terça-feira, 10 de setembro de 2019

O RUSSO QUE AMAVA UM COLIBRI - JAMES PIZARRO (jornal DIÁRIO de S. MARIA, pág.4, 10.09.2019)


Pois a Iracema Dantas de Araújo é uma grande amiga que conheci, ao acaso, no mundo virtual. É professora, escritora, tradutora. Atenta a tudo que se passa no mundo. Seu marido é gaúcho e colorado de carteirinha ! Eles residem em Goiânia, Goiás.

Alma sensível, Iracema é engajada nas lutas ecológicas e de defesa de animais, não raro estando nas páginas dos jornais de Goiânia com seus textos. Gentilmente, mandou-me seu último livro em edição bilíngue. Por sua interferência já tive vários textos meus publicados na imprensa de Goiânia.

Está aqui no sofá da minha sala a almofada vermelha que ela mandou de presente para a minha mulher, assim como pendurada no teto está a mandala também vermelha enviada por ela. Vera Maria retribuiu com toalhinha com o nome de Iracema bordado. Enfim, somos amigos verdadeiros sem nunca termos nos visto.

Recebi e-mail da Iracema contando sobre a singela história ocorrida na rua com um amigo russo que mora em Goiânia, chamado Dimitri. Esse russo é casado com uma brasileira chamada Iraci. Vou transcrever a história do Dimitri, que se naturalizou brasileiro aos 74 anos, pelo que ela tem de delicada, terna e bela numa época onde a violência infesta qual praga os noticiários da mídia.

Este é o e-mail que Dimitri escreveu para Iracema :

"Iracema : toda tardinha vou comprar pão no supermercado da 23...na esquina tem muitos fios de energia e tem sempre um beija-flor pequeno, preto, c/rabinho em forma de tesoura...eu paro e dou um chauzinho c/2 dedos, o indicador e o médio...pois o beija-flor hoje deu um leve trinado e sacudiu o rabinho. Eu repeti o chauzinho pra ver o que acontecia...o passarinho repetiu o trinado e sacudiu o rabinho de novo. Vê como é a natureza ! Abraço do Dimitry/Iraci"

Quiçá para cada soldado que se mata estupidamente nas guerras existissem mil Dimitris pela face da Terra !

Para cada terrorista que mata brutalmente inocentes poderia existir um milhão de Iracemas em cada canto do planeta !

Como é bom  saber que em Goiás, distante milhares de quilômetros, uma escritora talentosa e de coração  nobre, mesmo com as limitações de cadeirante, é ativista do movimento ambientalista. E ainda encontra tempo para me mandar almofadas e mandala e ora por meus filhos e netos.

Como é bom saber que o russo Dimitri, no centro de Goiânia, dá chauzinho para o colibri que enterneceu seu coração e este lhe responde com suave trinado.

Apesar da corrupção, da maldade, da violência, do sanguinário noticiário da mídia, é preciso avançar com otimismo. Com a perseverança de um colibri no meio da fúria de um furacão.

O Bem sempre vencerá. Deus nos reserva surpresas maravilhosas.

E no amanhã acontecerão coisas fantásticas !

