sexta-feira, 31 de agosto de 2012

UM AZARADO - James Pizarro


Julio Soares, 31 anos, morador de Florianópolis foi preso e levado para Cuiabá, em Mato Grosso. E lá ficou preso durante um ano e seis meses.
Não adiantou dizer que era casado, emprego fixo, sem antecedentes e que nunca tinha ido a Mato Grosso.
Só agora, depois de preso 18 meses, a verdade veio à tona. O irmão dele, Josiel Eliel Soares, depois de ter cometido um furto a banco em Barra do Garças, a 500 quilômetros de Cuiabá, identificou-se à polícia como sendo Julio Soares. Com este nome foi condenado a quatro anos de cadeia.
Julio Soares foi posto em liberdade em Mato Grosso.
Não tem dinheiro para voltar para Florianópolis.
Ficou sem emprego.
Seu irmão, atualmente preso em Camboriu, por outros crimes já o ameaçou de morte.
Apesar disso, se dizendo evangélico, Julio diz que perdoa o irmão e não guarda mágoa.
E como desgraça pouca é bobagem, logo depois de sair da cadeia, tratou de telefonar para a mulher. E ouviu essa resposta :
- Não quero mais saber de ti.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

SAUDOSISMO - James Pizarro

Bar Geaiten do Morisso. Claudio Machado Rizzato, Battistino  Anele e Edifício Taperinha.
Trem Minuano. Zebrinha da Loteria Esportiva no "Fantástico". Hugo da Flauta. Calça Topeka. Tio Santo. Negativo de foto. Tivico. Língua do "P". Sargento "Farol" da Banda do Sétimo. Emulsão de Scott. Abelin assoviador. Coppertone. Claudio e restaurante Moby Dick. Naftalina. Cabaré Balalaika. Dalmo Dikrel. Vera Soares e site Clavedesul. Viagens do Chicotim.
Blusa de banlon.  Gruta Azul. Pílulas de vida do Dr. Ross. Restaurante Gruta da Imprensa. Vemaguet.  "Senadinho" do Clube Comercial. Rural Willys. Garçon"Chico" do Clube Caixeiral.
Bobs para o cabelo. Trem Húngaro. Piadas de caserna das "Seleções". Revista "Realidade". Papel carbono. Trem "noturno" para Porto Alegre. Xampu de ovo. Revistaria da gare da estação ferroviária.
Elefantinho da Shell. Stand do Wilson na Segunda Quadra da Bozano. Pó compacto Cashmere Bouquet. Matinê dominical das l3h15 do Cine Imperial. Leque feminino. Álbum de figurinhas "Marcelino, pão e vinho". Piteira para cigarros. Cabaré da Valda. Atirei o Pau no Gato. Retreta na praça Saldanha Marinho. Óleo Singer. Central de Máquinas. Disco de 78 rotações. Relojoaria Péreyron. Cobertor Sonoleve. Casa Feira das Sedas. General Osvino Ferreira Alves.Sabonetes Madeira do Oriente. Sibrama. Modess Pétala Macia. Calçados Morisso. Vidal Castilhos Dânia. Elevador Ótis. Brim Coringa Sanforizado. Bel Som. Pyrex. Livraria Dânia. Roy Rogers. Casa Escosteguy. Buck Jones. Casa "A Facilitadora".  Gabriel Abbott.  Tarzã. Guarany Atlântico.
Corante Guarany. Bibelô. Bidê. Revista Intervalo. Revista Sétimo Céu. Revista Grande Hotel. Revista "O Cruzeiro". Heitor Silveira Campos. Revista do Globo. Relógio Cuco. Deocleciano Dornelles. Bomba de Flit. Mimeógrafo. Toca discos. Caminhão FNM. Dom Antônio Reis. Flâmula. Monark. Pneu Balão. Jardim Tropical ao lado da catedral. Clubes de basquetes Atlético e Irajá.
Camisa Volta ao Mundo. Café Visita. Amigo da Onça. Café Cometa. Repórter Esso. Goma Arábica. Montanha Russa.Casa Cristal. Fanha. Tivico. Quinquinha.
Sapato Vulcabrás. Neocid. Vasco "Capitão Caraguatá" Leiria. Enciclopédia Barsa. Tesouro da Juventude. Clube Juvenil Toddy. Escola de datilografia da Olga. Corte meia cabeleira. Corte Principe Danilo. Cabaré da Valda e da Geni. Casa das Malas. Joalheria Troian.
Binaca. Envelope verde-amarelo para correspondência aérea. Alpargatas Roda.
Monóculo com foto. Bombril na antena. Enceradeira. Fotonovela. Decalque.
Araldite. Simca Chambord. Galocha. Chaveiro com pé de coelho. Meia-sola. Grupo de Vanguarda Cultural.Farol.  Crocante. Tio Santo. Bloco de Carnaval "Bota que eu bebo".
Máquina de moer carne. Sabonete Eucalol. Maiôs Catalina. Varig na Noite. Casa Aronis.
Sabão Rinso. Dedal. Uniforme de Gala.  Glostora. Leite de Rosas. Leiteiro. Fábrica de Mosaicos  Ângelo Bolsson.
Jogo de futebol de botão puxador. Mingau de aveia Quaker. Jeca-tatu. Saci-pererê. Reizinho.
Drops Dulcora. Penico.Cartão de Natal. Mercurocromo. Espiral contra mosquito.Antoninho-faz-tudo. Bentinho do Carmo Machado. Engole-sapo.
Talha. Filtro de Barro. Calça Far-west. Toca-fitas. Aqua Velva. Soldadinho de chumbo. Topo Gigio. Os Sobrinhos do Capitão. Kichute. Conga. Tênis Bamba. Manilhas Kozoroski. Casa Herrmann.
Ovo de madeira para cerzir meia.  Crush. Cyrillinha. Bambolê. Sabonete Lever.
Instituto Universal Brasileiro. Tigre da Esso. Calçadeira. Slide. Quinta Seibel.
Três em Um. Roupa engomada. Revista do Rádio. Cadernos do MEC. Cadernos Avante.  Clube do Bolinha. Casinha na árvore. Cadeiras na calçada. Velar o defunto em casa. Seringa de vidro para dar injeção. Suadouro contra gripe. Escaldapé. Biliquê contra gonorréia.
Rodelas de batata inglesa na testa contra dor-de-cabeça. Gemada com canela.
Manta de lã contra cachumba. Entregador de vianda.
*Se você tiver conhecido mais de 90% disso tudo, certamente terá mais de 70 anos...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

