quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

COMO POR MILAGRE, MAIS UM ANO...

Como por milagre eu vi procissões.
E vultos através da vidraça.
E maçãs maduras caindo do pé.
E um sol que se levanta.
Como por milagre eu senti cheiros antigos.
E revi faces amigas.
E lembrei de rostos mortos.
E aprendi a dizer não.
E aprendi a dizer sim.
Como por milagre eu salvei náufragos.
E eu mesmo - como por milagre - cheguei à praia.
E escutei discussões sem delas participar.
E ouvi queixas.
E fiz queixas.
E se queixaram de mim.
Como por milagre fiz um poema.
E ergui paredes.
E fixei quadros de crianças.
E sonhei com mulheres adormecidas.
Como por milagre - metamorfose inexplicável - fui segunda-feira.
E me transformei em sábado também.
E consegui ser domingo.
Como por milagre busquei - alcancei - o Norte.
E busquei o leste.
E fugi para o Oeste.
E como por milagre não pressenti o sul.
Como por milagre passei por tardes loiras.
E conheci o amor.
E acompanhei cardumes.
E me perdi com eles.
E achei um cavalo-marinho.
E recolhi conchas.
E me transformei em faca.
E anzol.
E rede.
Como por milagre uma sereia falou comigo.
E gaivotas drogadas voavam por sobre meus cabelos.
E estive em terras longínquas.
E ouvi morteiros ao entardecer.
E o napalm queimou minha pele de pecador.
E toquei tambores de guerra.
E como por milagre fumei o cachimbo da paz.
Como por milagre andei por estepes desoladas.
E descampados verdes.
E desci ao fundo das minas.
E naveguei por mansos canais azuis.
Como por milagre meus netos aprenderam a ler.
E não morri este ano como por milagre.
Assim como - por milagre - um novo ano nascerá.
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AUTOR : James Pizarro

sábado, 26 de dezembro de 2009

O HOMEM-TRONCO

Nunca soube seu nome. Sabia apenas que era pobre. Mendigo. Aleijado.
Ficava na esquina da Floriano Peixoto com a rua 24 horas. Coração de Santa Maria,RS.
Arrastava-se. Pernas viradas para trás. Braços partidos. Cabeça pequena. Chapéu velho.
Peito arqueado para a frente. Visível deformação nas costelas. Lembrava um lagarto.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Várias vezes reparei em suas mãos.
Mãos grossas. Deformadas. Inchadas. Calejadas. Mãos de atrito com o asfalto quente.
Pois era com a palma das mãos que se apoiava no asfalto. Dava um impulso.
E numa coreografia macabra gingava o corpo para a frente.
Não era corpo. Era meio corpo. Era um homem-tronco.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Mendigo.
Costumava observá-lo todo dia. Do terraço da Rádio Universidade. Prédio da Antiga Reitoria.
Ele era pontual. Quando o o relógio marcava 16,30h, ele partia. Atravessava a rua.
Mas ficava longo tempo com o meio corpo encostado na calçada.
E agarrava-se na lixeira presa ao poste. Para manter o equilíbrio.
Nunca soube seu nome.Sabia que era mendigo. Aleijado.
E que demorava  para atravessar a rua. Dependia  do fluxo de automóveis.
Ele era muito pequeno. Roupa escura. Não seria notado por motorista apressado.
Corria o risco diariamente de ser atropelado.
Ele que já tinha o corpo atropelado pela fatalidade embriológica.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Mendigo.
Depois de atravessar a rua ficava quieto.
Encostado na parede do prédio da ex-Faculdade de Direito da UFSM. Na parada do ônibus.
Nunca vi ninguém ajudá-lo a atravessar a rua.
E também sem ajuda ele fazia a penosa subida no ônibus.Erguia os dois tocos de braços.
Agarrava-se como podia. E com formidável força erguia o meio corpo.
E se arrastava pelo corredor do ônibus.
Nunca soube seu nome. Sabia que era pobre. Aleijado.
Sempre ficava olhando o ônibus descer a Floriano Peixoto.
Levando no seu ventre de lata aquela criatura. Meia criatura.
Sacolejando no corredor aquele meio corpo. Carregando a féria do dia. Que servia de sustento.
Naquela tarde eu observava tudo. Escorado no beiral do terraço da Rádio Universidade.
O chuvisqueiro  havia parado. Um sol ainda tímido fazia buraco entre as nuvens.
As pombas da Antiga Reitoria iniciavam a revoada.
Pombas brancas. Normais. Inteiras. Asas abertas. Serenas.
Elas planavam. E íam pousar do outro lado da rua. No prédio do Colégio Santa Maria.
Lá embaixo as pessoas passavam. Apressadas. Com pastas pretas.
Um senhora loira carregava um ramo de flores. O bilheteiro estendia seus bilhetes.
As pessoas passavam. Cumpriam seu destino de passar.
No outro dia o homem-tronco estaria de volta.
E na semana seguinte. E no outro mês. E no próximo ano.
E ficaria no mês lugar. Olhando as pernas normais. Os passantes apressados.
Um dia ele não voltou nunca mais.
E ninguém  notou a sua falta.
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AUTOR : James Pizarro

