segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

E JESUS CHOROU...- JAMES PIZARRO (página 4 do DIÁRIO de S.Maria, edição de 18.12.2018)

No capítulo 11 de João, encontramos o versículo 35, um dos mais curtos de toda a Bíblia: “E Jesus chorou”. Não vou pontuar aqui o momento histórico que suscitou este versículo. Mas, contextualizando para os dias de hoje e num esforço de síntese, poderia resumir dizendo que Jesus chorou - e chora até hoje - por compaixão.
Jesus chorou quando, a cada três ou quatro dias, uma pessoa foi assassinada nas ruas de Santa Maria com balaços na cara pelos motivos mais torpes e vis. Jesus chorou quando crianças foram abusadas sexualmente dentro de suas próprias casas ou em suas escolas, por pessoas que teoricamente deveriam protegê-las. Jesus chorou quando mulheres fragilizadas e doentes foram abusadas por religiosos em templos onde ingenuamente foram em busca de socorro.
Jesus chorou quando uma jovem mulher grávida foi, em plena luz do dia, estuprada no Bairro do Rosário sem que ninguém visse ou pudesse lhe auxiliar. Jesus chorou pelo número de doentes que não puderam ter o atendimento merecido porque aparelhos estavam quebrados e nem leitos suficientes existiam, tendo de sofrer o martírio e a humilhação da espera nas macas dos corredores dos hospitais.
Jesus chorou diante de funcionários desesperados que tiveram seus salários parcelados, suas contas atrasadas, seu crédito cortado, sua comida racionada e o pior – muitos deles chegaram ao suicídio. Jesus chorou diante do aumento das doenças sexualmente transmissíveis, algumas tidas como controladas, devido ao comportamento descuidado e a falta de respeito das pessoas para com seu próprio corpo.
Jesus chorou pelos animais abandonados, torturados, mortos à míngua, explorados, envenenados, agredidos sem que nenhuma autoridade constituída tenha deles a mínima piedade. Jesus chorou pelos trilhões de reais roubados por políticos que só pensam em amealhar dinheiro para si e só têm olhos para seus próprios umbigos.
Jesus chorou pelas viúvas que ganham pensões ridículas, aposentados doentes que são submetidos a perícias numerosas para seguir ganhando tostões, doentes que precisam de remédios pagos pelo governo e estes sempre faltam nas farmácias oficiais. Sim, Jesus chorou muito em 2018. Talvez esteja quase “desidratado” devido à insanidade dos homens. E à insensibilidade dos políticos e autoridades.
Jesus chorou pelos hospitais não concluídos, pela falta de leitos, pelos doentes amontoados em macas, pelas mães implorando por creches, pelos mortos em acidentes automobilísticos em estradas cheias de buracos, pela falta de remédios de uso continuado para pacientes carentes.
Jesus chorou pela fúria comercial e mercantilista em que se transformou a data do seu nascimento. E só pensam em trocar presentes. E se empanturrar de comida e beber em demasia.
Vamos rezar por Jesus neste Natal ?
Ele precisa do nosso carinho também.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A VIDA DESFILA NO CALÇADÃO...- JAMES PIZARRO (página 4 da edição de 4.12.2018 do DIÁRIO de SM)

