segunda-feira, 10 de agosto de 2020

TRIBUTO DE RESPEITO E GRATIDÃO - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, edição de 11.8.2020, pág.4)

Albino Seibel foi meu professor de Latim durante os quatro anos do então chamado Curso Ginasial, depois chamado Primeiro Grau, hoje designado Ensino Fundamental. Os quatro livros de Latim adotados eram o "Ludus Primus", "Ludus Secundus", "Ludus Tertius" e "Ludus Quartus". Contavam a história de uma família romana, onde despontavam as histórias de Cornélia e Lésbia, recheadas de conhecimentos históricos, ensinamentos sobre Gramática, sobre as cinco declinações, milhares de radicais latinos, etc...Era o Prof. Albino uma criatura extremamente bondosa, muito ligado à Igreja Católica, incapaz de uma grosseria. Nos últimos cinco minutos de cada aula costumava abrir um caderno de capa dura, no qual estavam anotadas as suas anedotas preferidas. Ele as contava com uma ingenuidade de santo para uma turma de adolescentes que mais parecia uma horda de bárbaros. Zenaide Lúcia Martinelli de Souza foi minha professora de Francês durante dois meses e minha professora de Literatura Portuguesa durante um semestre. Era esposa do Dr. Denizard Souza, médico psiquiatra, um dos fundadores do Centro Médico Hospitalar e adepto do Espiritismo em Santa Maria. Foi através da Profa. Zenaide que fui apresentado à Eça de Queiróz, Camões, Fernando Pessoa e tantos outros monstros sagrados portugueses. Por incrível que pareça, nós fazíamos análise sintática dissecando os versos de "Os Lusíadas". Atualmente, nossos filhos e netos nem sabem o que é análise sintática. Moramos na América LATINA, falamos português (que é derivado diretamente do Latim)...e deixamos de estudar Latim no colégio ! O aluno não conhece a origem da língua que fala, o esqueleto da própria língua ! Daí a dificuldade de elaborarem uma singela redação de vinte linhas nos exames vestibulares... Guiomar Loureiro com feição indiática - mais lembrava o rosto de uma índia peruana - e um eterno sorriso, era a minha tranquila professora de Lingua Espanhola. Lembro bem do livro-texto que ela indicava : "Manual de Espanhol", de autoria de Hidel Becker. Eu fico cogitando da inteligência das pessoas que exerciam cargos diretivos no sistema educacional gaúcho naquela época ! Principalmente, penso na visão premonitória que tiveram essas pessoas, pois corria a década de 50, 60 e nunca alguém tinha falado em unidade do Cone Sul, em MERCOSUL e coisas do gênero. E o nosso Maneco já oferecia - há 50 anos - estudos de Espanhol para seus alunos. A Arize, filha de Guiomar, foi minha colega de aula durante anos. Formada em Odontologia, casou-se com Flávio Weighert, também dentista e professor universitário. O marido de Guiomar, de apelido "Mico", era sócio - proprietário do Posto Esso, de combustíveis, situado no térreo do edifício de quatro andares que ainda existe bem em frente à Igreja Catedral, na avenida Rio Branco. Atrás desse edifício era a quadra de basquete do famoso Clube Irajá, onde jogavam o ex-Reitor Armando Vallandro (de apelido "Picolé"), o ex-Deputado Federal e Estadual Carlos Renan Kurtz, o médico-psiquiatra Milton Sanchis (de apelido "Mico"),etc...Minha querida professora Guiomar Loureiro faleceu a semana passada. Poderia citar Maria Antunes Bernardes, Edgard Libino Kloeckner, Adelmo Simas Genro, Dinarte Marshall, Nilza Crivellaro Santos, Cleonice Sada Aita, Artheniza Weimann Rocha, Dinah Pfeifer, Gisela Soccal Lang, Ivo Lauro Muller, Wilson Aita, Ênio Trevisan, Iolanda Beltrame, Terezinha Grassiolli, Euterpe Almeida, Constantino Reis, Irma Peroni, Paulo Lauda, Flávio Pâncaro da Silva, Eunice Ribas, Olga Fischmann e mais cerca de 80 nomes de professores que guardo na minha memória. Mas o espaço da crônica não permite citar todos. Nem meu coração suporta tanta saudade. Mas minha gratidão continuará – enquanto for vivo e lúcido – eterna para com todos eles !

