segunda-feira, 3 de julho de 2023
UM HOMEM DO BEM - James Pizarro (DIÁRIO - 4 de julho de 2023)
Meu querido amigo e ex-aluno Cláudio Morgental sempre me falou com muito orgulho de seu avô José Morgental. Era dotado de uma inteligência privilegiada. E por isso, seu pai seu pai o mandou aprender o ofício de ferreiro com os alemães em AGUDO. Trabalhou na confecção da torre da Igreja de Santo Antônio, em Silveira Martins . Fabricou a cruz no alto da torre. Também forjou o portão do cemítério de Vale Veronês, até hoje existente.
Claudio conta que seu avô era requisitado em todas as ocasiões importantes a saudar visitantes ilustres que chegavam ao berço da IVª Colônia devido à sua grande capacidade para a oratória. Em todas as festas, casamentos e aniversários pediam para ele fazer uma alocução. Era uma de suas marcas registradas. Da Itália veio grande quantidade de livros ,que formaram seu acervo particular. Autodidata, ele devorava enciclopédias. Estudou e construiu uma usina Hidrelétrica, desviando o curso d'água do rio Guarda-Mór que passava nos fundos da sua casa e produziu sua própria energia elétrica. Nenhuma casa possuía este benefício, mas ele já dispunha deste avanço. Só muitas décadas depois a luz elétrica chegou àquela região.
Também o pai de Claudio, Alcides Morgental, foi um grande lutador e empreendedor. Montou uma famosa oficina mecânica, de grande conceito na cidade Atendia clientes como o bispo dom Luis Victor Sartori e o advogado Dr. Hélvio Jobim, entre outros. Vendeu tratores DAVID BROWN importados da Inglaterra. Vendeu também BUCK ,URSUS ,VALMET. E para melhor assistência à oficina mantém anexo uma TORNEARIA com serviços de solda a eletrogênio e oxigênio.
Mas a saga da família Morgental ocuparia muito espaço, tão rica que foi. E o personagem central desta crônica de hoje eu pretendia que fosse Claudio Morgental. Eu o conheci nas salas do Curso de Agronomia, onde foi meu aluno e teve de interromper o curso para trabalhar e por outras obrigações familiares.. Acabou se formando no Curso de Administração da UFSM em 1975. Trabalhou em empresas norte-americanas de saúde natural. Também atua no setor imobiliário, na construção de pavilhões pré-moldados e na locação de Imóveis. Foi escoteiro. Trabalha em obras de benemerência. É católico fervoroso, praticante, atuando na paróquia da Ressurreição.
Claudio é muito ligado às coisas da terra, à agricultura, árvores frutíferas e à Ecologia. O que nos aproximou muito. Gosta muito de estar bem informado e por isso lê muito, pesquisa, está sempre atento à mídia. É muito atento ao passado santa-mariense, monumentos, figuras que fizeram a história da cidade. Dia desses me contou que se preparava para matar uma lesma que atacava as flores do jardim de sua esposa. Mas que se tomou de misericórdia por aquele ser vivo e desistiu, deixando ela viva. Quando quiseram aplicar agrotóxicos para terminar com as ervas daninhas da sua calçada, preferiu arrancar as mesmas e aplicar um poderoso cimento-cola para evitar que as mesmas nascessem entre as pedras e ladrilhos.
Enfim, um homem empreendedor e criativo, a exemplo de seu avô e de seu pai. Profundamente ligado à família, sua esposa e filhos. Recentemente perdeu sua mãezinha, que era minha assídua leitora. Um homem temente a Deus e dedicado às obras da igreja. Com sensibilidade rara pelos seres vivos. E portanto, digno de ser conhecido pela sua comunidade.
Por isso, fi-lo meu personagem dessa singela crônica. Para lhe mostrar o quanto seu velho professor fica comovido quando percebe que suas aulas foram aproveitadas. E ajudaram na formação de um homem de bem.
