Esta crônica foi publicada no jornal
"A RAZÃO", de Santa Maria, RS, à página
4 da edição do dia 9/setembro/2010.
**********************************************
Santa Maria teve três grandes cinemas. Cine-teatro Imperial. Cine Independência. Cinema Glória.
O Cine Independência virou um shopping popular, abrigando os camelôs que estavam pelas ruas da cidade. Ao invés do Gordo e o Magro, Hopalong Cassidy, Jesse James, Batman e Robim...mercadorias piratas do Paraguai.
O Cinema Glória virou uma filial da Universal de Deus e depois uma boate. Ao invés dos grandes musicais com Doris Day, Gene Kelly, Fred Astaire, Pat Boone e Elvis Presley...sermões, dízimos e milagres de veracidade duvidosa.
O Cine-teatro Imperial,na segunda quadra da rua Dr. Bozano, transformou-se numa filial da tradicional Casa Eny. Ao invés das grandes peças que o Edmundo Cardoso apresentava com sua Escola de Teatro Leopoldo Froes...tênis, sandálias, sapatos e hawaianas.
Foram mudanças boas para uma cidade que se jacta do cognome de "cidade cultura" ? Claro, hoje existem as salas de cinema dos shoppings da cidade, com cerca de 80 lugares cada uma. Nada semelhante aos 1200 lugares que existiam no Cine Independência, por exemplo.
Quem da faixa etária dos 60 ou 70 anos não se lembra do tradicional "matinê da 1,15" como era chamada a sessão dominical das 13,15 horas do Cine-teatro Imperial ? Passava sempre um "filme de mocinho" (nome dado aos filmes de faroeste americano), seguido de um "seriado" (cada domingo passava um capítulo de uma longa história de aventuras, que chegava a durar dois meses). Na frente do cinema, antes das sessões, ocorria o tradicional troca-troca de "gibis" (revistas em quadrinhos dos heróis da época). Ou então, troca de figurinhas do famoso "Álbum das Balas Rute".
O "Seu" Aurélio era o lanterninha do Cine-teatro Imperial, famoso pelo duro que dava na gurizada durante as sessões. Em sua homenagem existe hoje o "Cine-clube Lanterninha Aurélio". Certa vez fiz uma aposta com os meus colegas da rua Silva Jardim. Apostei que entraria no matinê com uma galinha e que o Aurélio não veria. Não só entrei com a galinha dentro do casacão (chamado de "sobretudo" na época) como fiz uma barbaridade. Fui sentar na primeira fila de cadeiras do mezanino (a parte superior da sala de exibição). E na hora mais romântica do filme, quando o mocinho pedia a mão da moça em casamento, eu atirei a galinha lá de cima. A coitada voou como podia e foi se estatelar na cabeça da piazada lá embaixo. O Aurélio interrompeu a sessão, no meio da algazarra da gurizada. Acenderam-se as luzes. E furioso ele foi ao mezanino. E queria saber quem tinha jogado o galináceo. Ninguém me acusou. E eu fiquei gelado de medo.
Mas ganhei a aposta : meia dúzia de Cyrillinhas, o refrigerante mais famoso da época, fabricado em Santa Maria mesmo.
Maconha, cocaína, rachas de automóveis, motos numa só roda, roleta russa, agressão a professores, brigas de gangues juvenis, pichações...Ao ler nos jornais sobre as "brincadeiras" da gurizada de hoje, fico estarrecido.
Perto dessa turma de hoje eu era um santo !
******************************
AUTOR : James Pizarro
domingo, 15 de agosto de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
HÁ ONZE ANOS SEM PRADO VEPPO...
Foi meu amigo,meu padrinho de casamento,meu confidente e se eu tivesse de resumí-lo numa só expressão, eu diria que foi a pessoa MAIS BONDOSA e MAIS MISERICORDIOSA com a miséria dos amigos e da humanidade em geral...jamais conheci outro igual.
Durante quase 30 anos tomamos chimarrão todos os domingos pela manhã em sua casa. Sou amigo pessoal de seus dois filhos. O filho homem, de apelido "Pitty" e a filha mulher, de apelido "Tota", foram meus alunos no cursinho pré-vestibular. Ele é advogado e ela é médica psiquiatra.
O Veppo, com sua morte, me deixou mais pobre afetivamente e mais solitário. Teria centenas de laudas para escrever sobre ele e deixarei isso para fazer mais tarde.
Hoje,13 de agosto de 2010, está fazendo 11 anos que ele morreu. E essa lembrança produz forte emoção no meu espírito.
Quantos em Santa Maria - além da Zélia, Tota e Pitty - hoje terão se lembrado do Veppo, o maior poeta que a cidade já teve ? Terá saído algo nos jornais da terra ? Não me atrevi a consultar.
Eu conheço a gratidão da cidade...
**********************************
AUTOR : James Pizarro
Durante quase 30 anos tomamos chimarrão todos os domingos pela manhã em sua casa. Sou amigo pessoal de seus dois filhos. O filho homem, de apelido "Pitty" e a filha mulher, de apelido "Tota", foram meus alunos no cursinho pré-vestibular. Ele é advogado e ela é médica psiquiatra.
O Veppo, com sua morte, me deixou mais pobre afetivamente e mais solitário. Teria centenas de laudas para escrever sobre ele e deixarei isso para fazer mais tarde.
Hoje,13 de agosto de 2010, está fazendo 11 anos que ele morreu. E essa lembrança produz forte emoção no meu espírito.
Quantos em Santa Maria - além da Zélia, Tota e Pitty - hoje terão se lembrado do Veppo, o maior poeta que a cidade já teve ? Terá saído algo nos jornais da terra ? Não me atrevi a consultar.
Eu conheço a gratidão da cidade...
**********************************
AUTOR : James Pizarro
"MANECO", EM CUJAS PAREDES CORRE MEU SANGUE...
Quando a Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, fundada em 1913, era considerada a maior cooperativa da América Latina, os ferroviários - carinhosamente chamados de "ferrinhos" - resolveram destinar 50 % dos lucros líquidos para obras referidas ao ensino, chamado à época de "Instrução" (o escritor e historiador João Belém pormenoriza dados em seu livro sobre a história do município de Santa Maria e fala sobre esta decisão dos ferroviários). Assim é que, já no seu quarto ano de funcionamento (1917), a Cooperativa decidiu fundar um colégio profissionalizante, que somente veio a ser inaugurado em em 1/maio/1922 : Escola de Artes e Ofícios. A escola possuía seções profissionalizantes para diversos tipos de ofícios , tais como mecânica, eletricidade, modelagem e funilaria, fundição, ferraria e tornearia mecânica. Funcionou em suntuoso prédio, ainda hoje existente, situado na avenida Rio Branco esquina com a rua dos Andradas, onde funcionaram, respectivamente, ao longo dos anos : Instituto Mariano da Rocha,Instituto Riachuelo, farmácia, papelaria e um bingo. Atualmente, abriga o Supermercado Carrefour, que remodelou o prédio mas conservou a fachada.
