quarta-feira, 21 de maio de 2008

ENQUANTO A TAINHA NÃO VEM, EU APRENDO COM O "BILICO"...- James Pizarro



Tenho ouvido muito os pescadores enquanto esperam a chegada da tainha. Tenho conversado muito com os motoristas, cobradores e funcionários dos terminais de ônibus de Canasvieiras. Tenho falado e ouvido ainda mais os homens de rua...o gari, o bicheiro, o cambista, o motorista que faz remix (contrata corridas), o motorista que faz "rent a car" (aluga seu carro para o turista)...Tenho falado e ouvido muito os profissionais da praia...os vendedores de "choripan" (pedaços de carne dentro de um pão com temperos), os vendedores do "churrasco grego" (uma verdadeira montanha de bifes enfiados num eixo e que vão sendo cortados de fora para dentro, enquanto são assados por chama a gás), os vendedores de camarão à milaneza no espetinho, os vendedores de cocadas e rapaduras, as vendedoras de roupas femininas, os vendedores de redes e toalhas, os vendedores de picolés/cervejas/refrigerantes, os entregadores de panfletos, as mocinhas que agenciam passeios de escunas...
Enfim...toda uma megaestrutura de profissões alternativas, adeptos da economia informal, que sobrevivem graças ao turismo e aos turistas desfila diariamente diante de meus olhos. E o que me agrada é que, com o tempo, já me tornei um "igual"...um amigo...um "gaúncho" que se enamorou da ilha...não sou mais considerado um estranho.
Já aprendi centenas e centenas de expressões e palavras novas. Tratei de memorizá-las, pois tenho de me deixar aculturar. Tenho de aprender os falares desta ilha mágica, que enfeitiça mesmo quem se deixa submeter a seus encantos.
Dia destes, ouvi uma dissertação do "Bilico", um velho pescador que ficou meu amigo, sobre as diferenças entre "canoa de voga", "canoa bordada" e "canoa borda lisa". Quanta sabedoria prática ! Quanta cultura popular ! E cada dia vou recebendo de todos eles, como bom noviço, uma aula sobre a vida catarina, tão ricamente impregnada de mar. Fiquei até a pensar se um estudante universitário de Oceanografia, com seus mestrados e doutorados, saberia entender o que eles falam...
E enquanto ouvia o "Bilico" falar, fiquei e me lembrar de uma frase pinçada de um artigo do velho poeta Manoel Bandeira, constante no "Dicionário da Ilha" escolhida pelos autores do mesmo (Fernando Alexandre e Andrea Macedo) :
" A vida não me chega pelos jornais nem pelos livros, vinha da boca do povo, língua certa do povo porque ele é que fala gostoso o português do Brasil "
Como eu gostaria de proporcionar um estágio a alguns santa-marienses letrados e seus "esses" e "erres" pernósticos, para que eles conhecessem bem o que é povo...E como o povo é simples, feliz, sincero....sem afetações, sem vaidades, sem onipotências...
Graças à generosidade de Deus, estou conseguindo me deixar entranhar cada vez mais de simplicidade...da pureza dessa gente. Só agora consegui entender uma coisa óbvia, que em 65 anos de vida eu não tinha entendido : o porquê de Jesus Cristo não ter escolhido nenhum fariseu rico, nenhum filósofo, nenhum religioso letrado para apóstolo ! A maioria dos apóstolos ele foi buscar entre esta gente do mar.
Se Jesus Cristo hoje descesse aqui na praia e me pedisse alguma indicação para apóstolo, sem pestanejar eu indicaria o meu amigo pescador "Bilico".
"Bilico" ainda não perdeu o dom do mistério...

6 comentários:

Ericson disse...

Olá grande guru Pizarrônico... parabéns pelo blog... os textos estão muito legais, continue atualizando...

Abraços...

Ericson

Gabriela disse...

Realmente, meu querido Pizarro, essa Ilha Maravilhosa tem mil e um encantos.
Concordo plenamente quando você diz "como o povo é simples, feliz, sincero....sem afetações, sem vaidades, sem onipotências...", pois moro na Barra da Lagoa, cujo seu surgimento se fez de uma aldeia de pescadores, e lá percebo a pureza encantadora dos nativos.
Parabéns, seu blog está maravilhoso.
BEIJOS!

Anônimo disse...

Professor Pizarro...
Infelizmente não tive a oportunidade de conhecer-lhe pessoalmente, mas acompanhava seus programas na TV Câmara, no Sala de Debate, e anos atrás,o "Antes que a Natureza Morra" na Rádio Universidade. Tenho 37anos e lamento nunca ter sido sua aluna, cursei Arquivologia na UFSM, mas sempre me interessei pelos assuntos da Mãe Natureza.
Mas vim aqui, especialmente lhe dizer que o senhor está fazendo falta.
Eu acho.........e sinto que "empobrecemos" com sua ida.
Mas se o senhor está feliz...isto é oque importa.
Seus textos estão maravilhosos e tem o poder de nos fazer viajar até a Ilha da Magia.
Um abraço carinhoso.
Fabiana.
(jumasm@pop.com.br)

JAMES PIZARRO disse...

