terça-feira, 15 de janeiro de 2019

UM PROFESSOR DISTRAÍDO LANÇA MODA...- JAMES PIZARRO (DIÁRIO DE SM, pág.4 de 15.1.2019)



Depois de ter me aposentado na UFSM nos anos 90 ainda dei aulas numa escola particular durante 7 anos, onde ajudei a instalar o ensino médio até então inexistente naquele educandário.
Foi um período muito feliz por causa do contato com os alunos, as novas amizades (que duram até hoje) e pela experiência que sempre quis fazer : ser professor de Biologia de uma mesma turma durante os 3 anos do ensino médio. Isto é, desenvolver com eles um trabalho metodológico, com bases evolucionistas. E eu mesmo dando todo o conteúdo : Citologia, Genética, Ecologia, Botânica e Zoologia.
Fora da sala de aula eu frequentava o barzinho da escola onde fazia meu lanche com os alunos, deixando meses a fio de comparecer na sala dos professores, o que no final foi mal visto pela direção e por alguns poucos colegas de mente obtusa.
Os alunos me visitavam em casa também para tomar chimarrão e contar suas mágoas, seus problemas com drogas, aborto, namoro, dores de corno e outros assuntos comuns à adolescência. Eu tinha dedicação total para eles, pois amava o que estava fazendo. Eu me dava conta que não estava sendo apenas um vomitador de conteúdo, mas também um educador ! Alguém que procurava “educar a dor” alheia, como pensa certa corrente pedagógica.
Reconheço que exerci influência sobre a cabeça da maioria deles. Muitos foram cursar a universidade em faculdades pertinentes à Biologia e à área médica/paramédica por influência minha. Centenas deles tenho adicionados ao meu Messenger/facebook, através dos quais trocamos ideias e experiências até hoje. Daria um livro rememorar tudo.
Mas o que me veio à mente hoje foi um fato curioso ocorrido em 2002 com uma turma que tinha aula comigo às 7h30. Eu costumava levantar muito cedo e me arrumar no escuro para não acordar minha mulher. Normalmente, antes das 7h00 eu já estava na escola. Quando comecei a minha aula todo mundo começou a cochichar e sorrir. Foi daí que me dei conta que eu estava com um pé de sapato preto e o outro pé de tênis. Dei aula toda a manhã daquele jeito.
Qual não é minha surpresa que no dia seguinte quase todos os 40 alunos da sala compareceram à escola com pés de sapatos e tênis de cores diferentes, o que causou uma algazarra em todo o colégio. Admoestados por uma das coordenadoras, os alunos disseram que eu tinha lançado a moda e eles queriam me acompanhar porque tinham achado excelente a ideia. A gurizada do ensino fundamental já estava se combinando em fazer a mesma coisa.
Fui chamado à direção, que me pediu explicações. Eu disse que não tinha explicações a dar. E que não poderia ser culpado por algo que não fiz intencionalmente. Instado a dizer se eu tinha feito comentário para os alunos diante da balbúrdia eu disse :
"- Fiz comentário, sim. Disse que achava ótima a alegria deles e que se quisessem continuar vindo de sapatos e tênis trocados por mim não teria problema. Eu me interesso é pelo cérebro deles, pela disciplina em aula e não pela moda."
Por episódios como este e por causa de outras coisas "modernas demais" para a escola, alguns meses depois fui demitido. Mas valeu a pena. Foram 7 anos de alegre e salutar convívio com os alunos.
E o que mais me dá orgulho é que no ano em que fui demitido eu era "professor conselheiro" de duas turmas do ensino médio e homenageado dos formandos.
Eu queria ir à formatura com os pés de sapato de cores diferentes.
Mas como minha mulher não deixou, não fui à cerimônia.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Crônica publicada no "Diário da Manhã", de Goiânia, Goiás.

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PERSPECTIVA 2019 - JAMES PIZARRO (página 4 do DIÁRIO, edição de 31.12.2018)


A palavra RETROSPECTIVA vem do latim “retrospectare”, que significa “olhar para trás”.  Palavra muito usada  pela mídia nesta época do ano para rever e recordar as principais ocorrências do ano, geralmente  tragédias ou mortes de pessoas ilustres. O cronista bem que é tentado a fazer uma retrospectiva nesta época. Mas por se tratar na primeira crônica do ano, ouso fazer o contrário, tentando quase a ficção. Isto é, fazer uma PERSPECTIVA. Elaborar uma visão ao longe, influenciado por seu tipo de personalidade, calcado em suas experiências, tentar adivinhar o mundo como será no futuro próximo. De sorte que, convido o leitor a me acompanhar nesta PERSPECTIVA 2019, com coisas grandiosas e otimistas !!!