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A INDUMENTÁRIA E SEUS ADEREÇOS : UMA REVISÃO NOSTÁLGICA - James Pizarro (Seção MEMÓRIA, Caderno MIX do DIÁRIO, S. MARIA)

Em se tratando de moda – roupas, modelos, estilos – a gente nunca pode afirmar nada em definitivo. Porque algumas coisas que a gente pensava extintas de repente ressuscitam. Mas venho fazendo um exercício de memória há meses (nos últimos tempos auxiliado por amigos da internet) pesquisando sobre indumentária masculina e feminina que caiu em desuso, adereços, calçados, assuntos afins. É um assunto gostoso, saudosista, que nos traz lembranças afetivas queridas. E nos afasta um pouco dos dias sombrios. E das notícias amargas. Tentei ser didático. Vamos lá. PRIMEIRO, AS DAMAS ! Espartilho. Cinta-liga. Meias de nylon com costura atrás. Ombreiras. Babydol. Chapéu com véu. Blusa de bouclê. Estolas de pele. Saia envelope. Saia plissada. Saia evasé. Saia balonê. Saia Godê Ponche. Saia corte Princesa. Saia de armação. Vestido tubinho. Calça Saint-tropez. Manga estilo morcego. Mini-blusa. Bolerinho. Eslaque. Redingote. Calça boca-de-sino. Calça pata-de-elefante. Pantalonas. Casaco de peles. Fusô. Meias arrastão. Soutien ou corpinho. Cinto de lona. Capa de chuva de nylon. Pochete. Travessa de cabelo. Diadema. Fitas no cabelo. Rolos térmicos. Laquê. Banlon. Helanca. Pintura Henê para cabelo. Touca de cabelo. Véu branco (para moças) e véu negro (para senhoras) para comungarem na missa. Perfumes Charisma, Tabu, Toque de Amor, Madeira do Oriente. Água de Rosas para limpeza da pele. OS CAVALHEIROS ! Suspensórios. Galochas. Polainas. Cuecas samba-canção. Camisa de educação-física sob a camisa social. Lenço no bolso do paletó. Camisa Volta ao Mundo. Colete. Blusa com gola cacharrel. Capa de chuva em gabardine (modelo Sherlock Holmes). Pulôver. Gravata Bat Masterson. Chapéu de feltro. Chapéu Ramenzoni. Pijama com bolso. Abotoaduras. Barbatanas. Alfinetes na gravata. Pregador de gravata. Relógio de bolso com corrente. Calçadeira. Capanga. Piteira. Cigarreira. Fivela com iniciais do nome do dono. Suporte atlético e sunga para proteção íntima paraprática do esporte. Pasta de documentos modelos James Bond. Óculos Rayban de aro fino metálico. Perfume Lancaster. Mães faziam calções de banho dos sacos de açúcar (que eram de algodão) e posteriormente eram tingidos com corantes Guarany. OS CALÇADOS ! Merecem uma menção especial os calçados de antigamente, a começar pelos tamancos, feitos de madeira e tiras de couro cru (quando desgastados demais e perigosos, porque resvalavam, recebiam um reforço de solado de borracha de pneu). Alpargatas com solado de corda. Sandálias franciscanas. Kichute. Conga. Galocha. Vulcabrás (que não terminava nunca). Tênis 7 Vidas. Calçados do tipo plataforma. Calçados Ortopé. Samello. Fox. Clarck. Polar.

terça-feira, 28 de julho de 2020

OBJETO RASTEJANTE NÃO IDENTIFICADO - James Pizarro (DIÁRIO de S. Maria, pág. 4, 28.7.2020)

