domingo, 17 de junho de 2018
sexta-feira, 8 de junho de 2018
608 HORAS PARA PENSAR - James PIzarro (8.6.2015)
Fiquei 17 dias internado...17 dias x 24 horas = 608 horas. Medidas de sinais vitais a cada 4 horas. Taxas. Soros. Antibióticos potentes. Coleta de material para exames. Várias refeições e lanches. Óleo da canola na perna com erisipela. Curativo no cateter da subclávia. Insônia. Programas de rádio. TV. Piedosas visitas do padre. Consoladoras e simpáticas conversas com os paramédicos. Tempo que não passa. Pensamentos fervendo a mil. Visitas inesperadas de pessoas surpreendentes. Visitas prometidas de pessoas queridas e que não se concretizaram. Visitas de pessoas desconhecidas e que emocionaram um velho coração. Dramas humanos pungentes de doentes de quartos vizinhos. A solidariedade pela dor. Passeios de mãos dadas pelos corredores com jovens fisioterapeutas e seus exercícios aeróbicos nas janelas. Macas que cruzam com cadáveres cobertos com lençóis. Cadeiras de rodas com doentes baixando e outros dando alta. Pessoas abraçadas chorando um óbito. Outras sorrindo comemorando o nascimento de um neto. Eis a rotina de um grande hospital. Não é um local só de tristezas. E de Morte. É um local de coisas alegres. Renascimentos. De brindes à Vida. Nunca fiquei tão convicto na minha vida de que a coisa mais importante é a SAÚDE !!! Vou mover céus e terras, de hoje em diante, para investir na melhor qualidade de minha saúde (que já é muito boa). Mas que - por idiotice - não vinha lhe dando o devido valor.
terça-feira, 5 de junho de 2018
UMA CENA INSÓLITA - James Pizarro (Crônica de 5.6.2018, pág.3, DIÁRIO, Santa Maria,RS)
Santa Maria teve três grandes cinemas. Cine-teatro Imperial. Cine Independência. Cinema Glória.
O Cine Independência virou um shopping popular, abrigando os camelôs que estavam pelas ruas da cidade. Ao invés do Gordo e o Magro, Hopalong Cassidy, Jesse James, Batman e Robim...mercadorias piratas do Paraguai.
O Cinema Glória virou uma filial da Universal de Deus e depois uma boate. Ao invés dos grandes musicais com Doris Day, Gene Kelly, Fred Astaire, Pat Boone e Elvis Presley...sermões, dízimos e milagres de veracidade duvidosa.
O Cine-teatro Imperial,na segunda quadra da rua Dr. Bozano, transformou-se numa filial da tradicional Casa Eny. Ao invés das grandes peças que o Edmundo Cardoso apresentava com sua Escola de Teatro Leopoldo Froes...tênis, sandálias, sapatos e hawaianas.
Foram mudanças boas para uma cidade que se jacta do cognome de "cidade cultura" ? Claro, hoje existem as salas de cinema dos shoppings da cidade, com cerca de 80 lugares cada uma. Nada semelhante aos 1200 lugares que existiam no Cine Independência, por exemplo.
Quem da faixa etária dos 60 ou 70 anos não se lembra do tradicional "matinê da 1,15" como era chamada a sessão dominical das 13,15 horas do Cine-teatro Imperial ? Passava sempre um "filme de mocinho" (nome dado aos filmes de faroeste americano), seguido de um "seriado" (cada domingo passava um capítulo de uma longa história de aventuras, que chegava a durar dois meses). Na frente do cinema, antes das sessões, ocorria o tradicional troca-troca de "gibis" (revistas em quadrinhos dos heróis da época). Ou então, troca de figurinhas do famoso "Álbum das Balas Rute".
O "Seu" Aurélio era o lanterninha do Cine-teatro Imperial, famoso pelo duro que dava na gurizada durante as sessões. Em sua homenagem existe hoje o "Cine-clube Lanterninha Aurélio". Certa vez fiz uma aposta com os meus colegas da rua Silva Jardim. Apostei que entraria no matinê com uma galinha e que o Aurélio não veria. Não só entrei com a galinha dentro do casacão (chamado de "sobretudo" na época) como fiz uma barbaridade. Fui sentar na primeira fila de cadeiras do mezanino (a parte superior da sala de exibição). E na hora mais romântica do filme, quando o mocinho pedia a mão da moça em casamento, eu atirei a galinha lá de cima. A coitada voou como podia e foi se estatelar na cabeça da piazada lá embaixo. O Aurélio interrompeu a sessão, no meio da algazarra da gurizada. Acenderam-se as luzes. E furioso ele foi ao mezanino. E queria saber quem tinha jogado o galináceo. Ninguém me acusou. E eu fiquei gelado de medo.