Mas era preciso também construir um colégio modelar, do tipo internato feminino. O colégio era destinado às filhas dos ferroviários de todo o Rio Grande do Sul. Ali elas poderiam estudar as disciplinas convencionais do Ensino Fundamental e Ensino Médio (naqueles tempos,chamados de Curso Complementar e Curso Suplementar), e também desenvolver habilidades caseiras, tais como corte e costura, bordado, música, desenho, pintura, trabalhos domésticos, etc...
Assim é que, demonstrando a força coletiva que a classe ferroviária possuía naqueles saudosos tempos, foi fundado o Colégio Santa Terezinha, entregue às freiras para que as mesmas o dirigissem. Meninas de todos os recantos do RS vieram para Santa Maria fazer seus estudos.
O prédio do Colégio Santa Terezinha é o prédio onde atualmente, devidamente reformado, funciona o Colégio Estadual Manoel Ribas. O nome foi dado em homenagem a Manoel Ribas, vulgo "Maneco Facão", que foi Governador (leia-se "Interventor") do Estado do Paraná durante todo o período da ditadura de Getúlio Vargas. Antes, Manoel Ribas havia ocupado o cargo de Intendente de Santa Maria, tendo assumido os destinos do município em 3 de outubro de 1928.
(NOTA : em Curitiba,onde residi, ao lado do "Passeio Público", tradicional área de lazer daquela cidade, funciona uma respeitável escola estadual parananese,também chamada Escola Estadual Manoel Ribas).
Causou espanto à população santa-mariense da época o gigantismo das instalações daquela escola. Depois de extinto o Colégio Santa Terezinha, naquele mesmo prédio foi criado o Grupo Escolar João Belém, que ali ficou até ser transferido para pavilhões de madeira construídos nas proximidades e, anos depois, definitivamente transferido para amplo prédio de alvenaria onde até hoje se encontra, entre as ruas Comissário Justo e José do Patrocínio.
Depois da transferência do João Belém para as novas instalações, fundou-se o Colégio Estadual Manoel Ribas, em 10 de outubro de 1953, até hoje popularmente chamado de "Maneco". Era tal a qualidade de ensino do novo colégio, que o mesmo passou a ser conhecido, em todo o território gaúcho, pelo título de "Colégio Padrão do RS" (inscrição que se era exibido nos papéis oficiais da escola).
Minha vida está indelevelmente ligada àquele prédio, pois minha mãe, Maria Silveira Pizarro, sempre chamada de "Dona Iria", foi aluna do Colégio Santa Terezinha onde, inclusive, iniciou-se no aprendizado do violino.
Entre o prédio e o muro externo do Maneco, fronteiro com a rua José do Patrocínio, em frente ao Curso Santa Clara, existe um pequeno obelisco de um metro de altura, sem placa e sem inscrição de espécie alguma, o que sempre me despertou curiosidade. Um dia dia, minha avó materna, Olina Correa da Luz, deu-me a explicação. Uma freira estava limpando a parte externa das vidraças do segundo andar e, desequilibrando-se, caiu de uma altura aproximada de 15 metros, vindo a falecer. O obelisco foi construído "in memoriam" exatamente sobre o local onde ficou, inerte, o corpo da infeliz religiosa.
Guri curioso, precoce mesmo em relação a esses assuntos dos mais velhos, surpreendi-me muitas vezes - na hora do recreio - com o nariz esborrachado nas vidraças das janelas das salas de aula a contemplar o obelisco. Lembro que, ao entardecer dos dias nublados, eu olhava rapidamente o obelisco e tratava de sair da janela. Eu sentia apreensão, medo mesmo. Pois, na minha fervilhante e fantasiosa cabeça de guri recém entrado na puberdade, parecia que - a qualquer momento - eu ía enxergar aquela freira voando em minha direção. Sorrindo para mim. Ou me acenando ternamente.
Aquele singelo monumento, até hoje anônimo para todos que ali passam, ainda está lá, já apresentando as marcas inexoráveis do tempo, este consumidor implacável de corpos, vaidades, pedras, juventude e lembranças. Nunca consegui descobrir o nome da freirinha...Seria Petúnia ? Margarida ? Rosa ? Hortência ? Não sei bem o porquê, mas sempre desconfiei que ela deveria ter nome de flor. Afinal, só uma flor pode ser levada pelo vento. Com suas pétalas necropsiadas durante a queda. Só uma flor tem o poder mágico de se imiscuir nos meandros da alma de um adolescente. E lá, no recôndito de sua memória, permanecer incólume. Até que sua cabeça se povoe de cabelos brancos. Sua testa seja vincada pelas rugas. E ele resolva contar, quase septuagenário, essas lembranças...
******************************
AUTOR : James Pizarro
Mas era preciso também construir um colégio modelar, do tipo internato feminino. O colégio era destinado às filhas dos ferroviários de todo o Rio Grande do Sul. Ali elas poderiam estudar as disciplinas convencionais do Ensino Fundamental e Ensino Médio (naqueles tempos,chamados de Curso Complementar e Curso Suplementar), e também desenvolver habilidades caseiras, tais como corte e costura, bordado, música, desenho, pintura, trabalhos domésticos, etc...
Assim é que, demonstrando a força coletiva que a classe ferroviária possuía naqueles saudosos tempos, foi fundado o Colégio Santa Terezinha, entregue às freiras para que as mesmas o dirigissem. Meninas de todos os recantos do RS vieram para Santa Maria fazer seus estudos.
O prédio do Colégio Santa Terezinha é o prédio onde atualmente, devidamente reformado, funciona o Colégio Estadual Manoel Ribas. O nome foi dado em homenagem a Manoel Ribas, vulgo "Maneco Facão", que foi Governador (leia-se "Interventor") do Estado do Paraná durante todo o período da ditadura de Getúlio Vargas. Antes, Manoel Ribas havia ocupado o cargo de Intendente de Santa Maria, tendo assumido os destinos do município em 3 de outubro de 1928.
(NOTA : em Curitiba,onde residi, ao lado do "Passeio Público", tradicional área de lazer daquela cidade, funciona uma respeitável escola estadual parananese,também chamada Escola Estadual Manoel Ribas).
