sábado, 7 de dezembro de 2019
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
O AMOR EXPLODE, EM PLENO CALÇADÃO ! - James Pizarro (DIÁRIO, edição de 3.12.2019, pág.4)
Manhã abafada no calçadão Salvador Isaia. Manhã de sábado.
Movimento inusitado. Compras. Vendedores ambulantes oferecendo de tudo.
Economia informal em ebulição. Compensando o desemprego. Ou suplementando a
baixa renda familiar.
Há passantes assíduos. E pontuais. “Bigode” com sua
bicicleta usada apenas para carregar cafés e pastéis. Senhor careca com suas
caixas de negrinhos e quindins. O simpático jornaleiro que vende o “Diário” e
conhece tudo e todos. Os vendedores de rosas. Os que oferecem os bilhetes de
loterias.
Há bêbados que incomodam. Que achacam senhoras. Que
pedem dinheiro. Que saem do seu habitat da praça Saldanha Marinho para uma
investida no calçadão à cata de tostões. Ou para compra de cachaça em
recipiente plástico. Pelo menos um deles já vi seminu. Outro vi com as
vestes sujas de dejetos.
Há cantores de tangos e boleros. Instrumentistas de flautas
peruanas. Vendedores de CDs. Cantores de rock. MPB. Música sertaneja. Gospel.
Há pregadores que amaldiçoam os pecadores com as labaredas do inferno.
Muitos distribuidores de panfletos.
Merece um capítulo especial o teor dos panfletos. Há oferta
de comida caseira de vianda. Lanches. Baurus. Pastéis. Pizzas. Rodízio. Cursos
de ioga. Musculação. Ginástica. Academia. Acompanhantes para senhores
solitários. Massagem tântrica. E outras coisas mais nebulosas que não me atrevo
a publicar...
Há cães comunitários, uns cinco ou seis. Mas um deles é o
mais popular. Porque dorme com as quatro patinhas para cima, mostrando uma
capacidade de relaxamento total. Jamais precisará de sessões de ioga. Ou usará
Rivotril. Deve ser o cão mais fotografado de todo o Rio Grande do Sul. Nos
mesmos horários, independente do barulho ou movimento dos pedestres, ele se
estica de ventre para cima, cerra os olhos e dorme umas duas horas um sono
profundo. Certamente sonhando com o Grande Deus dos Cachorros que está a
lhe esperar no Céu dos Cachorros.
Claro que existem os inconvenientes que aparecem com skates
e bicicletas. Atrapalhando idosos que usam bengalas. Andadores. Cadeiras de
rodas. Os cegos. Os que usam muletas. Nada contra os skatistas, por amor de
Deus. Mas existem pistas especializadas em outros locais da cidade para a
prática deste esporte. É tudo uma questão de bom senso.
Mas neste sábado no calçadão o que mais me chamou a
atenção, da mesa onde tomava meu café, era a mocinha de cabelos negros,
encaracolados, sentada no bando em frente à Caixa Econômica Federal.
Impaciente, face preocupada, linda, na pujança talvez dos seus 16 anos no
máximo. Não parava de olhar para os lados . Sentava e levantava. Dava alguns
passos. Voltava a sentar. Deveria ter no máximo 1,55 m aquela linda moça.
Foi quando ele chegou ! Um rapaz de uns 25 anos, loiro, de
fones nos ouvidos, muito mais alto do que ela. Ela se atirou em seus braços e
se beijaram demoradamente. Todo mundo que passava ficava olhando. Umas senhoras
balançavam a cabeça, desaprovando. Outros riam. Outros ficavam sisudos. Outros
passavam sem notar. Depois desse beijarem muitas vezes, ela ficou
aninhada nos braços fortes dele e com o rosto encostado no seu peito, enquanto
ele alisava os cabelos e a cabeça dela. Ela sorria. Sorria feliz. Como se
existissem só os dois em todo o universo. Um sorriso duma felicidade cósmica.
Pungente. Paradisíaca. Um sorriso que só o amor pode produzir.
Eu peço a Deus que todos nós possamos enfrentar o mundo com
a pureza daquele sorriso !
terça-feira, 19 de novembro de 2019
A MENINA E O SORVETE - James Pizarro (DIÁRIO de S. Maria, edição de 19.11.2019, pág.4)
Esquina
da Madre Maria Villac com a Hypólito Gregório Pereira, Canasvieiras.
Sorveteria
Napoli com seus inigualáveis sorvetes de fabricação caseira.
Final de tarde.
Calor insuportável. Sorveteria ao ar livre cheia.
Amigos de
sempre reunidos. Jogando conversa fora.