Claudio : que Deus seja generoso contigo e que te dê glória alta e compreensão entre os homens !
segunda-feira, 8 de maio de 2023
MORREU COMO UM PASSARINHO... - James Pizarro (DIÁRIO - 9.5.2023)
Minha mãe se chamava Maria, conhecida por todo mundo pelo nome de Iria. Dona Iria. Minha avó materna, vó Olina, contava que o nome dela era para ser Maria Iria e que meu avô, na hora do registro, esqueceu e registrou apenas como Maria.
Minha mãe estudou todo o Curso Elementar (depois chamado Ginásio e hoje chamado Ensino Fundamental) no Colégio Santa Terezinha (hoje prédio do MANECO), internato e semi-internato mantido pela Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul em sua época áurea. No turno da manhã, minha mãe tinha as disciplinas pertinentes a esse tipo de curso (Matemática, Português, Ciências, Geografia, História, Música, etc...). Pela tarde aprendia bordado, tricô, tocar violino, educação física, etc...Minha mãe sempre dizia que as freiras do Santa Terezinha usavam a frase : "De manhã se educa a mente e a alma, pela tarde se educa o corpo".
Aos 16 anos conheceu Alfeu, meu pai, e pouco tempo depois casaram. Foram morar na rua Silva Jardim, 2431. Onde ficaram toda vida. Desfrutando um feliz convívio de quase 70 anos de casamento sólido.
Minha mãe ajudou na árdua luta de sustentar uma família com dois filhos, construir uma casa própria com o ordenado de funcionário público de meu pai, que trabalhava em dois empregos. Exímia na arte de fazer doces, durante anos fez e vendeu doces sob encomenda para casamentos e aniversários. Nunca teve empregada doméstica. A família sempre recebeu ajuda providencial, quando necessário, de meu avô materno, Seu Fredolino. Como ferroviário, ganhava muito bem à época e podia prestar este auxílio e o fazia de bom grado.
As únicas diversões das quais me lembro eram frequentar todos os circos que chegavam a Santa Maria. Ir aos bailes mensais do Clubes de Atiradores Santamariense. E não perder as esporádicas festas do Grupo de Bolão 7 de Setembro, de cuja equipe meu pai era o "capitão", pois era exímio bolonista.
Depois de idosa, minha mãe frequentou aulas na UFSM como aluna especial. Engajou-se na luta política da terceira idade na cidade, sendo uma das fundadoras do grupo "Mexe Coração", com sede no Centro de Atividades Múltiplas, no Parque Itaimbé. Participou de aulas da caratê. Foi atriz de vários espetáculos do grupo teatral da terceira idade, onde se revelou notável comediante. Viajou pelo interior gaúcho para apresentações teatrais. Fez parte do coral dos idosos. Frequentava as aulas recreativas de natação na piscina térmica da UFSM. Enfim, teve uma vida socialmente participativa.
Esteve casada com meu pai durante 63 anos de feliz união, pois ambos se completavam. Ficou viúva em 9 de maio de 2004, quando meu pai morreu vitimado por complicações pós-operatórias advindas de uma cirurgia cardíaca.
Viveu na mesma casa sempre, com minha irmã Jane e com uma atendente de idoso. Ela sempre teve grande afinidade com minha mulher, sua nora. Insisti até à exaustão para trazê-la para a praia de Canasvieiras (quando lá morei durante quase uma década) para gozar do sossego de uma praia maravilhosa no final de sua vida. Nunca aceitou. Consegui leva-la duas ou três vezes para temporadas de trinta dias.
Contentei-me, então, com conversas telefônicas semanais. Infelizmente, a minha opção de morar na praia, desejo acalentado há anos, não coincidiu com a opção de minha mãe. Lamentei pela opção que ela fez. Mas que fui obrigado a respeitar. Dia 4 de fevereiro de 2012 estive em Santa Maria para festejar os 90 anos de minha mãe, junto com dezenas de parentes, vizinhos e amigos, em animado jantar no Restaurante Vera Cruz. De 19 a 25 de abril de 2013 estive também em Santa Maria. E em janeiro de 2014 também estive em Santa Maria para visitar amigos, parentes e visitar minha mãe por 29 dias. Enfim, voltei todos os anos para visitas.