Sou frequentador assíduo do centro da cidade. Diariamente converso com pessoas da portaria do condomínio da Galeria do Comércio. Bato papo longamente com os amigos do Salão Venito. Converso com os funcionários de várias lojas da galeria. Vou à lotérica Zebrão da Galeria Roth fazer minhas megasena e quina. E depois assumo minha mesa no “Café & Doce”, com o gentil amigo Ildo e as gentis garçonetes para o saboroso café e bate-papo com dezenas de amigos.
Estou querendo dizer que, diariamente, falo com quase uma centena de pessoas. Ouço relatos. Queixas. Pedidos. Observo a vida desfilar no calçadão. Ouço as mais variadas histórias da cidade sobre saúde, segurança, educação, desemprego. Ouço não só as histórias que me são contadas pelos amigos que sentam à minha mesa. Ouço – como quem não quer nada – as histórias das mesas vizinhas, contadas por estranhos. Que, às vezes, são discussões amorosas. Mas, outras vezes, são pungentes histórias de doenças incuráveis, velórios, morte, separações, divórcios.
Como sou assíduo ouvinte da TV Justiça e ouço de cabo a rabo os longos votos dos onze juízes do nosso ilustrado STF, eu fico imaginando como eles estão distantes da realidade. Brasília é uma ilha da fantasia. Eles nem imaginam a vida real que existe e que eu assisto desfilar diante de mim diariamente no centro da cidade. As sôfregas indiazinhas de canelas finas – outrora donas do Brasil - pedindo moedinhas com seus olhos negros assustados. Vovós com máscaras cirúrgicas, alegando estar fazendo quimioterapia, pedindo dinheiro. Uma moça visivelmente drogada com seios à mostra pede pastel a todos e confessa ter feito sexo selvagem na noite anterior. O Brasil em preto e branco desfilando à minha frente, enquanto o cantor desafinado teima em cantar na parede da Caixa Econômica Federal : “Que país é este ? “
Como gosto de guardar documentos e recortes de jornal, dia desses levei para o “Café & Doce” o recorte de um artigo do meu amigo Carlinhos Costa Beber, publicado em 23 de abril de 2011 e que, entre outras coisas, elencava 13 problemas já existentes em nossa cidade naquela época :
(01) Trânsito infernal nas horas de pique;
(02) Rede de coleta de esgotos deficiente (metade da cidade não é atendida, sendo inexistente em toda a Camobi);
(03) Insuficiente cobertura vegetal (nunca houve preocupação com o plantio de árvores em nossas ruas);
(04) Estradas do interior, como para Santa Flora, que nunca receberam investimentos definitivos;
(05) Rede de Internet que não privilegia áreas comerciais importantes;
(06) Obras do PAC que não tiveram sequência, como a perimetral do Cadena;
(07) Ruas importantes com piso asfáltico vencido ou simplesmente de terra-batida, como em Camobi ;
(08) Calçadas públicas em estado lastimável (os caminhantes que o digam....)
(09) Poluição visual do centro da cidade, com painéis, luminosos, e placas das empresas e de prestadores de serviços;
(10) Problemas de vandalismo e depredação do patrimônio público e privado;
(11) Falta de fiscalização em todas as áreas de responsabilidade da Prefeitura;
(12) Falta de diálogo entre as lideranças locais;
(13) Segurança pública que precisa do apoio de uma Guarda Municipal armada.
Passados sete anos do artigo do amigo Carlinhos, pergunto-lhes : quantos dos 13 problemas apontados foram resolvidos, pelos menos parcialmente ?
Enquanto converso com meus amigos na cafeteria “Café & Doce”, todos sempre me chamam a atenção para o imenso cartaz publicitário colocado na entrada do calçadão já há quase dois anos. É um cartaz convidando a população para a FEISMA de...2017 !!!
É dose para elefante !

terça-feira, 20 de novembro de 2018

A DURA LUTA ECOLÓGICA EM S. MARIA NOS ANOS 70/80 - JAMES PIZARRO ( jorna DIÁRIO de SM, pág 4,edição de 20.11.2018)

