segunda-feira, 27 de março de 2017

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A PRIMEIRA AULA - James Pizarro ( Jornal A RAZÃO,edição de 23.02.2017)


Sou do tempo em que o então chamado Grupo Escolar João Belém funcionava no prédio onde hoje está o MANECO, em Santa Maria, RS. E ali fui matriculado -com 6 anos de idade - no Jardim da Infância (pois não se cogitava falar em maternal, pré-maternal, etc...). 
Assim é que, nos primeiros dias do mês de março de 1948, comecei a estudar. Agarrado à mão de minha mãe, fui levado e entregue na penúltima porta do corredor do primeiro andar à mestra Luiza Leitão, uma professora negra, de cabelos brancos, que foi minha primeira professora e da qual guardo enternecedora lembrança. Ela me recebeu carinhosamente. O que fez dissipar-se do meu assustado espírito qualquer resquício de medo. Muito embora eu tenha sentido um inesquecível aperto no peito quando vi minha mãe me abanar e desaparecer pelo corredor.
É incrível, mas lembro detalhadamente desse primeiro dia de aula ! Sentei-me numa mesinha, junto com duas meninas e um menino, de nome Cleómenes, que estava de gravata e usava óculos. Inexplicavelmente, não guardei o nome das duas meninas, que eram simpáticas e puxavam conversa. A professora Luiza Leitão bateu palmas, pediu silêncio. E colocou no aparelho de som (que era chamado de "vitrola") um enorme disco de vinil. Daquele disco, como num passe de mágica, brotou a emocionante novela intitulada "As Aventuras do Coelhinho Joca", a primeira história infantil gravada que ouvi em minha vida. Eu gostei tanto que, meses depois, quando ganhei meu primeiro cachorro de presente, um fox preto e branco, tratei de batisá-lo de "Joca"...
Corria o ano de 1948, ano em que o Botafogo foi campeão carioca. O time alvinegro entrava em campo com sua mascote "Biriba", uma cadela também fox preta e branca...
A diretora do Grupo Escolar João Belém se chamava Edy Maia Bertóia, casada com um senhor careca, funcionário da Cooperativa dos Ferroviários. Moravam à rua Silva Jardim, quase na esquina com a Comissário Justo. A Dona Edy era mãe do Dr. Ararê Bertóia, médico em Santa Maria e de Soila Bertóia, residente em São Paulo. Parece mentira...a Dona Edy ficou minha grande amiga por mais de 45 anos ! E hoje, falecida, virou nome de escola municipal, numa justa homenagem.
Num relance, passaram-se 66 anos desde a minha primeira aula, pois estou hoje com 72 anos. Lembro detalhadamente de tudo. Desde a disposição dos móveis na sala. Dos quadros. Dos rostos. Dos sons. Do sino batendo para o meu primeiro recreio. Da primeira merenda. À noite, custei muito a dormir. Pois recapitulava mentalmente tudo o que me havia acontecido naquele dia memorável.
A professora Luiza Leitão, e depois a professora Léa Balthar, foram as duas responsáveis pela minha alfabetização.
A outra diretora do João Belém, que substituiu a professora Edy Maia Bertóia, foi a Professora Heleda Diquel Siqueira. Que também foi minha professora de Trabalhos Manuais. Dona Heleda era exímia jogadora de bolão. Viajava muito pelo RS disputando campeonatos femininos de bolão. Faleceu recentemente.
Nas datas importantes - principalmente nas datas cívicas - aconteciam no João Belém as chamadas "audições". O que era isso ? Todo o corpo docente e discente era reunido no salão de festas da escola. E havia apresentação de números artísticos : danças, corais, declamação de poesias, números musicais, mágicas, bandas, etc... Tudo isso era precedido pela fala do locutor. Que lia uma sinopse do número que ía ser apresentado.
Devido ao desembaraço, desenvoltura ou "cara-de-pau" - seja lá que nome tenha isso - sempre fui escolhido para ser o locutor das "audições". O que me conferia um certo "status" com os professores. Simpatia com as meninas. E ciume dos colegas.
Dou-me conta, agora, do óbvio...a influência que tais experiências da meninice podem ter na formação da nossa personalidade. E até nas nossas escolhas profissionais de adulto. 
Por isso, serei eternamente grato às minhas professoras e ao meu colégio.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