Ele gostava muito de automóveis Opala. Pois teve quatro ou cinco deles. Eram resistentes. Podiam aguentar seu pouco caso na conservação de máquinas em geral. Era desligado para aparências. Posses. Bens. Modismos. Os amigos sabiam que ele só lavava o carro quando chovia. Botava um calção e corria com balde e sabão para a calçada. Normalmente, era ajudado pela gurizada da rua que adorava aquela brincadeira com aquele vizinho. Era um carro, digamos, ecológico. Talvez seu Opala mais famoso tenha sido um branco de duas portas. Deve ter ficado com ele mais de dez anos. À medida que os anos passavam, o carro ficava mais leve. Pois certas partes do carro que ficavam velhas e caíam – desde que não fossem fundamentais e não afetassem a segurança – jamais foram substituídas ou repostas. Ele só cuidava rigorosamente de duas coisas : dos freios e dos pneus. Jamais trocou o óleo : apenas completava o nível com óleo de maior densidade. Sempre dava carona para seus alunos : uma frente e quatro no banco de trás. Tinha regras e avisava no primeiro dia de aula em Camobi : “os primeiro cinco alunos encostados no carro eu levo e jamais levo uma aluna mulher sozinha de carona porque a cidade tem muito linguarudo”. Os alunos apelidaram o carro de ORNI : Objeto Rastejante Não Identificado. Ele mesmo dizia : “Bah, esqueci do caderno de chamada lá no ORNI”. Como não dava importância ao carro, deixava o mesmo na rua em frente à sua casa. Achava um gasto desnecessário alugar garagem. Certa noite, ao chegar na janela de madrugada, viu que tinha alguém fumando dentro do carro. Desceu até à rua e deu de cara com um mendigo conhecido na rua sentado no banco do motorista, fumando e escutando rádio. O mendigo, assustado e temendo represália, espantado ouviu esta proposta : “Eu te dou licença prá ti dormir todas as noites aqui dentro do carro desde que tu fume fora dele porque eu tenho pavor de cigarro”. Não raro, antes de dormir, o professor deixava um sanduiche, bolachinhas ou alguns trocados para o zelador do ORNI. A borracha de vedação do porta-malas do Opala havia apodrecido e sido arrancada fora. O porta-molas vivia úmido porque chovia dentro. O professor fazia o rancho, as compras, comprava muitos sacos de carvão, pois adorava fazer churrasco. Certa vez, estava uma aglomeração de alunos ao redor do carro, muitos alunos batendo fotos. Tinha ocorrido algo inusitado que virou uma lenda na UFSM e também no cursinho pré-vestibular. No porta-malas tinha germinado uma semente de feijão (certamente de um saco de feijão rasgado do mercado) e o pé de feijão encontrou substrato naquele pó de carvão e umidade. E gloriosamente estava saindo pela abertura do porta-malas onde deveria existir a borracha de vedação. Saiu até no jornalzinho dos estudantes. A esposa do professor de quando em vez pegava carona com ele até o serviço para ficar com o carro. Ele descia do carro e respeitosamente abria a porta do lado do acompanhante para a esposa descer. As alunas adolescentes ficavam maravilhadas com a gentileza daquele professor com sua esposa. Uma delas chegou a lhe dizer um dia : “Quero arrumar um marido assim, profi, gentil que nem o senhor”. O professor, comovido, agradeceu. Mas ficou com vergonha de contar que a porta do carona do seu velho ORNI só abria pelo lado de fora.

terça-feira, 14 de julho de 2020

AQUELA OLHADA POR CIMA DO OMBRO - JAMES PIZARRO (pág.4 do DIÁRIO,edição de 14.7.2020)

