sábado, 27 de novembro de 2021

UMA CARTA SEM RESPOSTA HÁ 43 ANOS - JAMES PIZARRO (Seção MEMÓRIA - 27.11.2021 - jornal DIÁRIO)

Na data de 15 de janeiro de 1978, um domingo, o jornal “O EXPRESSO” de Santa Maria, publicou com destaque à página 2 um artigo de minha autoria sob o título “BILHETE PARA O SENHOR PREFEITO”. Passados mais de 43 anos e sem ter obtido até hoje resposta, reavivo a memória da população, pois o conteúdo do que eu propunha continua mais atual do que nunca. Vamos ao texto. SENHOR PREFEITO ! “ Sei que o Sr. É um homem sensível aos apelos que lhe fazem. Sei também que o Sr. É homem muito ocupado. Como sei também que não deve ser moleza governar um município como o nosso. Eu sou um livre atirador, Sr. Prefeito. Professor universitário e homem de imprensa, apartidário e não filiado a qualquer a qualquer delírio coletivista, fico muito à vontade para pensar. E faço força, na medida das minhas limitações, para acertar. Como o Sr. é prefeito de todos nós, inclusive deste humilde escriba, eu me sinto na obrigação de ajuda-lo. Ou denunciando coisas que julgo erradas, como o desmatamento criminoso dos nossos morros. Ou aplaudindo, como no caso da avenida Itaimbé e do Calçadão. Ou sugerindo, como já fiz tantas vezes e torno a fazer hoje. Gostaria que o Sr. incluísse nos seus planos para esse ano que ainda é menino (estamos em janeiro), um plantio de árvores em todas as ruas, avenidas, vielas e becos de nossa cidade. Santa Maria tem a única Estação Experimental de Silvicultura existente no Rio Grande do Sul. Santa Maria tem o único Curso de engenharia Florestal do Rio Grande do Sul. E em nossa cidade já há, pelo menos na faixa infanto-juvenil e adolescente, uma consciência ecológica. A gente moça já tem uma boa vontade tremenda em relação às coisas da natureza, Sr. Prefeito. Não seria o caso da Prefeitura, através de uma campanha bem bolada, usar todo esse potencial que a cidade tem e partir para um planejado plantio de árvores em todos os seus recantos ? Colegas seus, Sr. Prefeito, de outros recantos do Brasil, já entraram nessa. Em belo Horizonte, por exemplo, está se desenvolvendo com sucesso uma campanha coordenada pelo Departamento de Parques e Jardins da Prefeitura, campanha intitulada Dê Carinho a uma Árvore”. Em apenas três meses, com auxílio de toda a população, o seu colega de Belo Horizonte vai plantar 20.000 árvores ! E cada proprietário de casa , na frente da qual foi plantada a árvore, recebe um manual-circular. Onde é ensinado como deve ser feita a preservação da árvore. Já pensou que negócio bacana, Sr. Prefeito ? O Sr. poderia – se aceitar minha sugestão -conceder incentivos fiscais aos moradores que colaborarem com a campanha de reflorestamento da cidade. O Sr. poderia fazer uma redução – mediante concordância da Câmara de Vereadores – entre 5 a 10 % no Imposto Territorial aos proprietários de imóveis residenciais, comerciais ou industriais que apresentarem requerimento a Prefeitura PROVANDO que mantém áreas ajardinadas e cultivam – EM CARÁTER PERMANENTE – espécies de plantas ornamentais em suas propriedades. As mudas podem ser plantadas em regime de “mutirão” com a colaboração da população. E por que não encampar a iniciativa de alguns abnegados santa-marienses que plantam mudas de hortências nas zonas da serra ? Por que não a Prefeitura ordenar que sejam plantadas hortênsias em todas as vias de acesso a nossa cidade ? Sr. Prefeito : o Sr. poderia pedir o auxílio e apoio da UFSM, da Secretaria da Agricultura, do Lions, do Rotary, da Brigada Militar, do Exército, dos escoteiros, das bandeirantes, da Coordenadoria de Ensino. Que tal a ideia ? E o Sr. poderia colocar mais gente, com mais ideias, nessa campanha. O Sr. sabe quantas crianças nascem POR DIA em Santa Maria ? Pois o Sr. poderia enviar às maternidades uma belamuda de árvore para presentear a família do recém-nascido. Seria a melhor forma de homenagear a cada novo munícipe. O pai e a mãe regressariam para casa trazendo o novo membro da família. E trariam junto a muda de árvore que haverá de dar sombra à criança. Sr. Prefeito : será que eu sou um pobre sonhador ? Ou será que sou um pobre maluco que lhe quero encher a cabeça com mais problemas ? Sr. Prefeito : seja um sonhador como eu. E participe das minhas maluquices !”

