quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

COLUNISTAS

O silêncio

James Pizarro
por James Pizarro em 21/01/2016
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A turma entrou na UFSM em 1963. Quase todos pobres. Ou de classe média baixa. Dois ou três de famílias bem postas financeiramente.
Mas todos amigos. Alegres. Parceiros de caminhada.
Cheios de vontade de mudar o mundo.
Nunca alguém sentiu qualquer diferença de classe social.
Veio a formatura. Ano de 1966. Cinema Glória cheio. Reitor Mariano da Rocha e seu discurso costumeiro. Enaltecendo a UFSM. Fazendo profissão de fé nos formandos. Tocando no sentimento dos familiares.
Passaram-se os anos. A turma tomou por hábito fazer encontros periódicos.
De cinco em cinco anos era certo o almoço e janta no Restaurante Augusto.
Todos vinham de todos os rincões do país.
Alguns casados. Com filhos. Felizes. Assim foi nos dez anos de formatura.
Vinte anos. Trinta anos. Quarenta anos.
Na reunião dos quarenta anos de formados quinze já haviam morrido. Uns estavam aposentados. Outros haviam abandonado a profissão. Outros estavam doentes. Uns viraram alcoólatras. Outros estavam no segundo ou terceiro casamento.
Um tinha assumido sua homossexualidade. Outro não tinha dinheiro para pagar o galeto e a bebida. Pediu emprestado para os colegas. O mais pobre da turma tinha se transformado em prefeito de uma pequena cidade no interior gaúcho e defendia o Maluf. Logo ele que, quando estudante, era ardoroso defensor do Brizola. Ficou calado durante o encontro. Engravatado. Empertigado. Solene. Logo ele, que assistia às aulas no campus da UFSM de sandálias.
Chegou a época da festa dos cinquenta anos de formatura. Ninguém mais entrou em contato. O mentor das festas, organizador dos encontros, morreu.
Os ideais morreram. A juventude se foi. O caráter mudou. O quadro de formatura na parede do prédio da faculdade está cheio de mofo.
E pelos corredores apenas o silêncio.
James Pizarro

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