Naquele entardecer de 14 de julho de 1966 fazia muito frio em Santa Maria. E chovia muito. Tempo feio para uma data tão importante. Que certamente não era a data nacional da França. Com a tomada da Bastilha. Mas era uma data de outra tomada de posição. Diante dos familiares. Dos amigos. Da vida. E do mundo. Já no altar da Catedral de Santa Maria, ao lado dos padrinhos e testemunhas, o noivo espera. Pela noiva. E pelo monsenhor Érico Ferrari, oficiante do casamento, que pouco tempo depois seria bispo. E naqueles cinco ou dez minutos de espera, pela sua mente inquieta, desfilaram em imagens aceleradas dois anos de namoro e um ano de noivado. Tudo começou com aquela olhada por cima do ombro que ela lhe deu na “Primeira Quadra” – hoje calçadão Salvador Isaia – depois da saída da sessão de cinema no Cine Glória em 23 de janeiro de 1963. O que ensejou que ele lhe telefonasse naquela noite mesmo na cara e na coragem indagando “sutilmente” se a olhada tinha sido para ele mesmo. Depois de um silêncio soturno, a confirmação que iniciou o romance. O namoro iniciou no último dia do vestibular dele. Ele já trabalhava – com 21 anos – como auxiliar administrativo concursado do SAMDU e dava aulas de Biologia no Santa*Anna e cursinho. Todo dinheiro que ganhava era parte empregado no sustento pessoal e parte investido na compra de móveis e demais objetos para montagem de uma casa, o que enchia de espanto os familiares dela. Pois tinha recém começado o namoro e com pouco mais do que 16 anos, ainda fazendo o Curso Normal no Olavo Bilac. Três anos se passaram e o destemido e teimoso moço alugou uma casa e montou toda a estrutura para morar um casal. E passou ele mesmo a morar sozinho nela. Pediu a moça em casamento quatro meses antes mesmo da formatura dele. Os mais velhos da família, de ambos os lados, viam com temor aquela pressa e achavam uma ousadia. Mas nada podiam objetar porque o moço era estudioso, trabalhador e a moça o queria. Ele trabalhou quase meio século como professor universitário. E também em rádio, TV e jornal. Ela é e formada em Educação Física. No dia de hoje ambos estão comemorando 54 anos de casados. Bodas de Níquel. Para quem estuda Química, o níquel é um material de grande ductilidade, que é a capacidade de suportar deformações, fraturas e rompimentos mesmo quando submetidos a cargas. E também tem grande maleabilidade, além de ser resistente à corrosão e à ferrugem. Nada mais simbólico do que o níquel para marcar estas bodas de 54 anos de casamento. Levando-se em conta que a média de duração dos casamentos no Brasil atualmente é de 4,5 anos apenas, segundo dados do IBGE. Há necessidade nas relações a dois de muita resiliência, companheirismo, paciência, capacidade de perdão, maleabilidade e ductibilidade. Daquela olhada por cima do ombro naquela distante noite de 1963 em plena “Primeira Quadra” brotaram hoje três filhos, seis netos, genros, nora. E a certeza cada vez maior de que não existe nada mais importante no mundo do que a família. Eu te amo, Vera Maria ! Parabéns pelo nosso dia !

segunda-feira, 29 de junho de 2020

UM SONHO DE CIDADE - JAMES PIZARRO (30.6.2020 - DIÁRIO de S. Maria, pág. 4)

