quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

COLUNISTAS

Gratidão

James Pizarro
por James Pizarro em 19/11/2015
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Vi barragem rebentando e sufocando pulmões e rios com lama.
Ouvi metralhadoras cantando seu ódio e esparramando cérebros e tripas.
Mas também vi maçãs maduras caindo do pé.
E um sol que se levanta. E senti cheiros antigos.
E revi faces amigas. E lembrei de rostos mortos.
E aprendi a dizer não. E aprendi a dizer sim.
E salvei náufragos. E eu mesmo - por milagre - cheguei à praia.
E escutei discussões sem delas participar.
E ouvi queixas. E fiz queixas. E se queixaram de mim.
Fiz um poema. Foi uma semana violenta.
E ergui paredes. E fixei quadros de crianças.
E sonhei com mulheres adormecidas.
Fui segunda-feira.
E me transformei em sábado também.
E consegui ser domingo. Apesar da lama da barragem. E do terror de Paris.
Busquei – e alcancei - o Norte.
E busquei o leste.
E fugi para o Oeste.
E não pressenti o sul.
Como por milagre passei por tardes loiras.
E conheci o amor.
E acompanhei cardumes. E me perdi com eles.
E achei um cavalo-marinho. E recolhi conchas.
E me transformei em faca. E anzol. E rede.
Uma sereia falou comigo na praia de Canasvieiras.
E gaivotas drogadas voavam por sobre meus cabelos.
E estive em terras longínquas vendo a insanidade no deserto da Síria.
E ouvi metralhadoras e sangue jorrando ao som do rock em Paris.
E a dor da revolta perplexa queimou minha pele de pecador.
E toquei tambores de guerra.
Mas orei forte em nome de Jesus e minha alma fumou o cachimbo da paz.
E então andei por estepes. E descampados verdes. E desci ao fundo das minas.
E naveguei por mansos canais azuis. E regressei à minha realidade.
E eis aqui – aos 73 anos – saudável. Sentado ao entardecer olhando as ondas.
Pensando nos meus filhos, netos e minha mulher.
Entro em comunhão com a Energia do Universo. Com o caudal da Vida.
E me entrego totalmente nas mãos de Deus. Recebo muita generosidade Dele.
E quero agradecer por isso PUBLICAMENTE!
Enquanto tenho tempo.
James Pizarro

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