domingo, 13 de junho de 2021

Avenida Tênis Clube é um local onde o esporte aproximou famílias e gerou amizades eternas Nos anos 1970, aprendi a jogar tênis nas quadras do Avenida Tênis Clube (ATC), de Santa Maria. E durante os anos 80/90, praticamente todos os dias, passava as minhas horas de folga nas dependências do clube, ora fazendo sauna, ora jogando tênis, ora fazendo churrasco, ora jogando bocha. E os familiares juntos. Em 1970, só haviam seis quadras no clube, lembro bem. Todas obedecendo rigorosa divisão hierárquica para facilitar a disciplina na ocupação das mesmas. Na quadra número 1 jogavam somente os tenistas veteranos. Na quadra 2, os “Seniors A”. Na quadra 3, os “Seniors B”. Nas quadras 4, 5 e 6, os juvenis, as mulheres e os demais tenistas que não disputavam o ranking. Grande número disputava por puro lazer, entretenimento e pouco estavam se importando para o resultado da partida. Já outros, principalmente, entre os veteranos, se concentravam, dormiam cedo, e entravam na quadra como se fossem disputar uma final em Wimblendon. Lembro de dois exemplos: Jarbas Cunha e o médico Heitor Silva, coronel do Exército, apelidado de “Fofo”, pois assim o chamava a esposa. Lembro – exercitando apenas a memória – de dezenas daqueles queridos amigos, a maioria deles já não mais entre nós, o que enche meu coração de melancolia. lembranças Anterinho Scherer, médico, ex-prefeito de Cacequi, famoso por suas folclóricas histórias. Máximo Knackfuss, professor do Curso de Engenharia da UFSM, que se emburrava facilmente, mas cinco minutos depois esquecia do motivo da zanga. Ênio Ferraz, representante de laboratório médico, apelidado de “Nonô”, que teve a capacidade aeróbica tirada pelo tabagismo. Alberto Leitão, de pavio curto, principalmente nos jogos de duplas, pois já no primeiro erro do seu companheiro, começava a reclamar. Arno Böhrer, era o alvo predileto das brincadeiras do Jarbas Cunha e, ignorando sua avançada idade, jogava várias horas por dia. Abdo Achutti Mothecy, farmacêutico, ex-jogador de basquete, dono de uma loja de aviamentos militares - e também de cortinas - na praça Hector Menna Barreto (ex-praça da República), mais conhecida por “pracinha dos Bombeiros”. De origem libanesa, Abdo foi casado com Tereza dos Santos Mothecy, mais conhecida por “Terezinha” ou “Tereca”. Lembro que o térreo da loja do amigo Abdo era quase uma extensão do ATC, pois ali se reuniam para tomar cafezinho os veteranos do clube, às vezes atrapalhando as atividades comerciais do dono. O Abdo sempre foi generosamente um pacificador, um aglutinador. Adorava pescarias e histórias antigas da cidade. Adaí Bonilha, dentista, esposo da também tenista, Dona Olga, que por muitos anos, também foi professora de tênis das crianças iniciantes. Álvaro Pfeifer, corretor de imóveis, professor de Matemática, dotado de notável espírito de humor. Arno Werlang, juiz, diretor do Fórum de Santa Maria, hoje desembargador em Porto Alegre, pai do Gerson Werlang (integrante da banda “Poços e Nuvens” e professor universitário de música). Arlindo Mayer, engenheiro, professor do Centro de Tecnologia da UFSM. Armando Vallandro, grande jogador de basquete do passado, apelidado de “Picolé”, ex-reitor da UFSM. Alnei Prochnow, também professor da UFSM, sempre alegre e disposto a uma brincadeira. Claudio Morais, coronel do Exército. Dalmo Kreling, engenheiro, dono da Construtora Dikrel, que transferiu depois residência para Santa Catarina. Dalton Kortz, ex-funcionário da Livraria do Globo, vendedor autônomo, hoje pastor metodista, talvez o mais brincalhão de todos. Darkson Cunha, professor do Centro de Educação Física da UFSM. Evaldo Morais, coronel do Exército, morador da Faixa Velha de Camobi, gostava de tocar violão e cantar músicas de seresta. Gerson Morais, funcionário da agência central do Banco do Brasil, na Avenida Rio Branco. Heitor Silva, campeão de tênis do Exército Nacional, cheio de estilo até no caminhar, tinha consciência exacerbada de que era um grande atleta. Jorge Merten, médico traumatologista. Carlos Pithan, dentista e professor da UFSM. Luiz Carlos Lang, dono de um reputado escritório de contabilidade, apreciador de vinhos chilenos. Luiz Carlos Pistóia Oliveira, engenheiro e professor da UFSM. Luiz Carlos Morales, advogado, hoje residindo em São Vicente do Sul. Luciano Rocha, cearense, professor da UFSM, dentista especializado em Odontopediatria. anos felizes Manoel Argentino Sissy, oriundo de São Borja, de apelido “Fanha”, notável contador de casos. Manoel Vianna, dentista, professor da UFSM, também de pavio curto. Paulo Roberto Oliveira, professor de Química da UFSM, ex-jogador de basquete. Simão Sampedro, coronel do Exército, irmão do também tenista, Renan Sampedro, professor de Educação Física da UFSM. Roberto Bisogno, dentista, radialista, professor da UFSM. Roberto Leitão, engenheiro, professor da UFSM. Engenheiro Lang, dono das piscinas “Golfinhos”. Coronel Bins, comandante da Base Aérea de Santa Maria. James Souza Pizarro, meu filho, que foi um talentoso tenista da categoria infanto-juvenil e disputou alguns torneios no estado, defendendo o nome do ATC, na companhia de Álvaro Pfeifer, Máximo Knakfuss, Roberto Bisogno e Arnaldo Valty (médico mineiro, oncologista, que trabalhava no Serviço de Cobaltoterapia da UFSM). Lembrei do Glicério que tomava conta dos motores da primeira piscina. Do amável e simpático Seu José que por décadas cuidava das quadras de saibro. Do ecônomo Chico e garçons da copa. Das dezenas de funcionários da portaria e segurança. Foram anos e anos felizes, com jogos diários, seguidos quase sempre de churrascos. Infelizmente, com o passar dos anos e no “curso natural dos acontecimentos” (como diria meu amigo e colega de rádio, Joel Abílio Pinto dos Santos, já falecido), a morte vai levando os companheiros. Outros se mudam de cidade ou de clube. Outros simplesmente deixam de jogar. Outros, premidos pelas exigências profissionais, se distanciam. Dia desses, vendo minha netinha Bethânia brincando nas dependências do ATC, olhei para os lados e dei falta de dezenas de amigos mortos. Tive de disfarçar rapidamente para que ninguém por perto percebesse que eu estava chorando.

