sábado, 15 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
ECOLOGIA, UM RESGATE HISTÓRICO - James Pizarro (DIÁRIO, pág. 4 de 11.02.2020)
Em 1983, a Secretaria Especial do Meio Ambiente, conhecida pela sigla SEMA, era uma subsecretaria colocada dentro do Ministério do Interior. Seu ativo titular era o Dr. Paulo Nogueira Neto, que foi cedido para o governo federal pela USP - Universidade de São Paulo, onde era fundador e titular da cátedra de Ecologia.
Fiquei muito amigo do Dr. Paulo Nogueira Neto ao longo dos anos por várias razões. À convite dele, várias vezes fui a Brasília participar de simpósios e seminários sobre meio ambiente, algumas vezes até como palestrante sobre “Educação Ecológica pelo Rádio”, pois o Dr. Paulo era admirador do meu trabalho pioneiro na Rádio Universidade da UFSM com o programa “Antes que a Natureza Morra” que ficou quase 30 anos no ar. Ele inclusive, numa época de poucos recursos na emissora, fez uma doação ao meu programa de 400 fitas BASF de rolo de duas horas de gravação cada para que o programa pudesse manter sua memória.
Por determinação da SEMA, em maio de 1983 foi decretado que todas as prefeituras brasileiras deveriam comemorar, de 1 a 7 de junho, a “Semana Nacional do Meio Ambiente”. Em Santa Maria, fui convidado pelo prefeito Dr. José Haidar Farret para coordenar, planejar e fazer realizar este evento. Resolvi aceitar o desafio uma vez que certa parcela da comunidade e da imprensa acusava os ecologistas de apenas criticarem e jamais executarem algo de prático.
Passei cerca de 20 dias arregimentando forças. Pretendo lembrar de todas aqui. Direção, funcionários e alunos do SENAC deram notável apoio, confeccionando belíssimo cartaz com a programação, horários, local e nome dos palestrantes. Ainda fizeram as vezes de recepcionistas no Centro de Atividades Múltiplas, local do evento, 12 moças elegantemente trajadas, alunas do Curso de Recepcionistas do SENAC.
Os escoteiros da Tropa Henrique Dias distribuíram 10 mil folhetos convidando a população (folhetos pagos pela Prefeitura Municipal e distribuídos nas ruas, avenidas e nas escolas, de sala em sala de aula).
Meus alunos da disciplina de Ecologia dos cursos de Agronomia, Ciências Biológicas e Engenharia Florestal ministraram dezenas de palestras nas escolas municipais e, junto com os escoteiros da Tropa Henrique Dias, plantaram dezenas de mudas de árvores ao longo do Parque Itaimbé, muitas delas transformadas hoje (37 anos depois) em frondosas árvores.
Durante as sete noites de palestras, cerca de 2000 pessoas lotaram completamente as dependências do Centro de Atividades Múltiplas, o popular “Bom-Bril”. Houve necessidade de que a Rádio Universidade instalasse caixas de som do lado externo do prédio para que cerca de 500 pessoas pudessem ouvir as palestrantes. O impressionante era o silêncio e a disciplina de todos.
Os palestrantes foram: James Pizarro ( “A Má Qualidade de Vida no Planeta”), José Salles Mariano da Rocha (“Desertos e Áreas de Desertificação no Rio Grande do Sul”), Gustavo Quesada (“Comunidades Agro-energéticas”), Horst Oscar Lippold (“Aspectos da Fauna Silvestre do Rio Grande do Sul), Dr. Arnaldo Walty ( “Câncer e Meio Ambiente”), Amaury Silva (“A Verdade sobre as Drogas”) e Mesa Redonda com os professores João Radünz Neto, Brandão, Ilka Bossemeyer e Paulo Ary Moreira (“Piscicultura e Aspectos Ecológicos da Água”).
Foi feito, como ato final, um plantio de árvores no centro da cidade, com a presença do prefeito municipal, José Haidar Farret, e grande número de autoridades, escolares, universitários e populares. Registro para a memória da cidade esta iniciativa, de intensa repercussão cultural, técnica, científica e popular. E numa época de incompreensões e injustiças resgato o papel histórico de apoio que a causa ecologista santa-mariense recebeu do Dr. José Haidar Farret.