Hospital Regional funcionando com total capacidade, abundância de leitos nos demais hospitais, ausência de filas nas UPAS e prontos socorros, creches para todas as crianças possibilitando que as mães possam trabalhar, cidade apontada no “Fantástico”  como a primeira cidade brasileira a ter abolido doentes idosos gemendo em macas em corredores superlotados.

Tomógrafo do Hospital Universitário consertado e funcionando a todo vapor, concursos abertos para preencher todas as vagas de funcionários aposentados em todas as unidades universitárias suprindo as defasagens históricas desde vigilantes para cuidar do patrimônio à contratação de novos docentes.

Término das obras e funcionamento do Ginásio Esportivo do Colégio Estadual Manoel Ribas, há quase uma década emperrado em trâmites burocráticos.

Cobertura e conserto do telhado do Clube Caixeiral, que voltará a funcionar com seus tradicionais bailes e seu restaurante.

Término das obras da Casa da Cultura, em pleno centro da cidade-cultura.

Remodelação da praça Saldanha Marinho, com plantio de novas árvores, novos bancos, chafariz funcionando.

Uma reforma completa – espera-se que definitiva – do nosso Calçadão Salvador Isaia, com presença de guardas durante as 24 horas, dando segurança à população.

Um plantio colossal de árvores na época adequada (meses de maio, junho, julho  e agosto) nas ruas, avenidas e praças de Santa Maria.

Conserto das pedras portuguesas dos canteiros centrais da avenida Rio Branco, pois as mesmas estão sendo arrancadas diariamente do piso depois da reforma feita há poucos  anos.

Maior policiamento daquele deveria ser motivo de orgulho da cidade : nosso Parque Itaimbé.

Volta do funcionamento da usina asfáltica para o conserto dos buracos das ruas e avenidas da cidade.

Solução para o problema da delinquência noturna na praça Saturnino de Brito onde até mortes já ocorreram.

A lista seria por demais extensa.

Mas, por derradeiro, do fundo do meu coração e movido com todo espírito otimista e ainda bafejado pelo clima natalino, desejo que Deus dê a todas às nossas autoridades muita saúde, energia e grande vontade política para realizar estas tarefas todas. Porque assim agindo eles terão o respeito da comunidade, glória alta e compreensão entre os homens.

Que assim seja !

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

E JESUS CHOROU...- JAMES PIZARRO (página 4 do DIÁRIO de S.Maria, edição de 18.12.2018)

No capítulo 11 de João, encontramos o versículo 35, um dos mais curtos de toda a Bíblia: “E Jesus chorou”. Não vou pontuar aqui o momento histórico que suscitou este versículo. Mas, contextualizando para os dias de hoje e num esforço de síntese, poderia resumir dizendo que Jesus chorou - e chora até hoje - por compaixão.
Jesus chorou quando, a cada três ou quatro dias, uma pessoa foi assassinada nas ruas de Santa Maria com balaços na cara pelos motivos mais torpes e vis. Jesus chorou quando crianças foram abusadas sexualmente dentro de suas próprias casas ou em suas escolas, por pessoas que teoricamente deveriam protegê-las. Jesus chorou quando mulheres fragilizadas e doentes foram abusadas por religiosos em templos onde ingenuamente foram em busca de socorro.
Jesus chorou quando uma jovem mulher grávida foi, em plena luz do dia, estuprada no Bairro do Rosário sem que ninguém visse ou pudesse lhe auxiliar. Jesus chorou pelo número de doentes que não puderam ter o atendimento merecido porque aparelhos estavam quebrados e nem leitos suficientes existiam, tendo de sofrer o martírio e a humilhação da espera nas macas dos corredores dos hospitais.
Jesus chorou diante de funcionários desesperados que tiveram seus salários parcelados, suas contas atrasadas, seu crédito cortado, sua comida racionada e o pior – muitos deles chegaram ao suicídio. Jesus chorou diante do aumento das doenças sexualmente transmissíveis, algumas tidas como controladas, devido ao comportamento descuidado e a falta de respeito das pessoas para com seu próprio corpo.
Jesus chorou pelos animais abandonados, torturados, mortos à míngua, explorados, envenenados, agredidos sem que nenhuma autoridade constituída tenha deles a mínima piedade. Jesus chorou pelos trilhões de reais roubados por políticos que só pensam em amealhar dinheiro para si e só têm olhos para seus próprios umbigos.
Jesus chorou pelas viúvas que ganham pensões ridículas, aposentados doentes que são submetidos a perícias numerosas para seguir ganhando tostões, doentes que precisam de remédios pagos pelo governo e estes sempre faltam nas farmácias oficiais. Sim, Jesus chorou muito em 2018. Talvez esteja quase “desidratado” devido à insanidade dos homens. E à insensibilidade dos políticos e autoridades.
Jesus chorou pelos hospitais não concluídos, pela falta de leitos, pelos doentes amontoados em macas, pelas mães implorando por creches, pelos mortos em acidentes automobilísticos em estradas cheias de buracos, pela falta de remédios de uso continuado para pacientes carentes.
Jesus chorou pela fúria comercial e mercantilista em que se transformou a data do seu nascimento. E só pensam em trocar presentes. E se empanturrar de comida e beber em demasia.
Vamos rezar por Jesus neste Natal ?
Ele precisa do nosso carinho também.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A VIDA DESFILA NO CALÇADÃO...- JAMES PIZARRO (página 4 da edição de 4.12.2018 do DIÁRIO de SM)