terça-feira, 1 de junho de 2021

DE BAR EM MAR - JAMES PIZARRO (DIÁRIO- 01.06.2021)

Tânia Regina dos Anjos é minha companheira de cafezinho, eis que frequentamos a Tabacaria/Confeitaria "Vícios e Virtudes", dos meus amigos Dol e Emerson, à rua Madre Maria Villac, em Canasvieiras. Ela pertencia a uma enorme confraria de amigos com os quais me reuni diariamente durante os dez anos em que morei naquela aprazível praia. Nascida em 1958, estudou no Grupo Escolar Antonieta de Barros, fazendo depois o Ensino Fundamental e o Ensino Médio no Instituto Estadual de Educação, ali concluindo o Curso Técnico de Redator Auxiliar. Cursou a Universidade Federal de Santa Catarina, graduando-se em Pedagogia. Publicou seus primeiros dez poemas no livro "Embrião", um coletânea com mais cinco colegas poetas. Quatro anos depois (1982) publicou seu primeiro livro, sob o título "Razão Maior", onde seus poemas falavam sobre ilha de Florianópolis. Em 11 de junho de 1987 lança outro livro : "De Bar em Mar", com capa de Jorge Prudêncio e ilustrações de Alfredo Rosar. Foi um exemplar deste livro que Tânia teve a gentileza de me presentear. Li o livro de um fôlego só e encontrei versos lindíssimos, tais como : "Engraçado, sinto-me como uma madrugada... Só não quero estar ocultada a vida inteira no teu peito tão estranho. Tenho um lado pervertido e outro convertido... Errei o passo no descompasso da capitulação." Tânia, sem dúvida alguma, muito mais que uma pedagoga é uma poetisa a ser lida, compreendida, meditada. Além de cantar suas emoções, suas experiências - malogradas ou não - canta as praias. Canta a ilha. Canta as ruas e avenidas de Florianópolis. Canta a ponte Hercílio Luz. Canta o povo manezinho. É uma poetisa que se orgulha da sua descendência açoriana. Agradeço à Tânia pelo livro que me deu. Agradeço porque seus poemas, de certa forma, me ensinaram mais sobre Florianópolis e sua gente. A ilha de Santa Catarina (este é o nome correto da ilha) abriga a parte insular da cidade de Florianópolis, que ainda tem uma pequena área continental que faz divisa com o município de São José. Esta ilha exerce um fascínio tremendo sobre as almas sensíveis. Suas histórias que se perdem nos tempos. Suas bruxas. Benzedeiras. Encantos. Corsários. Fortes. Não é à toa o título lindo de “Ilha da Magia”. É um lugar que apaixona qualquer um. Por isso, fica fácil ao turista distraído ir de “bar em mar”...