No final dos anos 70/80 tentei explicar à comunidade através da mídia, com clareza e sem rodeios, o verdadeiro impacto ambiental provocado pela construção civil, sem controle, em nosso município. Eu tinha a intenção de fazer com que as empresas construtoras exigissem dos fornecedores certificados de que estes estavam agindo de acordo com as normas ambientais (leis, códigos, certificados de impacto ambiental, etc...). Muitos engenheiros e construtoras foram sensíveis ao tema, tendo entrado em contato comigo num primeiro momento. Mas a maioria das pessoas ligadas à área tratou de me ridicularizar, acusando-me de ser contra o progresso da cidade.
Lembro de uma declaração do saudoso Dr. Wilson Aita, docente do Curso de Engenharia Civil da UFSM, que disse - em meu socorro - "que era necessário que a exploração dos recursos naturais fosse feita de maneira racional e organizada, dentro da Lei". Eu entendia que essa transformação iria precisar de tempo, de compreensão, de paciência e que, principalmente, estruturas mínimas deveriam ser criadas para permitir a adequação dos exploradores, tais como linhas de financiamento, custos compatíveis. Nunca fui cretino nem catastrófico para querer paralisar a construção de edifícios ou algo nesta linha. Mas queria que a cidade raciocinasse sobre a utilização dos recursos da Natureza para o bem-estar do homem, utilização adequada e dentro das normais ambientais vigentes, ações que minimizassem os danos e, também, meios de reparar os danos causados.
Na realidade, eu queria expor - há quase meio século - para um público de visão paroquiana, sem cultura ecológica, uma série de indagações... A madeira usada naquela época na construção civil vinha de onde ? Esta madeira possuia "selo verde" ? Ou grande parte dela representava uma gigantesca fatia retirada de florestas que estavam em extinção acelerada ? Rochas usadas no piso e no revestimento das construções (granito, ardósia, quartzitos) são degradação em estado bruto. De onde vinha este material ? Onde são extraídos não se formam crateras lunares, montanhas de rejeitos, desmatamento e assoreamento dos cursos de água ? O que falar do processo de extração e beneficiamento do calcário, que dá origem ao cimento, principal insumo da construção civil ? Já tinha sido feito um levantamento criterioso da destruição de grutas, de cavernas, da poluição dos rios e do ar ? Quais os responsáveis pela fiscalização desse setor de mineração, que relatórios públicos a população poderia consultar ?
Uma particularidade curiosa em tudo isso é que esta poluição causada, direta ou indiretamente, pela construção civil não lhe produz o ônus social da degradação. Os impactos são, em sua grande maioria, invisíveis aos que moram na cidade. Mas existem os danos diretos, visíveis, causados pelos canteiros de obras, encontrados nas ruas e avenidas dos centros urbanos. Os danos são múltiplos, tais como a destruição do patrimônio arquitetônico, onde casas antigas, tradicionais, tombam como se fossem árvores na floresta. Há o carreamento dos resíduos de construção para os sistemas de drenagem urbana, entupindo bueiros, bocas-de-lobo, galerias, poluindo margens de córregos, ajudando a aumentar enchentes, alagamentos e derrubando casebres e ferindo gente.
Cito um exemplo que me ocorreu. A repórter Elen Almeida publicou em "A RAZÃO" reportagem sobre a destruição de centenas de árvores em pleno centro da cidade para que, em seu lugar, fosse construído um imenso conjunto de prédios residenciais. O empresário Carlinhos Costa Beber fez coro aos meus protestos no programa "Sala de Debate", da rádio Antena Um, saindo em minha defesa. Mas a destruição estava feita. E nem ao menos se ficou sabendo, à época, se havia licença para que aquilo fosse feito.
Poderia citar o vidro empregado nas construções, a extração de areia e a alteração da paisagem, com assoreamento dos cursos de água e destruição da paisagem. O alumínio e a fantástica quantidade de energia usada em sua fabricação, além da poluição causada pela extração da bauxita. A brita e os problemas causados pelas pedreiras, com destruição de áreas de preservação permanente, explosões que perturbam o sossego público, o desmatamento muitas vezes produzido. A fabricação de tijolos e a fantástica quantidade de lenha que é consumida em sua fabricação, além do que a extração de argila afeta as zonas baixas, lagoas e matas ciliares. Além da construção civil, o setor moveleiro e as indústrias de embalagens poderiam ajudar a frear a retirada ilegal e indiscriminada de madeira das florestas se passassem a exigir com firmeza de seus fornecedores a certificação ambiental. Mas tudo isso passa por sensibilidade, por educação ambiental, por vontade política, por diminuição de ganância, por mudança de comportamento.
Graças ao apoio da Promotoria Pública, numa grande campanha que promovi contra as pedreiras instaladas dentro do perímetro urbano e que destruíam áreas de preservação permanente, os morros que cercam a cidade estão preservados. Consegui, mediante denúncia sistemática em Porto Alegre e Brasília, com apoio da Justiça local, na década de 80, o fechamento da pedreira da UFSM (onde eu era professor de Ecologia do Departamento de Biologia), pedreira Link, pedreira do Morro do Cechella, pedreira da Viação Férrea, etc...Mas a maior vitória nesse sentido foi o fechamento da pedreira do Morro do Cerrito, explorada pela Prefeitura Municipal no governo Evandro Beher, atividade proibida por lei municipal e pelo Código Florestal vigente na época, por constituir-se aquele morro no último resquício de mata nativa situado dentro do perímetro urbano. Foi talvez, a maior vitória que consegui quando “estive” vereador nessa cidade, com uma proposta ecologista de mandato.
Dia destes, ouvindo uma rádio local, fiquei a escutar atentamente uma entrevista dada pelo Dr. Walter Bianchini, dono das fábrica de facas Coqueiro, de Arroio do Só, professor aposentado da UFSM e ex-secretário dos governos do Rio Grande do Sul e de Roraima. Ele dizia claramente : "Os morros de Santa Maria continuam de pé por causa da obstinação do professor James Pizarro". Tão acostumado a levar somente bordoadas, fiquei emocionado em ouvir este reconhecimento público. E fui dormir feliz aquela noite...

