sábado, 8 de junho de 2019

608 HORAS PARA PENSAR - James Pizarro (8.junho.2015)

Fiquei 17 dias internado...17 dias x 24 horas = 608 horas. Medidas de sinais vitais a cada 4 horas. Taxas. Soros. Antibióticos potentes. Coleta de material para exames. Várias refeições e lanches. Óleo da canola na perna com erisipela. Curativo no cateter da subclávia. Insônia. Programas de rádio. TV. Piedosas visitas do padre. Consoladoras e simpáticas conversas com os paramédicos. Tempo que não passa. Pensamentos fervendo a mil. Visitas inesperadas de pessoas surpreendentes. Visitas prometidas de pessoas queridas e que não se concretizaram. Visitas de pessoas desconhecidas e que emocionaram um velho coração. Dramas humanos pungentes de doentes de quartos vizinhos. A solidariedade pela dor. Passeios de mãos dadas pelos corredores com jovens fisioterapeutas e seus exercícios aeróbicos nas janelas. Macas que cruzam com cadáveres cobertos com lençóis. Cadeiras de rodas com doentes baixando e outros dando alta. Pessoas abraçadas chorando um óbito. Outras sorrindo comemorando o nascimento de um neto. Eis a rotina de um grande hospital. Não é um local só de tristezas. E de Morte. É um local de coisas alegres. Renascimentos. De brindes à Vida. Nunca fiquei tão convicto na minha vida de que a coisa mais importante é a SAÚDE !!! Vou mover céus e terras, de hoje em diante, para investir na melhor qualidade de minha saúde (que já é muito boa). Mas que - por idiotice - não vinha lhe dando o devido valor.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

DOIS DESTINOS - JAMES PIZARRO (crônica no DIÁRIO, Santa Maria, pág.4, edição de 4.6.2019)


Era um menino bonito. Cheio de  vida. Simpático.

Corria alegremente pelo pátio do grupo escolar. Mais tarde era o centro das atenções no pátio do colégio estadual. Para o qual galhardamente  fora aprovado no difícil exame de admissão. Estou falando sobre a década de 50 na pacata Santa Maria, RS.

No entanto, o adolescente tinha um certo desvio comportamental. Gostava de abusar com os colegas de famílias mais pobres. Os que não usavam roupas de grife. E muito menos frequentavam os salões do Comercial. As reuniões dançantes do Caixeiral.

E fazia isso acintosamente. Jogando no ridículo os baixinhos. Os gagos. Os que tinham deficiência visual. Os que usavam óculos de aros grossos. A quem ele chamava de "quatro-olho".

Tinha predileção por tirar sarro - "inticar" se dizia naquela época - com um aluno tímido, calado, de boca pequena. A quem ele apelidou de "boquinha-de-chupar-ovo".

Passaram-se mais de três décadas.

E cada aluno tomou seu rumo. Foi trilhar seu destino.

Por estes estranhos desígnios, o galã, grande gozador de outrora e de futuro brilhante, virou ascensorista.

E o "boquinha-de-chupar-ovo" passou a subir pelo elevador onde seu outrora algoz trabalhava. Porque tinha consultório naquele prédio.

Um dia o encontrou deitado no elevador, bêbado, vomitado e urinado.

Foi aposentado por alcoolismo o outrora gozador.

Abandonado pela mulher, meses depois deu um tiro no ouvido.

Enquanto o outro, tímido e pobre garoto de outrora, continua dar suas consultas.

E na hora de folga come torrada com ovo no bar do prédio.

Deixando cair alguns respingos de gema no avental imaculado.

Com sua pequena boca de chupar ovo.

terça-feira, 21 de maio de 2019

SANTA MARIA : ALGUNS TIPOS POPULARES - JAMES PIZARRO (DIÁRIO de SM, edição de 21.05.2019, pág.4)

Em qualquer cidade do mundo sempre existem  pessoas que de um modo especial fazem a história do local. São prefeitos, vereadores, delegados, professores, cantores, poetas, músicos, esportistas, advogados, comerciantes. Não raro, pela importância da atividade que exerceram em vida, transformam-se depois em  nomes de praças, ruas, avenidas, logradouros públicos para emoção dos parentes.