HISTÓRIAS DO CALÇADÃO - James Pizarro (Jornal A RAZÃO - edição de 16/02/2017)

HISTÓRIAS DO CALÇADÃO

James Pizarro  -  professor

HISTÓRIA UM - Dia desses estava eu na cafeteria lendo um jornal. E sem querer ouvi parte da conversa de um cidadão. Ele estava se queixando da vida:

"- Tou velho, não tenho mulher nem filhos...a solidão é fogo ! "

Mas antes de dizer isso eu ouvi ele falar, em tom de orgulho,que tinha namorado dezenas de mulheres...tinha ficado noivo não sei quantas vezes...se juntado com não sei quantas. Estava visivelmente deprimido. Ele contava ao amigo que - pela primeira vez - ao tentar se aproximar duma jovem de 20 anos, a guria lascou na cara dele :

"- Ah, tio...vai procurar a tua turma...quem gosta de velho é reumatismo."

O amigo, num rasgo de sabedoria popular disse a ele :

"- Estás colhendo o que semeaste...pedra que muito rola não cria limo..."

Paguei meu cafezinho. E sai da cafeteria calmamente. Feliz por ter endereço para voltar. E por ter a companhia de uma grande mulher.

HISTÓRIA DOIS - Funcionária exemplar. Dedicada à velha mãe. Adepta do Apostolado da Oração. Vivia para o trabalho. A igreja. E para cuidar da mãe idosa e doente. De repente, a vida iluminou-se. Encontrou um namorado. Sério. Educado. Gentil. Homem que revolucionou sua vida. Que a fez mudar de estilo de roupas. Visão de mundo. Prazer em viver. Belo dia, instalou-se nela a depressão. Melancolia extrema. Silêncio. A colega mais curiosa perguntou-lhe se o namorado tinha falado em casamento. Ela respondeu :

- Sim.

E completou :

- Falou que era ...casado !!!

HISTÓRIA TRÊS - Semana passada assinei um documento no cartório. A moça, desconfiada,  me fez assinar de novo porque disse que minha assinatura  está mudando, está diferente. Durante quase meio século usei apenas giz no quadro, máquina de escrever e computador. Eu me dei conta que não uso mais a caligrafia, a letra cursiva, as provas em papel almaço ou papel ofício, os bilhetes de amor. Tudo ficou automatizado.

Como serão as bibliotecas do futuro ? E se um dia todos os computadores do mundo forem atacados por um vírus xiita e apagar rigorosamente TUDO que está arquivado.  Como meus bisnetos aprenderão a escrever ?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A MULHER NUA - James PIZARRO (A RAZÃO, edição de 9/2/2017)

A MULHER NUA

James Pizarro – professor

A semana oferece uma infinidade de assuntos ao cronista distraído. Que poderia escrever sobre o ódio político destilado nas redes  sociais nos últimos dias. Ou sobre o clima de desobediência civil no estado do Espírito Santo que corre o risco de se alastrar pelo país. Ou sobre a irresponsabilidade dos políticos do Executivo que – alheios à anarquia geral – discutem ocupação de cargos em Brasília.

Mas vou tocar num assunto local. Num fenômeno que está ocorrendo à luz do dia. Em pleno centro da cidade. No centro nevrálgico de Santa Maria. Tracem uma linha imaginária reunindo o prédio da Câmara de Vereadores, Catedral Arquidiocesana, praça Saldanha Marinho,  o prédio da SUCEVÊ (onde funcionou até poucos dias o gabinete do prefeito)e o prédio do Banco do Brasil. Teremos ai  aproximadamente um quadrilátero na zona central da cidade.