Causou espanto à população santa-mariense da época o gigantismo das instalações daquela escola. Depois de extinto o Colégio Santa Terezinha, naquele mesmo prédio foi criado o Grupo Escolar João Belém, que ali ficou até ser transferido para pavilhões de madeira construídos nas proximidades e, anos depois, definitivamente transferido para amplo prédio de alvenaria onde até hoje se encontra, entre as ruas Comissário Justo e José do Patrocínio.
Depois da transferência do João Belém para as novas instalações, fundou-se o Colégio Estadual Manoel Ribas, em 10 de outubro de 1953, até hoje popularmente chamado de "Maneco". Era tal a qualidade de ensino do novo colégio, que o mesmo passou a ser conhecido, em todo o território gaúcho, pelo título de "Colégio Padrão do RS" (inscrição que se era exibido nos papéis oficiais da escola).
Minha vida está indelevelmente ligada àquele prédio, pois minha mãe, Maria Silveira Pizarro, sempre chamada de "Dona Iria", foi aluna do Colégio Santa Terezinha onde, inclusive, iniciou-se no aprendizado do violino.
Entre o prédio e o muro externo do Maneco, fronteiro com a rua José do Patrocínio, em frente ao Curso Santa Clara, existe um pequeno obelisco de um metro de altura, sem placa e sem inscrição de espécie alguma, o que sempre me despertou curiosidade. Um dia dia, minha avó materna, Olina Correa da Luz, deu-me a explicação. Uma freira estava limpando a parte externa das vidraças do segundo andar e, desequilibrando-se, caiu de uma altura aproximada de 15 metros, vindo a falecer. O obelisco foi construído "in memoriam" exatamente sobre o local onde ficou, inerte, o corpo da infeliz religiosa.
Guri curioso, precoce mesmo em relação a esses assuntos dos mais velhos, surpreendi-me muitas vezes - na hora do recreio - com o nariz esborrachado nas vidraças das janelas das salas de aula a contemplar o obelisco. Lembro que, ao entardecer dos dias nublados, eu olhava rapidamente o obelisco e tratava de sair da janela. Eu sentia apreensão, medo mesmo. Pois, na minha fervilhante e fantasiosa cabeça de guri recém entrado na puberdade, parecia que - a qualquer momento - eu ía enxergar aquela freira voando em minha direção. Sorrindo para mim. Ou me acenando ternamente.
Aquele singelo monumento, até hoje anônimo para todos que ali passam, ainda está lá, já apresentando as marcas inexoráveis do tempo, este consumidor implacável de corpos, vaidades, pedras, juventude e lembranças. Nunca consegui descobrir o nome da freirinha...Seria Petúnia ? Margarida ? Rosa ? Hortência ? Não sei bem o porquê, mas sempre desconfiei que ela deveria ter nome de flor. Afinal, só uma flor pode ser levada pelo vento. Com suas pétalas necropsiadas durante a queda. Só uma flor tem o poder mágico de se imiscuir nos meandros da alma de um adolescente. E lá, no recôndito de sua memória, permanecer incólume. Até que sua cabeça se povoe de cabelos brancos. Sua testa seja vincada pelas rugas. E ele resolva contar, quase septuagenário, essas lembranças...
******************************
AUTOR : James Pizarro
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
A PRIMEIRA AULA NINGUÉM ESQUECE
***A pedido da editoria do JORNAL DA APUSM, periódido mensal da "Associação dos Professores Universitários de Santa Maria,RS, esta postagem foi publicada na íntegra, na página 16 da edição número 07/agosto de 2010, ano 43.
**********************************
No dia 11 de agosto de 1827, D. Pedro I instituiu no Brasil os dois primeiros cursos de ciências jurídicas e sociais do país: um em São Paulo e o outro em Olinda, este último mais tarde transferido para Recife. Este dia ficou sendo o DIA DO ESTUDANTE no Brasil !
Por isso hoje, dia 11 de agosto de 2010, rememoro o dia em que entrei pela primeira vez no fantástico mundo de uma sala de aula. Já se passaram quase 70 anos e eu não me dei conta...
********************************************
Sou do tempo em que o então chamado Grupo Escolar João Belém funcionava no prédio onde hoje está o MANECO, em Santa Maria, RS. E ali fui matriculado -com 6 anos de idade - no Jardim da Infância (pois não se cogitava falar em maternal, pré-maternal, etc...).
Assim é que, nos primeiros dias do mês de março de 1948, comecei a estudar. Agarrado à mão de minha mãe, fui levado e entregue na penúltima porta do corredor do primeiro andar à mestra Luiza Leitão, uma professora negra, de cabelos brancos, que foi minha primeira professora e da qual guardo enternecedora lembrança. Ela me recebeu carinhosamente. O que fez dissipar-se do meu assustado espírito qualquer resquício de medo. Muito embora eu tenha sentido um inesquecível aperto no peito quando vi minha mãe me abanar e desaparecer pelo corredor.
É incrível, mas lembro detalhadamente desse primeiro dia de aula ! Sentei-me numa mesinha, junto com duas meninas e um menino, de nome Cleómenes, que era muito chato e usava óculos. Inexplicavelmente, não guardei o nome das duas meninas, que eram simpáticas e puxavam conversa. A professora Luiza Leitão bateu palmas, pediu silêncio. E colocou no aparelho de som (que era chamado de "vitrola") um enorme disco de vinil. Daquele disco, como num passe de mágica, brotou a emocionante novela intitulada "As Aventuras do Coelhinho Joca", a primeira história infantil gravada que ouvi em minha vida. Eu gostei tanto que, meses depois, quando ganhei meu primeiro cachorro de presente, um fox preto e branco, tratei de batisá-lo de "Joca"...
Corria o ano de 1948, ano em que o Botafogo foi campeão carioca. O time alvinegro entrava em campo com sua mascote "Biriba", uma cadela também fox preta e branca...
A diretora do Grupo Escolar João Belém se chamava Edy Maia Bertóia, casada com um senhor careca, funcionário da Cooperativa dos Ferroviários. Moravam à rua Silva Jardim, quase na esquina com a Comissário Justo. A Dona Edy era mãe do Dr. Ararê Bertóia, médico em Santa Maria e de Soila Bertóia, residente em São Paulo. Parece mentira...a Dona Edy ficou minha grande amiga por mais de 45 anos ! E hoje, falecida, virou nome de escola municipal, numa justa homenagem.
Num relance, passaram-se 62 anos desde a minha primeira aula, pois estou hoje com 68 anos. Lembro detalhadamente de tudo. Desde a disposição dos móveis na sala. Dos quadros. Dos rostos. Dos sons. Do sino batendo para o meu primeiro recreio. Da primeira merenda. À noite, custei muito a dormir. Pois recapitulava mentalmente tudo o que me havia acontecido naquele dia memorável.