Balancete do
dia. Comentários sobre os passantes.
Foi quando ela
chegou. Passos mansos. Voz imperceptível.
Magrinha. Dez
anos no máximo. Mulatinha bem vestida. Roupas modestas.
Trazia umas
balas de goma nas mãos. Que vende para ajudar a mãe.
Ninguém da mesa
lhe ouviu. Nem ao menos respondeu.
Foi quando seus
olhos bateram no fundo dos meus.
E ela sussurrou
: "Me paga um sorvete, tio ?"
Um dos amigos,
argentino de permanente mau humor, me disse que não pagasse nada.
O outro, cínico
e insensível, falou que eu era do "tipo Papai Noel" e que pagaria.
O terceiro
amigo ficou quieto.
Chamei o
Vorlei, gerente da Sorveteria Napoli àquela época. E autorizei a despesa.
A menina magra
de olhos tristes serviu-se de duas fartas bolas de sorvete.
E sorriu para
mim. Sorriso de agradecimento. E de felicidade.
Lembrei de
Mateus, capítulo 25 : "Tudo que fizeres ao mais humilde dos pequeninos, é
a Mim que o fazeis".
Engraçado...a
gente pode cumprir preceitos bíblicos até na hora do sorvete.
É fácil ser
generoso. Repartir. Cultivar a sensibilidade.
Para não ficar
com o coração frio. Feito sorvete.
Mas aqueles
meus amigos não sabiam disso.
Meus amigos não
sabiam da necessidade premente de se acreditar no sonho.
É preciso sonhar.
Sempre. E jamais perder a capacidade da misericórdia. Da caridade.
Insistir. Persistir. Jamais desistir.
Mesmo que ardam os olhos.
Que as retinas fiquem embaçadas.
Olhos esfumaçados pela catarata.
É preciso sonhar. E ver com a alma.
Mesmo que os ouvidos percam sua percepção.
Que o som fique distante. Conturbado.
É preciso sonhar. E ouvir com o coração.
Mesmo que as pernas fiquem cansadas.
Os passos claudicantes. E os tropeços iminentes.
É preciso sonhar. Prosseguir andando. Com a musculatura da fé.
É preciso sonhar. Quem perdeu a capacidade do sonho está morto.
Está podre. Fede.
E atrapalha a Vida.
É impossível sobreviver sem sonhar.
Insistir. Persistir. Jamais desistir.
Mesmo que ardam os olhos.
Que as retinas fiquem embaçadas.
Olhos esfumaçados pela catarata.
É preciso sonhar. E ver com a alma.
Mesmo que os ouvidos percam sua percepção.
Que o som fique distante. Conturbado.
É preciso sonhar. E ouvir com o coração.
Mesmo que as pernas fiquem cansadas.
Os passos claudicantes. E os tropeços iminentes.
É preciso sonhar. Prosseguir andando. Com a musculatura da fé.
É preciso sonhar. Quem perdeu a capacidade do sonho está morto.
Está podre. Fede.
E atrapalha a Vida.
É impossível sobreviver sem sonhar.
sábado, 9 de novembro de 2019
VICENTE DE OLIVEIRA, A LITERATURA E O CENTRO DE SAÚDE - James Pizarro (Diário, Caderno MIX, 9.1.2019)
Conheça mais um personagem histórico da sociedade santa-mariense
Colaboração*
Foto: acervo do Arquivo Histórico de Santa MariaO prédio do Centro de Saúde, onde trabalhava Vicente de Oliveira, teve uma das paredes destruídas por conta de um ciclone que atingiu Santa Maria em 1937. O local passou a ser ocupado pelo Estado durante o período da Segunda Guerra Mundial e foi devolvido à Associação Italiana de Santa Maria em meados dos anos 1990
Na Rua do Acampamento, em Santa Maria, funcionava o Centro de Saúde número 7. Era um órgão da Secretaria de Saúde do Estado. Nas décadas de 1950 e 1960, ali se faziam vacinações, consultas e exames de raio-x. Além disso, latas de leite em pó eram distribuídas no local.
Anos depois, o Centro de Saúde foi para a definitiva sede, à Rua Floriano Peixoto, logo abaixo do Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo. Assim, o antigo prédio da Rua do Acampamento foi devolvido à proprietária original, a Sociedade Italiana de Santa Maria.