Até que - maio de 2016 - depois de quase dez anos na praia, já com 74 anos à época, decidi retornar aos pagos, ficar perto dos filhos, netos, amigos, ex-alunos, meus médicos, minha cidade natal.
Em 28 de julho de 2016 minha mãe morreu. Aos 93 anos. Morreu dormindo. Em sua cama. Em sua casa.
Como um passarinho.
segunda-feira, 24 de abril de 2023
NÃO ESTÁ FÁCIL MANTER A SANIDADE MENTAL ! - James Pizarro (DIÁRIO, edição de 25.4.2023)
Tem ficado cada vez mais difícil – pelo menos para mim - escutar programas de TV. Ouvir rádio. Ou ler noticiários.
Nunca usei armas. Nunca matei animais. Com arraigada formação ecológica onde o respeito pelos seres vivos é fundamental, repugna-me derramamento de sangue. Guerras. Assassinatos. Agressões. Ódio. Vinganças. Traições.
E o que mais se vê hoje em dia é o ódio disseminado. A discussão sob qualquer pretexto. O avesso da Paz. O rancor. A falta de bioética. O desamor. O caos nas relações humanas.
O programa “Fantástico” do último domingo foi um exemplo disso. Bebês trocados na maternidade há trinta anos. Assassinatos de mulheres por parte de seus companheiros machistas. Dentista que abusava sexualmente de suas pacientes. Roubos gigantescos em mais de cinquenta cidades do Maranhão. Policiais espancando pessoas em São Paulo. Jogadores de futebol aliciados para cometer infrações em troca de dinheiro para modificar resultado dos jogos de seus clubes. Novos capítulos de brigas entre partidos políticos. Pessoas que morrem sem assistência médica. Enfim, uma bacanal de mau caratismo generalizado.
No intervalo comercial da programação me dei conta que comecei a ficar ansioso. Angustiado. Principalmente porque fiquei a lembrar do futuro dos meus seis netos. Jovens, eles gostam de sair. Ir a festas. A shows musicais. A boates. Viajar.
Em nossa cidade, por exemplo, a despeito de gigantesco esforço das autoridades policiais, praticamente se mata uma pessoa dia sim, dia não. Roubos. Assaltos. Drogas. Acidentes de trânsito. Otoristas dirigindo alcoolizados. Ou sem habilitação.
Eu me dei conta que há mais de ano não saio mais de noite, apesar de morar no centro da cidade. Faço minhas compras de dia. E me valho das telentregas se preciso de algo durante a noite.
Fiquei a lembrar de uma história real ocorrida nos Estados Unidos com um milionário. Acometido de uma severa doença neurológica que o deixou hipersensível, a família foi advertida pelo médico que o paciente não poderia sofrer impactos com más notícias. Milionária, a família passou a imprimir um jornal com notícias escritas por jornalistas especialmente contratados. Que escreviam poemas. Crônicas melífluas. Fotos de paisagens paradisíacas. Notícias de namoros felizes. De avós bem tratados pelos netos. Casamentos perfeitos. Clima primaveril. Enfim, noticias que levavam o paciente à tranquilidade. E ao aumento da longevidade, apesar da grave doença.
Mas eu – um professor universitário aposentado, idoso, há vários anos sem receber aumento – de que métodos me valerei para enfrentar esses “tempos bicudos”, como dizia Mário Quintana ?
Não fumo há 45 anos. Não bebo há 22 anos. Nunca usei drogas ilícitas. Tenho de ter cuidado com a alimentação.
Resta-me orar. E meditar. Porque orar -segundo aprendi – é falar com Deus. E meditar é ouvir o que Deus tem para me dizer.
