sábado, 15 de outubro de 2016

A PRIMEIRA AULA NINGUÉM ESQUECE - JAMES PIZARRO

Sou do tempo em que o então chamado Grupo Escolar João Belém funcionava no prédio onde hoje está o MANECO, em Santa Maria, RS. E ali fui matriculado -com 6 anos de idade - no Jardim da Infância (pois não se cogitava falar em maternal, pré-maternal, etc...). 
Assim é que, nos primeiros dias do mês de março de 1948, comecei a estudar. Agarrado à mão de minha mãe, fui levado e entregue na penúltima porta do corredor do primeiro andar à mestra Luiza Leitão, uma professora negra, de cabelos brancos, que foi minha primeira professora e da qual guardo enternecedora lembrança. Ela me recebeu carinhosamente. O que fez dissipar-se do meu assustado espírito qualquer resquício de medo. Muito embora eu tenha sentido um inesquecível aperto no peito quando vi minha mãe me abanar e desaparecer pelo corredor.
É incrível, mas lembro detalhadamente desse primeiro dia de aula ! Sentei-me numa mesinha, junto com duas meninas e um menino, de nome Cleómenes, que era muito chato e usava óculos. Inexplicavelmente, não guardei o nome das duas meninas, que eram simpáticas e puxavam conversa. A professora Luiza Leitão bateu palmas, pediu silêncio. E colocou no aparelho de som (que era chamado de "vitrola") um enorme disco de vinil. Daquele disco, como num passe de mágica, brotou a emocionante novela intitulada "As Aventuras do Coelhinho Joca", a primeira história infantil gravada que ouvi em minha vida. Eu gostei tanto que, meses depois, quando ganhei meu primeiro cachorro de presente, um fox preto e branco, tratei de batisá-lo de "Joca"...
Corria o ano de 1948, ano em que o Botafogo foi campeão carioca. O time alvinegro entrava em campo com sua mascote "Biriba", uma cadela também fox preta e branca...
A diretora do Grupo Escolar João Belém se chamava Edy Maia Bertóia, casada com um senhor careca, funcionário da Cooperativa dos Ferroviários. Moravam à rua Silva Jardim, quase na esquina com a Comissário Justo. A Dona Edy era mãe do Dr. Ararê Bertóia, médico em Santa Maria e de Soila Bertóia, residente em São Paulo. Parece mentira...a Dona Edy ficou minha grande amiga por mais de 45 anos ! E hoje, falecida, virou nome de escola municipal, numa justa homenagem.
Num relance, passaram-se 66 anos desde a minha primeira aula, pois estou hoje com 72 anos. Lembro detalhadamente de tudo. Desde a disposição dos móveis na sala. Dos quadros. Dos rostos. Dos sons. Do sino batendo para o meu primeiro recreio. Da primeira merenda. À noite, custei muito a dormir. Pois recapitulava mentalmente tudo o que me havia acontecido naquele dia memorável.
A professora Luiza Leitão, e depois a professora Léa Balthar, foram as duas responsáveis pela minha alfabetização.
A outra diretora do João Belém, que substituiu a professora Edy Maia Bertóia, foi a Professora Heleda Diquel Siqueira. Que também foi minha professora de Trabalhos Manuais. Dona Heleda era exímia jogadora de bolão. Viajava muito pelo RS disputando campeonatos femininos de bolão. Faleceu recentemente.
Nas datas importantes - principalmente nas datas cívicas - aconteciam no João Belém as chamadas "audições". O que era isso ? Todo o corpo docente e discente era reunido no salão de festas da escola. E havia apresentação de números artísticos : danças, corais, declamação de poesias, números musicais, mágicas, bandas, etc... Tudo isso era precedido pela fala do locutor. Que lia uma sinopse do número que ía ser apresentado.
Devido ao desembaraço, desenvoltura ou "cara-de-pau" - seja lá que nome tenha isso - sempre fui escolhido para ser o locutor das "audições". O que me conferia um certo "status" com os professores. Simpatia com as meninas. E ciume dos colegas.
Dou-me conta, agora, do óbvio : a influência que tais experiências da meninice podem ter na formação da nossa personalidade. E até nas nossas escolhas profissionais de adulto. Entre meus 45 e 50 anos fui radioator de historinhas infantis levadas ao ar pelo programa infantil apresentado pela radialista Maria Helena Martins : Programa "Era Uma Vez..." O programa ía ao ar todos os domingos, às 18:00h, pela Rádio Universidade de Santa Maria. A novela, apresentada em capítulos dominicais, chamava-se "Histórias do Sapinho Hortêncio". Eram escritas por João Teixeira Porto, militar reformado, funcionário da UFSM e ator amador da Escola de Teatro "Leopoldo Froes".
Fui sarcasticamente criticado por alguns poucos colegas de docência da UFSM pois, para eles, um mestre universitário andar fazendo papel de um sapo em novelas de rádio "não se coadunava com a importância da cátedra". Nunca dei importância para as críticas e gozações desses sabichões que, mesmo pilotando seus títulos de mestrado e doutorado, não conseguiam dar aula sem as famigeradas fichinhas de anotações amarelecidas pelo tempo, sem as quais não conseguiam enfrentar as numerosas turmas de alunos. Um deles, chegou mesmo a dizer que eu só poderia fazer papel de sapo, numa clara alusão à minha obesidade...Nunca me ofendi, porque sou gordo mesmo. Muitas palestras fiz nas escolas da cidade para alunos do jardim da infância e do pré-primário. Mas fi-las, não como Prof. Pizarro, mas como Sapinho Hortêncio, este sim conhecido da piazada.
Esta atividade como Sapinho Hortêncio sempre me foi muito encantadora, porque ele foi importante veículo de educação ecológica para a infância da minha cidade. 
Na raiz dessa minha atividade não estará, lá bem no fundo, a saudosa professora Luiza Leitão com as "Histórias do Coelhinho Joca" ? E meus programas de rádio ecológico pela Rádio Universidade ? E meus comentários diários na Rádio Imembui, nos programas do Vicente Paulo Bisogno e Pedro Feire Junior ? E meus voluntariosos pronunciamentos na Câmara de Vereadores quando lá estive de 1989 a 1992 ? E as dezenas de conferências em mais de 200 cidades gaúchas ao longo de quase 40 anos ? E as 10 horas de aula diárias nos cursinhos pré-vestibulares e na UFSM ?
Na raíz de todas essas atividades ligadas ao uso público da palavra, da oratória como meio de vida, bem lá no cerne dessas atividades de adulto...não estará a figura franzina daquele meninote que era o locutor das "audições" do Grupo Escolar João Belém ?
Que mistério ! Que estranho fermento a Vida e o Destino semeiam na sensibilidade da gente! E ao longo do tempo aquilo vai se metamorfoseando em pão. Amassado com o sangue da vocação. O suor da transpiração. E a lágrima da inspiração. Que mistério ! A ninguém é lícito deixar de colaborar na construção do mundo. Seja pescando crustáceos e peixes na orla marítima, para alimentar estômagos famintos. Seja pescando almas solitárias, melancólicas, com a isca fascinante da palavra. Não para dar-lhes pão, feito de trigo ou centeio. Mas o pão divino do amor e da fraternidade. Disfarçado pela oratória sensível do teatro. Do discurso. Do programa de rádio. Da aula bem dada. Todas elas, atividades movidas pela paixão. Quem não entender a paixão e o milagre da palavra, o seu amplo poder, perdeu o dom do mistério.
Esse mistério foi inoculado em meu espírito pela paixão de meus professores do João Belém e do Maneco.
E por isso jamais me esquecerei deles.

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