COCÓ, A PATA DE ESTIMAÇÃO - James Pizarro

Corria a década de 50. Eu estudava no curso primário (hoje, ensino fundamental) do Grupo Escolar João Belém. A diretora era a professora Edy Maia Bertóia. Depois substituída pela professora Diquel Siqueira.
Os tempos eram difíceis. Meu pai trabalhava em dois empregos. Minha mãe fazia doces para fora. Meu avô, ferroviário, sempre ajudava. A Viação Férrea do RGS naquela época estava no auge e seus funcionários ganhavam os mais altos salários da cidade.
Meu pai estava construindo uma casa com todas as dificuldades inerentes a um funcionário público que se metesse numa empreitada dessas.
No nosso pátio tinha horta, canteiro de flores, duas cabritas (passei minha infância tomando leite de cabra), dois cachorros, um gato, uma caturrita, laranjeiras, bergamoteiras, figueira, limoeiros, bananeiras. E tinha um grande galinheiro, com mais de 100 galinhas, cujos ovos eram recolhidos diariamente.
No pátio, criada livremente a meu pedido, andava feliz uma pata simpaticíssima chamada por mim de "Cocó". Foi um dos meus primeiros animais de estimação. A pata andava atrás de mim por onde eu andasse, emitindo o som característico da sua espécie.
Quando as finanças apertaram na parte final da conclusão da construção da nossa nova casa, meu pai anunciou que - para fins de economia na compra da carne - passaríamos a comer as galinhas todas, o que realmente ocorreu. Era galinha frita, galinha na panela, risoto, pastelão de galinha desfiada. Isso me fez enjoar tanto de carne de galinha que até não gosto de comer dessa carne.
Num domingo, chegando da missa na catedral diocesana de Santa Maria, onde sempre ía em companhia de minha avó, achei estranho a "Cocó" não ter me esperado no portão como sempre fazia.
Na hora do almoço falei sobre o desaparecimento da pata e veio a verdade nua e crua, anunciada por minha mãe : "Teu pai mandou matar e assar a Cocó".
Saí vomitando pelo pátio, chorando e, aos gritos, maldizendo a família inteira.
Não comi naquele maldito domingo.
Até hoje, mais de meio século depois, lamento não ter uma foto com a minha patinha "Cocó".
Devo ter sido o único menino do mundo que chorou pela morte de uma pata.
Desde aquela época eu já era uma pessoa esquisita...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