A professora Luiza Leitão, e depois a professora Léa Balthar, foram as duas responsáveis pela minha alfabetização.
A outra diretora do João Belém, que substituiu a professora Edy Maia Bertóia, foi a Professora Heleda Diquel Siqueira. Que também foi minha professora de Trabalhos Manuais. Dona Heleda era exímia jogadora de bolão. Viajava muito pelo RS disputando campeonatos femininos de bolão. Ao contrário das minhas alfabetizadoras, já falecidas, a professora Heleda ainda está viva, morando no Balneário Camboriu, litoral de Santa Catarina.
Nas datas importantes - principalmente nas datas cívicas - aconteciam no João Belém as chamadas "audições". O que era isso ? Todo o corpo docente e discente era reunido no salão de festas da escola. E havia apresentação de números artísticos : danças, corais, declamação de poesias, números musicais, mágicas, bandas, etc... Tudo isso era precedido pela fala do locutor. Que lia uma sinopse do número que ía ser apresentado.
Devido ao desembaraço, desenvoltura ou "cara-de-pau" - seja lá que nome tenha isso - sempre fui escolhido para ser o locutor das "audições". O que me conferia um certo "status" com os professores. Simpatia com as meninas. E ciume dos colegas.
Dou-me conta, agora, do óbvio : a influência que tais experiências da meninice podem ter na formação da nossa personalidade. E até nas nossas escolhas profissionais de adulto. Entre meus 45 e 50 anos fui radioator de historinhas infantis levadas ao ar pelo programa infantil apresentado pela radialista Maria Helena Martins : Programa "Era Uma Vez..." O programa ía ao ar todos os domingos, às 18:00h, pela Rádio Universidade de Santa Maria. A novela, apresentada em capítulos dominicais, chamava-se "Histórias do Sapinho Hortêncio". Eram escritas por João Teixeira Porto, militar reformado, funcionário da UFSM e ator amador da Escola de Teatro "Leopoldo Froes".
Fui sarcasticamente criticado por alguns poucos colegas de docência da UFSM pois, para eles, um mestre universitário andar fazendo papel de um sapo em novelas de rádio "não se coadunava com a importância da cátedra". Nunca dei importância para as críticas e gozações desses sabichões que, mesmo pilotando seus títulos de mestrado e doutorado, não conseguiam dar aula sem as famigeradas fichinhas de anotações amarelecidas pelo tempo, sem as quais não conseguiam enfrentar as numerosas turmas de alunos. Um deles, chegou mesmo a dizer que eu só poderia fazer papel de sapo, numa clara alusão à minha obesidade...Nunca me ofendi, porque sou gordo mesmo. Muitas palestras fiz nas escolas da cidade para alunos do jardim da infância e do pré-primário. Mas fi-las, não como Prof. Pizarro, mas como Sapinho Hortêncio, este sim conhecido da piazada.
Esta atividade como Sapinho Hortêncio sempre me foi muito encantadora, porque ele foi importante veículo de educação ecológica para a infância da minha cidade.
Na raiz dessa minha atividade não estará, lá bem no fundo, a saudosa professora Luiza Leitão com as "Histórias do Coelhinho Joca" ? E meus programas de rádio ecológico pela Rádio Universidade ? E meus comentários diários na Rádio Imembui, nos programas do Vicente Paulo Bisogno e Pedro Feire Junior ? E meus voluntariosos pronunciamentos na Câmara de Vereadores quando lá estive de 1989 a 1992 ? E as dezenas de conferências em mais de 200 cidades gaúchas ao longo de quase 40 anos ? E as 10 horas de aula diárias nos cursinhos pré-vestibulares e na UFSM ?
Na raíz de todas essas atividades ligadas ao uso público da palavra, da oratória como meio de vida, bem lá no cerne dessas atividades de adulto...não estará a figura franzina daquele meninote que era o locutor das "audições" do Grupo Escolar João Belém ?
Que mistério ! Que estranho fermento a Vida e o Destino semeiam na sensibilidade da gente! E ao longo do tempo aquilo vai se metamorfoseando em pão. Amassado com o sangue da vocação. O suor da transpiração. E a lágrima da inspiração. Que mistério ! A ninguém é lícito deixar de colaborar na construção do mundo. Seja pescando crustáceos e peixes na orla marítima, para alimentar estômagos famintos. Seja pescando almas solitárias, melancólicas, com a isca fascinante da palavra. Não para dar-lhes pão, feito de trigo ou centeio. Mas o pão divino do amor e da fraternidade. Disfarçado pela oratória sensível do teatro. Do discurso. Do programa de rádio. Da aula bem dada. Todas elas, atividades movidas pela paixão. Quem não entender a paixão e o milagre da palavra, o seu amplo poder, perdeu o dom do mistério.
Esse mistério foi inoculado em meu espírito pela paixão de meus professores do João Belém e do Maneco.
E por isso jamais me esquecerei deles.
************************************
AUTOR : James Pizarro
**********************************
No dia 11 de agosto de 1827, D. Pedro I instituiu no Brasil os dois primeiros cursos de ciências jurídicas e sociais do país: um em São Paulo e o outro em Olinda, este último mais tarde transferido para Recife. Este dia ficou sendo o DIA DO ESTUDANTE no Brasil !
Por isso hoje, dia 11 de agosto de 2010, rememoro o dia em que entrei pela primeira vez no fantástico mundo de uma sala de aula. Já se passaram quase 70 anos e eu não me dei conta...
********************************************
Sou do tempo em que o então chamado Grupo Escolar João Belém funcionava no prédio onde hoje está o MANECO, em Santa Maria, RS. E ali fui matriculado -com 6 anos de idade - no Jardim da Infância (pois não se cogitava falar em maternal, pré-maternal, etc...).
Assim é que, nos primeiros dias do mês de março de 1948, comecei a estudar. Agarrado à mão de minha mãe, fui levado e entregue na penúltima porta do corredor do primeiro andar à mestra Luiza Leitão, uma professora negra, de cabelos brancos, que foi minha primeira professora e da qual guardo enternecedora lembrança. Ela me recebeu carinhosamente. O que fez dissipar-se do meu assustado espírito qualquer resquício de medo. Muito embora eu tenha sentido um inesquecível aperto no peito quando vi minha mãe me abanar e desaparecer pelo corredor.