Frequentei muito a antiga sede e, como meu pai trabalhou lá durante décadas, conheci todos os funcionários do Centro, entre eles, o sisudo e magérrimo Tolentino, responsável pela portaria, e a esposa dele, dona Maria, que atuava no aparelho de raio-x. O pai era o enfermeiro responsável pelas vacinações. Vamos aos outros:
O doutor Izidoro Lima Garcia era o chefe, o doutor Rubem Valeriano Fabrício - conhecido como "Barão da Bossoroca" - era o médico-dermatologista e responsável pelo setor de doenças sexualmente transmissíveis (na época, chamadas de doenças venéreas). Julinha cuidava da limpeza geral do posto de saúde e também por preparar o cafezinho diário. Julia era famosa na cidade por ser médium espírita e receber grande número de consulentes na modesta casa, situada próxima ao Hotel Hamburgo, na Rua Sete de Setembro, logo após os trilhos da Viação Férrea.
No subsolo do Centro de Saúde, trabalhava o personagem desta minha reminiscência de hoje: Vicente de Oliveira, enorme, alto, gordo, conhecido, em Santa Maria, como Vicentão. Casado com dona Tolola, ele morava na Rua do Acampamento, nas imediações da casa do teatrólogo Edmundo Cardoso, de quem era grande amigo. Vicentão trabalhava no setor de fiscalização de carnes e outros produtos alimentares, com o médico-veterinário Armando Vallandro que, anos depois, foi reitor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Vicentão amava livros. Ele era frequentador diário da Livraria do Globo, onde tinha crediário.
Os gerentes Cavalheiro e Vidal Castilhos Dânia (que foi prefeito de Santa Maria, pelo PTB) eram amicíssimos do Vicentão, assim como os intelectuais da época que se reuniam na livraria, entre eles, Amaury Lenz, Romeu Beltrão, Prado Veppo, Lamartine Souza, Edmundo Cardoso, Fernando do Ó, Eduardo Trevisan, Hygino Trevisan e tantos outros.
Vicentão comprava exemplares de todos os tipos, mas preferia títulos de paleontologia, arqueologia e história, além de ter verdadeiro fascínio por temas sobre o Egito. Ele tinha centenas de livros sobre os egípcios, múmias, pirâmides, faraós, sabia tudo sobre isso. Ele mesmo me dizia: "Sou um egiptólogo".
Faço este registro por uma razão: Vicentão foi quem me deu de presente de aniversário o primeiro livro que ganhei, que se chamava As aventuras de Tibicuera, de Érico Verissimo, pai do Luiz Fernando Verissimo. Encadernado e com capa vermelha, a obra contava a história do Brasil narrada por um índio de nome Tibicuera.
LITERATURA
Este presente foi determinante - além da influência do Vicentão, é claro - para que eu me apaixonasse definitivamente pelo hábito de ler. Em As aventuras de Tibicuera, o herói narra uma fabulosa viagem através do tempo, que começou em uma taba tupinambá, antes de 1500, e terminou em um arranha-céu de Copacabana, em 1942.
Sou apaixonado pela leitura até hoje. Estou sempre encomendando livros de sebos ou lojas da internet. Tenho duas filhas que escrevem artigos para jornais, universidades e blogs nacionais. Até hoje, dou literatura de presente para meus netos. Dou revistas e livros didáticos para os netos mais velhos, além de polígrafos de cursinhos para os netos vestibulandos, na esperança de que também adquiram o hábito pela leitura.
Vicentão foi um verdadeiro bibliófilo. Ele amava livros com uma paixão desenfreada. Serei eternamente grato a esse amigo por ter me iniciado neste fantástico mundo.
*O texto acima foi escrito por James Pizarro, professor universitário aposentado da UFSM, ecologista e memorialista
terça-feira, 5 de novembro de 2019
MÃOS À OBRA,OLAVO BILAC ! - JAMES PIZARRO (Diário de SM, pág. 4, edição de 5.11.2019)
Conversei nos últimos dias com a amiga
Ana Maria G. Molina, ex- professora de Português da Escola Estadual de Ensino
Médio “Professora Maria Rocha” e também muito ligada ao Olavo Bilac. Desde o
dia 5 de outubro a Ana Maria se encontra na presidência da Associação SOS OLAVO
BILAC – PROJETO MÃOS À OBRA, uma iniciativa da Associação dos Ex-alunos,
professores e funcionários da E. E. de Ensino Médio “Professora
Maria Rocha”.
O Olavo Bilac abrigou o Maria Rocha até
1977, quando este ganhou prédio próprio. As escolas sempre estiveram muito
unidas afetivamente. Há 22 anos se reúnem para comemorações e reencontros de
seus membros, sempre no mês de outubro. No ano de 2014 foi lançado um
precioso livro chamado “CHUVA DE ESTRELAS”, organizado pela a Ana Maria
G. Molina e com a colaboração de Jacob Chamis e Jair Alan Siqueira. É uma obra
de 198 páginas, ricamente ilustrada, de grande importância para a memória
cultural da cidade, onde é contado principalmente a história dos 50 anos da
criação da banda da Banda Marcial do Maria Rocha.