terça-feira, 18 de maio de 2021

SIM, EU CONFESSO COM ORGULHO : JÀ FUI UM SAPO ! - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, 18.5.2021)

Nas datas importantes - principalmente nas datas cívicas - aconteciam no Grupo Escolar João Belém as chamadas "audições". O que era isso ? Todo o corpo docente e discente era reunido no salão de festas da escola. E havia apresentação de números artísticos : danças, corais, declamação de poesias, números musicais, mágicas, bandas, etc... Tudo isso era precedido pela fala do locutor. Que lia uma sinopse do número que ía ser apresentado. Devido ao desembaraço, desenvoltura ou "cara-de-pau" - seja lá que nome tenha isso - sempre fui escolhido para ser o locutor das "audições". O que me conferia um certo "status" com os professores. Simpatia com as meninas. E inveja dos colegas. Dou-me conta, agora, do óbvio : a influência que tais experiências da meninice podem ter na formação da nossa personalidade. E até nas nossas escolhas profissionais de adulto. Entre meus 45 e 50 anos fui radioator de historinhas infantis levadas ao ar pelo programa infantil apresentado pela radialista Maria Helena Martins : Programa "Era Uma Vez..." O programa ía ao ar todos os domingos, às 18:00h, pela Rádio Universidade de Santa Maria. A novela, apresentada em capítulos dominicais, chamava-se "Histórias do Sapinho Hortêncio". Eram escritas por João Teixeira Porto, militar reformado, funcionário da UFSM e ator amador da Escola de Teatro "Leopoldo Froes". Fui sarcasticamente criticado por alguns poucos colegas de docência da UFSM pois, para eles, um mestre universitário andar fazendo papel de um sapo em novelas de rádio "não se coadunava com a importância da cátedra". Nunca dei importância para as críticas e gozações desses sabichões. Um deles, chegou mesmo a dizer que eu só poderia fazer papel de sapo, numa clara alusão à minha obesidade. Muitas palestras fiz nas escolas da cidade para alunos do jardim da infância e do pré-primário. Mas fi-las, não como Prof. Pizarro, mas como Sapinho Hortêncio, este sim conhecido da piazada. Esta atividade como Sapinho Hortêncio sempre me foi muito prazerosa, porque ele foi importante veículo de educação ecológica para a infância da minha cidade. Na raiz dessa minha atividade não estará, lá bem no fundo, a saudosa professora alfabetizadora Luiza Leitão com as "Histórias do Coelhinho Joca" ? E meus programas de rádio ecológico pela Rádio Universidade ? E meus comentários diários na Rádio Imembui, nos programas do Vicente Paulo Bisogno e Pedro Feire Junior ? E meus voluntariosos pronunciamentos na Câmara de Vereadores quando lá estive de 1989 a 1992 ? E as dezenas de conferências em mais de 200 cidades gaúchas ao longo de quase 40 anos ? E as 10 horas de aula diárias nos cursinhos pré-vestibulares e na UFSM ? Na raíz de todas essas atividades ligadas ao uso público da palavra, da oratória como meio de vida, bem lá no cerne dessas atividades de adulto...não estará a figura franzina daquele meninote que era o locutor das "audições" do Grupo Escolar João Belém ? Que mistério ! Que estranho fermento a Vida e o Destino semeiam na sensibilidade da gente! E ao longo do tempo aquilo vai se metamorfoseando em pão. Amassado com o sangue da vocação. O suor da transpiração. E a lágrima da inspiração. Que mistério ! A ninguém é lícito deixar de colaborar na construção do mundo. Seja pescando crustáceos e peixes na orla marítima, para alimentar estômagos famintos. Seja pescando almas solitárias, melancólicas, com a isca fascinante da palavra. Não para dar-lhes pão, feito de trigo ou centeio. Mas o pão divino do amor e da fraternidade. Disfarçado pela oratória sensível do teatro. Do discurso. Do programa de rádio. Da aula bem dada. Todas elas, atividades movidas pela paixão. Quem não entender a paixão e o milagre da palavra, o seu amplo poder, perdeu o dom do mistério.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