terça-feira, 16 de novembro de 2021

MINHA PRIMEIRA ROMARIA DA MEDIANEIRA - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - 16.11.2021)

Compreendo quem tem insônia. Relevo quem tem sono agitado. Quem é atormentado por pesadelos. Tenho imensa piedade por amigos que têm distúrbios ligados ao sono. À dificuldade de dormir. Porque dos meus nove aos treze anos comi o pão que o diabo amassou por causa desses problemas. Porque sofria de insônia. Noites mal dormidas. Temores noturnos. Quando o sol ia se pondo e a noite se avizinhava, eu já sentia verdadeiro pavor. Meu pai me levou a médicos. Que me perguntavam coisas. Ouvi pediatras dizerem para meu pai que eram distúrbios da pré-adolescência. Que eu era sensível. Um deles disse que eu era "precoce". Lembro como se fosse hoje que eu fiquei estarrecido quando o médico disse isso. Porque eu não conhecia a palavra. Na minha mente agitada imaginei que fosse um tumor, uma moléstia grave. Fiquei tranquilo quando, ao chegar em casa, consultei o único dicionário que existia na época, de autoria do Fernando Fernandes. E fiquei sabendo o que queria dizer "precoce". A medicina não resolveu meus problemas noturnos. Eu continuava a ouvir ruídos. Ouvia gente cochichando. E via coisas. Principalmente fogueiras. Nunca vi pessoas e nem animais. Tudo que eu via era relacionado com fogo. Tinha vergonha e muito medo de contar para os outros. Principalmente sobre as fogueiras. Porque temia que me chamassem de louco. Como a Medicina não resolveu meu problema, a família apelou para outros recursos. Como fazem as famílias até hoje diante de casos insolúveis. Minha mãe me levou então a centros espíritas. A sessões de umbanda. Tomei passes de descarga. Sessões de descarrego. E toda uma terminologia que eu não entendia direito. Numa sessão dessas o médium receitou "Kola Fosfatada Soel", um medicamento feito de ervas muito popular naqueles tempos. E disse que eu teria de comer muita alface na janta. Também não adiantou nada. Até que minha amada avó Olina me levou na romaria de Nossa Senhora Medianeira. A primeira romaria das dezenas que eu iria comparecer depois durante toda minha vida. Lembro que fui todo de branco, com enormes asas de anjo. Carregando uma vela de quase um metro de altura. Alguns amigos meus me esperaram na rua do Acampamento. E quando eu passei um deles gritou : “Tu é um demônio, tu não é anjo”. Porque a minha fama de autor de travessuras na Silva Jardim era grande. Minha avó me dizia que eu rezasse com fé. Que aquelas vozes, aquelas visões de fogo iriam desaparecer. E que eu jamais iria sentir medo da noite. Quando a santinha passou eu olhei para ela e fiquei em estado de graça. Estava tomado pela fé da minha vó Olina. E ela me disse : “Olha para ela...pede agora, com todas as tuas forças.” E eu, chorando, pedi. Com todas as minhas forças. Como minha vó tinha mandado. As vozes realmente sumiram. Nunca mais tive medo. E quando me perguntavam se eu ainda enxergava fogueiras, labaredas, eu mentia. Porque eu continuei a ver aquele fogo durante algum tempo. Eu não queria decepcionar minha avó. E muito menos decepcionar a santinha. Até que um dia – como num passe de mágica - nunca mais enxerguei nada. E até hoje durmo que nem uma pedra.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