Pois exatamente no centro deste quadrilátero, em frente à Catedral  Arquidiocesana, no “boulevard” central da avenida rio Branco há uma torneira. E ali, todas as manhãs, uma mulher – aparentando uns 30 ou 35 anos – faz sua higiene íntima. Alheia aos transeuntes, às vezes tira a blusa e fica com os seios a mostra. Mas rigorosamente baixa as calças compridas, tira as calcinhas e demoradamente  - munida de panos  e sabonete – lava a genitália, ventre e coxas por cerca de quinze minutos. A cena, que se repete diariamente, já foi filmada e o vídeo roda pela internet e redes sociais.

O leitor mais apressado não me julgue . E nem de longe pense que estou a escrever  munido de moralismo de cueca por causa da nudez da moça. Que aparenta ter problemas mentais, inclusive. Não faz e nunca fez meu gênero bancar o moralista. O que me preocupa é a integridade física da moça. A saúde dela.  Fatalmente – deixada assim abandonada pelas ruas – acabará sendo currada, estuprada. Acabará grávida. Doente. Se amanhã ou depois não aparecer morta.

Eu vi as centenas de pessoas que por ali passavam. Cumprindo seu destino de passar. Maioria fazendo de conta que não viam aquela moça nua.  Senhoras “piedosas” que saiam da igreja balançando a cabeça em sinal de reprovação.  Alguns guris fazendo piadas. Outros adultos com olhares disfarçados mal reprimindo sua libido.

Lembrei de minhas alunas, minhas filhas e netas. Dei alguns telefonemas quando cheguei em casa para ver em que podia ajudar. Lamentavelmente fui  informado pelos órgãos competentes que a pessoa só pode ser removida da rua se ela permitir, isto é, não pode ser retirada à força e internada se não quiser. Então, numa última tentativa, escrevo esta crônica.

O motorista de taxi me disse que qualquer dia a moça entrará nua na catedral para assistir uma missa.  Já que os homens não encontram solução para esta pobre irmã nossa, quem sabe Jesus Cristo, na sua infinita misericórdia, não dá um jeito ?

Seria um espetáculo a bofetada na hipocrisia da cidade !!!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

GOSTOU DAS MINHAS COXAS, SENHORITA ? - James Pizarro

Quem me conhece sabe que ando sempre de bermuda, tênis e meias Kendall de alta compressão para facilitar o retorno venoso e evitar varizes porque sou obeso. E as pessoas (nem todas), sem a menor discrição, te olham de alto a baixo como se tu fosse um leproso ou um borrão na paisagem. Se eu fosse um velho tímido ou sem personalidade nem sairia mais à rua, mas me divirto com a cara desses bostas.

Na semana passada, um engraçadinho (na fila da lotérica) disse ao outro em voz alta para que eu ouvisse : "Tem gente que sente frio nas pernas, mesmo no verão". Em menos de dez segundos ouviu a resposta, também em voz alta : "É que a tua mãe me deixa com as coxas geladas". Foi aquele silêncio sepulcral.

Hoje, depois de voltar da sessão de fisioterapia, me dei conta que havia esquecido dos óculos lá, o que me deixou já de mau humor. Julia, a minha querida e educada fisioterapeuta, telefonou avisando que estava mandando os óculos por uma telemoto. Quando esperava o motoboy chegar na rua Venâncio Aires, na portaria da Galeria onde moro, uma mulher comentou com a outra : "Olha esse velho lançando moda". Repliquei : "Gostou das minhas coxas, senhorita ?"