EXISTE MUITA GENTE CHORANDO DE FOME - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - edição de 4.5.2021)

Há cerca de uns 40 anos ou mais, fui a Porto Alegre numa cabine dupla de vagão-leito pelo cha- mado “trem noturno” em compa- nhia de um colega professor da UFSM. Íamos para um congresso na capital re- presentando os nossos departamentos. Rapidamente pegamos no sono com aquele “telec-telec”, ruído característi- co do rodado do trem sobre os trilhos e mais o embalo da composição. Horas depois, nos acordamos e o trem estava parado. Imaginamos que estivesse parado numa estação para pegar novos passageiros ou desembar- car outros. Mas a como a demora estava muito inquietante e se ouviam rumores nos corredores do vagão, abrimos a porta para saciar a curiosidade. E fica- mos sabendo da terrível notícia através do “chefe de trem” : alguns quilômetros adiante um trem havia descarrilado e nós estávamos sem saber que horas chegar a Porto Alegre. Com o trem pa- rado num lugar ermo, presos no meio do campo. Imediatamente, convidei meu com- panheiro de viagem para ir ao carro- -restaurante tomar café, comer um bife com dois ovos, tomar um suco para enfrentar a demora pois a equipe de so- corro para desobstruir a composição acidentada teria de vir de Porto Alegre. Quando chegamos ao carro-restauran- te constamos o óbvio: todos tiveram a mesma ideia. E não havia para nós nenhuma uma desgraçada fatia de pão torrado ou uma minguada bolacha- -maria. Fomos chegar a Porto Alegre às 15 horas. Cansados. Suados. Quase des- maiando de fome. Senti na própria carne as sensações fisiológicas da fome. Passei a estudar e a ler tudo sobre a fome. Li toda a obra do Josué de Castro. Passei a falar em aula sobre a geopolíti- ca da fome. A Geografia da Fome. A Bio- logia Social. A fome endêmica. Sobre as ideias de Malthus. Resolvi escrever a respeito desse episódio do trem ocorrido comigo porque fico com o coração partido quando vejo na TV as entrevistas das famílias que não têm o que comer. São milhões de brasileiros que, pelas mais diversas razões – pandemia, desem- prego, políticas sociais, desigualdade, etc – estão com suas geladeiras e ar- mários vazios. Não tenho posses, nem cargo, nem poder. Tenho apenas sensibilidade. E já há bastante tempo eu e minha mulher temos uma pessoa carente que fica nas ruas centrais da cidade para a qual de- dicamos atenção na doação de roupas, medicamentos, lanches, amizade, acon- selhamento. E, de uns meses para cá, compramos embalagens descartáveis no supermer- cado, com divisórias, tipo “bandejão”, onde colocamos arroz, feijão, carne, sa- lada, uma fruta – enfim – a mesma co- mida nossa – e diariamente depois do meio-dia ficamos ao lado do contêiner da Venâncio Aires, em frente à Galeria do Comércio, onde sempre tem alguém esperando aquela marmita. Uma só por dia, mas é o que podemos dar. Comida boa, higienizada, com uma garrafinha plástica de água. Por favor, não quero bancar o cari- doso, o generoso, o salvador, o bonzi- nho. Minha mulher nem queria que eu escrevesse essa crônica. Mas eu me arrisco à crítica porque eu sou teimo- so. Resolvi escrever para convocar o leitor a fazer algo semelhante. Porque em quase todas as casas sobra comida. Que acaba indo para o lixo. Enquanto existe gente passando fome. E fome dói. Machuca. Deprime. Deixa humilhado. Vamos ajudar ?