BALEIA EM SANTA MARIA - James Pizarro

No final dos anos 50, entre o edifício Taperinha (ainda em construção) e o Clube Caixeiral estacionou por dias um imenso caminhão carregando uma baleia. A baleia era de grande porte e para ve-la se pagava entrada. Tinha uma cobertura de lona por cima, semelhante a uma barraca, com armações...a gente pagava o ingresso e entrava por um lado, dava a volta no caminhão e saía pelo outro lado...era preta...tinha odor de formol por causa da conservação...lembro como se fosse hj. Foi a primeira vez que a população santa-mariense viu uma baleia. Eu fui ver mais de uma vez e aquilo me marcou muito. MEU PEDIDO : alguém têm fotos ou registros de jornal sobre este fato ? Já procurei muito e ainda não encontrei. Ficaria imensamente agradecido se alguém colaborasse com informações ou fotos e notícias de jornal ou revista.Podem deixar comentário aqui mesmo ou mandar para meu e-mail : jamespizarro137@hotmail.com

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A ESTRADA - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - 02.11.2021)

Desculpe o mau jeito, caro amigo. Mas você acaba de morrer. Morrer você e seu carro. Você é um daqueles caras recolhidos ao Instituto Médico Legal. Você é a nossa triste notícia. Mais uma rotineira manchete. Vamos falar com franqueza : nós detestamos dar notícias tristes. Todos os fins-de-semana, após cada feriadão, procuramos nunca chocar as pessoas. Porque o que gostamos mesmo de falar é da beleza dos ipês-roxos nos morros de Santa Maria. Dos ipês-amarelos do campus da UFSM. Da beleza das quaresmeiras e azaleias. E dos plátanos à beira das estradas. Somos até um pouco exagerados e repetitivos. Vivemos pedindo aos pedestres que tomem cuidado ao atravessar as ruas e avenidas. E não nos cansamos de alertar os motoristas dentro e fora da cidade. Porque em cada rua, preferencial ou não, sempre há uma criança ou um velhinho. E essa gente requer uma atenção toda especial. Fazemos isso não só nos feriadões e fins-de-semana. Mas todos os dias. Existem alguns raros otimistas que acreditam no impossível : que um belo dia ninguém morrerá nas estradas nem nas ruas. É claro que quando isso acontecer – se acontecer – essa será a nossa manchete ! Até lá nós vamos dando avisos. Conselhos. Recomendações. E nem assim, meu caro amigo, você se livrou de morrer ! Não precisa nos dar nenhuma explicação ! Apenas queremos saber que desculpa você vai dar à sua mulher, que está no hospital. Ou a seus filhos, agora órfãos. É melhor não falar nada. Eles não estão querendo desculpas. Eles estão querendo você ! É inútil falar dos freios. Da fechada. Lombada. Ultrapassagem. Sono. Dois dedos de caipirinha. Pressa. Compromissos. Hora marcada. Falta de sinalização. Ausência de policiamento. Falta de estabilidade do automóvel. Defeito do velocímetro. Luz alta. Nós o estávamos esperando de volta. E você falhou. E não foi por falta de aviso. Sempre. Em todos os momentos. A mídia e nós cansamos de dizer que “todo carro é uma arma”. E uma arma que não perdoa desaforo. Agora estamos aqui com seu prontuário de bom motorista. Sem saber o que fazer com ele. Mas isso não é vantagem. Todos nós somos bons motoristas. Os melhores do mundo ! E disso nos gabamos enquanto lemos (porque estamos vivos) a relação dos mortos nas estradas. Enquanto lemos a estória da sua morte. A morte de um ex-bom motorista. Veja : você acabou de manchar de sangue o seu prontuário ! Você acaba de jogar fora a sua vida. Você não tem nenhuma desculpa. Você, meu caro amigo, morreu numa estrada asfaltada que corta o centro do Paraná. E você, meu caro amigo, vai nos fazer muita falta. Que pena !

terça-feira, 19 de outubro de 2021

O OUTRO PROFESSOR PIZARRO - James Pizarro (DIÁRIO - 19.10.2021)