Tem dado certo.
segunda-feira, 13 de março de 2023
"HISTÓRIA DE SANTA MARIA : NOVOS OLHARES" - James Pizarro (DIÁRIO - 14.3.2023)
Há mais de sessenta anos coleciono livros, artigos, separatas, fotografias e documentos sobre a história da nossa querida Santa Maria. Possuo, pois, um razoável acervo sobre fatos e pessoas da cidade.
Este acervo foi enriquecido na tarde do último sábado, quando recebi a visita do jovem arquiteto e urbanista santa-mariense Alex Scherer Porporatti, formado no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Franciscana em 2021. Ele está concluindo seu curso de mestrado na UFSM no Programa de Pós-graduação em Patrimônio Cultural.
Alex participa e atua em trabalhos relacionados à História de Santa Maria, Patrimônio e Restauro. Ele mesmo afirma que “possui como meta em suas propostas, promover uma profunda reflexão através do estímulo do senso de pertencimento sobre a preservação do patrimônio material e imaterial, analisando e interpretando a atual situação dos seus atributos de valor (arquitetônico, histórico, de memória).”
O arquiteto Alex, em sua visita, gentilmente me presenteou com a obra “HISTÓRIA DE SANTA MARIA, NOVOS OLHARES”, um alentado volume de 493 páginas, Casaletras (Porto Alegre,2022), com textos de diversos autores cuidadosamente organizados por Gustavo Figueira Andrade, Carlos Eduardo Piassini e Maria Medianeira Padoin.
Da página 352 à página 368 está publicado o trabalho do Alex, sob o título “Levantamento arquitetônico histórico-cultural do Clube Caixeiral Satamariense em Santa Maria - RS”.
Registro a dedicatória feita pelo Alex : “Ao nobre defensor da nossa História professor James Pizarro : ofereço esta belíssima obra sobre Santa Maria. Busco resguardar através da minha contribuição com este livro o resgate do nosso atemporal Clube Caixeiral Santamariense perpetuando a história de Santa Maria e o legado dos nossos antepassados. Um grande abraço. Março/2023”
O texto de Alex é ilustrado com 16 fotos explicativas sobre a fundação do Clube Caixeiral, sua história e situação atual. O clube, fundado em 1886, inaugurou sua sede definitiva em 1926. O arquiteto alemão Theodor Wiederspahn foi o autor do projeto arquitetônico, seguido à risca pelo responsável pela obra, Olympio Lozza.
Para quem, como eu, passou sua juventude inteira frequentando o Caixeiral, sua copa, seus bailes e boates, suas mesas de sinuca, seu restaurantes, sua biblioteca, a leitura do excelente trabalho da dissertação do Alex é um deleite e um reviver de emoções e lembranças de uma época de ouro. O texto é excepcionalmente bem escrito e de leitura agradável.
Recomendo a leitura dessa obra sobre nossa cidade para todos aqueles que nutrem amor por nossa terra. E agradeço ao arquiteto Alex pela gentil visita, assim como também relembro - por derradeiro - o trabalho a favor da restauração do clube por parte da querida amiga professor Anamaria Molina.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023
MOBY DICK, A BALEIA - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - 28.2.2023)
Toda vez que, longe de nossa cidade, conto o episódio do gaúcho que laçou o avião – fato amplamente noticiado por revistas nacionais e estrangeiras na época – com detalhes, endereços, fotos e nomes dos envolvidos, fui motivo de piada e tive o dissabor de ouvir frases do tipo “esses gaúchos têm cada história”. Até que reuni tudo o que se tinha publicado sobre o tema e publiquei extensa matéria sobre o ocorrido e publiquei em crônica, em blog e nas redes sociais.
Uma segunda história que conto e me causa dissabor é quando digo que no ano de 1958, ano do Centenário de Santa Maria, um gigantesca baleia esteve por vários dias exposta à visitação pública na rua Niederauer na quadra existente entre o edifício Taperinha e o Clube Caixeiral. As pessoas duvidam da veracidade da história.