É incrível, mas lembro detalhadamente desse primeiro dia de aula ! Sentei-me numa mesinha, junto com duas meninas e um menino, de nome Cleómenes, que era muito chato e usava óculos. Inexplicavelmente, não guardei o nome das duas meninas, que eram simpáticas e puxavam conversa. A professora Luiza Leitão bateu palmas, pediu silêncio. E colocou no aparelho de som (que era chamado de "vitrola") um enorme disco de vinil. Daquele disco, como num passe de mágica, brotou a emocionante novela intitulada "As Aventuras do Coelhinho Joca", a primeira história infantil gravada que ouvi em minha vida. Eu gostei tanto que, meses depois, quando ganhei meu primeiro cachorro de presente, um fox preto e branco, tratei de batisá-lo de "Joca"...
Corria o ano de 1948, ano em que o Botafogo foi campeão carioca. O time alvinegro entrava em campo com sua mascote "Biriba", uma cadela também fox preta e branca...
A diretora do Grupo Escolar João Belém se chamava Edy Maia Bertóia, casada com um senhor careca, funcionário da Cooperativa dos Ferroviários. Moravam à rua Silva Jardim, quase na esquina com a Comissário Justo. A Dona Edy era mãe do Dr. Ararê Bertóia, médico em Santa Maria e de Soila Bertóia, residente em São Paulo. Parece mentira...a Dona Edy ficou minha grande amiga por mais de 45 anos ! E hoje, falecida, virou nome de escola municipal, numa justa homenagem.
Num relance, passaram-se 62 anos desde a minha primeira aula, pois estou hoje com 68 anos. Lembro detalhadamente de tudo. Desde a disposição dos móveis na sala. Dos quadros. Dos rostos. Dos sons. Do sino batendo para o meu primeiro recreio. Da primeira merenda. À noite, custei muito a dormir. Pois recapitulava mentalmente tudo o que me havia acontecido naquele dia memorável.
A professora Luiza Leitão, e depois a professora Léa Balthar, foram as duas responsáveis pela minha alfabetização.
A outra diretora do João Belém, que substituiu a professora Edy Maia Bertóia, foi a Professora Heleda Diquel Siqueira. Que também foi minha professora de Trabalhos Manuais. Dona Heleda era exímia jogadora de bolão. Viajava muito pelo RS disputando campeonatos femininos de bolão. Ao contrário das minhas alfabetizadoras, já falecidas, a professora Heleda ainda está viva, morando no Balneário Camboriu, litoral de Santa Catarina.
Nas datas importantes - principalmente nas datas cívicas - aconteciam no João Belém as chamadas "audições". O que era isso ? Todo o corpo docente e discente era reunido no salão de festas da escola. E havia apresentação de números artísticos : danças, corais, declamação de poesias, números musicais, mágicas, bandas, etc... Tudo isso era precedido pela fala do locutor. Que lia uma sinopse do número que ía ser apresentado.
Devido ao desembaraço, desenvoltura ou "cara-de-pau" - seja lá que nome tenha isso - sempre fui escolhido para ser o locutor das "audições". O que me conferia um certo "status" com os professores. Simpatia com as meninas. E ciume dos colegas.
Dou-me conta, agora, do óbvio : a influência que tais experiências da meninice podem ter na formação da nossa personalidade. E até nas nossas escolhas profissionais de adulto. Entre meus 45 e 50 anos fui radioator de historinhas infantis levadas ao ar pelo programa infantil apresentado pela radialista Maria Helena Martins : Programa "Era Uma Vez..." O programa ía ao ar todos os domingos, às 18:00h, pela Rádio Universidade de Santa Maria. A novela, apresentada em capítulos dominicais, chamava-se "Histórias do Sapinho Hortêncio". Eram escritas por João Teixeira Porto, militar reformado, funcionário da UFSM e ator amador da Escola de Teatro "Leopoldo Froes".
Fui sarcasticamente criticado por alguns poucos colegas de docência da UFSM pois, para eles, um mestre universitário andar fazendo papel de um sapo em novelas de rádio "não se coadunava com a importância da cátedra". Nunca dei importância para as críticas e gozações desses sabichões que, mesmo pilotando seus títulos de mestrado e doutorado, não conseguiam dar aula sem as famigeradas fichinhas de anotações amarelecidas pelo tempo, sem as quais não conseguiam enfrentar as numerosas turmas de alunos. Um deles, chegou mesmo a dizer que eu só poderia fazer papel de sapo, numa clara alusão à minha obesidade...Nunca me ofendi, porque sou gordo mesmo. Muitas palestras fiz nas escolas da cidade para alunos do jardim da infância e do pré-primário. Mas fi-las, não como Prof. Pizarro, mas como Sapinho Hortêncio, este sim conhecido da piazada.
Esta atividade como Sapinho Hortêncio sempre me foi muito encantadora, porque ele foi importante veículo de educação ecológica para a infância da minha cidade.
Na raiz dessa minha atividade não estará, lá bem no fundo, a saudosa professora Luiza Leitão com as "Histórias do Coelhinho Joca" ? E meus programas de rádio ecológico pela Rádio Universidade ? E meus comentários diários na Rádio Imembui, nos programas do Vicente Paulo Bisogno e Pedro Feire Junior ? E meus voluntariosos pronunciamentos na Câmara de Vereadores quando lá estive de 1989 a 1992 ? E as dezenas de conferências em mais de 200 cidades gaúchas ao longo de quase 40 anos ? E as 10 horas de aula diárias nos cursinhos pré-vestibulares e na UFSM ?
Na raíz de todas essas atividades ligadas ao uso público da palavra, da oratória como meio de vida, bem lá no cerne dessas atividades de adulto...não estará a figura franzina daquele meninote que era o locutor das "audições" do Grupo Escolar João Belém ?
Que mistério ! Que estranho fermento a Vida e o Destino semeiam na sensibilidade da gente! E ao longo do tempo aquilo vai se metamorfoseando em pão. Amassado com o sangue da vocação. O suor da transpiração. E a lágrima da inspiração. Que mistério ! A ninguém é lícito deixar de colaborar na construção do mundo. Seja pescando crustáceos e peixes na orla marítima, para alimentar estômagos famintos. Seja pescando almas solitárias, melancólicas, com a isca fascinante da palavra. Não para dar-lhes pão, feito de trigo ou centeio. Mas o pão divino do amor e da fraternidade. Disfarçado pela oratória sensível do teatro. Do discurso. Do programa de rádio. Da aula bem dada. Todas elas, atividades movidas pela paixão. Quem não entender a paixão e o milagre da palavra, o seu amplo poder, perdeu o dom do mistério.
Esse mistério foi inoculado em meu espírito pela paixão de meus professores do João Belém e do Maneco.
E por isso jamais me esquecerei deles.
