quinta-feira, 1 de setembro de 2016

TERNURA - James Pizarro (A RAZÃO, edição de 1/9/2016)


COLUNISTAS

Ternura


James Pizarro

por James Pizarro em 01/09/2016
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TERNURA (1) - O feto estava no alagadiço. Resto de mangue. Misturado a galhos da vegetação. E folhas em decomposição. Cheiro de maresia. Misturado à carne humana em decomposição. Deveria ter uns sete meses aquela criança. Loira. Sexo feminino. Lindinha. Aborto feito primitivamente. Assassinada por uma mãe desesperada. Dois ou três furos na cabeça do feto. Provavelmente com agulha de tricô. Pelos orifícios corria massa encefálica. Pedaços de um cérebro que não veio a ser. Parecia fio de ovos escorrendo.
Mais uma vítima da miséria. Do medo. Da ignorância. Na TV políticos nojentos sorriem. E prometem segurança. Trabalho. Saúde. E educação. Mentem sem pudor algum. São mortos em vida. E fedem muito mais do que aquele feto.
TERNURA (2) - Quem gosta de apenas assistir missa e cânticos e louvores em excesso, quem gosta apenas de “servir ao altar” (sem nunca ter sabido ou lido sobre a “opção pelos pobres” pós-Vaticano II)...acha que é mesmo um cristão? Quem sai da missa e já na calçada fica criticando as pessoas da Igreja a quem chama hipocritamente de “irmão”...ou criticando e fofoqueando dos padres e até fazendo análise de moda das roupas dos ministros...acha mesmo que é um cristão? Quem acha que vai ser julgado post-mortem apenas pelo dízimo que deu ou pelo número de missas que assistiu distraidamente....ou que acha que o sermão do padre é longo demais...acha que é cristão? Quem não tolera aceitar as diferenças...quem acha que o outro está errado apenas porque não pensa idêntico a si...quem vê perigos diante de qualquer coisa nova trazida como contribuição por um novo paroquiano...acha que é mesmo um cristão?
Por isso eu cada vez me descondiciono mais de coisas que não são prioritárias, como aparência, roupas, demonstrações fenotípicas. E dentro da Igreja apenas procuro fazer bem as coisas inerentes aos meus encargos...sem jamais buscar cargos. Esta é uma das vantagens da maturidade: diante das “últimas providências” sobre as quais tão bem nos fala a Escatologia, a gente fica despojado de ideias de domínio, posse, cargos, poder. E pode - finalmente - com notável exatidão ENTENDER a mensagem de Cristo.
Porque enquanto não trocamos a visão de mundo e a conduta, podemos até imaginar que somos cristãos. Mas é um ledo engano. Somos arremedo de cristãos. Estamos travestidos de cristãos. Ser cristão é seguir à risca o que disse São Paulo: amar aos inimigos. É ficar do lado dos “excluídos”, sobre os quais tão bem nos fala Mateus, no capítulo 25. Ficar sempre ao lado dos doentes, humildes, famintos, deficientes de qualquer ordem, aidéticos, dependentes químicos. Ficar ao lado de toda a escória humana, toda sucata humana, forjada por esta brutal sociedade de consumo deste capitalismo selvagem.
Quem não pensar e agir assim jamais será visceralmente um cristão verdadeiro!

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