O que lhes passo a contar agora ocorreu na década de 70. E é uma curiosa história. Que resolvi partilhar. Pois ela realmente é inusitada. Regressando de um passeio pelo Rio de Janeiro onde, entre outras coisas, visitaram o Jardim Botânico, Braulio e Edith - meus sogros – contaram-me que uma das aléias do referido Jardim Botânico possuía uma placa, onde estava a seguinte inscrição : “Aléia J. PIZARRO, 1902-1903”. Imaginei logo que deveria ser uma homenagem a um antigo diretor do Jardim BoTânico que, por coincidência, tinha o mesmo nome meu. Alguns dias depois, contando este fato para dois colegas do Departamento de Biologia da UFSM que eram professores de Botânica, indaguei se eles não conheciam publicações deste professor Pizarro, que começava a provocar a minha curiosidade. Diante da resposta negativa, a funcionária do departamento encarregada do fichário de livros na época – dona Maria – disse-me que já havia lido algo a respeito. Procurou no seu fichário e numa rapidez que me espantou , entregou-me um exemplar da revista RODRIGUESIA, de abril de 1945, revista do Jardim Botânico do RJ. Pois lá estava, na página 69, o retrato e a biografia do professor Pizarro. Li avidamente. E fiquei sabendo que o professor J. Pizarro nasceu em Pernambuco em 1842, exatamente cem anos antes de mim, pois nasci em 1942. E morreu num dia 21 de fevereiro, que é o dia de nascimento da minha mulher e também dia de nascimento do meu segundo filho que, por incrível que possa parecer, também se chama James. Fiquei gostando tanto destas coincidências e achei tão simpático o referido professor (com seus cabelos brancos e um enorme e bem cuidado bigode), que resolvi escrever para o Jardim Botânico solicitando mais dados a respeito do mesmo. Ele ingressou aos 17 anos no Colégio Pedro II, onde colou grau de bacharel em Ciências e Letras. Em 1866 doutorou-se em Medicina, dedicando o melhor de suas atividades ao estudo das Ciências Naturais. Ingressando no Museu Nacional, aí fez conferências sobre assuntos pertinentes àquelas áreas. Ocupou cargos na Administração, Diretoria Geral e Chefia das Seções de Zoologia, Antropologia, Paleontologia e Botânica. Da Botânica, ele preferiu o ramo que se relaciona com as plantas medicinais e sua classificação. Em 1872 foi catedrático da Faculdade de Medicina mediante concurso. Além de professor, o Dr. Pizarro foi representante do Brasil na Exposição de Viena. Foi diretor do Asilo dos Menores Desvalidos. Foi vice-diretor da Faculdade de Medicina e professor de Medicina Legal da Faculdade de Direito do RJ. Foi cirurgião da Armada por ocasião da Guerra do Paraguai. Teve várias condecorações. Morreu no dia 21 de fevereiro de 1906. A lista dos seus trabalhos não é avultada em quantidade, mas em qualidade e importância do seu conteúdo. Sua tese de doutoramento, a par dos aspectos clínico-cirúrgicos, traz interessantes estudos químico e farmacêutico dos alcaloides das estriquíneas. Também publicou tese sobre as “Solanáceas Brasileiras” e um trabalho sobre “Fundamentos da Fitografia Médica”. Depois de saber tudo isso a respeito do professor pernambucano J Pizarro, sobrou-me - além da admiração pelo seu trabalho e a imagem de um exemplo a ser seguido – uma ternura quase inexplicável, que tentei registrar aqui nestas poucas linhas. Saiba pois, querido professor Pizarro, onde estiver que – mesmo tantos anos depois de sua morte, ocorrida em 1906 – o senhor conquistou meu respeito, carinho e vigorosa admiração.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

DIA DOS ANIMAIS - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - 5.10.2021)

