quinta-feira, 7 de outubro de 2010

UM SONHO QUE APODRECEU

Era início da década de 60. E ele participava de todas as palestras sobre socialismo. Ouvia tudo sobre socialismo. Sempre na primeira fila, absorvia tudo.
Estava presente nas mostras de filmes alternativos sobre política.
Ajudou a carregar a mala do Padre Alípio, padre nordestino " subversivo", quando ele esteve em Santa Maria,RS, para fazer palestras sobre as "Ligas Camponesas" (uma espécie de "Movimento Sem Terra" dos anos 60, mais organizado e menos parasitário, pois eles continuavam trabalhando duro na terra).
Não perdeu um só filme da Semana do Filme Polonês, no famoso Cine-Teatro Imperial, rua Dr. Bozano, hoje transformado em loja de calçados.
Encomendava livros de teoria política para o Seu Bráulio, na Livraria do Globo.
Sabia todos os detalhes da revolução russa de 1917.
Foi quando casou e teve de trabalhar de verdade, em mais de um emprego. Enquanto seus amigos continuavam teorizando nos bares. Alguns ainda continuam nos bares. Cirróticos e solteirões.
Veio a revolução de março de 64. E os seus grandes líderes políticos fugiram para o exterior.
Ele ficou estático quando viu ruir a URSS. A decadência do sonho igualitário.
Com espanto, custou a se dar conta que o ciclo do comunismo - iniciado em 1917 - tinha terminado, quase cem anos depois, com a queda do muro de Berlim.
Nunca mais viu filmes políticos.
Nunca mais viu seus ex-amigos, hoje todos figuras importantes da República Lulista.
Quase todos ricos. Empresários. Assessores. Deputados. Ministros.
Alguns envolvidos em escândalos financeiros que,na mocidade, tanto combatiam.
Hoje, ele gosta muito de ouvir antigas músicas no seu computador.
Tarde chuvosa de sexta-feira outonal. Sombria. Em pé, à janela, olhando para as nuvens negras.
Um dos seus netos perguntou que música era aquela que tocava. Uma espécie de marcha solene. Com coral de centenas de vozes.
Ele respondeu secamente, disfarçando a voz embargada :
- É a Internacional Socialista.
O neto se contentou com a resposta. E saiu da sala.
Não viu as lágrimas que escorriam pelo rosto alquebrado do avô.
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AUTOR : James Pizarro

Um comentário:

Afonso Pires disse...

"zero" comentários. Claro. Dizer o que depois de tão brilhante exposição do que é ser socialista.
Afonso