Eventos dessa magnitude e dessa duração com tal frequência nunca mais se repetiram.
sábado, 1 de fevereiro de 2020
CHICOTIM, UM CAIXEIRO-VIAJANTE EXEMPLAR - James Pizarro (DIÁRIO, Caderno MIX, edição de 1.2.2020)
Você sabia que até 1941 existiam apenas
48 quilômetros de estradas pavimentadas no Rio Grande do Sul ? E que, até 1930,
só existiam 30 pontes em todo nosso Estado ?
Uma porção de curiosidades como estas,
entremeadas de gostosíssimas histórias, além de dados estatísticos e
considerações sobre a evolução dos costumes, são encontrados no livro “50 ANOS
DE VIAGEM (trabalhos, peripécias e alegrias)”, de autoria de Francisco da Rocha
Timm, mais conhecido pelo apelido de “Chicotim”.
O autor, nascido e 24 de julho de 1893,
em São Pedro do Sul, é filho de Jorge H. Timm e Amélia Angélica Timm e casado
com D. Alda Borges. Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro – eis
os desejos de um homem – como diz o adágio popular. Pois o Chicotim
plantou muitas árvores. Tem três filhos : Jorge, cirurgião-dentista; João
Renato, advogado e Juarez, bioquímico.
E aos 79 anos de idade, Chicotim escreveu
um livro, um alentado volume de 300 páginas : “50 ANOS DE VIAGENS”. No qual
retrata toda uma época através das viagens feitas pelo próprio autor.
Mário Napoleão, ao prefaciar o livro ,
escreveu :
“Apresentar Chicotim – meio século de
viagens como caixeiro-viajante cruzando coxilhas e serras do pago gaúcho,
deixando por onde passava marcada sua presença insinuante por gratas
recordações que o faziam benquisto dos colegas, amigo conceituado dos seus
fregueses, pelo correção dos seus atos e critério nas transações de seu
comércio – julgo desnecessário escrever, pois ele é vastamente conhecido e
considerado, um legítimo representante da classe”.
O livro é ilustrado por algumas
fotografias antológicas. Pois não mostra o avião, o trem, o automóvel último
tipo. Foi duro ser viajante naquela época como Chicotim foi. Viajando de
carreta. Ou de Ford de bigode. Comendo arroz de carreteiro na beira da estrada.
E inclusive correndo o risco de ser emboscado e assaltado em qualquer curva
mais escura da “estrada”.
Infelizmente, nunca cheguei a conhecer
pessoalmente o Chicotim, mas apenas seus parentes. Mas lhes afirmo
que este livro – publicado em 1972 pela editora A Nação – talvez tenha sido uma
iniciativa inédita na literatura cá dos pagos pois não me recordo que
(pelo menos até 1972) algum caixeiro-viajante tenha escrito um livro de
memórias.
Como encontrei este livro em 1972 ? Nas
livrarias ? Não. Ele me foi presenteado pelo Dr. Luiz Osvaldo Coelho, médico e
professor aposentado da UFSM, onde foi diretor da Faculdade de Medicina, que é
tio dos meus filhos e foi pediatra dos mesmos. O Luiz Oswaldo, que é
parente do Chicotim, disse que eu gostaria do livro pois sabia que gostava de
livro de memórias. Logo depois de devorar o livro, escrevi uma crônica sobre o
mesmo que foi publicada no jornal A RAZÃO na edição do dia 22.12.1972. Chicotim
enviou amável carta agradecendo a minha publicação.
O livro pode ser encontrado nas
bibliotecas. E segundo pesquisei na internet, existem exemplares à venda nos
sebos do país, como na Estante Virtual e SeboBis, para os interessados.
Sempre nutri verdadeira admiração pela
classe dos caixeiros-viajantes. Pelo singular e difícil trabalho que exerceram.
Roubavam precioso tempo das suas famílias para empreender suas longas viagens.
Algumas delas perigosas. A própria SUCV - Sociedade União dos Caixeiros
Viajantes – com seu lindo prédio à praça Saldanha Marinho lembrada importância
que a classe teve em nosso RS.
Mas o tempo, em sua marcha inexorável,
vai avançando. Mas livros como o de Chicotim nos deixam essas doces lembranças.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
UFSM : UMA NOITE INESQUECÍVEL - JAMES PIZARRO (DIÁRIO de S. Maria, pág.4, 28.01.2020)
Na noite da última sexta-feira, dia 24 de
janeiro, depois de muitos anos voltei ao campus da UFSM. Desta vez por um
motivo muito especial ao meu coração. Era a colação de grau da minha neta
Amanda, a primeira de seis netos a concluir seus curso superior. Jovem ainda,
estava se formando em Engenharia de Produção. Outros virão.