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

SALOMON, AQUELE DO DENTE DE OURO

Corria o mês de setembro de 1978. Lembro bem. Há 38 anos, brilhava na zaga do Inter de Porto Alegre o chileno Figueroa, um dos maiores ídolos colorados de todos os tempos.
Figueroa sabia falar bonito. Juntava direitinho as palavras. Tinha bela voz. Cabelos ondulados. Cotovelos de ouro. Fazia uma bela imagem na televisão.
Figueroa conquistou a alma colorada. Jogava muito bem. Declamava poemas de Pablo Neruda. Era um emotivo. Que mais poderia desejar a torcida colorada ? O capitão do time era inteligente. Craque. Bonito.Figueroa fez nome. Foi legenda. E partiu...
Para seu lugar - vindo da Argentina - a direção do Inter contrata Salomon.
Um tipo enorme. Desengonçado. Braços pendentes e bamboleantes. Cara de cavalo.
Salomon com dente de ouro. Sim, um resplandecente dente de ouro bem na frente da arcada. Um belo dente de ouro. Um lindo trabalho odontológico.
Mas a torcida do Inter não gosta de homem com dente de ouro na boca. Ao invés do carismático sorriso do másculo Figueroa, a direção presenteia a torcida com Salomon do dente de ouro.
E a torcida não perdoa. A torcida não ama Salomon.
A própria imprensa - que ajudara no endeusamento de Figueroa - tem má vontade com Salomon. E os fotógrafos exibem o pé de Salomon. Um pé número 50.
Salomon não acerta. Não joga. Pelo menos não joga aquilo que a torcida esperava de alguém que tinha o topete de substituir Figueroa.Lembro bem da data. Corria o mês de setembro de 1978.
Salomon chegou. Viu. E não venceu.
Era uma contratação bombástica do Internacional de Porto Alegre. Salomon foi contratado para tentar apagar a imagem do chileno Figueroa. Mas Salomon não convenceu.
E assim Salomon ficou. Jogando mal. Até que o Penharol apareceu para comprá-lo. Chegou a ser inscrito pelo time estrangeiro para disputar o campeonato do país vizinho. Afinal, era uma solução boa para todos. O Inter se livrava de Salomon. E o Salomon se livrava do Inter.
Aí veio o último jogo de Salomon pelo Inter. Um Grenal. Disputado numa quinta-feira, lembro bem. Uma partida que não deveria ter sido jogada. Uma partida mal gerada. Um aborto satânico. Um campeonato teratológico. Uma partida que não mereceu nem a presença dos titulares. E nem da torcida.
Diante de poucos torcedores e jogando com reservas, o Inter venceu o Grenal.
Mas Salomon - que se despedia da torcida que nunca chegou a amá-lo - foi violentamente agredido por um jogador do Grêmio. E Salomon fraturou a tíbia e a fíbula (naquela época ainda chamada de perôneo).
O Salomon-do-Dente-de-Ouro tinha virado agora Salomon-da-Perna-Quebrada.
Todos os jornais falaram de Salomon. Lembro bem. Era setembro de 1978.
A mídia disse que Salomon ficaria afastado, no mínimo, seis meses. Todos falaram em amparar Salomon. Um jogador de 28 anos. Mas ninguém amparou Salomon.
Ele ficou solitário.Com sua perna torta. Sem amigos.
Tudo virou neblina na v ida de Salomon. Opacidade. Escuridão.
Apenas seguiu brilhando seu solitário dente de ouro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