Aos 75 anos sigo quebrando modelos medíocres...me recuso a fazer coisas - como ficar calado - apenas para bancar o comportadinho, o politicamente correto, o "civilizado"...emito minhas opiniões e para quem não gostou eu ligo o meu "FODA-SE COM SIRENE" !!!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

OPERAÇÃO LAVA ALMA - James Pizarro (jornal A RAZÃO, edição de 2/2/2017)

JORNAL "A RAZÂO" - edição de 2/2/2017 - página 4
(OBS.- Minha crônica intitulada originalmente "Eike Batista", por equívoco de diagramação, saiu com o título de "Operação Lava Alma")
*******************************************************************************************
EIKE BATISTA
James Pizarro - professor
Não sei hoje, mas nas primeiras aulas de Biologia de antigamente, além de se ensinar as diferenças entre seres vivos e seres brutos, também eram ensinadas as características dos seres vivos.
Desde criança a gente aprendia que cada ser vivo, animal ou planta, tinha um “ciclo vital”. Isto é, o ser vivo nascia, crescia, atingia a maturidade, se reproduzia, envelhecia e morria. Pomposamente, alguns chamavam isso de “ciclo ontogênico”. Em linguajar tupiniquim : não fica ninguém para semente.
Repare o leitor que isso ocorre com tudo : instituições, beleza, prédios, fábricas, fortunas, prestígio, saúde, partidos políticos, ocupantes de cargos, etc...
Basta puxar pela memória e lembrar das dezenas de casas comerciais que fecharam suas portas. Clubes famosos onde só entravam as famílias pretensamente mais poderosas da cidade e que hoje são freqüentados por quem paga entrada popular. Palacetes e casas de dezenas de aposentos que hoje viraram tapera. Hotéis e pensões outrora famosos que são hoje residência de morcegos, pombas e mosquitos. São dezenas de exemplos.
Dia desses, sentado no calçadão, tomei um susto ao passar por mim uma das mais belas e cortejadas moças da década de 60 na sociedade santa-mariense. Costumava dar “carão”, recusava convites quando os rapazes iam lhe tirar para dançar, onipotente no alto da sua beleza juvenil que certamente supunha eterna. Alquebrada, olhar triste, de bengala, solteira (conforme me informou o aposentado que estava sentado comigo). Fiquei a cogitar sobre as surpresas da vida para essas almas desavisadas e que se afirmam em cima do seu fenótipo. Por isso, sempre me olho no espelho e me convenço da minha feiura e obesidade, para que jamais seja acometido de qualquer ataque de soberba.
Tive um grande amigo, colega da UFSM, que ao ser convidado para trabalhar junto ao gabinete da reitoria, mudou completamente de comportamento comigo. Jamais me procurou, nunca mais respondeu meus e-mails ou minhas mensagens IN-OFF ou nossos costumeiros (até então) bate-papos no facebook. Ele é uma alma distraída que esquece que o reitor é “magnífico” apenas por quatro anos. Depois, ele deixa de ser “magnífico”. Eu apenas contabilizo na conta dos deletáveis. A gente vai ficando velho e vai depurando os contatos. Nada é para sempre.
Vejam o caso do Eike Batista agora, que ocupa todas as manchetes. É a bola da vez.
De oitavo homem mais rico do mundo a presidiário. Ladrão. Cela comum porque não tem curso superior. Cabelo raspado. Chinelinho de dedo. Buraco no chão para evacuar de cócoras na frente dos outros. Jato de água fria saindo de um cano. Comidinha de marmita. A Luma de Oliveira e as outras monumentais mulheres que teve irão lhe visitar ?
Cuidado, pois, ao chamar alguém de “amigo” !!!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PIONEIRISMO ECOLÓGICO - James Pizarro (jornal A RAZÃO, edição de 26/1/2017)