INFÂNCIA SEPULTADA - James Pizarro

*Crônica publicada à pág. 4 do jornal "A RAZÃO", de Santa Maria, RS, edição do dia 22 de agosto de 2012.
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Plenário rejeitou emendas que ampliariam alcance dos royalties a qualquer elemento que agregasse valor a produto oriundo da biodiversidade. Foto de Luis Macedo/Câmara dos Deputados.

Proposta facilita a pesquisa de plantas e animais nativos, de forma a incentivar a produção de novos fármacos, cosméticos e insumos agrícolas. Haverá compensação a comunidades tradicionais que disponibilizarem à indústria seu conhecimento sobre o uso de recursos do patrimônio genético.
O Plenário da Câmara dos Deputados concluiu a votação do projeto de lei da biodiversidade (PL 7735/14, do Poder Executivo), que simplifica as regras para pesquisa e exploração do patrimônio genético de plantas e animais nativos e para o uso dos conhecimentos indígenas ou tradicionais sobre eles.
Na noite desta segunda-feira (27), foram aprovadas 12 das 23 emendas do Senado ao projeto. A matéria será enviada à sanção.
A principal emenda aprovada proíbe empresas sediadas no exterior e sem vínculo com instituições nacionais de pesquisa científica e tecnológica de conseguir autorização para acesso ou remessa ao exterior de patrimônio genético ou de conhecimento tradicional associado.
Alcance dos royalties
Entre as emendas rejeitadas estão aquelas que pretendiam permitir a consideração de qualquer elemento que agregasse valor ao produto acabado – produto oriundo de acesso ao patrimônio genético ou do conhecimento tradicional associado – como passível de gerar repartição de benefícios, uma espécie de royalty a ser pago por esse acesso.
“A repartição de benefícios deve ocorrer quando realmente a biodiversidade brasileira for essencial ao novo produto”, afirmou o relator do projeto, deputado Alceu Moreira (PMDB-RS).
Segundo o relator, se a emenda fosse aceita, elementos secundários de certos medicamentos poderiam fazer com que fosse exigido o pagamento de royalties.
Acordo setorial
Outras duas emendas aprovadas especificam que a possibilidade de diminuição, para até 0,1% da receita líquida, do royalty devido ocorrerá por meio de acordo setorial somente quando se tratar de conhecimento tradicional associado de origem não identificável.
Esse conhecimento não pode ser objetivamente atribuído a determinada comunidade.
A Câmara aceitou ainda sugestão do Senado para incluir o agricultor familiar na definição de agricultor tradicional, aquele que usa variedades tradicionais locais ou crioulas ou raças localmente adaptadas ou crioulas e mantém e conserva a diversidade genética.
Perdão de dívidas
De acordo com o projeto, haverá perdão de dívidas com multas por irregularidades em relação às regras anteriores se vinculado ao cumprimento de um termo de compromisso da regularização do acesso ao patrimônio genético ou ao conhecimento tradicional associado realizado em desacordo com as regras atuais.
Há vários valores de multas definidos em decreto, conforme a gravidade da infração, variando de R$ 10 mil a R$ 15 milhões para empresas.
Segundo o governo, as ações de um núcleo temporário de combate ao acesso ilegal ao patrimônio genético, que atuou em 2010, resultaram em multas com valor total de cerca de R$ 220 milhões.
Autorização prévia
Atualmente, o acesso à biodiversidade é regulado pela Medida Provisória 2.186-16/01 e cabe ao Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGen) dar autorização prévia para o início das pesquisas por meio de processo que leva tempo e exige grande documentação do pesquisador. Segundo o governo, isso dificulta a pesquisa e o aproveitamento do patrimônio genético, assim como a repartição dos benefícios de produtos originados deles.
De acordo com o projeto, o royalty será de 1% da receita líquida obtida com a exploração de produto acabado ou material reprodutivo (sementes ou sêmen, por exemplo) oriundos de acesso ao patrimônio genético.
Não monetária
A repartição poderá ser também não monetária, por meio de ações de transferência de tecnologia: participação na pesquisa e desenvolvimento tecnológico; intercâmbio de informações; intercâmbio de recursos humanos e materiais entre instituições nacionais e estrangeiras de pesquisa; consolidação de infraestrutura de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico; e estabelecimento de empreendimento conjunto de base tecnológica.