Mas ganhei a aposta : meia dúzia de Cyrillinhas, o refrigerante mais famoso da época, fabricado em Santa Maria mesmo.
Maconha, cocaína, rachas de automóveis, motos numa só roda, roleta russa, agressão a professores, brigas de gangues juvenis, pichações...Ao ler nos jornais sobre as "brincadeiras" da gurizada de hoje, fico estarrecido.
Perto dessa turma de hoje eu era um santo !
segunda-feira, 21 de maio de 2018
A BANDA DO MANECO RESISTE BRAVAMENTE - James Pizarro (crônica do dia 22.5.2018 no DIÁRIO, S.MARIA)
A
história da banda do Maneco está indelevelmente ligada ao nome do ex-aluno
Roberto Binato, depois formado médico e professor universitário do Curso de
Medicina da UFSM, no Departamento de Biofísica, onde ministrava aulas
juntamente com o Dr. Irion. Mesmo cursando Medicina, continuava sendo o
responsável pela banda do Maneco, nas funções de “mestre”, uma espécie de
maestro que cuidava tanto da coreografia e da disciplina como também dos
arranjos musicais e repertório. Era carinhosamente chamado de “Binatão”.
A
banda do Maneco chegou a desfilar com quase 200 figurantes, fazendo as chamadas
“evoluções” durante o desfile. A evolução que mais agradava e que arrancava
delirante aplauso do público era copiada da Banda de Fuzileiros Navais, do Rio
de Janeiro : a banda desfilava formando uma gigantesca âncora, que ocupava uma
quadra inteira de rua. A banda viajava muito por todo o RS, a convite de
escolas e prefeituras. Em Santa Maria, era convidada a abrilhantar todo tipo de
solenidade. Certa feita, no campo de futebol do Riograndense Futebol Clube,
completamente lotado, a banda formou - pela primeira vez - a palavra MANECO,
numa evolução que comoveu a pais, alunos, professores, funcionários e público em
geral.
O
Padre Rômulo Zanchi, férreo disciplinador na direção do colégio, exigia que os
integrantes da banda apresentassem seus boletins todo santo mês em seu
gabinete. Quem estivesse mal de notas era sumariamente banido da banda. O padre
Rômulo dizia : “É uma honra tocar na banda e aluno vadio não veste aquele
uniforme para representar o Maneco pelas ruas da cidade ! “ Assim é que, nos
desfiles da Semana da Pátria ou nos deslumbrantes “Jogos da Primavera”, quando
a banda chegava ao centro da cidade, capitaneando os quase dois mil alunos do
Maneco, toda o público sabia que ali naquela corporação musical marchava a
elite cultural do colégio, representada por seus melhores alunos. Durante duas
ou três noites que antecediam ao desfile, alunos e alunas voluntariamente
faziam bolhas nos dedos cortando papel laminado para fazer “picadinhos” que
eram acondicionados em dezenas e dezenas de sacos de estopa. No dia do desfile,
estes alunos e seus familiares postavam-se estrategicamente nas sacadas dos
edifícios mais altos da avenida Rio Branco e da rua do Acampamento (o Taperinha
era um dos preferidos) e, quando o Maneco começava sua esperada apresentação,
os céus do centro da cidade eram tomados por aqueles milhares de “picadinhos”
laminados que produziam um efeito espetacular refletindo a luz do sol. Torcidas
organizadas berravam sem parar :”Maneco ! Maneco !” Aquelas músicas, marchas e
dobrados em furiosa harmonia marcial. O Tadeu com seu garbo de mor da banda. As
graciosas balizas (Carmem Helon Mariosi, Zara Ehlers, Maria do Carmo
Irion, além de outras). Aquela multidão. Aqueles papéis picados. Os foguetes.