COLUNISTAS

Pioneirismo ecológico


James Pizarro

por James Pizarro em 26/01/2017
Compartilhar:
Mais opções
Nos dias 8 e 9 de maio de 1984, realizou-se em Santa Maria, o pioneiro “EEEE”, isto é, o primeiro “Encontro Estadual de Entidades Ecologistas”, numa promoção conjunta da Associação Ecológica “Irmão Sol, Irmã Lua” (de Santa Maria) e AGAPAN - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (de Porto Alegre).
A entidade santa-mariense era presidida por mim e a entidade porto-alegrense era presidida pelo professor Flávio Lewgoy, geneticista da UFRGS, de saudosa memória.
O Dr. Armando Vallandro e o Dr. Walter Bianchini, que ocupavam altos cargos na UFSM em 1984, foram de vital importância para o encontro, pois cederam vales para refeições no Restaurante Universitário, apartamentos no campus para dezenas de ecologistas e também um ônibus da UFSM ficou à disposição de todos.
O deputado estadual Carlos Renan Kurtz, na época presidente da Assembléia Legislativa do RS, colaborou com um mil cruzeiros novos (moeda da época), verba alentada diante das precárias condições financeiras das entidades. Muitos políticos prestigiaram o pioneiro EEEE.
Lembro de todos: Dep. Estadual Renan Kurtz, Dep. Federal João Gilberto Lucas Coelho (PMDB), Dep. Estadual Vercidino Albarello (Presidente da Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Assembléia Legislativa), vereador porto-alegrense Caio José Lustosa (PMDB) e vereadora porto-alegrense Jussara Cony (PMDB).
Consultando a lista de assinaturas e as atas do primeiro EEEE, todas em meu poder e guardadas nos meus arquivos, computei 110 ecologistas.
Estiveram presentes representantes das seguintes entidades : Agapan (Porto Alegre), “Irmão Sol, Irmã Lua” (Santa Maria), Apan (Santa Rosa), Appan (Pelotas), APNVG (Gravataí), ADFG (Porto Alegre), Quero-Quero (Canoas), NEE (Rio Grande), Deite na Grama (Porto Alegre), Em Nome do Amor à Natureza (Porto Alegre), Seriema (Alegrete) , Aspe (Santa Maria), Ascapan (Canoas) e os núcleos da Agapan das cidades de Lajeado, Três de Maio e Cruz Alta.
Nos intervalos das discussões e apresentação/votação de moções, o duo musical “Quintal de Clorofila”, brindava a assistência com a execução de músicas com temas ecológicos. O duo era constituído por dois exímios artistas irmãos, Nejandre Arbo e Dimitri Arbo. Cerca de 30 moções foram discutidas e aprovadas no pioneiro EEEE.
O encontro recebeu ampla cobertura da mídia jornalística local e estadual durante sua realização. Na semana posterior ao encontro, o jornal A Razão publicou diariamente matérias de página inteira detalhando todas as discussões, conclusões e moções do encontro.
Em nossa cidade, pois, nasceu a ideia pioneira da necessidade dos ecologistas, militantes e voluntários da causa se reunirem e discutirem pautas e estratégias do movimento. De lá para cá já se realizaram mais de 35 encontros.
Santa Maria já foi, no passado, um grande centro ecopolítico, criador e irradiador de boas iniciativas na área do ambientalismo. Os de boa memória sabem disso.

VINGANÇA CONTRA TELEMARKETING - James Pizarro

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Eu criei dois métodos : "SURDEZ SELETIVA" (só ouço o que me interessa) associado ao método "CATARSE PIZARRÔNICA" que consiste em levantar o fone e, ao constatar que é telemarkenting, mandar imediatamente à merda e desligar. Se ligarem a segunda vez, passar para o VTNC ! Nunca mais ligam.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A SATÂNICA BOATE KISS - James Pizarro