Nessa modalidade, o explorador do produto ou material poderá indicar o beneficiário.
Atividades agrícolas
O texto que vai a sanção inclui os produtos agrícolas e pecuários nas novas regras, especificando que o royalty será devido sobre a comercialização do material reprodutivo (semente, por exemplo) no caso geral de acesso a patrimônio genético ou conhecimento tradicional associado para atividades agrícolas.
Já a exploração econômica de produto acabado ou material reprodutivo oriundo do acesso ao patrimônio genético de espécies introduzidas no território nacional pela ação humana (soja, gado, cana-de-açúcar, por exemplo) será isenta do pagamento de royalty.
A exceção é para a variedade tradicional local ou crioula, aquela tipicamente cultivada pelas comunidades tradicionais, indígenas ou agricultores tradicionais e diferente dos cultivares comerciais.
Royalties serão devidos apenas quando a biodiversidade for essencial ao produto
Os deputados seguiram as indicações do deputado Alceu Moreira (PMDB-RS), relator do projeto de lei da biodiversidade (PL 7735/14) pela comissão especial, pela aprovação de 12 das 23 emendas feitas pelo Senado. Moreira recusou emendas que propunham o pagamento de royalties sobre qualquer elemento de agregação de valor ao produto acabado se esse produto decorreu do acesso ao patrimônio genético ou ao conhecimento tradicional associado.
“A repartição de benefícios deve ocorrer quando realmente a biodiversidade brasileira for essencial ao novo produto”, afirmou.
Se a emenda fosse aceita, segundo o relator, elementos secundários de certos medicamentos poderiam fazer com que fosse exigido o pagamento de royalties (1% da receita líquida). “É o caso do comprimido de paracetamol, que é revestido com cera de carnaúba, elemento secundário, provindo da biodiversidade, mas sem função primordial no funcionamento do comprimido”, argumentou.
Fiscalização
Moreira também criticou a inclusão, pelo Senado, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) como um dos responsáveis pela fiscalização das pesquisas agropecuárias, juntamente com o Ministério da Agricultura. “A fiscalização da atividade agrícola deve ser feita por órgãos afeitos à matéria”, disse.
Prevaleceu o texto da Câmara, elaborado a pedido da Frente Parlamentar Agropecuária, que determina a fiscalização apenas pelo Ministério da Agricultura.
Povos indígenas
Outro ponto criticado pelo relator foi a obrigação de se ouvir populações indígenas e comunidades tradicionais para celebrar acordos setoriais para repartir os benefícios resultantes dos produtos da biodiversidade. “Não é indicado quem são os representantes, isso pode tornar o projeto inexequível”, disse Moreira.
O texto aprovado na Câmara não torna essa consulta obrigatória.
Críticas
Vários deputados defenderam as emendas do Senado ao projeto de lei da biodiversidade. “As emendas do Senado vêm corrigir erros que a Câmara cometeu. E o relatório subtrai o gesto do Senado”, disse a deputada Eliziane Gama (PPS-MA).
Para o deputado Padre João (PT-MG), a indústria não pode usar o conhecimento das comunidades tradicionais, se enriquecer e não aplicar esse enriquecimento para investir no Brasil. “O Senado aperfeiçoou a lei. A nova lei aprovada no Senado garante a repartição dos benefícios”, disse o líder do PV, deputado Sarney Filho (MA).
A deputada Luciana Santos (PCdoB-PE) falou que o texto do Senado ajudaria a defender o meio ambiente. “É a defesa aqui do meio ambiente que combina com a defesa da biodiversidade brasileira.”
O deputado Ivan Valente (Psol-SP) considerou que a proposta aprovada na Câmara é mais restritiva. “O conhecimento tradicional não é só de agricultor, é também de indígena e de comunidades tradicionais como os quilombolas”, disse, em relação à inclusão de agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais entre os que contariam com a isenção no pagamento de repartição de benefícios.
Informações da Agência Câmara Notícias, publicadas pelo Portal EcoDebate, 28/04/2015