A cerimônia, realizada no belo Centro de
Eventos da UFSM, foi impecável. Poltronas confortáveis para um público ao
redor de mil pessoas que lotava totalmente o local. Som, acústica e
audiovisuais perfeitos. Sistema de climatização ambiental funcionando
rigorosamente bem. Horário de início da cerimônia cumprido à risca. Parentes
felizes. Convidados emocionados.
Enquanto aguardava o início da cerimônia,
fiquei a lembrar dos anos 60, quando fiz vestibular na UFSM e iniciei meu
curso de Agronomia. Naquela época as turmas faziam as chamadas “associações de
turma” para juntar fundos, desde o primeiro ano, para pagar as despesas das
solenidades de formatura. Todos os alunos pagavam uma mensalidade rigorosamente
recolhida. Lembro de episódios grosseiros que ocorriam, pois alunos que não
pagavam as mensalidades eram discriminados e não participavam das solenidades
de final de curso. Época em que as diferenças sociais eram mais acentuadas
ainda, por incrível que isso possa parecer hoje.
A cerimônia reuniu cerca de cem alunos de
11 cursos de Engenharia do Centro de Tecnologia da UFSM e, pelo que entendi,
foi a primeira formatura integrada da instituição. E que esse modelo de
formatura integrada deverá ser estendido para todos os demais “Centros” da UFSM.
A importância é que esta cerimônia única, democrática, muito bem organizada e
bancada pela UFSM, não custou um só tostão aos formandos, como ocorria
antigamente. É uma medida que merece ser elogiada, principalmente levando-se em
conta que de todos os alunos regularmente matriculados na UFSM atualmente,
cerca de 5000 alunos são de famílias cuja renda mensal é inferior a 1,5 salário
mínimo, tanto que necessitam de auxílios especiais da instituição para
nela se manter e concluir seus cursos.
A cerimônia de formatura foi transmitida ao vivo pela TV
Universidade, alegrando àqueles que estão longe e são ligados aos formandos,
como o caso daminha filha Cristina, que mora em Itajubá, sul de MG, madrinha da
Amanda e que assistiu tudo pela internet.
O reitor encerrou a cerimônia e relembrou certos fatos para os
parentes e amigos dos formandos. A UFSM foi a primeira universidade federal do
Brasil fora das capitais.
A UFSM é a 10a instituição de ensino superior DO MUNDO com maior produção científica realizada por mulheres, segundo o levantamento feito em 2019 pelo Centro de Estudos da Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, na Holanda, fato divulgado na semana passada. No Brasil, a UFSM fica em terceiro lugar. A UFSM está entre as 10 universidades mundiais com maior percentual de pesquisadoras e com 26 cientistas mulheres no rol de maior produtividade do CNPq.
A UFSM é a 10a instituição de ensino superior DO MUNDO com maior produção científica realizada por mulheres, segundo o levantamento feito em 2019 pelo Centro de Estudos da Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, na Holanda, fato divulgado na semana passada. No Brasil, a UFSM fica em terceiro lugar. A UFSM está entre as 10 universidades mundiais com maior percentual de pesquisadoras e com 26 cientistas mulheres no rol de maior produtividade do CNPq.
Mas o número divulgado pelo reitor – do qual eu não tinha
conhecimento – e que mais me chamou atenção foi o número de profissionais que a
UFSM já formou nesses 60 anos de existência : foram 180.000 profissionais
de todas as áreas do conhecimento humano ! Fiquei feliz ao saber que participei
como professor por 40 anos na construção dessa obra. Que Amanda se formou
agora. Que mais dois anos estarei lá vendo meu neto Tarso se formar em
Medicina. E se Deus for generoso – e por milagre – verei a formatura dos outros
4.
Meus amigos : algo em Santa Maria pode ser comparado à
grandiosidade da UFSM ? Temos de defendê-la sempre !
sábado, 18 de janeiro de 2020
SAUDOSAS FIGURAS QUE ANDAM DE SKATE NO MEU MIOCÁRDIO - JAMES PIZARRO (DIÁRIO, Caderno MIX, 18.01.2019)
Em qualquer cidade do mundo sempre existem pessoas que de um
modo especial fazem a história do local. São prefeitos, vereadores, delegados,
professores, cantores, poetas, músicos, esportistas, advogados, comerciantes.
