quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

COLUNISTAS

O beija-flor (2016)

James Pizarro
por James Pizarro em 31/12/2015
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Pois a Iracema Dantas de Araújo é uma grande amiga que conheci, ao acaso, no mundo virtual. É professora, escritora, tradutora. Atenta a tudo que se passa no mundo. Seu marido é gaúcho e colorado de carteirinha! Eles residem em Goiânia, Goiás. Alma sensível, Iracema é engajada nas lutas ecológicas e de defesa de animais, não raro estando nas páginas dos jornais de Goiânia com seus textos.
Gentilmente, mandou-me seu último livro em edição bilíngue. Por sua interferência já tive textos meus publicados na imprensa de Goiânia. Está aqui no sofá da minha sala a almofada vermelha que ela mandou de presente para a minha mulher, assim como pendurada no teto está a mandala também vermelha enviada por ela. Vera Maria retribuiu com toalhinha com o nome de Iracema bordado.
Enfim, somos amigos reais sem nunca termos nos visto. Recebi e-mail dela contando sobre a singela história ocorrida na rua com um amigo russo que mora em Goiânia, chamado Dimitri, casado com Iraci. Vou transcrever a história do Dimitri, que se naturalizou brasileiro aos 74 anos, pelo que ela tem de delicada, terna e bela numa época onde a violência infesta qual praga os noticiários da mídia.
Este é o e-mail que Dimitri escreveu para Iracema: “Iracema, ... toda tardinha vou comprar pão no supermercado da 23, na esquina tem muitos fios de energia, e tem sempre beija-flor pequeno, preto, c/rabinho em forma de tesoura, eu paro e dou um chauzinho c/2 dedos, o indicador e o médio, pois o beija-flor hoje deu um leve trinado e sacudiu o rabinho; eu repeti o chauzinho pra ver o que acontece; o passarinho repetiu o trinado e sacudiu o rabinho de novo. Vê como é a natureza!! Ficamos amigos! abço dimitry/iraci”
Meus Deus !!! Quiçá para cada soldado que se mata estupidamente na Síria ou no Estado Islâmico existissem mil Dimitris pela face da Terra e um milhão de Iracemas em cada canto do planeta! A vida estaria salva!
Desejo que todos os meus leitores e conterrâneos - no ano de 2016 - tenham a vida embalada pela gentileza de um beija-flor amigo. Pela ternura da amizade de uma Iracema. E pelo coração de menino de um Dimitri. Sejam felizes e saudáveis em 2016.
James Pizarro

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015


COLUNISTAS

Natal


James Pizarro

por James Pizarro em 24/12/2015
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Meu pai sempre deixou bem claro que gostava mais do ano novo do que do Natal. Questão de temperamento ou motivos cristalizados na sua infância, não gostava do Natal. Também não era de frequentar igreja. Minha mãe acompanhava sua opinião. Mas a gente tinha a entrega de presentes e os protocolares cumprimentos. Vez por outra, minha irmã puxava uma reza.
Muitas vezes, devido ao orçamento apertado, ganhei sapatos, roupas e material escolar ao invés dos presentes que realmente eu gostaria de receber. Coisas que eu teria que obrigatoriamente receber. Era uma época dura. Meu pai levou anos a fio para construir a casa. E eu não reclamava. Pois entendia o sacrifício. Mas ficava chateado. Minha avó Olina sempre dava presentes do meu agrado.
Anos depois, quando comecei a namorar quem viria a ser minha mulher, passei a ter uma idéia diferente do Natal. Morava junto na casa dela a vó Elvira Grau, com mais de 80 anos. Luterana, como Edith, minha sogra. Minha sogra tocava órgão aos domingos no culto da igreja luterana de Santa Maria/RS, a primeira igreja alemã do Brasil a ter sinos em sua torre. Na noite de Natal, o coral da igreja luterana visitava a casa dos mais idosos da comunidade alemã. E entoava lindas canções em alemão. E faziam orações. Minha sogra partilhava com os visitantes cucas, doces feitos com esmero, habilidosa doceira que era. Eles comiam rapidamente, pois tinham de cantar em muitas casas e a noite era curta.
Vera Maria, inspirada na educação dada pela mãe, sempre cuidou muito da festa de Natal em nossa casa. Muitos dias antes da data ela fazia bolos, doces, cucas. Ficaram famosas as bolachas em forma de estrela com recheio de goiabada, que até hoje ela faz e que tanto sucesso tem no meio de todos. Nossos filhos sempre tiveram pinheirinho, presentes, guirlanda na porta da casa e, quando bem pequenos, até Papai Noel visitava nossa casa. Foram anos felizes. Os anos passaram e as grandes dificuldades financeiras também. Lutamos duro para isso. Por generosidade de Deus estamos com saúde e morando na praia, um sonho de décadas.
Alguns familiares estranham nossa decisão de viajar só em último caso, por doença ou morte. Mas deixamos bem claro aos filhos e aos cinco netos que temos e teremos sempre a imensa alegria de receber a todos aqui na praia, em nosso apartamento, oportunidades que eles têm aceito. Temos o direito de descansar. Fazer programas de vida para os últimos anos. Somos idosos. Mas com saúde mental suficiente para traçar nossos destinos.
Nesta noite de Natal de 2015, iremos à missa na matriz de Nossa Senhora de Guadalupe. Como sempre fazemos, vamos apenas agradecer. Não pediremos nada para nós. Mas vamos pedir pela saúde dos nossos filhos, netos, minha mãe, irmã, genros, nora e demais parentes. E rezar pelas almas de meu pai, sogros, avós e parentes falecidos.
E na ceia que faremos, recordaremos muito dos natais antigos. Certamente - entre foguetes e músicas que entrarão pela janela - lembraremos dos cânticos alemães da vó Elvira. E dos cabelos loiros e olhos azuis da vó Olina. Era uma época em que a gente era muito feliz. E não sabia.