APRENDENDO COM A VIDA - James Pizarro

Aprendi que eu não posso
Exigir o Amor de ninguém.
Posso apenas
Dar boas razões
Para que gostem de mim.
E ter paciência
Para que a Vida
Faça o resto...

MATHIAS, O FRACASSADO - James Pizarro


Mathias andava nervoso.
Cheques sem fundo.
Projetos malogrados.
Dor na coluna.
Iminência de perder a esposa.
Sensação de uma vida fracassada.
Os amigos andavam preocupados.
Dirigia como um louco pelas ruas de Santa Maria, RS.
Num dia de abafado "Vento Norte", característico da região, foi ao campus da UFSM pela nova estrada asfaltada de Camobi.
Um estudante loiro, do Centro de Artes, ao fazer ultrapassagem por Mathias raspou na lataria de seu carro, danificando-a.
O estudante parou o carro para assumir a culpa.
Mathias, truculento e forte, cobriu o rapaz de impropérios.
E exclamou fora de si :
- Vou te dar um tiro, filho-da-puta !
E deu.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A IRONIA - James Pizarro


Os dois estudaram em grupo escolar municipal.
Fizeram ensino fundamental e ensino médio em escola estadual.
Estudavam em livros na biblioteca pública.
Fizeram universidade pública. Ele trabalhando em três empregos. Ela em dois.
Trabalharam duro nas férias durante anos a fio, enquanto os colegas íam para a praia.
Ou ficavam vadiando pelos bares. Bebendo. Jogando sinuca.
Roupas modestas. Dinheiro curto e economizado tostão a tostão.
Com as economias compraram móveis usados. Montaram seu lar num chalé de madeira.
O único com aluguel compatível.
E casaram.
Formados, fizeram concurso público. Conseguiram mais de um emprego.
Nos quais trabalharam em 3 turnos durante quase meio século.
Sem jamais faltar ao trabalho. Ou tirar licença para tratamento de saúde.
Filhos formados e casados, foram morar na praia. Passar seus últimos anos na praia. Já que esta lhes foi negada na juventude.
Os filhos, mais de uma vez, já lhes disseram : "Vocês são funcionários públicos, têm o dinheiro certinho no fim do mês...nós somos empresários e profissionais liberais".
Na semana passada, numa conversa com vizinhos, ele criticou a política clientelista e assistencialista que se instalou no Brasil.
Bem informado, ele citou a estatística publicada recentemente (outubro de 2008) pelo Banco Mundial, onde o Brasil figurava no décimo quinto lugar entre 19 países latino-americanos avaliados em termos de oferta e universalidade de acesso à educação.
Como a discussão esquentou, uma das vizinhas disse :
- O Sr. é um burguesão !!!
Ele lembrou de todo o passado de luta dura. E sentiu um nó na garganta.
Despediu-se e foi andar na praia, de mãos dadas com a companheira.
Uma solitária lágrima escorreu-lhe pela cara.
Enquanto uma linda gaivota cortou o ar.