAMPAR – Associação Santa-mariense Paradesportiva. Nome da iniciativa : CAMPANHA PARATLETA. Entrei em contato com o amigo Flávio Correa, cadeirante e sócio ativo da ASSAMPAR e ele me contou detalhes, até então, desconhecidos para mim.
A ASSAMPAR reúne cerca de 20 cadeirantes, amputados, autistas e portadores de outras deficiências crônicas, além de grande número de colaboradores. O criador/idealizador da entidade é o sr. Denilson Souza, militar reformado, cadeirante, que sempre foi preocupado com a reinserção social do portador de necessidades especiais através da prática do esporte.
Flávio Correa foi enfático ao me dizer: “O paradesporto como ferramenta de reinserção social para pessoas com algum tipo de deficiência física e/ou motoraé a razão da existência da Assampar. Nossa prioridade não é a busca por troféus e não há cobrançaspor resultados em competições. Despertar no paratleta a simples vontade de praticar algum tipo de atividade físicae conviver com outras pessoas na busca de novas amizades é o verdadeiro objetivo da Associação. Nesse processo, fazemos questão da participação não apenas do paratleta, mas o envolvimento de pais, irmãos, amigos e cônjuges, para uma completa integração. “
Vale ressaltar a compreensão e incentivo do Clube Cruzeiro do Sul, CTG Sentinela da Querência e Centro de Equoterapia Integração, valorosos estimuladores da ASSAMPAR.
Em 2018 foi lançada a "Campanha Paratleta", que consiste na arrecadação de tampas plásticas de garrafas e lacres de alumínio visando arrecadar recursos para a compra de material paradesportivo (além da questão ecológica com a reciclagem de material plástico). Até então, Denilson Souza, o atual Presidente da Associação, usou de recursos próprios para a compra do material esportivo disponível para uso. Com o aumento da demanda, fez-se necessária a criação da campanha para arrecadar fundos. Cada cadeira custa cerca de 4000 reais. E para conseguir 4000 reais são necessárias toneladas de lacres de alumínio ! A cidade precisa colaborar ! Os locais de coleta estão disponíveis no Facebook na página "Paradesporto e Lazer SM"
Os interessados em colaborar podem entrar em contato por e-mail : assampar2018@outlook.com Ou podem ligar para o Denilson Sousa : 55.99941.4467

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

QUANTO À CAMPANHA ELEITORAL...- James Pizarro (publicado no Facebook)

Tenho cumprido rigorosamente os ditames da Justiça Eleitoral (leia-se Lei Eleitoral) por causa dos veículos de comunicação onde escrevo e falo (DIÁRIO e RÁDIO MEDIANEIRA), não escrevendo e nem falando nem ao menos subliminarmente ou por metáforas a cerca de partidos, candidatos ou eleições. Faço o mesmo nas redes sociais, em respeito às centenas de amigos, colegas e parentes que pensam e votam diferente de mim. No início da campanha, sob o título "DERRADEIRO PEDIDO", implorei a todos que não colocassem comentários político-partidários e nem propagandas na LT do meu facebook. Os que insistiram, invadindo minha privacidade, foram deletados. Foi a maneira simplória que achei de, aos 76 anos, colaborar para diminuir com a onda de ódio e sectarismo que tomou conta de boa parte das pessoas.
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terça-feira, 25 de setembro de 2018

ALBINO SEIBEL, O INESQUECÍVEL MESTRE DE LATIM - James Pizarro (pág.4 do DIÁRIO de S. Maria, edição de 25.9.2018)


O professor Albino Seibel foi meu mestre de Latim durante os quatro anos do então chamado Curso Ginasial, depois chamado Primeiro Grau, hoje designado Ensino Fundamental no MANECO no final da década de 50. Os quatro livros de Latim adotados eram o "Ludus Primus", "Ludus Secundus", "Ludus Tertius" e "Ludus Quartus". Contavam a história de uma família romana, onde despontavam as histórias de Cornelia e Lesbia, recheadas de conhecimentos históricos, ensinamentos sobre Gramática, sobre as Cinco Declinações e milhares de radicais latinos.

Era o prof. Albino uma criatura extremamente bondosa, muito ligado à Igreja Católica, incapaz de uma grosseria. Nos últimos cinco minutos de cada aula costumava abrir um caderno de capa dura, no qual estavam anotadas as suas anedotas preferidas. Ele as contava com uma ingenuidade de santo para uma turma de adolescentes que mais parecia uma horda de bárbaros.

Lecionou também nos primeiros anos de funcionamento da FIC-Faculdade Imaculada Conceição, depois FAFRA-Faculdades Franciscanas, depois UNIFRA, hoje Universidade Franciscana. Nos últimos anos de sua vida corrigia os originais de teses de Mestrado e Doutorado, bem como trabalhos de pesquisa, editando-os em sua própria residência, onde mantinha um excepcional serviço de datilografia, mecanografia e encadernação.

Sua filha casou com um jogador de futebol, meu ex-aluno do curso pré-vestibular Master, tendo o casal ido morar em Portugal, porque o rapaz assinara contrato com um time de futebol daquele país. O Prof. Albino viajou a Portugal para visitar sua filha e seu genro e lá, durante a visita, veio a morrer vitimado por fulminante infarto do miocárdio. O prof. Albino  tinha dois outros filhos, um formado em Engenharia e hoje aposentado da Rede Ferroviária e o outro, popularmente chamado de "Caquinho", formado médico e residente no Rio de Janeiro.

Quando “estive” vereador na legislatura de 1989/1992, fui o autor de lei municipal que colocou o nome de Albino Seibel numa das ruas da COHAB-Tancredo Neves. Procurei, em vão, uma rua sem denominação nas proximidades do prédio do Colégio Estadual Manoel Ribas, mas todas já tinham denominação.

Conservo carinhosamente em minha biblioteca a obra "Phrases e Curiosidades Latinas", edição póstuma de 1952, de autoria do Prof. Arthur Vieira de Rezende e Silva, que me foi presenteada pelo Prof. Albino. Trata-se de alentada obra, de 935 páginas, com 7267 citações, frases e curiosidades latinas. Depois de aposentado, o Prof. Albino chamou-me, estendeu este livro para mim e disse : "Foste um dos melhores alunos de Latim que eu já tive e este livro estará bem guardado em tuas mãos". Esforço-me até hoje para ter merecido este elogio.

Durante os 44 anos em que exerci o magistério na UFSM, cursinhos pré-vestibulares e escolas particulares, diariamente, em minhas aulas de Zoologia, Citologia, Genética, Ecologia e Botânica, tinha o cuidado de desdobrar etimologicamente os termos que designam animais e vegetais, explicando o significado das raízes, prefixos e sufixos latinos. O Latim  jamais deveria ter sido retirado da grade curricular do Ensino Fundamental, pois os alunos ficaram sem saber a origem das palavras, sem saber o esqueleto da língua portuguesa.

Mas eu ainda tive sorte. Que fortuna ter tido o professor Albino como meu mestre !!!