From: Sebastião Laroca...
Sent: Tuesday, December 09, 2008 10:33 AM
To: jamespizarro@hotmail.com
Subject: Re: Minha estréia no "Diário da Manhã", Goiania, Goiás


Oi Cara, como fui um dos seus ex-professores, sinto-me orgulhoso de Você. O seu artigo está genial! Escrevi um pouco sobre a necessidade de arejamento da academia pela sabedoria popular. Escrevi sobre isto até no manual do calouro. Interessante é a reação de Charles Elton, criador da Ecologia moderna, aos inveterados acadêmicos. Diz ele que quem realmente conhece ecologia são os pescadores, os homens do campo, os índios etc. E ficou fulo quando os sábios acadêmicos começaram a complicar as coisas ... Por exemplo, o velho pá, primo-imão da enxada, começou a sair nos artigos científicos com o nome de geótomo. Como você, dou meu testemunho, conheço o Brasil por terra
(e não só de beira de estrada) e acho a cultura popular porreta. Conheci dona Cristina benzedeira; seu Jacinto cridor de Abelhas, o Taituba (este em uma expedição inglesa no Mato Grosso), que sabia sistemática botânica da amazônia melhor do que ninguém; sei disto pq procurei indentificar plantas lá na Serra do Roncador e fui consultar um grande especialista britânico (que acabou morando no Brasil) e ele mandou-me passar primeiro pelo Taituba (Raimundo Azelino de Castro) que não só fornecia o nome popular da planta como também para que servia e como era os filhotes da mesma. Este homem era capaz de sobreviver na florestaa sozinho por mais de uma semana... sem alimento nem água.... tirava todas as suas necessidades da mata. Um grande gênio esquecido no mato e infectado por doença de chagas. E o interessante que o povo simples (além da educação, contrastante com a dos trogloditas urbanos) também tem interesses sofisticados. Conheci um cara pobre como Jó (em tempo de desgraça) e quase analfabeto, que tinha um interesse enorme por astronomia, geografia e física. Imagine se este cara tivesse ido para uma boa escola.

Mas deixe ficar por aqui... gostei muito do seu artigo

Sebastião Laroca

PS: Agora, como sempre gostei de fofoca, você gosta tanto dos catarinas pq ainda não sabe as piadas que eles fazem dos gaúcho?!

Sebastião Laroca
Curitiba,PR

JAMES PIZARRO disse...

From: Sebastião Laroca...
Sent: Tuesday, December 09, 2008 10:33 AM
To: jamespizarro@hotmail.com
Subject: Re: Minha estréia no "Diário da Manhã", Goiania, Goiás


Oi Cara, como fui um dos seus ex-professores, sinto-me orgulhoso de Você. O seu artigo está genial! Escrevi um pouco sobre a necessidade de arejamento da academia pela sabedoria popular. Escrevi sobre isto até no manual do calouro. Interessante é a reação de Charles Elton, criador da Ecologia moderna, aos inveterados acadêmicos. Diz ele que quem realmente conhece ecologia são os pescadores, os homens do campo, os índios etc. E ficou fulo quando os sábios acadêmicos começaram a complicar as coisas ... Por exemplo, o velho pá, primo-imão da enxada, começou a sair nos artigos científicos com o nome de geótomo. Como você, dou meu testemunho, conheço o Brasil por terra
(e não só de beira de estrada) e acho a cultura popular porreta. Conheci dona Cristina benzedeira; seu Jacinto cridor de Abelhas, o Taituba (este em uma expedição inglesa no Mato Grosso), que sabia sistemática botânica da amazônia melhor do que ninguém; sei disto pq procurei indentificar plantas lá na Serra do Roncador e fui consultar um grande especialista britânico (que acabou morando no Brasil) e ele mandou-me passar primeiro pelo Taituba (Raimundo Azelino de Castro) que não só fornecia o nome popular da planta como também para que servia e como era os filhotes da mesma. Este homem era capaz de sobreviver na florestaa sozinho por mais de uma semana... sem alimento nem água.... tirava todas as suas necessidades da mata. Um grande gênio esquecido no mato e infectado por doença de chagas. E o interessante que o povo simples (além da educação, contrastante com a dos trogloditas urbanos) também tem interesses sofisticados. Conheci um cara pobre como Jó (em tempo de desgraça) e quase analfabeto, que tinha um interesse enorme por astronomia, geografia e física. Imagine se este cara tivesse ido para uma boa escola.

Mas deixe ficar por aqui... gostei muito do seu artigo

Sebastião Laroca

PS: Agora, como sempre gostei de fofoca, você gosta tanto dos catarinas pq ainda não sabe as piadas que eles fazem dos gaúcho?!

JAMES PIZARRO disse...

James:

(1) Conseguiste penetrar no espírito açoriano que poucos entendem. Mas como nem tudo o que reluz é ouro, nunca esqueças que na cabeça dessa gente simples, gaunchos são aves de arribação. Semana passada minha irmã tomou um taxi. Ao informar o endereço, pelo sotaque o taxista viu que era gaúcha e começou a falar mal da gauchada. Minha irmã disse que mora em Santa Catarina há mais de 30 anos e que já se sente integrada na comunidade. O taxista continuou a criticar, dizendo que não era verdade e passou para a zombaria. Minha irmã silenciou. Ao pagar a corrida de R$5,40 entregou R$6,00 e o taxista perguntou: está certo dona? Ela respondeu: se eu fosse catarina te diria "olhólhó mandrião, táix ficando tolinho, me dá-me meu troco, mas sou gaúcha, fica com o troco. Às vezes tem que ser assim.
(2) Anexo cópia da mensagem familiar que proferi no encontro dos 45 anos de conclusão da Turma Clássico 1963 em razão da ausência de celebrante ecumênico.
Um abraço,

Villa Real
Florianópolis