Os gritos. Os aplausos. A cadência. Aquilo tudo era emocionante ! E eu ali no
meio da banda, tocando pifaro, E ali fiquei durante seis anos tocando naquela
banda. Passando por aquelas emoções que enchiam meu coração adolescente de
felicidade e orgulho. Até hoje, aos 75 anos, quando a banda do Maneco passa, eu
choro.
A
banda hoje está passando por dificuldades, ela que colabora em todos os eventos
comunitários de Santa Maria há 60 anos ! Faço uma conclamação ao leitor para
colaborar com qualquer quantia.
Pode
fazer seu depósito na Caixa Econômica Federal, Agência 501, Operação 013
(Poupança), Conta 002547509. Ou se preferir, pode depositar na Conta Captação
do Banco do Brasil (Lei Rouanet), Agência 01260, Conta Corrente 840696.
Maiores
informações : 55.98121.3993/99958.8785. Ou pelo e-mail : bandamarcialdomaneco@gmail.com
Como
manequiano ardoroso e ex-integrante da nossa amada banda, antecipadamente
agradeço pela boa vontade do público leitor. A banda merece.
quarta-feira, 9 de maio de 2018
HÁ 14 ANOS SEM MEU PAI - James PIZARRO (9.maio.2018)
Meu pai, Alfeu Pizarro, foi um dos primeiros enfermeiros de Santa Maria. Naquela época não existiam os cursos de enfermagem. E nem de técnicos em enfermagem. Eram ministrados cursos rápidos, de algumas semanas, e eram nomeados pelo presidente Getulio Vargas com uma portaria declarando-os "práticos-licenciados". Estou falando dos anos 40 e anos 50. Os dois primeiros enfermeiros dos quais tenho notícia em Santa Maria foram meu pai e o seu companheiro Olmiro Vargas, de apelido "Varguinhas".
Meu pai trabalhou no Centro de Saúde 7, que funcionava à rua do Acampamento, no prédio onde hoje está a Sociedade Italiana. Ali ele foi responsável, por mais de 40 anos, pela "Sala de Vacinação". Lembro de alguns colegas dele, embora eu fosse um garoto : Julinha Nunes da Silva (servente), Tolentino (portaria), Vicente de Oliveira (de apelido "Vicentão", do qual eu ganhei meu primeiro livro de presente, "As Aventuras de Tibicuera", de Érico Veríssimo), Dona Maria (do Raio-X), Dr. Massot e Dr. Izidoro Lima Garcia (pai), médicos que chefiaram aquela repartição, etc...
Além de trabalhar no Centro de Saúde, meu pai trabalhou no SAMDU-Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, uma criação do presidente João Goulart, uma das coisas mais sérias que já existiu no Brasil em matéria de assistência pública. Meu pai participou da equipe do SAMDU desde a sua inauguração, tendo por chefe o médico militar, baiano, Dr. Raymundo Braga.
Depois dele, o chefe do Posto 4 do SAMDU em S. Maria, foi chefiado pelo Dr. Clândio Marques da Rocha, onde eu fui seu auxiliar administrativo, depois de ter prestado concurso público entre mais de 150 candidatos e ter tirado primeiro lugar. Ali convivi com cerca de 100 funcionários (médicos, enfermeiros,auxiliares de enfermagem, motoristas, porteiros, atendentes, serventes, burocratas). Além do Dr. Clândio, pelo qual tenho imenso carinho (fez um horário especial para que eu pudesse fazer meu curso de Agronomia na UFSM), lembro de quase todos : Dr. Ronald Bossemeyer, Dr. Eugênio Streliaev, Dr. Agostinho, Dr. Meyer, Dr. Oz, Dr. Mazza,etc...
De sorte que meu pai trabalhava durante o turno diurno (no Centro de Saúde) e 15 vezes por mês também acumulava o trabalho do período noturno (no SAMDU). Eu o via, portanto, muito pouco. Além disso, tinha os clientes particulares, geralmente pessoas da alta sociedade, que o contratavam para que ele desse injeções a domicílio.
Era uma vida dura. Criou a mim e minha irmã de forma digna. Conseguiu formar os dois. E levou quase 8 anos para construir uma casa própria, de alvenaria.