Não raro, pela importância da atividade que exerceram em vida, transformam-se
depois em nomes de praças, ruas, avenidas, logradouros públicos para
emoção dos parentes e amigos mais chegados.
Mas existe outra gama de habitantes que nunca desempenharam funções ditas oficiais ou legais. Ou mesmo desempenhando-as, foram carismáticos, possuíram atributos comportamentais diferentes dos padrões vigentes, o que os fez populares. Muitas dessas figuras permanecem eternamente na memória e no anedotário popular da cidade por seus feitos, atos, modos de expressão. Alguns são lembrados por sua personalidade bem humorada. Seus gestos cômicos. Suas respostas inusitadas. Outros, nem tanto...
Mesmo passadas décadas após sua morte estes tipos populares permanecem vivos na memória dos mais idosos da cidade. Fazem a história verdadeira dessa comunidade, com toda sua idiossincrasia. Não essa história positivista, tão ao gosto dos legalistas e conservadores moralistas, tipo “Nasceu em tanto, morreu em tanto, suas principais obras foram...” Mas uma história feita por quem anda pela ruas e bairros, frequenta seus bares e restaurantes, por quem conhece a cidade. Uma história cheia de riqueza humana. Com momentos para a dor. Para o patético. As mazelas. A depressão. A fome. E até para o humor. Enfim, uma história advinda de uma fauna humana que não foi cretina a ponto de esconder seus defeitos. Nem teve tempo de aprender a se camuflar. Na realidade, uns puros. Porque cheios de defeitos que todo mundo vê. Cercados de gente “importante” com muito mais defeitos, às vezes, mas que ninguém vê.

Sempre tive um oceânico carinho por estes tipos especiais. E fui amigo da maioria deles. De indagar de suas histórias. Dos tipos populares que existiram antes do meu nascimento também me ocupei, pesquisei sobre eles com os mais velhos da cidade, como os casos do Fanático (década 30), Fanha (década de 30) e Pipoqueiro (década de 40). Tenho em meus arquivos centenas de anotações que ouvi de relatos orais do meu saudoso amigo e professor de Botânica Sistemática, Dr. Romeu Beltrão. Relatos do Edmundo Cardoso (que me empregou como revisor de A RAZÃO, quando adolescente e ele, diretor do jornal). Do Eduardo Trevisan (quando muito chimarrão lhe servi na casa da rua do Acampamento quando lhe visitava com o Prado Veppo). Do vereador Lauro Machado (pai do compositor Antônio Carlos Machado). Do meu avô Fredolino da Luz Silveira. Do Modesto Dias da Rosa, recentemente falecido.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
RÉQUIEM PARA ELOÁ - JAMES PIZARRO (Diário de S. maria, edição de 14.01.2020, pág.4)
CANTO I
Os lábios de Eloá.
Os lábios de Eloá.
Grossos.
Untados
de vermelho nas fotos de seu facebook.
Os cabelos pretos de Eloá.
Sedosos.
Os cabelos pretos de Eloá.
Sedosos.
Longos.
Esvoaçantes.
Lindos.
O sorriso de Eloá.
Dentes lindos.
O sorriso de Eloá.
Dentes lindos.
Alvos.
Instigantes.
Adolescentes.
O corpo precoce de Eloá.
Hormônios em convulsão. Vida acelerada.
O jeito de Eloá.
Terno.
O corpo precoce de Eloá.
Hormônios em convulsão. Vida acelerada.
O jeito de Eloá.
Terno.
Educado.
Apreciado
pelos colegas.
O comportamento de Eloá.
Sereno.
O comportamento de Eloá.
Sereno.
Alegre.
Humorado.
Simpático.
Tudo isso foi de roldão porque a patologia, fantasiada de amor, roubou sua vida.
Cérebro jovem cremado pelo calor na bala incandescente. Do tiro assassino.
Neurônios esguichando para fora da cabeça.
Vida brutalmente podada.
CANTO II
Pulmões enchendo-se de oxigênio no peito alheio.
Córneas.
Fígado.
Pâncreas.
Coração.
Tudo generosamente doado. Recauchutando outras vidas.
De Eloá sobrou o cadáver oco. Preenchido de gazes e algodão.
O jovem corpo estendido no necrotério.
Os pés enrijecidos. Que deram tantos passos.
