sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

UM SONHO QUE APODRECEU


Era início da década de 60. E ele participava de todas as palestras sobre socialismo. Ouvia tudo sobre socialismo. Sempre na primeira fila, absorvia tudo.
Estava presente nas mostras de filmes alternativos sobre política.
Ajudou a carregar a mala do Padre Alípio, padre nordestino " subversivo", quando ele esteve em Santa Maria,RS, para fazer palestras sobre as "Ligas Camponesas" (uma espécie de "Movimento Sem Terra" dos anos 60, mais organizado e menos parasitário, pois eles continuavam trabalhando duro na terra).
Não perdeu um só filme da Semana do Filme Polonês, no famoso Cine-Teatro Imperial, rua Dr. Bozano, hoje transformado em loja de calçados.
Encomendava livros de teoria política para o Seu Bráulio, na Livraria do Globo.
Sabia todos os detalhes da revolução russa de 1917.
Foi quando casou e teve de trabalhar de verdade, em mais de um emprego. Enquanto seus amigos continuavam teorizando nos bares. Alguns ainda continuam nos bares. Cirróticos e solteirões.
Veio a revolução de março de 64. E os seus grandes líderes políticos fugiram para o exterior.
Ele ficou estático quando viu ruir a URSS. A decadência do sonho igualitário.
Com espanto, custou a se dar conta que o ciclo do comunismo - iniciado em 1917 - tinha terminado, quase cem anos depois, com a queda do muro de Berlim.
Nunca mais viu filmes políticos.
Nunca mais viu seus ex-amigos, hoje todos figuras importantes da República Lulista.
Quase todos ricos. Empresários. Assessores. Deputados. Ministros.
Alguns envolvidos em escândalos financeiros que,na mocidade, tanto combatiam.
Hoje, ele gosta muito de ouvir antigas músicas no seu computador.
Tarde chuvosa de sexta-feira outonal. Sombria. Em pé, à janela, olhando para as nuvens negras.
Um dos seus netos perguntou que música era aquela que tocava. Uma espécie de marcha solene. Com coral de centenas de vozes.
Ele respondeu secamente, disfarçando a voz embargada :
- É a Internacional Socialista.
O neto se contentou com a resposta. E saiu da sala.
Não viu as lágrimas que escorriam pelo rosto alquebrado do avô.
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AUTOR : James Pizarro

4 comentários:

Bannanass disse...

Li esse seu texto e recordei da minha adolescência, na Era Collor. Embalados pelo que estudávamos na escola, pelos escândalos políticos e pela minissérie Anos Rebeldes, eu e vários colegas entramos na política estudantil.

Lembro que meu sonho não durou mais que um ano. As rapinagens e pilantrangens, que infelizmente, fazem parte da vida política, já se manifestavam na raiz da geração cara pintada. Muitas das pessoas que conheci naquela época estão na política até hoje. O desencanto aumenta. E é tão triste.

Mas a gente tenta, né? Segue votando, sonhando. Tenta dividir com as pessoas ideais de um futuro no qual a educação é valorizada e as desigualdades, diminuídas. Um dia, quem sabe, acontece...

Um beijo, professor!

Beth/Lilás disse...

Caro James!

Seu relato emociona, principalmente porque penso no meu marido que já está perto da aposentadoria e teme o que será. Por ele, iríamos para um lugar assim, eu até fico tentada, mas não sou muito chegada a mar e areia e temperatura quente, porém do ponto de vista de que a liberdade e vitalidade são essenciais para esta fase da vida, compreendo que a vida perto do mar é bem mais sadia. Li pra ele e ele ficou se coçando. kkkkkk

Parabéns pela escolha mútua e feliz!
Curta bastante seu paraíso e um grande abraço carioca.

doalegrete disse...

CARO JAMES
AO LER ESTA CRÔNICA, MUITO ME PASSOU PELA CABEÇA QUANDO LUTAVAMOS POR MELHORES CONDIÇÕES PARA OS PROFESSORES DA UFSM...NOSSAS REIVINDICAÇÕES QUE SE TRANSFORMAVAM EM GREVES...GREVES QUE DURAVAM MUITO E QUE DAVAMOS MUITO DE NÓS EM PRÓL DA "CAUSA"...E HOJE, DESACREDITANDO NOS POLÍTICOS, RELEMBRO QUE HÁ POUCO FOI FALADA NA "REPÚBLICA DE SANTA MARIA"...CUJOS "ESPERTOS" SOUBERAM APROVEITAR A OCASIÃO...E NÓS, FICAMOS COMO BOBOS DA CORTE E QUE NEM EM TUA CRÔNICA, VEMOS ROLAR LÁGRIMAS DE NOSSOS OLHOS QUANDO SENTIMOS QUE SERVIMOS APENAS DE MASSA DE MANOBRA PARA QUE OS ESPERTOS ALCANSASSEM SEUS OBJETIVOS.

aminhapele disse...

Há mais de 30 anos que larguei o símbolo.
Parece-me é que tudo piorou.
Floresceram outros muros e outros burocratas.
Desapareceu a utopia que nos iluminava.
Continuo orgulhoso do meu passado e dos meus combates,mesmo da minha prisão.
Ainda hoje,aqui em casa,quando ouvimos a Internacional,ficamos com os olhos húmidos.
Curiosamente,ganhámos o hábito(em família e entre amigos) de nos dias de aniversário,cantar os "Parabens a você" com a música da Internacional.
Um abraço.