************************************
AUTOR : James Pizarro
domingo, 8 de agosto de 2010
CANASVIEIRAS, A SEDUTORA
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
FERNANDO PESSOA
**********************************************
Os amigos de Canasvieiras já sabem que em dia de sol não me encontram em casa. Deixo a casa arrumada. E me mando pra praia. Tanto no verão - quando fico preto - como no inverno. Enquanto o sol estiver dando as caras e a temperatura no limite do razoável, não arredo pé da areia.
E ao longo do tempo fomos fazendo amigos novos. Pessoas que pensam como nós em relação à praia e ao sol. A maioria já aposentados. Outros ainda na ativa. Quase sempre fazemos ponto na faixa de praia em frente ao "Bar do Chico", um dos locais de referência aqui da ilha, citado em jornais e revistas. Chico ficou grande amigo e é um renomado cozinheiro de frutos do mar.
Canasvieiras é uma das praias mais populares de Florianópolis, a preferida pelos argentinos, uruguaios, chilenos, paranaenses, gaúchos, etc...que a invadem nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, fazendo a população pacata de 9000 almas saltar para 200.000 veranistas. Durante a alta temporada de 2010, segundo dados da Secretaria de Turismo de SC, Florianópolis recebeu 1 milhão de turistas, dos quais a maioria preferiu as praias de Canasvieiras e Ingleses.
Temos um amigo de apelido "Bigode" (que era dono de uma lancheria em S. Maria,RS, em frente ao Regimento Mallet) que está atualizando a lista dos santa-marienses que aqui residem. Ele está planejando realizar uma nova edição do jantar de santa-marienses moradores de Canasvieiras. A lista já ultrapassou a casa do 200.
O médico Ivan Marques da Rocha e sua esposa Marta são de Santa Maria e já se encontram em Canasvieiras há 14 anos. Ele me confessou : "Quem vem prá cá nunca mais sai daqui para uma cidade grande porque o clima é ótimo e o convívio é excelente".
Eu mesmo, quando precisei voltar à terra para fazer a nova carteira de identidade e renovar a carteira de motorista, senti um choque no meu bioritmo. Não conseguia dormir à noite com o barulho da cidade. De certa forma, estava desabituado até com os temas das conversas...Notícias de adultérios, batidas de carros, mortos recentes, fraudes, picuinhas, maledicências, exibicionismo de bens materiais, competições pessoais,confrontos políticos,refeições sociais, horários marcados, etc...não faziam mais parte da minha vida. E tive de conviver com isso na rápida visita de uma semana.
Corro o risco de não ser entendido por algum conterrâneo por estar escrevendo isso. Mas nada posso fazer. Não posso mandar na boca dos outros. Pelos outros eu só posso rezar. E nada mais. Os outros não têm culpa alguma. Eles continuam a sua vida e sua rotina. Eu que mudei.
Eu me habituei apenas com o barulho das ondas à noite. E o doce silêncio das madrugadas. Com os pássaros que vêm comer na minha sacada três vezes ao dia. Estou acostumado há mais de dois anos em andar apenas de bermuda, sem camisa, descalço ou de tênis. A andar de ônibus executivo, o eficiente "amarelinho". Ou tomar o busão verde-branco no TICAN-Terminal de Canasvieiras. Ou ser atendido pelo Dedé no caixa prioritário dos idosos na agência do Banco do Brasil, onde clientes e funcionários se conhecem pelo nome.
E os assuntos ? A altura da maré. Os cardumes de tainha. A anchova na grelha feita pelo Imeram. O camarão do Bocas. As lulas à milanesa do Quinha. As ostras gratinadas feitas pelo alemão Nilson e pela Diuris. O rodízio de camarão no Chico. As pizzas do Trattoria. O pizzaiolo Horácio e sua filha, meu companheiros de cafezinho das 10,00h. Os papos culturais com o Brenner, gaúcho de Novo Hamburgo. O Julio Ribeiro, da VIP Imobiliária. A feijoada do Tutti Frutti. Os adoráveis filmes em 3D no Cinemark do Shopping Floripa. O Estadão e a Folha de SP na revistaria do Juarez. A Mônica e o Gocha, cantores da igreja. A Ivone e o Beto. A dona Neuza e seu inseparável yorkshire. O Beno, Noemi e Simone. A Alessandra, Domingos, Zuleide, Andrea, Cleide, Christóvão e Lizete, todos irmãos/amigos da Catedral. O Nilton Gesser, misto de médico anestesista e teólogo. O Feliciano e a Jaque. A Mirta e o uruguaio Jorge. A Jane e o argentino Norberto. A Tina. A Thayná. O Seco Cirarno e a Gabi. O vizinho Ricardo. O fotógrafo Ricardi. A gastronomia da Grazy. O Noé, nosso mais velho amigo com seus 82 anos. A Alice e o Fábio. A vegetariana Sandra, da Hygino Brito. O Mauricio e o filho Lucas. A Iza e o Luiz, talentosos músicos. As novidades do Zé da Banda. As piadas do Marinho. O tempero da Sandra, do Che Café. As caronas do Vorlei. A paranaense Elis. O convívio com a dona Edel e com Daniel. O Paulinho e a dona Carmem. O gremista Machado. O Fernando, da Imobiliária Paraíso. O Daniel Simo, de Buenos Aires. O Daniel Anania e a Agustina, donos do Fênix. A dona Maria e o Itamar, do Lexus Plaza. O Carlos e o Adelço (assim mesmo) da Imobiliária. Os amigos entregadores do Imperatriz. As atendentes do Magia. Os gaúchos da Policlínica Norte da Ilha. A gentileza do Medina, médico peruano formado em S. Maria. O César da Canas Farmácia. As gurias da Panvel. Os balconistas da Ganzo. Os amigos da lotérica Gadu. O popular "Megasena" que me traz as apostas na porta de casa. A gentil Vera da lavanderia. A poetisa Janice Pavan e demais escritores da associação literária da ilha. Jack e Bugra, animadores da escuna "Pérola Negra". Os pescadores. Os padres Nelson, Jair, Anésio, Izidro. Os colegas dos retiros e quermesses. A dona Neiva da Sorveteria. A Ana Echevenguá, advogada ambientalista. O Fernando, Cristiano, Marcão, Ceniro, Valter,Carmem,Rosa, Jaqueline, Jeff, Belchis, Julia, Alexandre - todos companheiros da academia Apollo. O nativista Alencastro e o italiano Mazzutti, meus dois primeiros amigos mortos de Canasvieiras. O Jorge da liturgia. Os colegas ministros e as centenas de paroquianos das missas da matriz Nossa Senhora de Guadalupe. Os amigos que trabalham com "remix" e "rent a car". Os doleiros. Os bicheiros. Os lutadores idealistas do movimento "SOS CANASVIEIRAS". Meus Deus...são centenas de pessoas que passaram a fazer parte do nosso mundo nestes pouco mais de dois anos. Levaria muito tempo citando todos.