Nunca mais a catedral de Santa Maria baterá duas horas da madrugada
sem que a cidade,
Na hora do espanto,
Rememore tudo para a eternidade.
Nunca mais a cidade terá a mesma alegria
Porque a ganância de uns
E a irresponsabilidade de outros
Prepararam ardilosamente,
Sob a desgraçada signa do cifrão,
O porão negro da morte.
Uma câmara escura de gás letal
Que faria inveja a Hitler
Levou para sempre
Futuros médicos, advogados, agrônomos, zootecnistas,
Além de socorristas voluntários e soldados.
Mais de 242 corpos achados.
Dois namorados abraçados, entre eles.
Com os corpos colados,
Carnes soldadas para sempre pela combustão
Como num pacto de amor eterno
O derradeiro carinho do amor que nunca acontecerá.
Naquela esquina maldita,
Em tempos idos, dois incêndios já produziram horror.
Escola Hugo Taylor e Escola Riachuelo já tinham ardido,
Mas os prejuízos foram apenas materiais.
Mas desta vez foi carne humana,
Sangue, esperança e juventude.
Este punhal ficará cravado em nossas almas para sempre.
Ódio à insensatez dos homens.
Misericórdia aos pais e avós
Que nunca mais ouvirão a voz e a alegria de seus filhos e netos.
Esquina da rua dos Andradas com Avenida Rio Branco.
Queima, desgraça dos homens!
Arde, tristeza das mães!
Fede, algoz de pais e avós!
Mas jamais – esquina do Diabo –
Me peças que eu te ame.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O CARNAVAL - James Pizarro (Jornal A RAZÃO, dia 19/1/2017)



COLUNISTAS

O Carnaval


James Pizarro

por James Pizarro em 18/01/2017
Compartilhar:
Mais opções
Nascido e criado nos barrancos da Silva Jardim, a poucos metros do arroio Cadena, hoje escondido embaixo do Parque Itaimbé, convivi desde criança com os festejos carnavalescos. Na Rua Dutra Villa, na década de 50, morava meu querido amigo Marino Xavier, o popular “Tomate” , funcionário da Panificadora da Subsistência Militar e árbitro de futebol.
No pátio de sua casa eram realizados os ensaios do célebre bloco de carnaval “Bota que eu bebo”, do qual muito bem lembro o Catixa, massagista do Internacional de Santa Maria, empunhando o estandarte de lantejoulas pretas e brancas.
Este bloco seria o embrião do que viria a ser, décadas depois, a Escola de Samba Unidos do Itaimbé. Eu assisti todos os ensaios deste bloco desde que me conheço por gente. Os vizinhos colaboravam com frios e cada um levava sua própria bebida.
Já mais adiante comecei a frequentar as reuniões dançantes carnavalescas dos clubes Santa-mariense e Caixeiral, que começavam às 15h e terminavam às 19h. Guardo com carinho as fotos desta época, com carapuça na cabeça, inocentes rolos de serpentina e sacos de confete nas mãos. Tudo comprado com dinheiro suado economizado das mesadas.
Já adulto, casado, muito participei com meus pais e amigos das iniciativas e promoções da Escola de Samba “Unidos do Itaimbé”, pois meu pai foi da diretoria por anos a fio. Lembro dos churrascos, risotos, mocotós, rifas, desfiles, festas, bailes, livros de ouro, mensalidades de associados, doações pedidas na iniciativa privada e demais iniciativas promovidas pelos membros da escola para arrecadar fundos para os desfiles.
Lembro de muitos deles : Luizinho e ZaIra de Grandi, Alfeu e Iria Pizarro, Luiz Carlos e Iara Druzian, Paivinha, etc...
Dezenas de artigos escrevi sobre temas carnavalescos para A Razão nos últimos 50 anos. Por dois anos fui jurado do quesito “Samba-enredo” dos desfiles de Carnaval de Santa Maria. Portanto, ninguém pode duvidar que eu não goste das folias de Momo.
Nos 10 anos em que morei em Florianópolis não deixei de acompanhar nunca os desfiles na passarela “Negu Kiridu”, assim como acompanho todo santo ano os desfiles do RJ pela TV, pois acho o mais belo espetáculo artístico-musical do Planeta.
Nos lugares que frequento diariamente (barbearia, cafeteria,calçadão, troca de figurinhas de futebol, portaria do condomínio, “Boca Maldita”) um dos temas dominantes nas conversas é este: “Deve a Prefeitura, num momento de crise como o atual usar dinheiro dos impostos para auxiliar as escolas de samba?”
Democraticamente, sem fazer qualquer juízo de valor, opinar ou influenciar e apenas colocando a pergunta tal qual está posta, fiz uma enquete no meu facebook durante 48 horas.
Resultado: 141 pessoas responderam (devidamente identificadas). Duas pessoas ficaram indecisas, duas responderam SIM (que a prefeitura deveria auxiliar) e 137 responderam NÃO (que no momento atual este tipo de auxílio não era prioritário).
Não opinei na pesquisa. Não opino agora também. O leitor tire suas conclusões.