Ontem, 4 de outubro comemorou-se o Dia Internacional da Natureza, o Dia dos Animais e o Dia de São Francisco de Assis, patrono mundial da Ecologia. Quero, então, fazer uma importante recomendação. Trata-se de um programa para ficar bem-informado sobre as principais ameaçadas à fauna brasileira e sobre o que está sendo feito para reduzir impactos negativos. O “1º Seminário da Fauna Brasileira – Os desafios da conservação” ocorreu em julho deste ano, promovido pela Fauna News e pela Agência Envolverde. Especialistas que pesquisam e trabalham com tráfico de fauna, caça, atropelamentos de animais silvestres em rodovias, e a relação entre saúde pública e fauna, estiveram reunidos em painéis temáticos, apresentando os trabalhos desenvolvidos para enfrentar esses problemas. O evento foi gratuito, transmitido pelo perfil no Facebook da Envolverde e Fauna News, e pelo canal do YouTube da Envolverde. Os principais pontos abordados foram os seguintes: Tráfico de fauna – perdendo a liberdade para viver como bicho de estimação; Caça – uma prática ilegal com lobby no congresso; Atropelamentos de animais em rodovias – como reduzir o massacre das rodovias e Fauna silvestre e saúde pública – humanos e animais em risco. Recomendo, ainda, um dos livros mais vendidos na Itália, de autoria de um padre franciscano, tem por título “Os animais também têm alma”. E em diversas igrejas, no dia 4 de outubro, é comum os sacerdotes promoverem celebrações especiais com bênção aos animais de estimação. Deve-se lembrar, também, da “Declaração Universal dos Direitos dos Animais”, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a Educação, a Ciência e a Cultura (), em sessão realizada em Bruxelas, na Bélgica, em 27 de janeiro de 1978. A declaração traz que “todos os animais têm direitos”. O desconhecimento disso faz com que o ser humano cometa crimes contra os animais. O texto destaca que se deve “ensinar, desde a infância, a observar, a compreender, a respeitar e a amar os animais”. Dentre os direitos dos animais devemos destacar: Art. 1º – Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência Art. 2º – O homem, como espécie animal, não pode exterminar os outros animais ou explorá-los violando esse direito; tem o dever de por os seus conhecimentos ao serviço dos animais Art. 2º, 3 – Todo o animal tem o direito à atenção, aos cuidados e à proteção do homem “Art. 6º, 2 – O abandono de um animal é um ato cruel e degradante Art. 7º –Todo o animal de trabalho tem direito a uma limitação razoável de duração e de intensidade de trabalho, a uma alimentação reparadora e ao repouso Há também o Dia Mundial dos Animais de Rua, celebrado em 4 de abril. Nesse dia, homenageia-se os animais abandonados e que vivem nas ruas. Em Santa Maria, diversas pessoas recolhem e cuidam de animais abandonados, muitas vezes, com enorme sacrifício, sem ajuda oficial de ninguém. Existem médicas veterinárias que fazem trabalhos meritórios nesse sentido, além de ONGs e entidades que se dedicam a esta função, como o Criadouro São Braz e o Hospital Veterinário da UFSM, mas precisamos avançar. Sensibilizar o mundo oficial, sobretudo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