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

PERDOAI A BURRICE, MÃE MEDIANEIRA E ROGAI POR NÓS ! - JAMES PIZARRO (página 4 do DIÁRIO DE SM, edição de 6.11.2018)


Em 2007, a Secretaria Municipal de Turismo de Santa Maria – leia-se Paulinho Ceccin – pensou em construir um monumento em homenagem à N. S. Medianeira, padroeira do Rio Grande do Sul (muita gente pensa que é São Pedro). O monumento seria construído no Morro do Cechella e teria todos os equipamentos modernos em seu entorno, como vias de acesso, capela, lancherias, mirantes, museu para contar a história da santa, restaurantes, vendas de lembranças e postais, policiamento.

Seria uma obra gigantesca que atrairia milhares de turistas brasileiros e estrangeiros, pois seria o maior monumento brasileiro do gênero, planejada por artistas e técnicos santa-marienses, sob a direção do J. Amoretti. A prefeitura municipal não gastaria nada, pois todo dinheiro viria de doações, captação de recursos particulares e verbas do Ministério do Turismo.

Na edição de 28/29 de julho de 2007 (sábado/domingo) de A Razão, publiquei e assinei matéria de página inteira sob o título “Até a Medianeira é repudiada aqui !? “. Fi-lo porque tão logo foi lançada a ideia pela construção do monumento setores obscurantistas iniciaram feroz campanha contra a iniciativa do então secretário Paulinho Ceccin. Essas pessoas nem se deram conta da vocação que Santa Maria tem para o turismo religioso. E ficaram contra a ideia mas não fizeram proposta alternativa em seu lugar.

Nunca falei sobre isso com o Paulinho Ceccin. Nem com dom Hélio. Nem com ninguém. E ninguém me pediu para escrever a favor à época porque nunca aceitei escrever coisas por encomenda. Nem tão pouco apoiei a iniciativa por ser católico apostólico romano, praticante e convicto. Quisessem os umbandistas construir monumento semelhante em homenagem à Iemanjá, estaria eu a favor. Quisessem os meus amigos espíritas homenagear Allan Kardec com um monumento de igual tamanho, contariam com meu apoio. Sou de profunda formação ecumênica. E sempre fui A FAVOR DO DESENVOLVIMENTO E DO TURISMO DA MINHA CIDADE NATAL !!!

Tivesse o projeto sido aprovado e construído teríamos hoje no morro do Cechella o maior monumento religioso do Brasil iluminando a noite santa-mariense: a santinha em sua posição original, de braços abertos, feericamente iluminada, maternal e generosamente acolhendo em seu seio todos os santa-marienses e gaúchos. Além do turismo rendendo divisas para nosso município.

Que Nossa Senhora Medianeira ilumine a cabeça burra dos muitos que teimam em lutar contra o progresso de nossa querida cidade natal.

Oremos, pois, nessa nova edição da romaria que as luzes divinas iluminem os neurônios cerebrais das nossas autoridades e de todos aqueles que – independentes de partido político ou credo religioso – possuam poder e amem nossa Santa Maria.