Comentários

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O MARTÍRIO DE UM CÃO - James Pizarro (jornal A RAZÃO, 12/1/2017)



COLUNISTAS

O martírio de um cão



James Pizarro

por James Pizarro em 12/01/2017
Compartilhar:
Mais opções
Santa Maria – mais uma vez – ganha manchetes no país através do fogo. Desta vez, pela insanidade precoce da mente – certamente perturbada - de três adolescentes da periferia da nossa cidade. Deliberadamente, amarraram um pobre cão sobre esponjas e atearam fogo no mesmo. O pobre animal foi socorrido e levado - em lamentável estado – até a clínica da médica veterinária Marlene, conhecida protetora dos animais em nossa cidade.
Apesar de todos os cuidados recebidos, o pobre animal não resistiu ao martírio imposto e morreu. Vomitando sangue. Olhos queimados. Boca queimada. Corpo em carne viva. Detidos os adolescentes, a seção policial do jornal informa que os pais dos mesmos foram chamados. E assinaram um “termo circunstanciado e foram liberados”.
O leitor já sofreu uma singela queimadura no fogão ao preparar um alimento. Ou um respingo de água quente inadvertidamente ao servir-se de um chimarrão. E sabe muito bem como doeu.
Imagine agora um cão, animal com o corpo totalmente coberto de pelos, amarrado em cima de esponjas (material inflamável), superfície corporal totalmente em chamas...imagine as dores lancinantes que este pobre coitado deve ter sofrido!
E não venham dizer que são inocentes “crianças”, que “não sabiam o que faziam”, que “não sabem diferençar o bem do mal” e outras cantilenas do tipo. Planejaram o crime. Tramaram. Com requintes de crueldade. Basta assinar um “termo circunstanciado” e fica tudo “resolvido”?
Sou um leigo em leis, mas a Polícia, o Conselho Tutelar, as autoridades vão propiciar acompanhamento e tratamento psicológicos a esses adolescentes? Vão fiscalizar a frequência a este tratamento?
Ou simplesmente a família se comprometeu “de agora em diante” a fiscalizar melhor o comportamento dos filhos? Foram as perguntas que me fizeram na barbearia, no calçadão, na cafeteria, por emails quando leitores me sugeriram abordar este tema. As pessoas da comunidade ficam apreensivas com o que enxergam e ouvem na TV.
Todo santo dia é noticiada agressão a moradores de rua. Dezenas e dezenas de mendigos morrem em chamas nas ruas do Brasil porque adolescentes colocam fogo em suas vestes. A coisa menos valorizada que se tem no país é a vida humana.
E o mais incrível é que essas agressões, cada vez mais violentas e perversas, não raras seguidas de morte, são cometidas por menores de idade cada vez mais jovens. E que, quando presos, riem, debocham, não mostram o menor grau de arrependimento do que fizeram. Por isso, a necessidade de cortar o mal pela raiz.
As famílias têm de cuidar de sua prole e buscar auxílio. Na escola. No Conselho Tutelar. Nas faculdades de Psicologia. Na Secretaria Municipal de Ação Social. Na Promotoria Pública. Hoje, queima-se um cão. Amanhã, queima-se um ser humano. Depois de amanhã, a prisão.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