O coreto da praça Saldanha Marinho com a banda militar tocando dobrados maravilhosos e o povo encantado com as manobras feitas nos pratos pelo sargento Leobaldino, vulgo “Farol”. Enquanto crianças encantadas tentavam falar com as tartarugas do chafariz da praça. Senhoras de cabelos brancos e homens tomando chimarrão calmamente sentados nos bancos bem cuidados. E centenas de pássaros voejando entre as dezenas e dezenas de árvores. Pipoqueiros. Vendedores de carapinha e algodão doce. A subida do perau com estrada imaculadamente limpa. Nenhuma pedra de basalto do calçamento solta. Nada de lixo nas valetas. Colibris sugando com delírio. Vista deslumbrante dos contrafortes da serra. Anunciando a breve chegada nos lindos balneários com seus límpidos açudes. Todos com águas transparentes e potáveis. Ambientes sem mosquito pólvora e sem sanguessugas. Ruas e avenidas da cidade rigorosamente limpas. Trânsito fluindo organizado. Sinaleiras em perfeita sincronia, com “onda verde” tecnicamente planejada. Nenhum ponto de estrangulamento ou perda de tempo para irritabilidade de motoristas e pedestres. Asfalto com marcações perfeitas, faixas de segurança rigorosamente pintadas. Pistas de rolamento feito um veludo. Nada de solavancos. Zero de buracos. Morro do Cechella com um gigantesco monumento de Nossa Senhora Medianeira, mais alto do que o Cristo Redentor. Com luzes que são avistadas até à Quarta Colônia. Com restaurante panorâmico no morro. Capela para realização de missas. Dezenas de lojas para venda de objetos e recordações turísticos. Centenas de turistas visitam o local, pois o morro foi totalmente dotado de toda espécie de equipamentos Posto policial e posto médico no local dão suporte ao turista. Do Morro do Cechella até à estrada que dá acesso a zona da serra, passando por cima da barragem do DNOS, um teleférico deslumbrante que atrai a atenção de todos. Uma grande obra de engenharia, orgulho da cidade e seus habitantes. Que atrai milhares de turistas por ano. Gare da antiga estação da Viação Férrea do RS no final da avenida rio Branco totalmente recuperada. Porque dela parte o “Expresso UFSM”, um comboio de dezenas de vagões de passageiros, carros pintados de azul e branco com o quero-quero da UFSM nas paredes externas, puxado por uma locomotiva Maria Fumaça. Transporta os estudantes da gare até o campus da UFSM, pois da estação de Camobi foi puxado um ramal de dois quilômetros até dentro do campus. Custo zero ou quase zero para os estudantes. Plano de arborização gigantesco para todo o município de Santa Maria prometido, em conjunto, por todos os candidatos a prefeito para as próximas eleições, já que há décadas não se tem notícia de plano e execução REAL e CONTINUADO de árvores no município. Neste momento, quando estou radiante de alegria, sou sacudido por minha mulher que me acorda da soneca depois do almoço para me avisar que o fisioterapeuta chegou. E tenho de fazer meus exercícios de recuperação muscular por causa da pandemia, por estar muito tempo em casa sem caminhar. Eu estava sonhando...

terça-feira, 16 de junho de 2020

ARTHURZINHO, UM AMIGO GIGANTE - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, pág.4, edição de 16.6.2020)

Passamos por tempos estranhos. As pessoas estão nervosas. Fragilizadas. Sensibilidade exacerbada. E há razões de sobra para instabilidade emocional. Desequilíbrio no orçamento doméstico. Falta de reajuste salarial há anos. Milhares de desempregados. Ou medo de perder o emprego que tem. Queda das vendas. Crise financeira. Tudo é motivo para imediato debate eivado de agressividade. E há ainda a pandemia estremecendo os nervos de todos. Dia desses, desci ao subsolo do prédio onde moro pelo elevador de serviço para levar o lixo. Quando entrei, dei “bom dia” a uma senhora que estava já no elevador. Pois sou do tempo antigo, habituado a cumprimentar os outros. Imediatamente, sem me responder o cumprimento, ela lascou raivosa : “- Bom dia só que seja para o senhor, aposentado federal, vida mansa e acomodado”. Na véspera eu tinha feito um procedimento cirúrgico com o talentoso cirurgião e meu querido amigo Dr. Chariff DDine para remoção de um cisto na região inguinal, onde levei nove pontos. Estava ainda com dores. Olhei aquela senhora raivosa e ressentida. E me deu vontade de manda-la para um certo lugar. Mas lembrei dos conselhos da saudosa vó Olina, meu eterno anjo da guarda. E fiquei calado. Fiquei feliz com a minha resiliência. E ainda esperei ela terminar de colocar o seu lixo e fiquei segurando a porta do elevador para ela entrar. Tem de matar o ódio com a delicadeza, a educação e o silêncio. Mas em contraposição a figuras amargas como esta senhora, existem outras. Que fazem a vida valer a pena. E que faço meu personagem dessa crônica de hoje : meu amigo Arthur Neves da Silva. Funcionário do setor administrativo da FIAT há mais de trinta anos eu acho. Carinhosamente, conhecido em toda a cidade por Arthurzinho. Um modelo de simpatia e gentileza. Uma pessoa de relações. Com livre acesso em todos os segmentos da nossa cidade. O Arthurzinho tem uma bem constituída família, esposa enfermeira e duas filhas estudantes. Seu velho pai, meu amigo Severino, com 80 anos, mora com ele. E recebe todos os cuidados que poucos filhos neste país dedicam a um pai idoso, desde as refeições, banho, passeios e todo tipo de vontade. A esposa enfermeira trabalha no Hospital Universitário e também na Prefeitura Municipal, razão pela qual Arthurzinho assume tarefas múltiplas do lar para que a esposa – a quem muito ele admira pela capacidade de trabalho – possa desempenhar bem suas tarefas e ter suas necessárias horas de descanso. O Arthurzinho é meu companheiro de cafezinho na lancheria “Café & Doce”, do meu amigo Ildo, no Calçadão desde que regressei de Florianópolis. Mas não nos encontramos há mais de três meses porque estou em isolamento. Nos falamos pelo facebook diariamente ou pelo telefone. E uma vez por semana sou chamado na portaria do meu prédio porque há sempre uma lembrança ou agrado do Arthurzinho deixado lá. Ele sabe dos meus gostos. Uma semana traz conserva de pimentão. Ou cebolinhas em conserva vindas da Quarta Colônia. Ou rapaduras de amendoim. Ou bolos para “a tia Vera tomar café”. Em contraposição, a gente deixa na portaria pães feito em casa pela Vera Maria para ele levar. Devo uma série de gentilezas outras ao Arthur. De me acompanhar até em casa carregando coisas mais pesadas. Ou me trazendo remédios da farmácia quando está pelo centro. Ou me fazendo indicações de pratos especiais em restaurantes para telentrega. Ou telefonando para bater papo porque sabe que sinto falta de conversa com os amigos. E ele sabe – é da sua essência e da sua alma – ser companheiro e afetuoso com os outros. Numa época em que o mundo parece ser movido apenas por interesses econômicos. Por isso, esse registro público ao meu amigo Arthurzinho !