No encontro realizado em outubro de 2019,
os integrantes da associação em visita aos prédios do Olavo Bilac
constataram, consternados, a situação caótica em que os mesmos se encontram. E
resolveram ajudar a escola diante disso. Assim é que, a Oitava Coordenadoria
Regional de Educação – uma vez procurada pela comissão – informou da existência
do Projeto “Escola Melhor, Sociedade Melhor”, através do qual a sociedade civil
pode realizar obras e interferir praticamente nos prédios das escolas.
Foi assim que surgiu – num ato de cidadania – a Associação SOS OLAVO BILAC –
PROJETO MÃOS À OBRA ! Para que possam ser captados recursos no seio da
comunidade para que os prédios do Bilac possam ser reformados.
Eu não estudei no Olavo Bilac. Sou cria
de outra escola estadual. Mas fiquei comovido com o senso de responsabilidade,
de generosidade, de humildade e a sensibilidade no sentido de relações públicas
da professora Ana Maria G. Molina ! Quando entrou em contato comigo,
imediatamente encomendei duas camisetas da campanha, uma para mim e outra para
minha esposa, esta sim, uma ex-aluna do Bilac. E que três dias depois me foram
entregues em mãos ! Também comprei um número da rifa de um
automóvel Fiat Mobi 2019 Zero KM e 4 smartphone Samsung, que corre
dia 21 de dezembro, ao preço de 10 reais.
Quero citar o ex-aluno Nabor Silva, hoje
arquiteto, que fez o laudo técnico apontando toda a problemática dos prédios.
E também o ex-aluno Eduardo Tochetto, hoje engenheiro, presidente da
Sociedade de Agronomia e Engenharia de Santa Maria, engajado no processo de
remodelação dos prédios. Estão auxiliando muito a professora Molina.
Temos uma Santa Maria cheia de problemas
em vários prédios importantes. Casa da Cultura. SUCEVE. Clube Caixeiral.
Restaurante Popular. USE.
Não é todo dia que surge numa
escola uma professora aposentada com a garra e a liderança da professora Ana
Maria G. Molina ! Os professores, ex-alunos e funcionários do Olavo Bilac, com
modéstia e inteligência, souberam tomar as medidas corretas, procurar os
caminhos certos e botar mãos à obra ! Merecem nosso apoio e nosso auxílio
prático ! Comprem a camiseta da campanha e a rifa do automóvel !
O Olavo Bilac é um patrimônio da nossa
cidade e merece nossa ajuda !
segunda-feira, 21 de outubro de 2019
O HOMEM-TRONCO - James Pizarro (crônica à pág. 4 do DIÁRIO, Santa Maria, edição de 22.10.2019)
Nunca soube seu nome. Sabia apenas que era pobre. Mendigo.
Deficiente físico.
Ficava na esquina da Floriano Peixoto com a rua 24 horas. Coração de Santa Maria, RS.
Arrastava-se. Pernas viradas para trás. Braços partidos. Cabeça pequena. Chapéu velho.
Peito arqueado para a frente. Visível deformação nas costelas. Lembrava um lagarto.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Várias vezes reparei em suas mãos.
Mãos grossas. Deformadas. Inchadas. Calejadas. Mãos de atrito com o asfalto quente.
Pois era com a palma das mãos que se apoiava no asfalto. Dava um impulso.
E numa coreografia macabra gingava o corpo para a frente.
Não era corpo. Era meio corpo. Era um homem-tronco.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Mendigo.
Costumava observá-lo todo dia. Do terraço da sede antiga da Rádio Universidade. Prédio da Antiga Reitoria.
Ele era pontual. Quando o relógio marcava 16h00, ele partia. Atravessava a rua.
Mas ficava longo tempo com o meio corpo encostado na calçada.
E agarrava-se na lixeira presa ao poste. Para manter o equilíbrio.
Nunca soube seu nome. Sabia que era mendigo. Deficiente.
E que demorava para atravessar a rua. Dependia do fluxo de automóveis.
Ele era muito pequeno. Roupa escura. Não seria notado por motorista apressado.
Corria o risco diariamente de ser atropelado.
Ele que já tinha o corpo atropelado pela fatalidade embriológica.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Mendigo.
Depois de atravessar a rua ficava quieto.
Encostado na parede do prédio da ex - Faculdade de Direito da UFSM. Na parada do ônibus.