Publiquei esta história da baleia na Linha do Tempo do meu facebook e recebi quase 300 comentários com as mais diferentes opiniões. Grande número de pessoas da mesma faixa etária minha me apoiando, avalizando o que eu tinha afirmado e confirmando que tinha visitado a tal baleia.
Outros diziam que nunca tinham ouvido falar nessa baleia. E outros me gozando, me chamando de mentiroso. Cheguei a printar os comentários para publicar os mesmos junto com os nomes de seus autores nessa crômica memorialística de hoje. Depois, achei mais elegante não faze-lo.
A baleia exposta era da espécie JUBARTE e foi capturada nas costas da Espanha. Depois de percorrer vários países da Europa, África e América do Sul, chegou ao porto de Santos, SP. Dali partiu para várias regiões do Brasil para exposições de “entretenimento de caráter científico”, como dizia seu proprietário, um certo sr. J. Maturana.
A baleia, chamada de MOBY DICK, tinha 20 metros de comprimento e 60.000 quilos. Era transportada por um caminhão de 18 rodas. Chegou em Santa Maria procedente do município de Alegrete e ficou estacionada no centro de Santa Maria, entre o Caixeiral e o Taperinha. Ao redor do caminhão foi estendida uma lona preta formando uma espécie de muralha e corredor.
O espectador pagava entrada e adentrava por um lado, circundava todo o caminhão observando aquele imenso animal e saia pelo outro lado. Havia um forte cheiro de formol, pois o mesmo estava conservado em 7000 litros de formol que lhe haviam sido injetados para prevenção contra a putrefação.
O proprietário explicava – lembro bem – que a baleia já estava sendo exposta no caminhão há três anos e que depois de Santa Maria, eles rumariam para expô-la nas cidades de Cachoera do Sul, Pelotas e Rio Grande.
Quero fazer um agradecimento público à arquivista Danièle Xavier Calil, diligente e dedicada chefe do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria que que de maneira rápida e educada me proporcionou acesso às páginas de A RAZÃO de1958, podendo dessa forma provar aos incrédulos que a baleia realmente esteve no centro de Santa Maria. Isso me possibilitou escrever uma página inteira da seção ”Memória” há alguns anos no Diário.
Infelizmente, à época, não haviam as facilidades das máquinas fotográficas portáteis e nem os celulares, de sorte que não consegui registro fotográfico da MOBY DICK.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2022
E JESUS CHOROU... - JAMES PIZARRO (DIÁRIO - 20.12.2022)
No capítulo 11 de João, encontramos o versículo 35, um dos mais curtos de toda a Bíblia: “E Jesus chorou”. Não vou pontuar aqui o momento histórico que suscitou este versículo. Mas, contextualizando para os dias de hoje e num esforço de síntese, poderia resumir dizendo que Jesus chorou - e chora até hoje - por compaixão.
Jesus chorou quando, a cada dois ou três dias, uma pessoa foi assassinada nas ruas de Santa Maria com balaços na cara pelos motivos mais torpes e vis.
Jesus chorou quando crianças foram abusadas sexualmente dentro de suas próprias casas ou em suas escolas, por pessoas que teoricamente deveriam protegê-las.
Jesus chorou quando mulheres fragilizadas e doentes foram abusadas por religiosos em templos onde ingenuamente foram em busca de socorro.
Jesus chorou quando uma jovem mulher grávida foi, em plena luz do dia, estuprada no Bairro do Rosário sem que ninguém visse ou pudesse lhe auxiliar.
Jesus chorou pelo número de doentes que não puderam ter o atendimento merecido porque aparelhos estavam quebrados e nem leitos suficientes existiam, tendo de sofrer o martírio e a humilhação da espera nas macas dos corredores dos hospitais.