Mas que - por fatalidade - caminharam, aos 13 anos, em direção ao homem errado.
Pobre Eloá.
Linda Eloá.
Infeliz Eloá.
Quantas Eloás estão indo pelo mesmo caminho neste Brasil ?
Quantas ?!...
Tudo isso foi de roldão porque a patologia, fantasiada de amor, roubou sua vida.
Cérebro jovem cremado pelo calor na bala incandescente. Do tiro assassino.
Neurônios esguichando para fora da cabeça.
Vida brutalmente podada.
CANTO II
Pulmões enchendo-se de oxigênio no peito alheio.
Córneas.
Fígado.
Pâncreas.
Coração.
Tudo generosamente doado. Recauchutando outras vidas.
De Eloá sobrou o cadáver oco. Preenchido de gazes e algodão.
O jovem corpo estendido no necrotério.
Os pés enrijecidos. Que deram tantos passos.
Mas que - por fatalidade - caminharam, aos 13 anos, em direção ao homem errado.
Pobre Eloá.
Linda Eloá.
Infeliz Eloá.
Quantas Eloás estão indo pelo mesmo caminho neste Brasil ?
Quantas ?!...
domingo, 5 de janeiro de 2020
NO TOPO DO MORRO, UM CRIME QUE CHOCOU SANTA MARIA - James Pizarro (DIÁRIO, Caderno MIX, edição de 4.1.2020)
Esta é uma história triste que
jamais saiu da minha cabeça por mais que eu me esforce para que isso corra. Mas
basta eu olhar os morros da cidade que ela retorna num passe de mágica.
Lá pelos anos 50, quem descia
a avenida Rio Branco em direção à gare da Viação Férrea, em Santa Maria, RS,
olhava para o alto e contemplava enorme montanha até hoje existente.
No final da rua 7 de Setembro,
que ia terminar justamente nessa montanha, foi construído o Clube Esportivo,
tradicionalmente conhecido pelo nome carinhoso de "Clube do Sopé do
Morro".
Quem olhasse para o topo do
morro, atrás do Clube Esportivo, ia ver um pequeno chalé de madeira pintado de
branco, cognominado pela população de "Casinha Branca". Nessa
casinha, isolada lá em cima, vivia um casal de idosos. Eles desciam uma vez ou
duas por mês, através de uma íngreme trilha no meio do mato, para fazer compras
de gêneros alimentícios e remédios.
Um ou outro visitante subia
lá. Naquela época – tinha eu meus 14 ou 15 anos – era escoteiro da então
chamada Tropa de Escoteiros Henrique Dias, cuja sede ficava nas
dependências do então Círculo Operário, situado na esquina das ruas Silva
Jardim e André Marques. Eu exercia o cargo de secretário da Patrulha da
Pantera, cujo chefe era o saudoso amigo Wellington Landerdhal, jornalista da
Assembléia Legislativa do RS falecido há poucos anos. E era bastante comum a
subida da nossa tropa até à “Casinha Branca” para exercício físico e
acampamento de alguns dias nos feriadões ou fins-de-semana.
Certa vez, o dono do armazém
onde o casal de idosos fazia suas compras, estranhou a ausência dos
mesmos. E resolveu subir para ver o que tinha havido. Em lá
chegando, encontrou o corpo já em estado de decomposição dos dois pobres
velhinhos.
Diligências feitas pela
polícia logo acharam os culpados, dois marginais que trucidaram os idosos com
marteladas na cabeça, crime que chocou toda a cidade. E mataram o casal para
roubar alguns pertences de pouco valor e, segundo um deles confessou,
imaginavam que os idosos tivessem dinheiro escondido.
Já naquela época, há cerca de
60 anos, pessoas se retiravam para viver em paz no meio da Natureza. Na santa
paz das árvores, flores e pássaros.
Mas mesmo lá, satânicas
criaturas destruíram o sonho dos velhinhos a marteladas.
Mesmo depois de tanto tempo me
invade uma melancolia imensa ao pensar na agonia dos dois idosos, sentindo a
vida se esvair. Sob a brutalidade do ataque insano de duas mentes doentias.
Olhando lá do alto, com seus olhos esmaecidos pela catarata, os milhares de
pontinhos de luzes piscando na cidade. Sem que nenhum socorros lhes pudessem
dar.
Luzes faiscantes como
vagalumes. Que se acendiam e se apagavam.
Como a vida que estava a se
escoar de seus corpos minguados.
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