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

UMA PROSTITUTA QUE DEU O QUE FALAR - James PIZARRO

Clarimundo Flores foi uma das glórias do jornalismo gaúcho. Pouco estudado e lembrado. É praticamente desconhecido até nos cursos de Comunicação Social nesta terrinha de Imembuí. Depois que veio de Uruguaiana, estabeleceu-se em Santa Maria,na década de 60, com um semanário denominado "A CIDADE". A sede e oficina do jornal ficava na rua Astrogildo de Azevedo, em frente onde hoje funciona o Curso Grécia. Pois foi neste jornal que cometi meus primeiros desatinos em matéria de escrever,pelos quais paguei um duro preço no início da minha vida profissional, principalmente dentro da UFSM. Mas isso é assunto para outro dia...
Pois a edição de "A CIDADE", de 17 de maio de 1965, anunciava com destaque a seguinte manchete : "SARTRE NO PALCO LOCAL A PARTIR DE SEXTA-FEIRA PRÓXIMA". Acompanhei e ajudei na elaboração de toda essa matéria. Tratava-se da peça "A Prostituta Respeitosa", de autoria de Jean-Paul Sartre, que por imposição da censura era anunciada na imprensa e nos cartazes esparramados pela cidade simplesmente como "A P...RESPEITOSA". Os cartazes eram de autoria do meu amigo José Newton Bento. A ilustração para a matéria do jornal foi feita pelo meu colega dos tempos do MANECO, chamado Luiz Carlos Retamozzo, que anos depois encontrei em Curitiba, trabalhando em artes visuais.
Nesta edição de "A CIDADE" havia um artigo intitulado "PORQUE A TAC OPTOU POR SARTRE",assinado por um "desconhecido" chamado Carlos Breno. A censura governamental andou meses atrás do tal articulista,não o encontrando,pois a turma era unida e sabia ficar de bico calado. Pois 41 anos depois, pela primeira vez, faço a revelação da identidade do misterioso articulista. Carlos Breno era o pseudônimo usado pelo então estudante Tarso Genro, hoje nosso Ministro da Justiça, recentemente homenageado em Santa Maria com o título de cidadão santa-mariense. Tanto eu como o Tarso pertencíamos ao GVC-Grupo de Vanguarda Cultural, junto com Freire Junior, Tasso Trevisan, Eliezer Pacheco, Dartagnan Agostini, Carlos Alberto Robinson, João Nascimento, Heber Santos, Alberto Rodrigues,etc...O grupo fazia reuniões nos porões do edificio da atual Casa do Estudante, à rua professor Braga, numa sala ao lado do Teatro Universitário (atual "catacumba"). E toda noite era sagrado o encontro no Bar Moby Dick, em várias mesas reunidas, onde hoje se encontra a Galeria Seibel, em frente à agência central do Banco do Brasil.
A peça era uma promoção da pomposamente chamada TAC, que era a sigla de TRÍPLICE ALIANÇA CULTURAL, formada pela União Santa-mariense dos Estudantes (USE), Diretório Central dos Estudantes da USM (então chamada apenas de Universidade de Santa Maria) e do GVT-Grupo de Vanguarda Cultural. E serviu para inaugurar o TEATRO PASCHOAL CARLOS MAGNO, situado nos porões da sede da USE, à rua do Acampamento, no prédio então em construção (construção ainda não concluída 41 anos depois...). O embaixador Paschoal Carlos Magno, figura de renome nacional por ser um dos raros protetores da cultura e das artes em geral naqueles tempos negros, esteve presente na inauguração. Depois da extréia, foi jantar conosco no Moby Dick, numa comemoração que demorou até ao amanhecer.
A peça debatia um tema atual, qual seja o da segregação racial nos Estados Unidos. Justo no momento em que os americanos se debatiam num episódio sangrento entre negros e brancos. Para a extréia do dia 21 de maio de 1965, publicou-se também no jornal esta "maravilha" de formalidade e protocolo :
"O primeiro espetáculo está anunciado para sexta-feira próxima, dia 21, às 21 horas,em avant-première, em traje de noite, dedicada ao professorado local, autoridades especialmente convidadas e imprensa falada e escrita".
O espetáculo, que tinha censura até 14 anos, gerou uma polêmica bárbara, que tomou conta de toda a cidade. Pois estimulado por setores conservadores da sociedade, pelos guardiões da moral e dos bons costumes, pelas vestais do templo (que sempre foram numerosas e patologicamente organizadas por estas bandas) , meia dúzia de pessoas detentoras de poder tentaram cercear AINDA MAIS a liberdade de expressão (como se isso fosse possível com a censura ferrenha da época) dos estudantes e de todos os integrantes da TAC. Infelizmente e pressionado por estas pessoas, Dom Luiz Victor Sartori, o bispo daquela época abriu as baterias contra a peça de Sartre. Falava nas rádios,pregava nas missas e escrevia nos jornais que o povo católico não deveria comparecer às apresentações da peça. O que se revelou inútil, pois serviu de publicidade. Principalmente no meio estudantil, que lotava as apresentações.
Clarimundo Flores, jornalista polêmico e justo,pregador de total liberdade de expressão, abriu as páginas do valente tablóide "A CIDADE" (àquela época já dirigido por seu filho, J.B.Flores). E na contracapa do jornal,em página inteira (edição de número 9, Ano 6,maio de 1965), a TAC respondeu ao bispo numa "carta aberta". A carta, em nome de toda a TAC,foi assinada pelo meu querido amigo de quase meio século, Freire Junior (Diretor e ator da peça em questão).
O trágico equívoco em tudo isso é que os "moralistas" fizeram fogo cerrado contra a peça SEM TER LIDO A MESMA ! Se ativeram apenas ao nome. Porque o termo "prostituta " naquela época, e acredito que ainda hoje - em determinadas cabeças esclerosadas - causava impacto e soava como palavrão. O termo soava como pornografia. Quando a sujeira e o preconceito estão dentro da cabeça de quem fala. E não na boca de quem diz, escreve ou (no caso) encena uma peça. Afinal, Sartre - o pai do Existencialismo francês - era Prêmio Nobel de Literatura. Reconhecido em todo o planeta, era censurado nesta cidade de Santa Maria...
Em nome do resgate da memória da cidade e para conhecimento dos jovens de hoje, cito alguns dados da peça : Jean-Paul Sartre (texto), Miroel Silveira (tradução) e Pedro Freire Junior(direção). Cito a seguir os atores e seus papéis, bem como pessoal de apoio técnico :
Aldonir Costa (papel de Lizzie, a prostituta)
Carlos Horácio Genro (irmão de Tarso Genro, no papel de Fred)
J.Brasil Teixeira Filho (o negro)
Carlos Alberto Robinson (o inspetor)
Carlos Renan Mello (o policial)
Pedro Freire Junior (o senador)
Tarso Fernando Genro (contra-regra)
Luiz Carlos Retamozzo (iluminação)
Newton José Bento (diretor de cena)
Waldomiro Messias (montagem)
Maria Augusta...hoje Feldman (maquilagem)
Elvandro (fotografias)
José Bento (xilogravura)
Eduardo Trevisan (desenho de Sartre na capa do programa)
A peça obteve sucesso tão estrondoso que o embaixador Paschoal Carlos Magno, que assistiu a extréia, selecionou a mesma para que fosse representar o Rio Grande do Sul no "V Festival de Estudantes do Brasil", que se realizou em junho de 1965,na Aldeia de Arcozello (primeira Universidade de Arte no Brasil), no Estado da Guanabara.
Muita gente ajudou a peça a ser encenada. A Rádio Santa-mariense, gratuitamente, ofereceu as gravações do poema de Hughes e a advertência de Genet, utilizados durante a peça. Rádio Guarathan abriu espaços para propaganda. A Rádio Imembuí emprestou os efeitos sonoros. O decorador e empresário Braustein orientou nos móveis. Muitas famílias sem medo e de cabeça arejada emprestaram móveis, vasos, etc...Waldomiro Messias construiu SOZINHO todo o teatro Pascoal Carlos Magno. O Coronel Walter Almeida, ligado ao movimento de março de 1964, no meio daquele obscurantismo todo contra a peça soube muito bem compreender os estudantes. E por isso faço esse registro aqui, registro que também o Freire Junior fez no programa (folheto) explicativo da peça, distribuido antes das sessões.
Como sou detalhista e gosto dos pormenores históricos, o que mais me espantou nos perseguidores da peça foi isso : a peça foi encenada em Santa Maria em 1965. Mas Sartre a escreveu em 1951, 14 anos ANTES ! Ela foi encenada no Brasil pela Maria Della Costa, à época,a primeira dama do teatro brasileiro. Portanto, não era uma "armadilha escrita propositadamente para corromper a juventude santa-mariense",como escreveu um figurão local.
Os anos se passaram. A História começa a fazer sua leitura crítica. As cabeças estão um pouco mais arejadas. A censura hoje é mais velada. Ninguém mais vai para a cadeia por razões culturais. E a gente pode escrever livremente sobre isso.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