Sou frequentador assíduo do centro da cidade. Diariamente converso com pessoas da portaria do condomínio da Galeria do Comércio. Bato papo longamente com os amigos do Salão Venito. Converso com os funcionários de várias lojas da galeria. Vou à lotérica Zebrão da Galeria Roth fazer minhas megasena e quina. E depois assumo minha mesa no “Café & Doce”, com o gentil amigo Ildo e as gentis garçonetes para o saboroso café e bate-papo com dezenas de amigos.
Estou querendo dizer que, diariamente, falo com quase uma centena de pessoas. Ouço relatos. Queixas. Pedidos. Observo a vida desfilar no calçadão. Ouço as mais variadas histórias da cidade sobre saúde, segurança, educação, desemprego. Ouço não só as histórias que me são contadas pelos amigos que sentam à minha mesa. Ouço – como quem não quer nada – as histórias das mesas vizinhas, contadas por estranhos. Que, às vezes, são discussões amorosas. Mas, outras vezes, são pungentes histórias de doenças incuráveis, velórios, morte, separações, divórcios.
Como sou assíduo ouvinte da TV Justiça e ouço de cabo a rabo os longos votos dos onze juízes do nosso ilustrado STF, eu fico imaginando como eles estão distantes da realidade. Brasília é uma ilha da fantasia. Eles nem imaginam a vida real que existe e que eu assisto desfilar diante de mim diariamente no centro da cidade. As sôfregas indiazinhas de canelas finas – outrora donas do Brasil - pedindo moedinhas com seus olhos negros assustados. Vovós com máscaras cirúrgicas, alegando estar fazendo quimioterapia, pedindo dinheiro. Uma moça visivelmente drogada com seios à mostra pede pastel a todos e confessa ter feito sexo selvagem na noite anterior. O Brasil em preto e branco desfilando à minha frente, enquanto o cantor desafinado teima em cantar na parede da Caixa Econômica Federal : “Que país é este ? “
Como gosto de guardar documentos e recortes de jornal, dia desses levei para o “Café & Doce” o recorte de um artigo do meu amigo Carlinhos Costa Beber, publicado em 23 de abril de 2011 e que, entre outras coisas, elencava 13 problemas já existentes em nossa cidade naquela época :
(01) Trânsito infernal nas horas de pique;
(02) Rede de coleta de esgotos deficiente (metade da cidade não é atendida, sendo inexistente em toda a Camobi);
(03) Insuficiente cobertura vegetal (nunca houve preocupação com o plantio de árvores em nossas ruas);
(04) Estradas do interior, como para Santa Flora, que nunca receberam investimentos definitivos;
(05) Rede de Internet que não privilegia áreas comerciais importantes;
(06) Obras do PAC que não tiveram sequência, como a perimetral do Cadena;
(07) Ruas importantes com piso asfáltico vencido ou simplesmente de terra-batida, como em Camobi ;
(08) Calçadas públicas em estado lastimável (os caminhantes que o digam....)
(09) Poluição visual do centro da cidade, com painéis, luminosos, e placas das empresas e de prestadores de serviços;
(10) Problemas de vandalismo e depredação do patrimônio público e privado;
(11) Falta de fiscalização em todas as áreas de responsabilidade da Prefeitura;
(12) Falta de diálogo entre as lideranças locais;
(13) Segurança pública que precisa do apoio de uma Guarda Municipal armada.
Passados sete anos do artigo do amigo Carlinhos, pergunto-lhes : quantos dos 13 problemas apontados foram resolvidos, pelos menos parcialmente ?
Enquanto converso com meus amigos na cafeteria “Café & Doce”, todos sempre me chamam a atenção para o imenso cartaz publicitário colocado na entrada do calçadão já há quase dois anos. É um cartaz convidando a população para a FEISMA de...2017 !!!
É dose para elefante !