domingo, 15 de agosto de 2010

UM MENINO PERPLEXO DIANTE DOS PENICOS DE MERDA

Esta crônica foi publicada no jornal
"A RAZÃO", de Santa Maria, RS, à página
4 da edição do dia 9/setembro/2010.
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Santa Maria teve três grandes cinemas. Cine-teatro Imperial. Cine Independência. Cinema Glória.

O Cine Independência virou um shopping popular, abrigando os camelôs que estavam pelas ruas da cidade. Ao invés do Gordo e o Magro, Hopalong Cassidy, Jesse James, Batman e Robim...mercadorias piratas do Paraguai.

O Cinema Glória virou uma filial da Universal de Deus e depois uma boate. Ao invés dos grandes musicais com Doris Day, Gene Kelly, Fred Astaire, Pat Boone e Elvis Presley...sermões, dízimos e milagres de veracidade duvidosa.

O Cine-teatro Imperial,na segunda quadra da rua Dr. Bozano, transformou-se numa filial da tradicional Casa Eny. Ao invés das grandes peças que o Edmundo Cardoso apresentava com sua Escola de Teatro Leopoldo Froes...tênis, sandálias, sapatos e hawaianas.

Foram mudanças boas para uma cidade que se jacta do cognome de "cidade cultura" ? Claro, hoje existem as salas de cinema dos shoppings da cidade, com cerca de 80 lugares cada uma. Nada semelhante aos 1200 lugares que existiam no Cine Independência, por exemplo.

Quem da faixa etária dos 60 ou 70 anos não se lembra do tradicional "matinê da 1,15" como era chamada a sessão dominical das 13,15 horas do Cine-teatro Imperial ? Passava sempre um "filme de mocinho" (nome dado aos filmes de faroeste americano), seguido de um "seriado" (cada domingo passava um capítulo de uma longa história de aventuras, que chegava a durar dois meses). Na frente do cinema, antes das sessões, ocorria o tradicional troca-troca de "gibis" (revistas em quadrinhos dos heróis da época). Ou então, troca de figurinhas do famoso "Álbum das Balas Rute".

O "Seu" Aurélio era o lanterninha do Cine-teatro Imperial, famoso pelo duro que dava na gurizada durante as sessões. Em sua homenagem existe hoje o "Cine-clube Lanterninha Aurélio". Certa vez fiz uma aposta com os meus colegas da rua Silva Jardim. Apostei que entraria no matinê com uma galinha e que o Aurélio não veria. Não só entrei com a galinha dentro do casacão (chamado de "sobretudo" na época) como fiz uma barbaridade. Fui sentar na primeira fila de cadeiras do mezanino (a parte superior da sala de exibição). E na hora mais romântica do filme, quando o mocinho pedia a mão da moça em casamento, eu atirei a galinha lá de cima. A coitada voou como podia e foi se estatelar na cabeça da piazada lá embaixo. O Aurélio interrompeu a sessão, no meio da algazarra da gurizada. Acenderam-se as luzes. E furioso ele foi ao mezanino. E queria saber quem tinha jogado o galináceo. Ninguém me acusou. E eu fiquei gelado de medo.

Mas ganhei a aposta : meia dúzia de Cyrillinhas, o refrigerante mais famoso da época, fabricado em Santa Maria mesmo.

Maconha, cocaína, rachas de automóveis, motos numa só roda, roleta russa, agressão a professores, brigas de gangues juvenis, pichações...Ao ler nos jornais sobre as "brincadeiras" da gurizada de hoje, fico estarrecido.

Perto dessa turma de hoje eu era um santo !

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AUTOR : James Pizarro

8 comentários:

JAMES PIZARRO disse...

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From: Ricardo ricardo
Sent: Sunday, August 15, 2010 4:30 PM
To: jamespizarro@hotmail.com
Subject: RE: "UM MENINO PERPLEXO DIANTE DOS PENICOS DE PERNA" - JAMES PIZARRO



Parabéns Professor Pizarro por ter escrito um texto tão bonito. Tão comovente. Tão familiar. De fato, os nossos avós eram homens íntegros. Homens de bem e motivo de orgulho para a família. Quanto as perguntas que não nos animamos a fazer, por respeito, o tempo se encarregou de esclarecer, na medida do possível.
Abraços,
Ricardo.

JAMES PIZARRO disse...