Mas existe outra gama de habitantes que nunca  desempenharam  funções ditas oficiais ou legais. Ou mesmo desempenhando-as, foram carismáticos, possuíram atributos comportamentais  diferentes dos padrões vigentes, o que os fez populares. Muitas dessas figuras permanecem eternamente  na memória e no anedotário popular da cidade por seus feitos, atos, modos de expressão. Alguns são lembrados por sua personalidade bem humorada. Seus gestos cômicos. Suas respostas inusitadas. Outros, nem tanto...

Mesmo passadas décadas após sua morte estes tipos populares permanecem vivos na memória dos mais idosos da cidade. Fazem a história verdadeira dessa comunidade, com toda sua idiossincrasia. Não essa história positivista, tão ao gosto dos legalistas e conservadores moralistas, tipo “Nasceu em tanto, morreu em tanto, suas principais obras foram...” Mas uma história feita por quem anda pela ruas e bairros, por quem conhece a cidade. Uma história cheia de riqueza humana. Com momentos para a dor. Para o patético. As mazelas. A depressão. A fome. E até para o humor.  Enfim, uma história advinda de uma fauna humana que não foi cretina a ponto de esconder seus defeitos. Nem teve tempo de aprender a se camuflar. Na realidade, uns puros.  Porque cheios de defeitos que todo mundo vê. Cercados de gente importante com muito mais defeitos, às vezes, mas que ninguém vê.

Sempre tive um  oceânico carinho por estes tipos especiais.  E fui amigo da maioria deles. De indagar de suas histórias. Dos tipos populares que existiram antes do meu nascimento também me ocupei, pesquisei sobre eles com os mais velhos da cidade, como os casos do Fanático (década 30), Fanha (década de 30) e Pipoqueiro (década de 40). Tenho em meus arquivos centenas de anotações que ouvi de relatos orais do meu saudoso amigo e professor de Botânica Sistemática, Dr. Romeu Beltrão. Relatos do Edmundo Cardoso (que me empregou como revisor de A RAZÂ, quando adolescente e ele, diretor do jornal). Do Eduardo Trevisan (quando muito chimarrão lhe servi na casa da rua do Acampamento quando lhe visitava com o Prado Veppo). Do vereador Lauro Machado (pai do compositor Antônio Carlos Machado). Do meu avô Fredolino da Luz Silveira. Do Gregório Coelho (meu grande amigo e patrono do Internacional de SM). Do Modesto Dias da Rosa, recentemente falecido.

O “Tio Santo” era um afrodescendente  de cabelos brancos que andava sempre  com um saco de estopa nas costas e era o terror da gurizada que não se comportava bem. Quando a gente aprontava alguma travessura, a mãe dizia : “Vou chamar o Tio Santo para te levar embora  no saco dele”. Era um santo remédio. Costumava andar por toda a cidade, especialmente pela Silva Jardim e arroio Cadena, hoje Parque Itaimbé,

Posso citar, de memória, dezenas de outros tipos populares de Santa Maria : Hugo da Flauta, Tivico, Caçapa, Quinquinha, João dos Autos, Batista, Crocante, Farol, Maria-sem-queixo, Saldanha, Paulinho Bilheteiro, Claudinho, Batista, Bozó, Índio Tabajara, Boaventura, Engole-sapo, Polaco, Mudinho da Catedral,  Sansão e Dalila, Antoninho-Faz-Tudo, Bentinho do Carmo,  Velho da Carrapinha, Fogo-Torcida,  Banha, Seu João do Sorvete, Caçapinha, Bibelô, Padre-das-cabras, Lanterninha  Aurélio, Nestor Calcagno, Galo Rouco, Sete Calças, Vando, Negra Rosa, Tomate, Catixa, Moranga, Maestro Linhares, Antonello do MANECO, Alemão-da-bala-de-ovo, Sabão Cruzeiro, Goiabão, Clóvis Lassene, Magro Falado, Vaca, Américo,  Amiguinho, Negra Tereza, Mudinha, Binha, Combate, Santinho, Cerejinha, Pinha, etc

Sobre cada um deles poderia escrever um alentado parágrafo, seu tipo físico, suas histórias, onde morava, seu linguajar. Mas não há espaço suficiente.
Eles também fazem parte dos 161 anos da nossa Santa Maria.