Nunca vi ninguém ajudá-lo a atravessar a rua.
E também sem ajuda ele fazia a penosa subida no ônibus. Erguia os dois tocos de braços.
Agarrava-se como podia. E com formidável força erguia o meio corpo.
E se arrastava pelo corredor do ônibus.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Deficiente.
Sempre ficava olhando o ônibus descer a Floriano Peixoto.
Levando no seu ventre de lata aquela criatura. Meia criatura.
Sacolejando no corredor aquele meio corpo. Carregando a féria do dia. Que servia de sustento.
Naquela tarde eu observava tudo. Escorado no beiral do terraço da Rádio Universidade.
O chuvisqueiro havia parado. Um sol ainda tímido fazia buraco entre as nuvens.
As pombas da Antiga Reitoria iniciavam a revoada.
Pombas brancas. Normais. Inteiras. Asas abertas. Serenas.
Elas planavam. E pousavam do outro lado da rua. No prédio do Colégio Santa Maria.
Lá embaixo as pessoas passavam. Apressadas. Com pastas pretas.
Um senhora loira carregava um ramo de flores. O bilheteiro estendia seus bilhetes.
As pessoas passavam. Cumpriam seu destino de passar.
No outro dia o homem-tronco estaria de volta.
E na semana seguinte. E no outro mês. E no próximo ano.
E ficaria no mês lugar. Olhando as pernas normais. Os passantes apressados.
Um dia ele não voltou nunca mais.
E ninguém notou a sua falta.
Ficava na esquina da Floriano Peixoto com a rua 24 horas. Coração de Santa Maria, RS.
Arrastava-se. Pernas viradas para trás. Braços partidos. Cabeça pequena. Chapéu velho.
Peito arqueado para a frente. Visível deformação nas costelas. Lembrava um lagarto.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Várias vezes reparei em suas mãos.
Mãos grossas. Deformadas. Inchadas. Calejadas. Mãos de atrito com o asfalto quente.
Pois era com a palma das mãos que se apoiava no asfalto. Dava um impulso.
E numa coreografia macabra gingava o corpo para a frente.
Não era corpo. Era meio corpo. Era um homem-tronco.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Mendigo.
Costumava observá-lo todo dia. Do terraço da sede antiga da Rádio Universidade. Prédio da Antiga Reitoria.
Ele era pontual. Quando o relógio marcava 16h00, ele partia. Atravessava a rua.
Mas ficava longo tempo com o meio corpo encostado na calçada.
E agarrava-se na lixeira presa ao poste. Para manter o equilíbrio.
Nunca soube seu nome. Sabia que era mendigo. Deficiente.
E que demorava para atravessar a rua. Dependia do fluxo de automóveis.
Ele era muito pequeno. Roupa escura. Não seria notado por motorista apressado.
Corria o risco diariamente de ser atropelado.
Ele que já tinha o corpo atropelado pela fatalidade embriológica.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Mendigo.
Depois de atravessar a rua ficava quieto.
Encostado na parede do prédio da ex - Faculdade de Direito da UFSM. Na parada do ônibus.
Nunca vi ninguém ajudá-lo a atravessar a rua.
E também sem ajuda ele fazia a penosa subida no ônibus. Erguia os dois tocos de braços.
Agarrava-se como podia. E com formidável força erguia o meio corpo.
E se arrastava pelo corredor do ônibus.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Deficiente.
Sempre ficava olhando o ônibus descer a Floriano Peixoto.
Levando no seu ventre de lata aquela criatura. Meia criatura.
Sacolejando no corredor aquele meio corpo. Carregando a féria do dia. Que servia de sustento.
Naquela tarde eu observava tudo. Escorado no beiral do terraço da Rádio Universidade.
O chuvisqueiro havia parado. Um sol ainda tímido fazia buraco entre as nuvens.
As pombas da Antiga Reitoria iniciavam a revoada.
Pombas brancas. Normais. Inteiras. Asas abertas. Serenas.
Elas planavam. E pousavam do outro lado da rua. No prédio do Colégio Santa Maria.
Lá embaixo as pessoas passavam. Apressadas. Com pastas pretas.
Um senhora loira carregava um ramo de flores. O bilheteiro estendia seus bilhetes.
As pessoas passavam. Cumpriam seu destino de passar.
No outro dia o homem-tronco estaria de volta.
E na semana seguinte. E no outro mês. E no próximo ano.
E ficaria no mês lugar. Olhando as pernas normais. Os passantes apressados.
Um dia ele não voltou nunca mais.
E ninguém notou a sua falta.
sábado, 19 de outubro de 2019
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