sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"MANECO", EM CUJAS PAREDES CORRE MEU SANGUE...

Quando a Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, fundada em 1913, era considerada a maior cooperativa da América Latina, os ferroviários - carinhosamente chamados de "ferrinhos" - resolveram destinar 50 % dos lucros líquidos para obras referidas ao ensino, chamado à época de "Instrução" (o escritor e historiador João Belém pormenoriza dados em seu livro sobre a história do município de Santa Maria e fala sobre esta decisão dos ferroviários). Assim é que, já no seu quarto ano de funcionamento (1917), a Cooperativa decidiu fundar um colégio profissionalizante, que somente veio a ser inaugurado em em 1/maio/1922 : Escola de Artes e Ofícios. A escola possuía seções profissionalizantes para diversos tipos de ofícios , tais como mecânica, eletricidade, modelagem e funilaria, fundição, ferraria e tornearia mecânica. Funcionou em suntuoso prédio, ainda hoje existente, situado na avenida Rio Branco esquina com a rua dos Andradas, onde funcionaram, respectivamente, ao longo dos anos : Instituto Mariano da Rocha,Instituto Riachuelo, farmácia, papelaria e um bingo. Atualmente, abriga o Supermercado Carrefour, que remodelou o prédio mas conservou a fachada.

Mas era preciso também construir um colégio modelar, do tipo internato feminino. O colégio era destinado às filhas dos ferroviários de todo o Rio Grande do Sul. Ali elas poderiam estudar as disciplinas convencionais do Ensino Fundamental e Ensino Médio (naqueles tempos,chamados de Curso Complementar e Curso Suplementar), e também desenvolver habilidades caseiras, tais como corte e costura, bordado, música, desenho, pintura, trabalhos domésticos, etc...

Assim é que, demonstrando a força coletiva que a classe ferroviária possuía naqueles saudosos tempos, foi fundado o Colégio Santa Terezinha, entregue às freiras para que as mesmas o dirigissem. Meninas de todos os recantos do RS vieram para Santa Maria fazer seus estudos.
O prédio do Colégio Santa Terezinha é o prédio onde atualmente, devidamente reformado, funciona o Colégio Estadual Manoel Ribas. O nome foi dado em homenagem a Manoel Ribas, vulgo "Maneco Facão", que foi Governador (leia-se "Interventor") do Estado do Paraná durante todo o período da ditadura de Getúlio Vargas. Antes, Manoel Ribas havia ocupado o cargo de Intendente de Santa Maria, tendo assumido os destinos do município em 3 de outubro de 1928.
(NOTA : em Curitiba,onde residi, ao lado do "Passeio Público", tradicional área de lazer daquela cidade, funciona uma respeitável escola estadual parananese,também chamada Escola Estadual Manoel Ribas).

Causou espanto à população santa-mariense da época o gigantismo das instalações daquela escola. Depois de extinto o Colégio Santa Terezinha, naquele mesmo prédio foi criado o Grupo Escolar João Belém, que ali ficou até ser transferido para pavilhões de madeira construídos nas proximidades e, anos depois, definitivamente transferido para amplo prédio de alvenaria onde até hoje se encontra, entre as ruas Comissário Justo e José do Patrocínio.

Depois da transferência do João Belém para as novas instalações, fundou-se o Colégio Estadual Manoel Ribas, em 10 de outubro de 1953, até hoje popularmente chamado de "Maneco". Era tal a qualidade de ensino do novo colégio, que o mesmo passou a ser conhecido, em todo o território gaúcho, pelo título de "Colégio Padrão do RS" (inscrição que se era exibido nos papéis oficiais da escola).

Minha vida está indelevelmente ligada àquele prédio, pois minha mãe, Maria Silveira Pizarro, sempre chamada de "Dona Iria", foi aluna do Colégio Santa Terezinha onde, inclusive, iniciou-se no aprendizado do violino.
Entre o prédio e o muro externo do Maneco, fronteiro com a rua José do Patrocínio, em frente ao Curso Santa Clara, existe um pequeno obelisco de um metro de altura, sem placa e sem inscrição de espécie alguma, o que sempre me despertou curiosidade. Um dia dia, minha avó materna, Olina Correa da Luz, deu-me a explicação. Uma freira estava limpando a parte externa das vidraças do segundo andar e, desequilibrando-se, caiu de uma altura aproximada de 15 metros, vindo a falecer. O obelisco foi construído "in memoriam" exatamente sobre o local onde ficou, inerte, o corpo da infeliz religiosa.