SADISMO

Sempre criei cachorros. Tive dezenas deles durante a vida.
Jamais tive pássaros em gaiola. Como muitos dos amigos e vizinhos meus.
Nunca suportei a idéia de manter um bicho de asas preso. Asas foram feitas para voar.
O canário é um dos pássaros mais usados como ave ornamental. É famoso pelos dotes de cantor.
Mas a pérfida mente humana inventou uma "novidade". Surgiu da maldade do cérebro humano a "rinha de canários".
Alguns "especialistas", chamados de tratadores, administram antes das brigas um comprimido de Melhoral dissolvido em água. Também dão sementes de maconha e produtos afrodisíacos, como o jiló e uma vitamina  chamada de "tic-tac".
As rinhas chegam a durar 30 minutos. O perdedor  morre algumas horas depois vitimado por hemorragias internas, olhos furados, corpo todo dilacerado a bicadas.
Milhares de reais são apostados. O dono do canário perdedor algumas vezes esmigalha o canário na palma da mão.
Os vizinhos dessas casas clandestinas contam que é comum ouvirem em coro os berros : "Mata ! Mata este desgraçado!"
A luta termina quando o canário mais ferido, ensaguentado, desatinado, começa a fugir das bicadas do outro.
Aí começa o pagamento das apostas. E entre comentários excitados, passa o copo de cachaça.
A essa coisa sádica chamam de..."esporte".
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AUTOR : James Pizarro