James Pizarro

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

COLUNISTAS

Gratidão

James Pizarro
por James Pizarro em 19/11/2015
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Vi barragem rebentando e sufocando pulmões e rios com lama.
Ouvi metralhadoras cantando seu ódio e esparramando cérebros e tripas.
Mas também vi maçãs maduras caindo do pé.
E um sol que se levanta. E senti cheiros antigos.
E revi faces amigas. E lembrei de rostos mortos.
E aprendi a dizer não. E aprendi a dizer sim.
E salvei náufragos. E eu mesmo - por milagre - cheguei à praia.
E escutei discussões sem delas participar.
E ouvi queixas. E fiz queixas. E se queixaram de mim.
Fiz um poema. Foi uma semana violenta.
E ergui paredes. E fixei quadros de crianças.
E sonhei com mulheres adormecidas.
Fui segunda-feira.
E me transformei em sábado também.
E consegui ser domingo. Apesar da lama da barragem. E do terror de Paris.
Busquei – e alcancei - o Norte.
E busquei o leste.
E fugi para o Oeste.
E não pressenti o sul.
Como por milagre passei por tardes loiras.
E conheci o amor.
E acompanhei cardumes. E me perdi com eles.
E achei um cavalo-marinho. E recolhi conchas.
E me transformei em faca. E anzol. E rede.
Uma sereia falou comigo na praia de Canasvieiras.
E gaivotas drogadas voavam por sobre meus cabelos.
E estive em terras longínquas vendo a insanidade no deserto da Síria.
E ouvi metralhadoras e sangue jorrando ao som do rock em Paris.
E a dor da revolta perplexa queimou minha pele de pecador.
E toquei tambores de guerra.
Mas orei forte em nome de Jesus e minha alma fumou o cachimbo da paz.
E então andei por estepes. E descampados verdes. E desci ao fundo das minas.
E naveguei por mansos canais azuis. E regressei à minha realidade.
E eis aqui – aos 73 anos – saudável. Sentado ao entardecer olhando as ondas.
Pensando nos meus filhos, netos e minha mulher.
Entro em comunhão com a Energia do Universo. Com o caudal da Vida.
E me entrego totalmente nas mãos de Deus. Recebo muita generosidade Dele.
E quero agradecer por isso PUBLICAMENTE!
Enquanto tenho tempo.
James Pizarro