RESGATE HISTÓRICO - James Pizarro (artigo do dia 5/1/2017 em A RAZÃO)


COLUNISTAS

Resgate histórico


James Pizarro

por James Pizarro em 05/01/2017
Compartilhar:
Mais opções
Em 1983, a Secretaria Especial do Meio Ambiente, conhecida pela sigla SEMA, era uma subsecretaria colocada dentro do Ministério do Interior. Seu ativo titular era o Dr. Paulo Nogueira Neto, que foi cedido para o governo federal pela USP - Universidade de São Paulo, onde era fundador e titular da cátedra de Ecologia.
Por determinação da SEMA, em maio de 1983 foi decretado que todas as prefeituras brasileiras deveriam comemorar, de 1 a 7 de junho, a “Semana Nacional do Meio Ambiente”. Em Santa Maria, fui convidado pelo prefeito Dr. José Haidar Farret para coordenar, planejar e fazer realizar este evento. Resolvi aceitar o desafio uma vez que certa parcela da comunidade e da imprensa acusava os ecologistas de apenas criticarem e jamais executarem algo de prático.
Passei cerca de 20 dias arregimentando forças. Pretendo lembrar de todas aqui. Direção, funcionários e alunos do SENAC deram notável apoio, confeccionando belíssimo cartaz com a programação, horários, local e nome dos palestrantes. Ainda fizeram as vezes de recepcionistas no Centro de Atividades Múltiplas, local do evento, 12 moças elegantemente trajadas, alunas do Curso de Recepcionistas do SENAC.
Os escoteiros da Tropa Henrique Dias distribuíram 10 mil folhetos convidando a população (folhetos pagos pela Prefeitura Municipal e distribuídos nas ruas, avenidas e nas escolas, de sala em sala de aula).
Meus alunos da disciplina de Ecologia dos cursos de Agronomia, Ciências Biológicas e Engenharia Florestal ministraram dezenas de palestras nas escolas municipais e, junto com os escoteiros da Tropa Henrique Dias, plantaram dezenas de mudas de árvores ao longo do Parque Itaimbé, muitas delas transformadas hoje (33 anos depois) em frondosas árvores.
Durante as sete noites de palestras, cerca de 2000 pessoas lotaram completamente as dependências do Centro de Atividades Múltiplas, o popular “Bom-Bril”. Houve necessidade de que a Rádio Universidade instalasse caixas de som do lado externo do prédio para que cerca de 500 pessoas pudessem ouvir as palestrantes. O impressionante era o silêncio e a disciplina de todos.
Os palestrantes foram: James Pizarro ( “A Má Qualidade de Vida no Planeta”), José Salles Mariano da Rocha (“Desertos e Áreas de Desertificação no Rio Grande do Sul”), Gustavo Quesada (“Comunidades Agro-energéticas”), Horst Oscar Lippold (“Aspectos da Fauna Silvestre do Rio Grande do Sul), Dr. Arnaldo Walty ( “Câncer e Meio Ambiente”), Amaury Silva (“A Verdade sobre as Drogas”) e Mesa Redonda com os professores João Radünz Neto, Brandão, Ilka Bossemeyer e Paulo Ary Moreira (“Piscicultura e Aspectos Ecológicos da Água”).
Foi feito, como ato final, um plantio de árvores no centro da cidade, com a presença do prefeito municipal, José Haidar Farret, e grande número de autoridades, escolares, universitários e populares. Registro para a memória da cidade esta iniciativa, de intensa repercussão cultural, técnica, científica e popular. E numa época de incompreensões e injustiças resgato o papel histórico de apoio que a causa ecologista santa-mariense recebeu do Dr. José Haidar Farret.