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

TENISTAS/AMIGOS DO ATC, SANTA MARIA,RS

Nos anos 70 aprendi a jogar tênis nas quadras do ATC - Avenida Tênis Clube, de Santa Maria. E durante os anos 80/90, praticamente todos os dias, passava as minhas horas de folga nas dependências do clube, ora fazendo sauna, ora jogando tênis,ora fazendo churrasco, ora jogando bocha. E os familiares juntos.
Na quadra número 1 jogavam somente os tenistas veteranos. Na quadra 2, os "Seniors A". Na quadra 3, os "Seniors B". Nas quadras 4, 5 e 6, os juvenis, as mulheres e os demais tenistas que não disputavam o ranking. Grande número disputava por puro lazer, entretenimento, e pouco estavam se importando para o resultado da partida. Já outros, principalmente entre os veteranos, se concentravam, dormiam cedo, e entravam na quadra como se fossem disputar uma final em Winblendon (lembro de dois exemplos : o falecido Jarbas Cunha e o médico Heitor Silva, coronel do Exército, apelidado de "Fofo", pois assim o chamava sua jovem esposa).
Muitos deles já são falecidos :
1)- Anterinho Scherer (médico, ex-prefeito de Cacequi, famoso por suas folclóricas histórias);
2)- Máximo Knackfuss (professor do Curso de Engenharia da UFSM,que se emburrava por qualquer motivo);
3)- Ênio Ferraz (representante de laboratório médico, apelidado de "Nonô", que teve a capacidade aeróbica tirada pelo tabagismo);
4)- Alberto Leitão (de pavio curto, principalmente nos jogos de duplas, pois já no primeiro erro do seu companheiro começava a reclamar);
5)- Arno Böhrer (era o alvo predileto das brincadeiras do Jarbas Cunha e, ignorando sua idade, jogava várias horas por dia).
Daquela época em que eu freqüentava o clube, ainda lembro de muitos :
1)- Abdo Achutti Mothecy,farmacêutico,ex-jogador de basquete, dono de uma loja de aviamentos militares - e também de cortinas - na praça Hector Menna Barreto (ex- praça da República), mais conhecida por "pracinha dos Bombeiros". De origem libanesa, Abdo é casado com Tereza dos Santos Mothecy, mais conhecida por "Terezinha" ou "Tereca". Lembro que o térreo da loja do amigo Abdo era quase uma extensão do ATC, pois ali se reuniam para tomar cafezinho os veteranos do clube, às vezes atrapalhando as atividades comerciais do dono. O Abdo sempre foi generosamente um pacificador, um aglutinador. Adorava pescarias e histórias antigas da cidade;
2)- Adaí Bonilha, dentista, esposo da também tenista, Dona Olga, que por muitos anos também foi professora de tênis das crianças iniciantes;
3)- Álvaro Pfeifer,corretor de imóveis, professor de Matemática,fumante inveterado,dotado de notável espírito de humor;
4)- Arno Werlang, juiz, diretor do forum de Santa Maria, hoje desembargador em Porto Alegre, pai do Gerson Werlang (integrante da banda "Poços e Nuvens" e professor universitário de música);
5)- Arlindo Mayer (engenheiro, professor do Centro de Tecnologia da UFSM);
6)- Armando Vallandro (grande jogador de basquete do passado, apelidado de "Picolé", ex-reitor da UFSM);
7)- Alnei Prochnow (também professor da UFSM, sempre alegre e disposto a uma brincadeira);
8)- Claudio Morais (coronel do Exército);
9)- Dalmo Kerling (engenheiro, dono da Construtora Dikrel, hoje morando em SC);
10)- Dalton Kortz (ex-funcionário da Livraria do Globo,vendedor autônomo, hoje pastor, talvez o mais brincalhão de todos);
11)- Darkson Cunha (professor do Centro de Educação Física da UFSM, filho do falecido tenista Jarbas Cunha);
12)- Evaldo Morais (coronel do Exército, morador da faixa velha de Camobi, gostava de tocar violão e cantar músicas de seresta);
13)- Gerson Morais (funcionário da agência central do Banco do Brasi, à avenida Rio Branco);
14)- Heitor Silva (campeão de tênis do Exército Nacional, cheio de estilo até no caminhar, tinha consciência exacerbada de que era um grande atleta);
15)- Jorge Merten (médico traumatologista);
16)- José Carlos Pithan (dentista e professor da UFSM);
17)- Luiz Carlos Lang (dono de um reputado escritório de contabilidade, apreciador de vinhos chilenos);
18)- Luiz Carlos Pistóia Oliveira (engenheiro e professor da UFSM, casado com a professora de Química, Ana Jamile Mothecy);
19)- Luiz Carlos Morales (advogado, casado com Jane Morales);
20)- Luciano Rocha (cearense, professor da UFSM, dentista especializado em Odontopediatria, casado com Neuza Mothecy, também dentista);
21)- Manoel Argentino Sissy (oriundo de São Borja, de apelido "Fanha", notável contador de casos);
22)- Manoel Vianna (dentista, professor da UFSM, também de pavio curto)
23)- Paulo Roberto Oliveira (professor de Química da UFSM, ex-jogador de basquete);
24)- Simão Sampedro (coronel do Exército, irmão do também tenista, Renan Sampedro, professor de Educação Física da UFSM);
25)- Roberto Bisogno (dentista, radialista, professor da UFSM);
26)- Roberto Leitão (engenheiro, professor da UFSM);
27)- Lang (engenheiro, professor da UFSM e dono das piscinas "Golfinhos");
28)- Bins (coronel da Aeronáutica, comandante da Base Aérea de Santa Maria);
29)- James Souza Pizarro, meu filho, que foi um talentoso tenista da categoria infanto-juvenil e disputou alguns torneios no RS defendendo o nome do ATC, na companhia de Álvaro Pfeifer,Máximo Knakfuss, Roberto Bisogno e Arnaldo Valty (médico mineiro, oncologista, que trabalhava no Serviço de Cobaltoterapia da UFSM).
Foram anos e anos felizes, com jogos diários,seguidos quase sempre de churrascos. Infelizmente, com o passar dos anos e no "curso natural dos acontecimentos" (como diria meu amigo e colega Joel Abílio Pinto dos Santos, já falecido), a morte vai levando os companheiros. Outros se mudam de cidade ou de clube. Outros simplesmente deixam de jogar. Outros, premidos pelas exigências profissionais, se distanciam. É a vida...
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AUTOR : James Pizarro

UM POVO FELIZ

Catadora 1 :
- Graças a Deus, ganho meu vale-gás !
Catadora 2 :
- Verdade, Comadre ! E a minha filha ganha camisinha-de-vênus no Carnaval !
Catadora 3 :
- Ah, mas eu tenho mais sorte que vocês...cada um dos meus filhos rende 15 reais por mês.
O diálogo se desenvolvia no lixão do Morro da Caturrita entre três brasileiras felizes.
A cena era completada por alegres urubus. Lépidos e fagueiros.
Que catavam comida. Entre pedaços de bolo.
Carcaças podres de frangos.
E preservativos usados.
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AUTOR : James Pizarro