A singela praia de Canasvieiras me deu a oportunidade de rever a vida. Jogar fora várias coisas, entre as quais a onipotência. Pude ver com clareza o que realmente é prioritário na vida. E sobretudo CONVIVER, com total despojamento, com pessoas simples. Que despertaram em mim a vontade de aprofundar o conhecimento sobre a ilha. Sua história, gente, fauna, flora, costumes e - principalmente - seus "falares e dizeres", na expressão do dicionarista mané.
Logo que cheguei, pisando em ovos, puxava assunto com as pessoas. Estava com receio de não me dar bem longe do meu amado Rio Grande do Sul. E receio de não ser aceito pelos nativos. Conversando com um pescador idoso,pele encarquilhada pelo vento, sol e sal, ele me disse :
- Moço,quem faz o ambiente é a gente !
Pois não é que ele tinha razão ?
*******************************************
AUTOR : James Pizarro
Nosso inesquecível e animado passeio de 4 horas no "Pérola Negra", seguramente a escuna mais alegre de Florianópolis, que costuma partir do trapiche de Canasvieiras, comandado pelo bucaneiro Jack e sua companheira Bugra. A escuna é a maior de Florianópolis, comportando uma tripulação de 330 turistas. (Trecho do vídeo do passeio de 3 de março de 2008 : o vídeo integral é vendido para os turistas que quiserem ao final do passeio).
FERNANDO PESSOA
**********************************************
Os amigos de Canasvieiras já sabem que em dia de sol não me encontram em casa. Deixo a casa arrumada. E me mando pra praia. Tanto no verão - quando fico preto - como no inverno. Enquanto o sol estiver dando as caras e a temperatura no limite do razoável, não arredo pé da areia.
E ao longo do tempo fomos fazendo amigos novos. Pessoas que pensam como nós em relação à praia e ao sol. A maioria já aposentados. Outros ainda na ativa. Quase sempre fazemos ponto na faixa de praia em frente ao "Bar do Chico", um dos locais de referência aqui da ilha, citado em jornais e revistas. Chico ficou grande amigo e é um renomado cozinheiro de frutos do mar.
Canasvieiras é uma das praias mais populares de Florianópolis, a preferida pelos argentinos, uruguaios, chilenos, paranaenses, gaúchos, etc...que a invadem nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, fazendo a população pacata de 9000 almas saltar para 200.000 veranistas. Durante a alta temporada de 2010, segundo dados da Secretaria de Turismo de SC, Florianópolis recebeu 1 milhão de turistas, dos quais a maioria preferiu as praias de Canasvieiras e Ingleses.
Temos um amigo de apelido "Bigode" (que era dono de uma lancheria em S. Maria,RS, em frente ao Regimento Mallet) que está atualizando a lista dos santa-marienses que aqui residem. Ele está planejando realizar uma nova edição do jantar de santa-marienses moradores de Canasvieiras. A lista já ultrapassou a casa do 200.
O médico Ivan Marques da Rocha e sua esposa Marta são de Santa Maria e já se encontram em Canasvieiras há 14 anos. Ele me confessou : "Quem vem prá cá nunca mais sai daqui para uma cidade grande porque o clima é ótimo e o convívio é excelente".
Eu mesmo, quando precisei voltar à terra para fazer a nova carteira de identidade e renovar a carteira de motorista, senti um choque no meu bioritmo. Não conseguia dormir à noite com o barulho da cidade. De certa forma, estava desabituado até com os temas das conversas...Notícias de adultérios, batidas de carros, mortos recentes, fraudes, picuinhas, maledicências, exibicionismo de bens materiais, competições pessoais,confrontos políticos,refeições sociais, horários marcados, etc...não faziam mais parte da minha vida. E tive de conviver com isso na rápida visita de uma semana.
Corro o risco de não ser entendido por algum conterrâneo por estar escrevendo isso. Mas nada posso fazer. Não posso mandar na boca dos outros. Pelos outros eu só posso rezar. E nada mais. Os outros não têm culpa alguma. Eles continuam a sua vida e sua rotina. Eu que mudei.
Eu me habituei apenas com o barulho das ondas à noite. E o doce silêncio das madrugadas. Com os pássaros que vêm comer na minha sacada três vezes ao dia. Estou acostumado há mais de dois anos em andar apenas de bermuda, sem camisa, descalço ou de tênis. A andar de ônibus executivo, o eficiente "amarelinho". Ou tomar o busão verde-branco no TICAN-Terminal de Canasvieiras. Ou ser atendido pelo Dedé no caixa prioritário dos idosos na agência do Banco do Brasil, onde clientes e funcionários se conhecem pelo nome.
E os assuntos ? A altura da maré. Os cardumes de tainha. A anchova na grelha feita pelo Imeram. O camarão do Bocas. As lulas à milanesa do Quinha. As ostras gratinadas feitas pelo alemão Nilson e pela Diuris. O rodízio de camarão no Chico. As pizzas do Trattoria. O pizzaiolo Horácio e sua filha, meu companheiros de cafezinho das 10,00h. Os papos culturais com o Brenner, gaúcho de Novo Hamburgo. O Julio Ribeiro, da VIP Imobiliária. A feijoada do Tutti Frutti. Os adoráveis filmes em 3D no Cinemark do Shopping Floripa. O Estadão e a Folha de SP na revistaria do Juarez. A Mônica e o Gocha, cantores da igreja. A Ivone e o Beto. A dona Neuza e seu inseparável yorkshire. O Beno, Noemi e Simone. A Alessandra, Domingos, Zuleide, Andrea, Cleide, Christóvão e Lizete, todos irmãos/amigos da Catedral. O Nilton Gesser, misto de médico anestesista e teólogo. O Feliciano e a Jaque. A Mirta e o uruguaio Jorge. A Jane e o argentino Norberto. A Tina. A Thayná. O Seco Cirarno e a Gabi. O vizinho Ricardo. O fotógrafo Ricardi. A gastronomia da Grazy. O Noé, nosso mais velho amigo com seus 82 anos. A Alice e o Fábio. A vegetariana Sandra, da Hygino Brito. O Mauricio e o filho Lucas. A Iza e o Luiz, talentosos músicos. As novidades do Zé da Banda. As piadas do Marinho. O tempero da Sandra, do Che Café. As caronas do Vorlei. A paranaense Elis. O convívio com a dona Edel e com Daniel. O Paulinho e a dona Carmem. O gremista Machado. O Fernando, da Imobiliária Paraíso. O Daniel Simo, de Buenos Aires. O Daniel Anania e a Agustina, donos do Fênix. A dona Maria e o Itamar, do Lexus Plaza. O Carlos e o Adelço (assim mesmo) da Imobiliária. Os amigos entregadores do Imperatriz. As atendentes do Magia. Os gaúchos da Policlínica Norte da Ilha. A gentileza do Medina, médico peruano formado em S. Maria. O César da Canas Farmácia. As gurias da Panvel. Os balconistas da Ganzo. Os amigos da lotérica Gadu. O popular "Megasena" que me traz as apostas na porta de casa. A gentil Vera da lavanderia. A poetisa Janice Pavan e demais escritores da associação literária da ilha. Jack e Bugra, animadores da escuna "Pérola Negra". Os pescadores. Os padres Nelson, Jair, Anésio, Izidro. Os colegas dos retiros e quermesses. A dona Neiva da Sorveteria. A Ana Echevenguá, advogada ambientalista. O Fernando, Cristiano, Marcão, Ceniro, Valter,Carmem,Rosa, Jaqueline, Jeff, Belchis, Julia, Alexandre - todos companheiros da academia Apollo. O nativista Alencastro e o italiano Mazzutti, meus dois primeiros amigos mortos de Canasvieiras. O Jorge da liturgia. Os colegas ministros e as centenas de paroquianos das missas da matriz Nossa Senhora de Guadalupe. Os amigos que trabalham com "remix" e "rent a car". Os doleiros. Os bicheiros. Os lutadores idealistas do movimento "SOS CANASVIEIRAS". Meus Deus...são centenas de pessoas que passaram a fazer parte do nosso mundo nestes pouco mais de dois anos. Levaria muito tempo citando todos.