Uma coisa que meus amigos sempre invejaram na minha vida estudantil era o fato de meu pai, embora de precária situação financeira, ter aberto uma conta com crédito ilimitado na Livraria do Globo, cujo gerente era o Seu Valdemar Cavalheiro. Graças a isso eu pude ter uma biblioteca com mais de 600 volumes. Graças ao sacrifício do meu pai. Lembro bem de que eu já tinha casado quando meu pai conseguiu quitar toda a conta dos meus livros.
Aos 84 anos fez uma cirurgia cardíaca para correção duma anomalia nas válvulas do coração. Operou-se numa quarta-feira. Ao entardecer do domingo (9 de maio de 2004) , quatro dias depois, faleceu com ruptura da aorta abdominal. Foi velado na sala de sessões da Câmara de Vereadores, ex-vereador e vereador emérito da cidade que era. Sua morte teve ampla divulgação pela imprensa, pois liderava o movimento da Terceira Idade e era pessoa com livre trânsito na mídia. Seu enterro teve enorme acompanhamento de idosos, políticos, sacerdotes,amigos, vizinhos, público em geral.
Foi um grande homem.
E um pai fora-de-série.
Além de trabalhar no Centro de Saúde, meu pai trabalhou no SAMDU-Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, uma criação do presidente João Goulart, uma das coisas mais sérias que já existiu no Brasil em matéria de assistência pública. Meu pai participou da equipe do SAMDU desde a sua inauguração, tendo por chefe o médico militar, baiano, Dr. Raymundo Braga.
Depois dele, o chefe do Posto 4 do SAMDU em S. Maria, foi chefiado pelo Dr. Clândio Marques da Rocha, onde eu fui seu auxiliar administrativo, depois de ter prestado concurso público entre mais de 150 candidatos e ter tirado primeiro lugar. Ali convivi com cerca de 100 funcionários (médicos, enfermeiros,auxiliares de enfermagem, motoristas, porteiros, atendentes, serventes, burocratas). Além do Dr. Clândio, pelo qual tenho imenso carinho (fez um horário especial para que eu pudesse fazer meu curso de Agronomia na UFSM), lembro de quase todos : Dr. Ronald Bossemeyer, Dr. Eugênio Streliaev, Dr. Agostinho, Dr. Meyer, Dr. Oz, Dr. Mazza,etc...
De sorte que meu pai trabalhava durante o turno diurno (no Centro de Saúde) e 15 vezes por mês também acumulava o trabalho do período noturno (no SAMDU). Eu o via, portanto, muito pouco. Além disso, tinha os clientes particulares, geralmente pessoas da alta sociedade, que o contratavam para que ele desse injeções a domicílio.
Era uma vida dura. Criou a mim e minha irmã de forma digna. Conseguiu formar os dois. E levou quase 8 anos para construir uma casa própria, de alvenaria.
Uma coisa que meus amigos sempre invejaram na minha vida estudantil era o fato de meu pai, embora de precária situação financeira, ter aberto uma conta com crédito ilimitado na Livraria do Globo, cujo gerente era o Seu Valdemar Cavalheiro. Graças a isso eu pude ter uma biblioteca com mais de 600 volumes. Graças ao sacrifício do meu pai. Lembro bem de que eu já tinha casado quando meu pai conseguiu quitar toda a conta dos meus livros.
Aos 84 anos fez uma cirurgia cardíaca para correção duma anomalia nas válvulas do coração. Operou-se numa quarta-feira. Ao entardecer do domingo (9 de maio de 2004) , quatro dias depois, faleceu com ruptura da aorta abdominal. Foi velado na sala de sessões da Câmara de Vereadores, ex-vereador e vereador emérito da cidade que era. Sua morte teve ampla divulgação pela imprensa, pois liderava o movimento da Terceira Idade e era pessoa com livre trânsito na mídia. Seu enterro teve enorme acompanhamento de idosos, políticos, sacerdotes,amigos, vizinhos, público em geral.
Foi um grande homem.
E um pai fora-de-série.
terça-feira, 8 de maio de 2018
UM DIA DAS MÃES SEM MÃE - James Pizarro ( crônica do dia 8.5.2018 no Diário de Santa Maria))
Minha mãe se chamava Maria,
conhecida por todo mundo pelo nome de Iria. Dona Iria. Minha avó materna, vó
Olina, contava que o nome dela era para ser Maria Iria e que meu avô, na hora
do registro, esqueceu e registrou apenas como Maria.