SANTA DERCY, ROGAI POR NÓS ! - JAMES PIZARRO (DIÁRIO de SM, pág.4, 27.08.2019)



Fugitiva de casa ainda adolescente.
Artista circense. Humorista. Atriz. Comediante. Teatro rebolado.
A única mulher brasileira que se assumiu tal qual era.
Sem fazer uma única concessão comportamental ou de linguagem.
Enfrentou a família, a escola, os patrões, os inimigos, os pretensos amigos.
Jamais aceitou ser sustentada por alguém.
Lutou pela sua independência.
Pagou caro por isso.
Berrando e reagindo às acusações de meretriz, desmiolada, grosseira, desbocada.
Linda quando moça. Vaidosa depois de velha.
Foi tema-enredo de  escola de samba.
E em plena Sapucaí, durante o desfile, tirou a blusa e mostrou os seios centenários para o planeta em rede de tv mundial.
Foi aplaudida com delírio. E riu com deboche dos moralistas de plantão.
Jamais se deixou fotografar sem a peruca.
Implorava trabalho. Pois detestava estar desempregada.
Não acumulava tensões. Dizia o que queria.
Quando irritada ou sentindo-se humilhada, chamava o interlocutor de FDP.
E quando lhe criticavam, sempre afirmava estar c... e andando para crítica.
Viveu 101 anos por ser justamente assim. Sem mordaças. Sem falso puritanismo.
Imaginem se Dercy ainda fosse viva !
O que estaria falando da demora das reformas políticas ?
O que estaria dizendo sobre as principais figuras políticas nacionais ?
Qual seria sua opinião sobre os escândalos diários que pipocam na mídia ?
E sobre os funcionários federais que não recebem aumento há três anos ?
E os funcionários estaduais que recebem parceladamente o salário mensal ?
Dercy, mulher sem censura.
Dercy, mulher sem hipocrisia.
Já entrou no céu mandando São Pedro à m...
Que saudade às vezes sinto dessa mulher quando vejo políticos mentindo na TV com a maior cara de pau.
Santa Dercy !
Olhai por nós !
Rogai por nós !