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From: Ceura Fernandes
Sent: Sunday, August 15, 2010 4:44 PM
To: jamespizarro@hotmail.com
Subject: Re: "UM MENINO PERPLEXO DIANTE DOS PENICOS DE PERNA" - JAMES PIZARRO


James, gostei muito do que escreveste. Aliás, geralmente gosto do que escreves. E tens uma memória invejável.

leonardo batistella disse...

Mas que história esclarecedora e acima de tudo rememorante. Ela mostra a importância da família e do trabalho, transportando-nos a uma Santa Maria plena, épica e viva, não que hoje ela não seja.
Não sei se acredito em reencarnação, mas ao escutar algo daquele tempo me da uma saudade como se tivesse vivido toda esta época aurea.
Sem mais devaneios parabéns pelo avô, pois não fosse ele tu não estaria aqui pra contar essa história. Grande abraço.

JAMES PIZARRO disse...

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From: Ludwig Larré
Sent: Monday, August 16, 2010 12:45 AM
To: jamespizarro@hotmail.com
Subject: RE: "UM MENINO PERPLEXO DIANTE DOS PENICOS DE PERNA" - JAMES PIZARRO


Texto emocionante, professor!
Obrigado! Abraço!

JAMES PIZARRO disse...

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From: Glenio Braga de Moraes
Sent: Monday, August 16, 2010 7:11 AM
To: jamespizarro@hotmail.com
Subject: RE: "UM MENINO PERPLEXO DIANTE DOS PENICOS DE PERNA" - JAMES PIZARRO


Excelente Mestre !!!!!!

abs GLENIO

JAMES PIZARRO disse...

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From: "Erony Paniz"
Sent: Monday, August 16, 2010 9:44 PM
To:
Subject: Re: "UM MENINO PERPLEXO DIANTE DOS PENICOS DE PERNA" - JAMES PIZARRO

> james!!!
> Saude!!!
> Que aula!!! meu professor!!! gostaria que muita mas muita
> gente conseguisse ler esta preciosidade, vo u , com tua licenca
> levar para a Zaira, para que mande publicar . james , isto è
> historia que,um velho como eu presenciou ,e participou!!!
> Pois como gerente da falecida Caixa Economiica Estadual ,
> pagava os ferrinhos(no bom sentido) no posto dentro da
> Cooperativa. Que tempo bom!!!
> quantas lembrancas!!!
> Parabens!!! Um grande e fraternal abraco do
Paniz

JAMES PIZARRO disse...

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From: Gaspar Miotto
Sent: Monday, August 16, 2010 10:08 PM
To: jamespizarro@hotmail.com
Subject: Re: Memorialística da cidade/MANECO etc...- PIZARRO


James
O fruto precioso de tua memória não pode se perder. Por isso vamos estudar uma forma de publicar no jornal A Razão, para que a cidade conheça um pouco mais de sua história. Vista da posição privilegiada de quem viveu e conheceu estes nossos personagens. Vou falar com o editor José Mauro e volto a falar contigo.
Continue escrevendo. Abraços também para a Vera, meus e da Ceura
Gaspar

JAMES PIZARRO disse...

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From: emilia aita
Sent: Friday, September 10, 2010 12:26 PM
To: James Pizarro
Cc: Glenio Braga de Moraes
Subject: Enc: Re: Tem gente que não acredita


Professor Pizarro,

O texto abaixo para cima, inicia numa manifestação do meu filho dirigida a familiares e seus ex-colegas da Esag (UDESC), passa pela resposta de um determinado jovem e termina na minha réplica.

Isso aconteceu depois que tive o prazer de receber uma crônica da sua autoria, a qual tão bem escrita relatou parte da história da Rede Ferroviária nos seus áureos tempos, especialmente a indigesta intimidação do sindicato com relação ao seu pai em chamar-lhe de "cordeiro". É o passado que nos volta. Nossos pais. Nossa Santa Maria, com a Rede Ferroviária, a Avenida Rio Banco e o Posto Esso Central.

Nesses últimos tempos, diversos fatos me deixam de cabelo em pé. Com base nos seus e.mails, creio que ao senhor também. Se pararmos para refletir, a resposta do jovem pode traduzir o entendimento de tantos outros que nasceram a partir da década de 80. Se isso for verdadeiro, penso que o futuro não será nada animador...

Um abraço,
Emilia