Minha mãe estudou todo o Curso
Elementar (depois chamado Ginásio e hoje chamado Ensino Fundamental) no Colégio
Santa Terezinha (hoje prédio do MANECO), internato e semi-internato mantido
pela Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul em sua
época áurea. No turno da manhã, minha mãe tinha as disciplinas pertinentes a
esse tipo de curso (Matemática, Português, Ciências, Geografia, História,
Música, etc...). Pela tarde aprendia bordado, tricô, tocar violino, educação
física, etc...Minha mãe sempre dizia que as freiras do Santa Terezinha usavam a
frase : "De manhã se educa a mente e a alma, pela tarde se educa o
corpo".
Aos 16 anos conheceu Alfeu,
meu pai, e pouco tempo depois casaram. Foram morar na rua Silva Jardim, 2431.
Minha mãe ajudou na árdua luta
de sustentar uma família com dois filhos, construir uma casa própria com o
ordenado de funcionário público de meu pai, que trabalhava em dois empregos.
Exímia na arte de fazer doces, durante anos fez e vendeu doces sob encomenda
para casamentos e aniversários. Nunca teve empregada doméstica. A família
sempre recebeu ajuda providencial, quando necessário, de meu avô materno, Seu
Fredolino. Como ferroviário, ganhava muito bem à época e podia prestar este
auxílio e o fazia de bom grado.
As únicas diversões das quais
me lembro eram freqüentar todos os circos que chegavam a Santa Maria. Ir aos
bailes mensais do Clubes de Atiradores Santamariense. E não perder as
esporádicas festas do Grupo de Bolão 7 de Setembro, de cuja equipe meu pai era
o "capitão", pois era exímio bolonista.
Depois de idosa, minha mãe
freqüentou aulas na UFSM como aluna especial. Engajou-se na luta política da
terceira idade na cidade, sendo uma das fundadoras do grupo "Mexe
Coração", com sede no Centro de Atividades Múltiplas, no Parque Itaimbé. Participou
de aulas da caratê. Foi atriz de vários espetáculos do grupo teatral da
terceira idade, onde se revelou notável comediante. Viajou pelo interior gaúcho
para apresentações teatrais. Fez parte do coral dos idosos. Frequentava as
aulas recreativas de natação na piscina térmica da UFSM. Enfim, teve uma vida
socialmente participativa
Esteve casada com meu pai
durante 63 anos de feliz união, pois ambos se completavam. Ficou viúva em 9 de
maio de 2004, quando meu pai morreu vitimado por complicações pós-operatórias
advindas de uma cirurgia cardíaca.
Viveu na mesma casa sempre,
com minha irmã Jane e com uma atendente de idoso. Ela sempre teve grande
afinidade com minha mulher, sua nora. Insisti até à exaustão para trazê-la para
a praia de Canasvieiras para gozar do sossego de uma praia maravilhosa no final
de sua vida. Nunca aceitou. Consegui leva-la duas ou três vezes para temporadas
de trinta dias.
Contentei-me, então, com
conversas telefônicas semanais. Infelizmente, a minha opção de morar na
praia, desejo acalentado há anos, não coincidiu com a opção de minha mãe.
Lamentei pela opção que ela fez. Mas que fui obrigado a respeitar. Dia 4 de
fevereiro de 2012 estive em Santa Maria para festejar os 90 anos de minha mãe,
junto com dezenas de parentes, vizinhos e amigos, em animado jantar no
Restaurante Vera Cruz. De 19 a 25 de abril de 2013 estive também em Santa
Maria. E em janeiro de 2014 também estive em Santa Maria para visitar amigos,
parentes e visitar minha mãe por 29 dias. Enfim, voltei todos os anos
para visitas. Até que - maio de 2016 - depois de quase dez anos na
praia, já com 74 anos, decidi retornar aos pagos, ficar perto dos filhos,
netos, amigos, ex-alunos, meus médicos, minha cidade natal.
Em 28 de julho de 2016 minha
mãe morreu.
Morreu dormindo. Em sua
cama. Em sua casa. Como um passarinho.
Este é o segundo “Dia das
Mães” que passo sem ter mãe.
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