quinta-feira, 23 de abril de 2015

UM CARDEAL MÁGICO - James PIZARRO

http://www.arazao.com.br/colunistas/james-pizarro/1605/um-cardeal-magico/
*************************************************************


COLUNISTAS

Um cardeal mágico



James Pizarro

por James Pizarro em 23/04/2015
Compartilhar:
Mais opções
Todo fim-de-ano lá ia eu com minha família - pelo trem da “Serra” - curtir férias escolares na cidade de Getúlio Vargas, situada depois de Carazinho e antes de Marcelino Ramos, na fronteira com Santa Catarina. Íamos no vagão-leito, composto de duas camas beliche, o máximo em conforto para a época. Naquele aprazível lugar, de terra vermelha e barrenta, passei por muitos anos as minhas férias. E minha estada era no próprio recinto da gare da estação ferroviária, onde residia meu tio, conhecido por Tio Cassal.
Décadas depois voltei ao local
Lá estava eu a visitar as velhas instalações da ferrovia (ainda são as mesmas). A velha casa onde morava meu tio, pintada de marrom, onde eu passava as minhas férias na infância. Apenas dois funcionários na gare da estação que, na ausência de trens de passageiros, estão ali apenas para a fiscalização dos trens carregados de soja que dali partem em direção à cidade de Rio Grande.
No pátio da antiga e abandonada casa, pude ver o poço - de onde tirávamos cristalina e pura água gelada - atulhado e transformado numa espécie de floreira. Um velho pé de plátano, com o tronco cheio de buracos e condenado à morte, completava o desolador quadro de abandono daquele pátio que foi tão importante nas minhas férias de guri. Ao lado daquele pé de plátano ficava uma gaiola, com o bicho de estimação de meu tio : um gracioso e canoro cardeal. A gaiola ficava com a porta permanentemente aberta. O cardeal comia nas mãos de meu tio, ao amanhecer. E depois, voava para longe, passando o dia fora. Lá pelas 18h, servindo chimarrão para meu tio, ouvia ele dizer : “Vamos para o pátio que tá na hora do cardeal voltar”. Inacreditável! O bichinho aparecia.
E como por encanto, pousava no dedo indicador do meu tio, que o colocava na gaiola. Onde já estavam um pedacinho de banana mole, uma gema de ovo e alpiste com semente de girassol. Décadas depois, contei isso numa aula de Ecologia. Enquanto me virei para apagar o quadro-negro, tive o dissabor de ouvir este comentário de um aluno da primeira fila : “Que baita atochada ! Quer dizer: passei por mentiroso simplesmente porque estava contando...a verdade!
Não se fazem mais alunos como antigamente. Que ainda tinham a perspectiva encantadora do mistério. Como também não se fazem mais tios inveteradamente encantadores. Nem tão pouco se fazem cardeais encantados com a liberdade, embora apaixonados por seu dono. Por que esses adoráveis tios têm de morrer ?
Por que esses mágicos cardeais são condenados à extinção? Por que a gente tem de caminhar rumo a uma antiga e pungente estação, chamada Solidão, que precede nossa chegada à estação definitiva, chamada Morte?


James Pizarro

James Pizarro

Professor aposentado da UFSM e ambientalista

Um comentário:

Loreci Demeneghi disse...

Que belas lembranças!