A singela praia de Canasvieiras me deu a oportunidade de rever a vida. Jogar fora várias coisas, entre as quais a onipotência. Pude ver com clareza o que realmente é prioritário na vida. E sobretudo CONVIVER, com total despojamento, com pessoas simples. Que despertaram em mim a vontade de aprofundar o conhecimento sobre a ilha. Sua história, gente, fauna, flora, costumes e - principalmente - seus "falares e dizeres", na expressão do dicionarista mané.
Logo que cheguei, pisando em ovos, puxava assunto com as pessoas. Estava com receio de não me dar bem longe do meu amado Rio Grande do Sul. E receio de não ser aceito pelos nativos. Conversando com um pescador idoso,pele encarquilhada pelo vento, sol e sal, ele me disse :
- Moço,quem faz o ambiente é a gente !
Pois não é que ele tinha razão ?
*******************************************
AUTOR : James Pizarro
Nosso inesquecível e animado passeio de 4 horas no "Pérola Negra", seguramente a escuna mais alegre de Florianópolis, que costuma partir do trapiche de Canasvieiras, comandado pelo bucaneiro Jack e sua companheira Bugra. A escuna é a maior de Florianópolis, comportando uma tripulação de 330 turistas. (Trecho do vídeo do passeio de 3 de março de 2008 : o vídeo integral é vendido para os turistas que quiserem ao final do passeio).
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
WORDS...WORDS...WORDS...
Os jornais trazem cada piada nesse período eleitoral que a gente morre de rir...
Tarso Genro (PT) e José Fogaça (PMDB), candidatos ao governo gaúcho, juram de pés juntos que cumprirão o percentual previsto em lei : vão destinar 12 % de toda a arrecadação para a saúde !
Os membros do Conselho Estadual de Saúde do RS afirmaram à imprensa que o governo do Estado NUNCA CUMPRIU A LEI. E mais : que o máximo que os governadores aplicaram até hoje foi 5 %, em média, ao ano.
Ora, se NUNCA cumpriram a lei e ficaram sempre em 5 % como é que Tarso e Fogaça podem prometer que aplicarão 12 % ?
********************************
AUTOR : James Pizarro
Tarso Genro (PT) e José Fogaça (PMDB), candidatos ao governo gaúcho, juram de pés juntos que cumprirão o percentual previsto em lei : vão destinar 12 % de toda a arrecadação para a saúde !
Os membros do Conselho Estadual de Saúde do RS afirmaram à imprensa que o governo do Estado NUNCA CUMPRIU A LEI. E mais : que o máximo que os governadores aplicaram até hoje foi 5 %, em média, ao ano.
Ora, se NUNCA cumpriram a lei e ficaram sempre em 5 % como é que Tarso e Fogaça podem prometer que aplicarão 12 % ?
********************************
AUTOR : James Pizarro
ANGARIANDO PRESTÍGIO COM O IMPOSTO DO POVO...
Li no jornal que o Brasil vai doar US$ 300 milhões em alimentos até dezembro de 2010 para o Sudão, Somália, Níger e também para nações africanas de língua portuguesa. Motivo (tal qual está escrito no jornal) : "...como parte da investida para angariar prestígio internacional".
E a notícia especifica que serão 300 mil toneladas de milho, 100 mil de feijão, 50 mil de arroz e 10 mil de leite em pó.
Em outra parte do jornal, há notícia de que o Brasil vai enviar 25 milhões de dólares para o governo palestino com a finalidade de auxiliar na reconstrução da faixa de Gaza.
Minha mãe de Deus ! E eu que não sabia que a gente tinha ficado tão rico assim !
Enquanto isso, em frente ao meu prédio, o Augusto (mendigo por demais conhecido aqui em Canasvieiras) dorme ao relento. E nenhuma autoridade acode o coitado. Ontem, peguei uma manta e um blusão de lã do meu armário e dei de presente para ele. Mas sem interesse algum em "angariar prestígio"... Fi-lo por misericórdia mesmo.
Será que o nosso governo sabe que existem milhões de Augustos pelo país ?
*********************************
AUTOR : James Pizarro
E a notícia especifica que serão 300 mil toneladas de milho, 100 mil de feijão, 50 mil de arroz e 10 mil de leite em pó.
Em outra parte do jornal, há notícia de que o Brasil vai enviar 25 milhões de dólares para o governo palestino com a finalidade de auxiliar na reconstrução da faixa de Gaza.
Minha mãe de Deus ! E eu que não sabia que a gente tinha ficado tão rico assim !
Enquanto isso, em frente ao meu prédio, o Augusto (mendigo por demais conhecido aqui em Canasvieiras) dorme ao relento. E nenhuma autoridade acode o coitado. Ontem, peguei uma manta e um blusão de lã do meu armário e dei de presente para ele. Mas sem interesse algum em "angariar prestígio"... Fi-lo por misericórdia mesmo.
Será que o nosso governo sabe que existem milhões de Augustos pelo país ?
*********************************
AUTOR : James Pizarro
Assinar:
Postagens (Atom)