terça-feira, 20 de abril de 2021

ESTOU ENCANTADO COM ENCANTADO ! - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, crônica, edição de 20.04.2021)

Num lance fulgurante de inteligência, visão turística, fé religiosa e poderosa união comunitária, os habitantes da pequena e simpática cidade gaúcha de Encantado deram uma lição de como fazer as coisas. E Encantado passou nos últimos dias a ocupar páginas e páginas de jornais e revistas em todo o país, além de ser motivo de grandes reportagens nos principais programas das grandes redes de TV do Brasil. Tudo porque a comunidade se uniu e resolveu construir o monumento denominado Cristo Protetor, uma obra de 43 metros de altura, a terceira do mundo em altura. Relembro trecho de crônica que publiquei no DIÁRIO na edição de 6 de novembro de 2018, à página 4 : “ Em 2007, a Secretaria Municipal de Turismo de Santa Maria – leia-se Paulinho Ceccin – pensou em construir um monumento em homenagem à N. S. Medianeira, padroeira do Rio Grande do Sul (muita gente pensa que é São Pedro). O monumento seria construído no Morro do Cechella e teria todos os equipamentos modernos em seu entorno, como vias de acesso, capela, lancheria, mirantes, museu para contar a história da santa, restaurantes, vendas de lembranças e postais, policiamento. Seria uma obra gigantesca que atrairia milhares de turistas brasileiros e estrangeiros, pois seria o maior monumento brasileiro do gênero, planejada por artistas e técnicos santa-marienses, sob a direção do J. Amoretti. A prefeitura municipal não gastaria nada, pois todo dinheiro viria de doações, captação de recursos particulares e verbas do Ministério do Turismo. Na edição de 28/29 de julho de 2007 (sábado/domingo) de A Razão, publiquei e assinei matéria de página inteira sob o título “Até a Medianeira é repudiada aqui !? “. Fi-lo porque tão logo foi lançada a ideia pela construção do monumento setores obscurantistas iniciaram feroz campanha contra a iniciativa do então secretário Paulinho Ceccin. Essas pessoas nem se deram conta da vocação que Santa Maria tem para o turismo religioso. E ficaram contra a ideia mas não fizeram proposta alternativa em seu lugar. Nunca falei sobre isso com o Paulinho Ceccin. Nem com dom Hélio. Nem com ninguém. E ninguém me pediu para escrever a favor à época porque nunca aceitei escrever coisas por encomenda. Nem tão pouco apoiei a iniciativa por ser católico apostólico romano, praticante e convicto. Quisessem os umbandistas construir monumento semelhante em homenagem à Iemanjá, estaria eu a favor. Quisessem os meus amigos espíritas homenagear Allan Kardec com um monumento de igual tamanho, contariam com meu apoio. Sou de profunda formação ecumênica. E sempre fui A FAVOR DO DESENVOLVIMENTO E DO TURISMO DA MINHA CIDADE NATAL !!! Tivesse o projeto sido aprovado e construído teríamos hoje no morro do Cechella o maior monumento religioso do Brasil iluminando a noite santa-mariense: a santinha em sua posição original, de braços abertos, feericamente iluminada, maternal e generosamente acolhendo em seu seio todos os santa-marienses e gaúchos. Além do turismo rendendo divisas para nosso município. Que Nossa Senhora Medianeira ilumine a cabeça burra dos muitos que teimam em lutar contra o progresso de nossa querida cidade natal.” Meus parabéns à comunidade de Encantado !