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

UMA SAUDADE QUE NÃO PASSA NUNCA - JAMES PIZARRO (Diário de SM, pág. 4, edição de 13.08.2019)


Meu pai, Alfeu Pizarro, foi um dos primeiros enfermeiros de Santa Maria. Naquela época não existiam os cursos de enfermagem. E nem de técnicos em enfermagem. Eram ministrados cursos rápidos, de algumas semanas. Fetos estágios em hospitais de Porto Alegre. E eram nomeados pelo presidente Getulio Vargas com uma portaria declarando-os "práticos-licenciados". Estou falando dos anos 40 e anos 50. Os dois primeiros enfermeiros dos quais tenho notícia em Santa Maria foram meu pai e o seu companheiro Olmiro Vargas, de apelido "Varguinhas".

Meu pai trabalhou no Centro de Saúde 7, que funcionava à rua do Acampamento, no prédio onde hoje está a Sociedade Italiana. Ali ele foi responsável, por mais de 40 anos, pela "Sala de Vacinação". Lembro de alguns colegas dele, embora eu fosse um garoto : Julinha Nunes da Silva (servente), Tolentino (portaria), Vicente de Oliveira (de apelido "Vicentão", do qual eu ganhei meu primeiro livro de presente, "As Aventuras de Tibicuera", de Érico Veríssimo), Dona Maria (do Raio-X), Dr. Massot, Dr. Crossetti e Dr. Izidoro Lima Garcia (pai), médicos que chefiaram aquela repartição e tantos outros.

Além de trabalhar no Centro de Saúde, meu pai trabalhou no SAMDU-Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, uma criação do presidente João Goulart, uma das coisas mais sérias que já existiu no Brasil em matéria de assistência pública. Meu pai participou da equipe do SAMDU desde a sua inauguração, tendo por chefe o médico militar, baiano, Dr. Raymundo Braga.
Depois dele, o chefe do Posto 4 do SAMDU em S. Maria, foi chefiado pelo Dr. Clândio Marques da Rocha, onde eu fui seu auxiliar administrativo, depois de ter prestado concurso público entre mais de 150 candidatos e ter tirado primeiro lugar. Ali convivi com cerca de 100 funcionários (médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, motoristas, porteiros, atendentes, serventes, burocratas). Além do Dr. Clândio, pelo qual tenho imenso carinho (fez um horário especial – permitido por lei - para que eu pudesse fazer meu curso de Agronomia na UFSM), lembro de quase todos : Dr. Ronald Bossemeyer, Dr. Eugênio Streliaev, Dr. Agostinho, Dr. Meyer, Dr. Oz, Dr. Mazza, etc...
De sorte que meu pai trabalhava durante o turno diurno (no Centro de Saúde) e 15 vezes por mês também acumulava o trabalho do período noturno (no SAMDU). Eu o via, portanto, muito pouco. Além disso, tinha os clientes particulares que o contratavam para que ele desse injeções a domicílio.
Era uma vida dura. Criou a mim e minha irmã de forma digna. Conseguiu formar os dois. E levou quase 8 anos para construir uma casa própria, de alvenaria.
Uma coisa que meus amigos sempre invejaram na minha vida estudantil era o fato de meu pai, embora de difícil situação financeira, ter aberto uma conta com crédito ilimitado na Livraria do Globo, cujo gerente era o seu Valdemar Cavalheiro. Graças a isso eu pude ter, como estudante universitário,  uma biblioteca com mais de 600 volumes. Graças ao sacrifício do meu pai. Lembro bem de que eu já tinha casado quando meu pai conseguiu quitar toda a conta dos meus livros.
Aos 84 anos fez uma cirurgia cardíaca para correção duma anomalia nas válvulas do coração. Operou-se numa quarta-feira. Ao entardecer do domingo (9 de maio de 2004) , quatro dias depois, faleceu com ruptura de aneurisma da aorta abdominal. Foi velado na sala de sessões da Câmara de Vereadores, ex-vereador e vereador emérito da cidade que era. Sua morte teve ampla divulgação pela imprensa, pois liderava o movimento da Terceira Idade e era pessoa com livre trânsito na mídia. Presidiu o Conselho Municipal de Idosos, era presidente do Grupo Mexe Coração e lutou pela implantação da Delegacia do Idoso, pioneira no RS. Seu enterro teve enorme acompanhamento de idosos, políticos, sacerdotes, amigos, vizinhos, público em geral. Foi um grande homem. E um pai fora-de-série.