A MINHA DURA LUTA ECOLÓGICA - James Pizarro

No final dos anos 70/80 tentei explicar à comunidade através da mídia, com clareza e sem rodeios, o verdadeiro impacto ambiental provocado pela construção civil, sem controle, em nosso município. Eu tinha a intenção de fazer com que as empresas construtoras exigissem dos fornecedores certificados de que estes estavam agindo de acordo com as normas ambientais (leis, códigos, certificados de impacto ambiental, etc...). Muitos engenheiros e construtoras foram sensíveis ao tema, tendo entrado em contato comigo num primeiro momento. Mas a maioria das pessoas ligadas à área tratou de me ridicularizar, acusando-me de ser contra o progresso da cidade. Lembro de uma declaração do saudoso Dr. Wilson Aita, docente do Curso de Engenharia Civil da UFSM, que disse - em meu socorro - "que era necessário que a exploração dos recursos naturais fosse feita de maneira racional e organizada, dentro da Lei". Eu entendia que essa transformação iria precisar de tempo, de compreensão, de paciência e que, principalmente, estruturas mínimas deveriam ser criadas para permitir a adequação dos exploradores, tais como linhas de financiamento, custos compatíveis. Nunca fui cretino nem catastrófico para querer paralisar a construção de edifícios ou algo nesta linha. Mas queria que a cidade raciocinasse sobre a utilização dos recursos da Natureza para o bem-estar do homem, utilização adequada e dentro das normais ambientais vigentes, ações que minimizassem os danos e, também, meios de reparar os danos causados. Na realidade, eu queria expor - há quase meio século - para um público sem visão ambientalista, sem cultura ecológica, uma série de indagações... A madeira usada naquela época na construção civil vinha de onde ? Esta madeira possuía "selo verde" ? Ou grande parte dela representava uma gigantesca fatia retirada de florestas que estavam em extinção acelerada ? Rochas usadas no piso e no revestimento das construções (granito, ardósia, quartzitos) são degradação em estado bruto. De onde vinha este material ? Onde são extraídos não se formam crateras lunares, montanhas de rejeitos, desmatamento e assoreamento dos cursos de água ? O que falar do processo de extração e beneficiamento do calcário, que dá origem ao cimento, principal insumo da construção civil ? Já tinha sido feito um levantamento criterioso da destruição de grutas, de cavernas, da poluição dos rios e do ar ? Quais os responsáveis pela fiscalização desse setor de mineração, que relatórios públicos a população poderia consultar ? Uma particularidade curiosa em tudo isso é que esta poluição causada, direta ou indiretamente, pela construção civil não lhe produz o ônus social da degradação. Os impactos são, em sua grande maioria, invisíveis aos que moram na cidade. Mas existem os danos diretos, visíveis, causados pelos canteiros de obras, encontrados nas ruas e avenidas dos centros urbanos. Os danos são múltiplos, tais como a destruição do patrimônio arquitetônico, onde casas antigas, tradicionais, tombam como se fossem árvores na floresta. Há o carreamento dos resíduos de construção para os sistemas de drenagem urbana, entupindo bueiros, bocas-de-lobo, galerias, poluindo margens de córregos, ajudando a aumentar enchentes, alagamentos e derrubando casebres e ferindo gente. Cito um exemplo que me ocorreu. A repórter Ehlen Almeida publicou em "A RAZÃO" reportagem sobre a destruição de centenas de árvores em pleno centro da cidade para que, em seu lugar, fosse construído um imenso conjunto de prédios residenciais. O empresário Carlinhos Costa Beber fez coro aos meus protestos no programa "Sala de Debate", da rádio Antena Um, saindo em minha defesa. Mas a destruição estava feita. E nem ao menos se ficou sabendo, à época, se havia licença para que aquilo fosse feito. Poderia citar o vidro empregado nas construções, a extração de areia e a alteração da paisagem, com assoreamento dos cursos de água e destruição da paisagem. O alumínio e a fantástica quantidade de energia usada em sua fabricação, além da poluição causada pela extração da bauxita. A brita e os problemas causados pelas pedreiras, com destruição de áreas de preservação permanente, explosões que perturbam o sossego público, o desmatamento muitas vezes produzido. A fabricação de tijolos e a fantástica quantidade de lenha que é consumida em sua fabricação, além do que a extração de argila afeta as zonas baixas, lagoas e matas ciliares. Além da construção civil, o setor moveleiro e as indústrias de embalagens poderiam ajudar a frear a retirada ilegal e indiscriminada de madeira das florestas se passassem a exigir com firmeza de seus fornecedores a certificação ambiental. Mas tudo isso passa por sensibilidade, por educação ambiental, por vontade política, por diminuição de ganância, por mudança de comportamento. Graças ao apoio da Promotoria Pública, numa grande campanha que promovi contra as pedreiras instaladas dentro do perímetro urbano e que destruíam áreas de preservação permanente, os morros que cercam a cidade estão preservados. Consegui, mediante denúncia sistemática em Porto Alegre e Brasília, com apoio da Justiça local, na década de 80, o fechamento da pedreira da UFSM (onde eu era professor de Ecologia do Departamento de Biologia), pedreira Link, pedreira do Morro do Cechella, pedreira da Viação Férrea, etc...Mas a maior vitória nesse sentido foi o fechamento da pedreira do Morro do Cerrito, explorada pela Prefeitura Municipal à época, atividade proibida por lei municipal e pelo Código Florestal vigente na época, por constituir-se aquele morro no último resquício de mata nativa situado dentro do perímetro urbano. Foi talvez, a maior vitória que consegui quando “estive” vereador nessa cidade, com uma proposta ecologista de mandato. Dia destes, ouvindo uma rádio local, fiquei a escutar atentamente uma entrevista dada pelo Dr. Walter Bianchini, dono das fábrica de facas Coqueiro, de Arroio do Só, professor aposentado da UFSM e ex-secretário dos governos do Rio Grande do Sul e de Roraima. Ele dizia claramente : "Os morros de Santa Maria continuam de pé por causa da obstinação do professor James Pizarro". Tão acostumado a levar somente bordoadas, fiquei emocionado em ouvir este reconhecimento público. E fui dormir feliz aquela noite.