COLUNISTAS

O tumor

James Pizarro
por James Pizarro em 03/12/2015
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CADENA - Na última visita que fiz a Santa Maria fui passear no Parque Itaimbé, que achei mal conservado, bancos caídos, calçamento em péssimas condições, sujeira por todo lado, árvores com galhos quebrados. Fiquei lembrando da minha infância e do arroio Cadena, hoje canalizado e aprisionado embaixo da terra. O arroio era ladeado por densa floresta de galeria, com taquareiras nas margens, o que evitava a erosão. Tinha cobras, rãs, sapos, pequenas tartarugas, grande número de insetos, lambaris em suas águas de sanga. Todos brincávamos sem problema algum, sem medos, sem assaltantes, sem pedófilos, num silêncio cortado apenas pelo canto dos passarinhos. Que saudade! Que melancolia ao ver tudo aquilo acabado. Para sempre.
AUSÊNCIA - A ilha é linda. A ilha é mágica. Mas nestes dias de chuva ocorre algo. Bate uma saudade do meu pai morto. Bastam vários dias sem sol e a gente fica soturno. Sombrio por dentro. Emotivo mais do que nunca. Bate uma saudade dos barrancos da Silva Jardim. Onde fui guri. E sonhei ser desenhista. E clarinetista de banda de jazz. E acabei fazendo tudo pelo avesso. Embora tenha me realizado na plenitude como professor. Não saberia fazer melhor outra coisa do que falar. Passar adiante conhecimentos. Mas bate uma saudade dos meus tempos de guri mesmo. Quando eu acreditava em bruxas. E pensava que meu pai era imortal. Hoje - perplexo diante da velhice - Sinto o tempo encurtar. E bate até uma saudade de tudo que me cerca hoje. E uma inveja do tempo futuro. Quando não estarei mais por aqui.
NARA LEÃO - Quando noivos, eu e minha mulher éramos fãs de carteirinha da Nara Leão. Eu tinha todos os discos dela. Acompanhava suas andanças. Sua participação como musa do movimento da “Bossa Nova”. E também seu engajamento político na luta contra a ditadura. No dia 2 de setembro de 1967 nasceu nosso primeiro filho : uma menina. E que recebeu o nome de Nara, em homenagem à nossa musa. Estou relembrando tudo isso porque no dia 7 de junho de 2015, fez 16 anos que Nara Leão morreu. Vítima de um tumor em região de difícil acesso no cérebro. Depois de penar e lutar titanicamente durante dez anos contra a doença, Nara expirou em 7 de junho de 1989.
Há um belo livro para todos que querem saber mais sobre esta extraordinária cantora e ativista política : “Nara Leão: uma biografia”, de Sérgio Cabral, publicado pelas editoras Companhia Editora Nacional e Lazul. O desgraçado de um tumor levou nossa musa precocemente.
James Pizarro

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Tapas & beijos

James Pizarro
por James Pizarro em 17/12/2015
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Há meses tenho passado algumas horas do dia assistindo as sessões do Senado, da Câmara dos Deputados e da Comissão de Ética. Assisto para tirar minhas próprias conclusões, uma vez que se corre o risco de ser mal informado ou “doutrinado” subliminarmente por certas publicações do centro do país. Aproveito para ouvir e ver enquanto meus netos não estão me visitando, pois certamente não deixaria os mesmos assistirem as cenas vergonhosas protagonizadas pelos “representantes do povo”. Quanto mais longe dos maus exemplos de suas “Excelências”, melhor para a formação do caráter da gurizada.
Lembro das brigas entre crianças, onde uma delas - queixosa - dizia : “Vou chamar o meu pai e vocês vão ver uma coisa! “Lembro quando diante de uma situação que exige maturidade e decisão, o adolescente exclamava : “Vou perguntar para o papai”. Por que estou lembrando disso? Porque os mais de 500 deputados federais (que a gente pressupunha preparados para legislar, decidir, orientar) não sabem nem ao menos interpretar o regimento interno da câmara !!! E abdicando da independência que lhes confere o Poder Legislativo, correm - qual “filhos” assustados - para pedir orientação aos “papais” sizudos do Supremo Tribunal Federal. Este fenômeno - conhecido por “judicialização da política” - assusta os eleitores sensatos e preocupa os segmentos esclarecidos da população. Dia desses ouvi na cafeteria um senhor perguntar para outro: “Para que gastar uma fortuna nas mordomias com mais de 500 deputados e milhares de assessores se, na hora das decisões graves, eles deixam para 10 juízes do STF decidirem?”
As sessões têm aspectos hilários, patéticos e trágicos. Qualquer um bagunça a sessão e a interrompe usando a expressão mágica: “Questão de ordem, presidente” (sendo que 90 % das vezes não se trata de uma questão de ordem). O deputado que está falando não é ouvido por mais da metade dos colegas que, junto com os assessores e funcionários, estão permanentemente usando o celular. Mais recentemente, alguns deputados passaram das ofensas verbais para o desforço físico. Depois de alguns dias, desculpam-se e se dão as mãos, passando dos tapas aos beijinhos. Ganhando quase 30.000 reais por mês fica mais fácil praticar a generosidade do perdão. Não é lindo isso numa época natalina? Enquanto isso, o país apodrece.

James Pizarro