Cada domingo dedicado aos pais sinto um aperto no peito.

E uma saudade que não passa nunca.


segunda-feira, 29 de julho de 2019

POR CAUSA DAQUELAS PALAVRAS - JAMES PIZARRO (30.07.2019, pág.4 do DIÁRIO de Santa Maria)

Além de ter dado aulas na UFSM por várias décadas, ministrei aulas de Biologia nos cursinhos pré-vestibulares da cidade durante quase meio século. Foi a época áurea dos cursinhos preparatórios. Santa Maria tinha quase uma dezena deles, com professores da melhor qualidade, o que servia de pólo de atração de milhares de alunos do sul do país que para cá acorriam na esperança de cursar a UFSM, à época a única universidade existente na cidade.
O professor de cursinho - nas matérias mais procurados – tinha cerca de mil alunos no primeiro semestre, mil alunos no segundo semestre e mil alunos no intensivo de dezembro. Cerca de três mil alunos novos a cada ano. No meu caso, cerca de 130.000 alunos que, somados aos alunos dos quatro cursos que dei aula na UFSM se aproximam ao incrível número de 150.000 alunos, o equivalente a uma cidade de porte médio ! Até bem pouco tempo eu tinha as xerocópias dos cadernos de chamada e as listas dos nomes dos cursinhos para provar. Mas como eram caixas e caixas de papel, minha mulher promoveu uma limpeza em meu escritório...
Fiz centenas de amizades duradouras desse período. Fui padrinho de casamento de dezenas deles. Homenageado de turmas. Confidente e conselheiro de incontáveis. Mais de mil tenho adicionados no meu facebook, muitos já aposentados. Histórias incríveis teria para contar. Umas engraçadas. Outras trágicas. Mas uma em especial lembro sempre com emoção e vou rememorar e partilhar com vocês.
Dava eu uma aula sobre noções de introdução à embriologia para alunos do cursinho. Falava sobre a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, formação do zigoto, mórula, blástula, gástrula, folhetos embrionários e discorria de onde se originavam os sistemas nervoso, digestivo, etc...E dizia a eles que aquela estrutura já era um ser vivo e como tal tinha de ser respeitada. Inevitável que me emocionava ao falar do feto. E discorria sobre métodos contraceptivos, todos eles. E falava sobre planejamento familiar e controle de natalidade. Isso tudo – veja bem - há meio século !
Alguns meses depois, no ano seguinte, fui procurado no edifício Itaipu, onde eu morava no sexto andar. O zelador me avisou que uma mocinha vestida de branco queria me ver e perguntou se ela podia subir. Abri a porta e entrou aquela mocinha magra, vestida de branco, cabelos cor-de-fogo, sardenta, empurrando um carrinho de nenê. Sentou-se e com voz meiga e delicada, disse :
- Fui sua aluna no curso intensivo no cursinho e assisti sua aula sobre Embriologia. Eu estava grávida e meu namorado já tinha me mandado dinheiro da cidade onde moramos (uma cidade do norte do RS) para que eu fizesse o aborto, marcado para dois dias depois. Mas daí o senhor disse aquela frase, aquelas palavras, e eu resolvi enfrentar a familia e ganhar meu bebê. Meu namorado me abandonou. Aguentei a barra sozinha. Passei no vestibular de Farmácia. E vim trazer meu bebê para o senhor conhecer. E trazer esta lembrança para o senhor.
E me estendeu um envelope. Eu, curioso, abri o envelope rapidamente. Era o xerox da certidão de nascimento da criança. Abri li. E comecei a chorar.
O menino se chamava James.