Guri curioso, precoce mesmo em relação a esses assuntos dos mais velhos, surpreendi-me muitas vezes - na hora do recreio - com o nariz esborrachado nas vidraças das janelas das salas de aula a contemplar o obelisco. Lembro que, ao entardecer dos dias nublados, eu olhava rapidamente o obelisco e tratava de sair da janela. Eu sentia apreensão, medo mesmo. Pois, na minha fervilhante e fantasiosa cabeça de guri recém entrado na puberdade, parecia que - a qualquer momento - eu ía enxergar aquela freira voando em minha direção. Sorrindo para mim. Ou me acenando ternamente.
Aquele singelo monumento, até hoje anônimo para todos que ali passam, ainda está lá, já apresentando as marcas inexoráveis do tempo, este consumidor implacável de corpos, vaidades, pedras, juventude e lembranças. Nunca consegui descobrir o nome da freirinha...Seria Petúnia ? Margarida ? Rosa ? Hortência ? Não sei bem o porquê, mas sempre desconfiei que ela deveria ter nome de flor. Afinal, só uma flor pode ser levada pelo vento. Com suas pétalas necropsiadas durante a queda. Só uma flor tem o poder mágico de se imiscuir nos meandros da alma de um adolescente. E lá, no recôndito de sua memória, permanecer incólume. Até que sua cabeça se povoe de cabelos brancos. Sua testa seja vincada pelas rugas. E ele resolva contar, quase septuagenário, essas lembranças...
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AUTOR : James Pizarro

3 comentários:

mariadesouzacezar disse...

Muito obrigada professor pela excelente descrição de um passado que só na memória de homens como tu poderiam vir hoje à tona de forma tão gostosa e quase visível...senti-me na minha meninice e tendo a mesma curiosidade que tinhas de olhar ,esgueirando-se pela janela, com medo do fantasma da tal " freirinha", que decidi chamar de Petúnia aproveitando uma de tuas sugestões.Tantas vezes já estive lá a trabalho mas nunca percebi o tal monumento....mas da próxima vez, vou me encher de coragem e pedir ao "Tarcísio Ceolin" para ver de perto o obelísco da freirinha voadora( que certamente não foi a Noviça Rebelde)mas que voou para o chão, como muito bem descreves...como uma pétala ao ve nto. Por vezes fico a pensar meu caro mestre, se teremos no futuro algum de nossos jovens com esta bagagem rica para contar e se tiverem, se poderão descrevê-las de forma tão clara sem que para isso tenham que ter um "chip" implantado em seus cérebros...Deus queira!

JAMES PIZARRO disse...

Estou reescrevendo coisas, algumas ligadas à Santa Maria (embora esteja longe dela), uma vez que os "figurões" e os "imortais" da city não o fazem...rs. Como sou mero anônimo mortal fico com esta tarefa tão minúscula. O futuro, através dos filhos, netos, bisnetos, ex-alunos, dirão quem fez melhor e mais proveitosa tarefa. Se investir no narcisismo e passar anos e anos olhando para o próprio umbigo...ou se colocar sua mão e memória a serviço dos outros. Obrigado pela generosidade de me ler e pelo incentivo.
Beijo

James Pizarro

mariadesouzacezar disse...

Minúscula professor? Minúsculos são os tais "umbigos" dos "figurões e "imortais"...imortais? Quero vê-los imortalizados, se são assim tão bons, é na memória do povo pois estes,posam de burros mas sabem direitinho separar o jôio do trigo, tenhas esta certeza!Um excelente fim de semana neste paraíso em que vives.Se existe inveja boa,eu tenho de ti pela GRANDE decisão de teres ido morar longe dos " umbigos " imaculados e dos "figurões" embevecidos pela baba de alguns.