segunda-feira, 1 de junho de 2020

ENGOLINDO SAPOS NA QUARENTENA - James Pizarro (DIÁRIO de SM, pág.4, edição de 2.6.2020)


Uma das figuras mais pitorescas que o centro de Santa Maria conheceu foi o "Engole-Sapo". Vivia rigorosamente vestido de terno e gravata e com uma imensa corneta de lata nas mãos, precursora certamente dos modernos megafones. Usava também elegante chapéu marrom eu bem me lembro.

Ele era propagandista de lojas, farmácias, circos, bailes – enfim – anunciava qualquer tipo de coisa. Usando a corneta de latão, ele berrava nas esquinas com voz potente, o que lhe valeu um papo no pescoço. Em ocasiões especiais, principalmente nas dependências do Café Cristal, na Primeira Quadra (hoje, Calçadão Salvador Isaia), ele tirava um sapo de um vidro e diante do estupor da platéia, ele engolia o batráquio. Minutos depois ele regurgitava o mesmo, sendo aplaudido com delírio. Com o dinheiro conseguido pelo trabalho que fazia, conseguiu sustentar uma filha, que se formou professora nessa valorosa Santa Maria da Boca do Monte.

Vivo fosse hoje, o “Engole-Sapo” certamente faria furor como conferencista no atual momento pelo qual passa a humanidade. Em particular, os brasileiros. Certamente ele teria preciosas lições a ensinar de como engolir sapos depois de escutar noticiário de televisão, por exemplo.

Mas troquemos para assuntos mais leves...Mega-Sena, por exemplo !

Todo dia que tem sorteio da Mega-Sena eu jogo alguns cartões e um ou dois bolões, por bondade da Tatiane, da Lotérica da Galeria Roth, que me traz os jogos a domicílio já que estou há quase três meses  sem sair de casa.  Estou tentando ganhar para provar uma verdade a respeito da nossa “sincera” sociedade de consumo.

Se eu fosse vencedor e ganhasse toda bolada sozinho, o pessoal que me critica e me chama de "gordo louco" imediatamente passaria a me chamar de fofinho simpático. Ou obeso excêntrico. Ou diriam que nunca tinham reparado na minha simpatia contagiante. Por aí...

Logo ressurgiriam das cinzas, parentes distantes que nunca falaram comigo. Conhecidos que nunca responderam minhas mensagens de facebook. Gente que nunca vi escrevendo cartas melosas pedindo ajuda financeira.

E como tudo é possível, alguma cinquentona com um filho maior de idade, a tiracolo, exigindo um DNA.

Seria a consagração da hipocrisia !