quarta-feira, 16 de junho de 2010

SAÚDE MENTAL - Rubem Alves

Eu sei que os modelos de comportamento em nossa sociedade são calcados naqueles que chegaram ao poder, detém capital, possuem muitos bens...mas sei que estes tipos são malucos, doentes, engravatados e pseudocertinhos. Que esqueceram de ousar novos sonhos e comportamentos. Detesto essa gente e não quero seguir seus passos. Embora isso tenha me custado muito (e ainda me custe) em termos de incompreensão. Posso ter virado um tipo maldito ou ter sido satanizado por essa gente. Mas não abro mão dos meus sonhos de viver uma vida despojada, livre de todas as convenções. Jamais fiz carreira para ser um prudente bombeiro. Apostei em ser um jovem incendiário de 69 anos. Contesto modelos prontos e mal cheirosos. E sou feliz assim, liberto enfim. Só por isso transcrevi abaixo este texto do Rubem Alves. (JAMES PIZARRO, 16 de junho de 2010)
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OBS - Clique com o botão esquerdo em cima da palavra "saúde" para ver em tela inteira esta preciosidade do Rubem Alves ou, se preferir, leia o texto integral que transcrevi abaixo do vídeo.

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde
mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só
parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada
sabia. Eu me explico:
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas
que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e
obras são alimento para a minha alma. Nietzsche,
Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski.
E logo me assustei.
Nietzsche ficou louco.
Fernando Pessoa era dado à bebida.
Van Gogh matou-se.
Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em
breve: não suportava mais viver com tanta angústia.
Cecília Meireles sofria de uma suave depressão
crônica.
Maiakoviski suicidou-se.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão
a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será
que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição
em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao
comando do dever, todas as coisas nos seus lugares,
como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo
inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num
barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter
um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a
coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa...
Não, saúde mental elas não tinham... Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os
loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.

Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos
testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa.
Por outro lado, nunca ouvir falar de político que
tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e
certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer
pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos
com computadores. O funcionamento dos computadores,
como todo mundo sabe,
requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se
hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra
denomina-se software, "equipamento macio". Hardware é constituído por todas as coisas sólidas
com que o aparelho é feito. O software é constituído
por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e são gravados nos
disquetes. Nós também temos um hardware e um
software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso.
O software é constituído por uma série de programas
que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são
símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo
"espirituais", sendo que o
programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no
hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar
psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções
químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software,
entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se
conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos, podem entrar dentro dele.

Assim, para se lidar com o software há que se fazer
uso dos símbolos eles podem vir de poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, pastores,
amigos e até mesmo psicanalistas... Acontece,
entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos
outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas
que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e
choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o
corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos
e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover.
Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware
não a comporta e se arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que
citei no princípio: A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não
suportou... Dados esses pressupostos teóricos, estamos
agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca,
"saúde mental" até o fim dos seus dias. Opte por um
software modesto. Evite
as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para
o hardware. Cuidado com a música... Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar.
Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada
em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como
eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com
nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software
pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu
Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida
tranqüila, embora banal.
Mas como você cultivou a insensibilidade, você não
perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se
aposentará para, então, realizar os seus sonhos.
Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram...
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AUTOR : Rubem Alves

3 comentários:

Paola Soares disse...

Na maioria das vezes, noto que meu "software" comanda meu "hardware", uns acham errado, mas seria bobagem viver sem "sentir". Ainda que a sensibilidade nos deixe por vezes na "corda-bamba", nos faça chorar e até pifar nosso "hardware", sempre optarei por ela.
Nossos dias valem a pena pelo o que sentimos.

Beijos.

p.s: Pedido atendido né Pizarro. Thanks!!

Michèle Sato disse...

olá james, gostei do seu blog. mas gostei mais ainda de sua irreverência. recebi sua msg por uma amiga, morri de rir na biografia!

criação e inovação é teu forte - vá em frente!

beijo da outra mamífera
heheh
*

James Pizarro disse...

Michele, fraterna :

Obrigado pela generosidade do teu comentário.
Isso só aumenta minha responsabilidade CU...ltural .....rsssssssss
Beijão
e volte sempre !

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