Jesus chorou diante de funcionários desesperados que tiveram seus salários há anos sem reajuste, suas contas atrasadas, seu crédito cortado, sua comida racionada e o pior – muitos deles chegaram ao suicídio.
Jesus chorou diante do aumento das doenças sexualmente transmissíveis, algumas tidas como controladas, devido ao comportamento descuidado e a falta de respeito das pessoas para com seu próprio corpo.
Jesus chorou pelos animais abandonados, torturados, mortos à míngua, explorados, envenenados, agredidos sem que nenhuma autoridade constituída tenha deles a mínima piedade. J
Jesus chorou pelos trilhões de reais roubados por alguns políticos que só pensam em amealhar dinheiro para si e só têm olhos para seus próprios umbigos.
Jesus chorou pelas viúvas que ganham pensões ridículas, aposentados doentes que são submetidos a perícias numerosas para seguir ganhando tostões, doentes que precisam de remédios pagos pelo governo e estes sempre faltam nas farmácias oficiais.
Sim, Jesus chorou muito em 2022. Talvez esteja quase “desidratado” devido à insanidade dos homens. E à insensibilidade dos políticos e autoridades.
Jesus chorou pelos hospitais não concluídos, pela falta de leitos, pelos doentes amontoados em macas, pelas mães implorando por creches, pelos mortos em acidentes automobilísticos em estradas cheias de buracos, pela falta de remédios de uso continuado para pacientes carente, pelas crianças atingidas por balas perdidas.
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Jesus chorou pela fúria comercial e mercantilista em que se transformou a data do seu nascimento. Pelos que só pensam em trocar presentes. E se empanturrar de comida e bebida em demasia.
Vamos cair de joelhos, fazer um “mea culpa” e rezar por Jesus neste Natal ?
segunda-feira, 12 de dezembro de 2022
HELGA, UMA CADELA UNIVERSITÁRIA - James Pizarro (DIÁRIO, 13.12.2022)
Eu bem sei que, além de ser um tanto (p)bizarro, virei um tipo maldito no oficialismo da minha cidade natal quando era mais jovem. “Metamorfose ambulante” no conceito do Raul Seixas, virei um tipo maldito, satanizado na cidade. 90 % por causa do preconceito da cidade (que nunca aprendeu a conviver com as diferenças). E 10 % por causa das ,mancadas terríveis que cometi (e das quais já fiz confissão pública. Fui julgado. Crucificado. E ressuscitei. Para desânimo e desencanto dos meus desafetos).
Houve uma época que a UFSM presenteava e homenageava numa janta os funcionários e professores que completavam 10, 20, 30 anos de serviço com folha imaculada, sem faltas e advertências. Acho que ainda existe esta premiação. Quando completei 20 anos de serviço fui o único que “esqueceram” de convidar para receber a tal medalhinha de latão, que se compra ali no camelódromo por 1,99 a dúzia.
À época, escrevi para a reitoria – por oficio protocolado – que estranhava o esquecimento. E argumentei que poderia ter levado meu lanche de casa na jantinha oferecida se tinham medo da minha gula de obeso. E do custo gastronômico que eu daria. O que certamente afetaria os cofres da instituição.
Na semana seguinte, ao entrar na minha sala na Rádio Universidade, encontrei por baixo da porta um envelope contendo a medalhinha de latão com uma espécie de alfinete. Esses troços que se enfiam na lapela do casaco. E nada tinha por escrito, apenas a latinha.
Como nunca usei casaco, sou um homem sem lapelas.
Naquela distante época, eu tinha três cadela da raça cocker-spaniel. Chamadas Helga, Madonna e Hanna. Chegando em casa, enfiei a medalha na casa da Helga, minha cadela preferida e a mais velha do trio. Porque achei que o carinho e a dedicação que ela me dava mereciam um agradecimento. E afinal, numa cidade com várias universidades, ela não era uma cadela comum.
Era uma cadela universitária e, agora, possuidora de um ”merdalhão”.
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