sábado, 10 de abril de 2021

GARAJÃO DA UFSM E O TRANSPORTE GRATUITO DE ESTUDANTES - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, Seção MEMÓRIA, 10.4.2021)

Prestei vestibular para a então chamada Faculdade de Agronomia da UFSM em janeiro de 1963. As provas foram realizadas no prédio da Antiga Reitoria, na rua Floriano Peixoto. Quatro disciplinas eram exigidas em prova escrita: Língua Portuguesa (uma redação, correção de 10 frases e análise sintática), Biologia, Química e Física. Três disciplinas ainda tinham prova oral. Enquanto aguardava em pé, no corredor do segundo andar do prédio a chamada do meu nome para prestar o exame oral, pela primeira vez observei com atenção pela janela aquela construção de metal situada à rua Astrogildo de Azevedo, contígua ao prédio da Antiga Reitoria. Aprovado no vestibular, vim a saber que se tratava do famoso “Garajão”. Tema sobre o qual me debruço hoje. O saudoso reitor Dr. José Mariano da Rocha – entre tantas medidas pioneiras que teve – estabeleceu uma linha regular de ônibus entre o campus de Camobi e o centro, para o transporte gratuito dos estudantes, funcionários e professores da UFSM. Nada mais, nada menos do que 13 ônibus faziam o transporte ininterrupto centro/campus/centro das 7h às 21h. Lembro que me formei em 1966 e nunca – durante os quatro anos do curso – paguei um centavo pela condução. Os ônibus ficavam abrigados no Garajão ao final do dia. Durante a manhã e início da tarde formavam-se imensas filas em frente a ele aguardando o vai-vem dos ônibus pintados de azul e branco, com o quero-quero estampado nas laterais, ave-símbolo da UFSM. Uma vez formado, comecei a dar aula na UFSM e continuei a usar os ônibus por alguns anos. O meu querido e saudoso amigo professor Luiz Gonzaga Isaia, meu vizinho na Galeria do Comércio e companheiro de longos papos, teve a oportunidade de registrar nas suas memórias o seguinte: “Em 1970 o Serviço de Transporte da UFSM já possuía uma estrutura com garagem, oficina e posto de lubrificação e abastecimento e uma frota com 13 ônibus, 2 automóveis e 21 utilitários, além de 29 motoristas, 4 mecânicos e 3 funcionários do posto de gasolina”. E, também, lamentou o professor Isaia: “Houve a tentativa da administração central de introduzir uma linha ferroviária que facilitasse o transporte de servidores e estudantes, mas devido às dificuldades alegadas pela direção da Rede Ferroviária o pedido não obteve sucesso; assim a solução foi investir no transporte rodoviário”. Mas nessas lembranças eu gostaria de registrar alguns nomes de motoristas que ficaram no meu coração e na minha memória. Muitos deles que me transportaram não só como aluno. Mas me conduziram com zelo e segurança para fazer palestras em congressos e simpósios durante minha vida docente de quase quarenta anos. De alguns lembro do nome inteiro: Ademar Sitoni Fraga, Paulo Farias, Antônio José Pedroso da Rosa, Aurélio de Souza, Reno Schmidt, Nilson Silveira, Jesus Pujol. De outros lembro apenas do primeiro nome ou do apelido: Carioca, Bordim, Miro, Fraga, Paulinho, Pedroso, Adão. Muitas excursões fui com os alunos. Muito chimarrão tomei no Garajão com os motoristas. Ao lado, funcionava a primeira sede da Cesma. Aos fundos, funcionava a sede da Cooperativa dos funcionários da UFSM. Pelo Garajão passaram milhares de pessoas. Projetos de vida. Sonhos. Hoje, ao passar por ele, abandonado, pichado, enferrujado, apresso o passo. Sem olhar para trás. Com medo de começar a chorar na rua.

terça-feira, 6 de abril de 2021

FUGINDO DO ALZHEIMER NAS MADRUGADAS DO ISOLAMENTO - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - ediçao de 6.4.2021)

