segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A SERPENTE NO MEIO DA GRAMA - James Pizarro

Poucas pessoas usam ou usaram o termo "caroável", que significa amável, afetiva, carinhosa.
Só conheço um texto onde aparece esta palavra.
É um poema chamado "Consoada". E seu autor é Manuel Bandeira.
É um texto que trata da morte. Vale a pena reproduzí-lo aqui :

"Consoada

Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar."

Lembrei imediatamente deste poema quando recebi telefonema de Santa Maria avisando que minha mãe está com febre, diarréia, abatida. Desanimada, aos 90 anos.
Espero que tudo evolua para melhor durante o dia de hoje. E que a noite, "com seus sortilégios", seja "caroável".
Já passei pela experiência de várias mortes familiares. Pai. Sogros. Avós. Tios. Sobrinhos.
Sei bem ouvir o farfalhar da serpente no meio da grama.
O ar abafado. O presságio. O pessimismo.
O sentimento é duma melancolia impotente.
Rogo a Deus que seja mais um engano.
Um aviso falso. Uma brincadeira da "indejável das gentes".
Mas meu coração se oprime.
E se enche de estupor.
E medo.

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