Nessas madrugadas de isolamento social tenho a mente assaltada por lembranças de figuras incríveis e episódios marcantes vividos nessa Santa Maria da Boca do Monte. E que faço questão de cultivar, escrever e registrar como exercício para evitar o Alzheimer. Os mais jovens talvez ignorem, mas Santa Maria já foi famosa no cenário nacional do basquetebol. Durante muitos anos deteve a hegemonia deste esporte em nível estadual. E tudo graças ao desempenho fantástico da famosa equipe que a diretoria do Corintians conseguiu formar nos anos 60 e 70. Lembro do MAIR, jogador de basquete da seleção brasileira, técnico do Corintians, na época áurea dos campeonatos estaduais de basquete. Era um verdadeiro ídolo na cidade. Os jogos eram no “Alçapão”, quadra de basquete que ficava atrás do Clube Caixeiral, onde hoje existe um estacionamento. Mair inovou o basquete, juntamente com outros vários técnicos, dos quais lembro Maquiline, Nascimento, Lenk, Fumanchu (trazido do Vasco da Gama), etc...Foi a época de ouro do basquete santa-mariense, com inesquecíveis jogadores : Deroci, Queijo, Balaio, Paulinho, Liminha, Nilton Nieves, Mair, Tassinho, Pati, Bibi, Jau e tantos outros. Lembro, emocionado, que o “Alçapão” lotava aos sábados à noite e a torcida enlouquecia. Que fase! Que época ! No início dos anos 60, um grupo de jovens estudantes vestibulandos se reunia todos os sábados no porão da casa da avenida Presidente Vargas, 2067, residência do Dr. Hélvio Jobim, advogado famoso na comarca santa-mariense. Ali se reuniam : Nelson Jobim e Walter Jobim Neto (filhos do dono da casa, que viriam a se formar em Direito, como o pai), Antônio Rossatto (“Padre”, que se formou em Direito), Antônio Carlos dos Santos (“Tonico”, que se formou em Medicina), Luiz Alberto Belém Leite (“Betinho”, que se formou em Medicina), Carlos Horácio Hertz Genro (que se formou em Medicina) e eu (que me formei em Agronomia).Motivo das reuniões: estudar literatura, discutir política, declamar poemas, recitar crônicas. Eu fico me perguntando se haverá, nos dias atuais, algum grupo semelhante em algum recanto do Brasil ? Registro dois Bentos da minha juventude. Bento do Carmo Machado (“Bentinho”),envelhecido, casacão surrado, sempre carregando cadernos com anotações, vivia arrumando jogos entre nossas equipes de futebol amador. Escrevia textos e noticiário completo sobre esporte amador nas páginas de A RAZÃO e tinha um programa esportivo na Rádio Imembui. Era membro da então atuante Liga de Futebol Santa-mariense. E o Ir. Bento José Labre, o segundo Bento do qual me lembro hoje, era padre. Foi diretor da Escola Hugo Taylor e dirigente da Tropa de Escoteiros Tupanciguara, cuja sede era ao lado da agência central do Banco do Brasil. Tradicionalista ferrenho, sempre desfilava no dia 20 de setembro com o CTG Ponche Verde. Outro querido amigo, falecido em março de2002 (acho que no dia 6), foi João Francisco Goldman, provavelmente o maior estilista da moda que a cidade de Santa Maria já teve. Prestou grandes serviços à Escola de Samba Unidos do Itaimbé quando Alfeu Pizarro, Zaira e Luizinho de Grandi (todos falecidos) faziam parte da diretoria, confeccionando as principais fantasias da escola que por vários anos foi campeã do carnaval santa-mariense. Goldman foi frequentador da semanal da sauna do Avenida Tênis Clube, com dezenas de outros saudosos amigos : Antero Scherer, Máximo Knackfuss, Arnaldo Walty, Abdo Mothcy, entre outros tantos. Ficou um vazio na sua arte, onde foi verdadeiro expoente ! Nessas madrugadas silenciosas, isolado há 13 meses, contemplo os morros da cidade e as torres da catedral da janela do meu apartamento. Depois dessa procissão de mortos que passa pela minha mente começa a revoada diária das centenas de garças que vêm da zona oeste rumo a Camobi. Prestes a fazer 79 anos, quando minha alma fará a revoada definitiva desse planetinha azul ?